• Nenhum resultado encontrado

6 A FUNÇÃO MODALIZADORA DO ADJETIVO NA CONSTRUÇÃO

6.2 A Metáfora no estabelecimento da linguagem

A metáfora está presente na linguagem. A metáfora tem sido interpretada como um fenômeno abrangente que afeta não só a linguagem como também o próprio sistema de pensamento e a configuração do real.

A metáfora, que, num determinado momento, equivalia a uma qualificação da linguagem poética, tem o sentido atrelado ao dinamismo comunicativo, presente em todo ato da linguagem. De acordo com Vilela (2002), a metáfora refugiou-se mais na retórica do que na linguística.

A metáfora não é apenas nem sobretudo um produto da imaginação poética ou ornato retórico, assim como não é um simples uso extraordinário da língua ou algo apenas ligado a palavras, mas sim algo que é típico da língua e da sua estruturação.(VILELA, 2002, p.72)

A afirmação de Vilela aponta para a função discursiva da metáfora no estabelecimento do sentido. A metáfora está na língua. Ela não representa apenas uma ornamentação do texto, mas também a representação de conteúdos de diferentes formas. Quando o cronista utiliza a metáfora ausência densa em lugar da estrutura oracional desapareceu como se jamais tivesse existido, ele comunica um pouco mais do que o desaparecimento, aponta dois aspectos a serem elaborados: o sentimento que causou o desaparecimento da aluna da PUC e a possibilidade da ausência

presença. Essa conclusão se encontra confirmada na expressão vazio absurdo da morte.

Rodrigues, por meio de marcas como densa e vazio absurdo da morte, consegue compartilhar uma proposta que vai além do dito expresso pela metáfora. A metáfora é sugestiva porque conduz o leitor-interlocutor a ser parte responsável do discurso.

Veja-se o processo de elaboração direcionado por meio das metáforas, ora apontadas. Ao se deparar com a expressão ausência tão densa, o interlocutor, num primeiro contato, interpreta a expressão (processo de interpretação). É possível, nesse momento, perceber a intensificação por meio da metáfora tão densa, que é uma extensão da metáfora ausência, visto que uma metáfora sugere outras.

Discursivamente, pode-se afirmar que tão densa tem dupla função: tão funciona como intensificador do adjetivo densa, que, em si mesmo, já traz carga semântica de intensidade. Diríamos, pois, que temos, em tão densa, o sentido do adjetivo, no superlativo, construído a partir da sensação que densa sugere e da intensificação do modalizador tão.

Encontramos, em Valente (1999: 55), a seguinte afirmação: “ Aqui está a ideia básica da metáfora : o termo A é comparado ao termo B com base num elemento comum.” No corpus em estudo, evidencia-se que o enunciador usa a palavra ausência como forma congruente do processo expresso por “desapareceu”. Existem traços de semelhança entre o verbo desaparecer e o substantivo ausência que conduzem o enunciatário a um raciocínio preestabelecido pelo enunciador.

De acordo com Valente, é comum a seguinte distinção entre símile e metáfora:

“enquanto o símile é mais claro e compreensível, a metáfora é mais obscura e misteriosa.” (os grifos são meus)

A partir das considerações do autor sobre a figura e da aplicação dessas afirmações ao corpus, ora em análise, entendemos que o uso de metáforas é um potente recurso no estabelecimento da relação entre os participantes do discurso (interlocutores). Entendendo-se que o discurso é dinâmico e que pressupõe a participação dos seus personagens . Cabe-nos afirmar que Nelson Rodrigues (2007b), ao construir sintagmas como ausência tão densa, pretende informar ao leitor que o

desaparecimento da aluna da PUC foi um fato importante que desencadeou uma reação. Isso se pode constatar em sintagmas como ausência tão densa, obsessiva, inapelável e vazio absurdo da morte, nos quais Rodrigues apela para o mundo das sensações. Nas expressões organizadas, o cronista “coloca” no adjetivo a função de desfazer a abstração impressa pelo substantivo que exerce a função de núcleo do sintagma nominal.

Vejamos o efeito discursivo do adjetivo densa, na expressão ausência tão densa.

Há garotas que somem e ninguém nota, ninguém percebe. Outras ausências chegam a doer fisicamente. O exemplo que me ocorre é a do morto. O morto seria um ausente como outro qualquer, se não fosse, repito, uma ausência tão densa, obsessiva, inapelável. Eis o que eu queria dizer: — a aluna da PUC deixou por toda a parte o vazio absurdo da morte. Ou pior: — desapareceu como se jamais tivesse existido. (RODRIGUES, 2007b, p.218)

Rodrigues estabelece comparações. Usa o princípio da reutilização, para sugerir ao leitor que há diferentes tipos de ausência. Para o cronista, há ausências que não são notadas e outras ausências que trazem sensações como a dor física. Para transmitir ao interlocutor a relevância da ausência da personagem principal, o autor apela para o mundo da sensação.

Ainda que nossa proposta inicial seja a análise discursiva do adjetivo na construção de metáforas, cabe observar a seleção dos verbos notar e perceber, no primeiro período do trecho destacado. Rodrigues inicia o parágrafo, partindo do sentido geral para chegar ao específico (raciocínio dedutivo). Os verbos perceber e notar expressam sensações que o locutor pretende compartilhar com o interlocutor. Veja-se o valor discursivo da coordenação dos adjetivos no entendimento da metáfora ausência, já que ausência, no contexto, significa desaparecimento. Rodrigues pretende sugerir ao interlocutor que ausência é também presença. Nega inicialmente, para depois afirmar, como se pode constatar em “Há garotas que somem e ninguém nota, ninguém percebe. Outras ausências chegam a doer fisicamente.”

De acordo com Garcia, pensamento e expressão são interdependentes. Para o autor, “As próprias impressões colhidas em contato com o mundo físico, através da experiência sensível, são tanto mais vivas quanto mais capazes de serem traduzidas

em palavras — e sem impressões vivas não haverá expressão eficaz.” ( GARCIA:

2002:173)

Na crônica, em estudo, cabe concluir, pela apresentação de expressões como ausência tão densa, que o processo representado por desaparecer não comporta o mesmo sentido do representado por ausência, uma vez que Rodrigues “enxerta”, no termo abstrato ausência, impressões sensoriais para reforçar a ideia de intensidade.

Ademais, duas palavras não significam um mesmo objeto. Desaparecer e ausência são, no contexto, formas complementares. Busca-se, por meio do diálogo entre planos diferentes, a construção do sentido. Tem-se, no processo verbal, o plano material, apresenta-se ainda a noção de tempo e de ator. O processo verbal está para o plano do existir (concreto), assim como o substantivo abstrato ausência está para o plano do abstracionismo (campo das ideias). O enunciador usa o adjetivo densa, como ícone direcionador para o entendimento da metáfora, expressa por ausência. O enunciador apela para o plano material-sensorial, portanto.

A seleção do adjetivo densa aponta para a experiência sensorial, que facilita a apreensão do conteúdo expresso por ausência, acrescentando ao substantivo a noção de intensidade. Segundo Garcia, existe uma relação recíproca entre nossos hábitos linguísticos e nosso comportamento, nossos hábitos físicos mentais normais.

O plano abstrato que se constrói a partir da seleção da expressão nominal ausência tão densa, em lugar da expressão verbal desapareceu, apela para a tríade argumentativa: compreensão, julgamento e raciocínio (CHARAUDEAU &

MAINGUENEAU, 2008).

Rodrigues, ao recorrer à linguagem figurada, exige do interlocutor a participação no processo da argumentação, visto que esta é direcionada ao ser que pensa. A prática argumentativa exige o esforço mental dos interlocutores.

A organização do enunciado é a materialização do discurso. Não se pode conceber a ideia de discurso sem pensar na interação social que a linguagem representa. O enunciador tem, na gramática, um sistema de escolha para a construção de sentido. Constatamos, nos sintagmas construídos por Rodrigues, a materialização da proposta que o enunciador pretende partilhar com o enunciatário. Há combinações

surpreendentes, dado o contraste (no nível do significado) existente entre as formas linguísticas compostas pelo autor. Essas combinações se tornam compreensíveis pelo enunciatário e enriquecem a proposta. A expressão ausência tão densa é uma construção inusitada pelo contraste que sugere. Observamos, nesse sintagma, a metáfora ausência, que representa a forma congruente desaparecer.

De acordo com Lakoff e Johnson, (apud VILELA, 2002), existem três tipos de metáforas: metáforas estruturadas, metáforas orientacionais e metáforas ontológicas.

Concentraremos nossa análise com base nas metáforas ontológicas, visto que, de acordo com os autores, “as metáforas ontológicas permitem-nos lidar com conceitos e abstracções como se de entidades manipuláveis se tratasse: referenciamo-las, quantificamo-las, delimitamo-las, etc.” (77) No segmento “E, durante os dez anos, Marques Rabelo fora, para mim, o ausente absoluto.”, a expressão ausente absoluto explicita a fala dos autores. Constata-se, no termo ausente, a categorização da forma adjetiva que aparece como forma substantiva pelo recurso de conversão, para representar uma entidade. O termo absoluto sugere intensificação tal qual densa na construção ausência tão densa.

Considerada a metáfora como figura produzida pela substituição, constatamos que as construções arquitetadas por Rodrigues na crônica “ É aluna da PUC e desapareceu como se jamais tivesse existido” (2007b) apontam a metáfora como um recurso a serviço da argumentação, dada a capacidade de unir universos do discurso nunca antes associados, colhendo-os numa nova síntese que exprime revelação cognitiva e catarse emocional. (LOPES, 1987, p. 100)

A originalidade de Rodrigues é confirmada em suas construções. O autor abusa de formas inusitadas como estratégia para “trazer” o interlocutor ao discurso. Sugere o sentido que deseja partilhar com o interlocutor, sem deixar que este perceba a influência a que está submetido. Lopes (1987) afirma que a metáfora une dois objetos nunca antes relacionados, por meio de uma analogia até então, nunca cogitada. Para o autor, é em razão dessa possibilidade que muitos estudiosos rejeitam a metáfora, visto que representa um ‘conhecimento confuso’, já que está baseada na obediência à lógica dos sentimentos.

No texto analisado no estudo de Lopes, identificam-se construções metafóricas que seguem a ‘lógica dos sentimentos’, nas quais aparece o caráter intuitivo da linguagem. A lógica dos sentimentos aparece como um saber absoluto e pessoal, livre das impugnações da ciência racional.

A seleção da metáfora como figura do discurso mostra que essa escolha é direcionada ao interlocutor. É uma definição centrada no ponto de vista do destinatário ou interlocutor. Não nos esqueçamos, no entanto, de que quem as arquiteta é um locutor motivado por uma intenção previamente estabelecida. A construção de base metafórica precisa dar conta dessa intenção. Encontramos, em Lopes, a exemplificação da metáfora como a união de dois universos interpretáveis como incompatíveis. O autor exemplifica: “a mulher que diz meu marido é um urso define seu marido ambiguamente em dois textos.”(p.35) O teórico aponta que ainda que tenhamos, nesse exemplo, universos impossíveis de serem referidos com o mesmo valor de verdade, a metáfora consegue afirmar a identidade de A (marido) e B (urso).

Não significa que marido e urso possuam sentidos singulares. O que a metáfora faz é trazer, para a figura do marido, as características que a figura do urso projeta. O objetivo do enunciador, ao estabelecer tal tipo de comparação, é relacionar a figura exteroceptiva que o animal ‘urso’ projeta aos gestos abrutalhados do marido. Veja-se quanto conteúdo se transmite por meio da metáfora, em poucas palavras. Ao contrário dos que confiam unicamente nos conhecimentos extraídos a partir da obediência aos princípios lógicos, o uso da metáfora sugere o sentido a ser compartilhado com o interlocutor por meio de formas inusitadas que conduzem a tríade argumentativa:

compreensão, julgamento e razão. Considerado o fato de a argumentação ser dirigida ao ser que raciocina, entendemos que as metáforas presentes no corpus em análise apontam para a razão. Entendemos que a lógica da razão não está presente na lógica do discurso. Esta, no entanto, apela para elementos que extrapolam a ciência da razão:

o apelo às sensações.

Ainda em Lopes (p. 102), pode-se constatar que

confrontando, um termo A e um termo comparante, B, dotados do mesmo fundamento, a metáfora ocasiona um rearranjo das funções sintático-semânticas de todo o enunciado, cuja primeira consequência é a conversão de uma denominação em uma predicação.

Atente-se para a construção metafórica presente no excerto abaixo da crônica “A mulher interessante”:

Reparem como os homens bonitos e as mulheres bonitas são traídos. É o que ensina toda a longa e dilacerada história do coração humano. Claro que não se trata de uma infidelidade gratuita. Só por milagre o bonito e a bonita são

“interessantes”. (RODRIGUES, 2007a p. 228)

A expressão longa e dilacerada história do coração humano apela para a construção metafórica. Veja-se a função discursiva da coordenação dos adjetivos longa e dilacerada que, junto com do coração humano, determinam o núcleo nominal história. Já analisamos, neste trabalho, a construção longa história, em que o qualificador longa apresenta valor conotativo, sugere a complexidade da história a ser narrada. A organização do sintagma aponta para o sentido figurado de longa e dilacerada. Já constatamos que a anteposição do adjetivo qualificador pode conservar o significado desta subclasse, alterar o significado ou simplesmente mostrar a relevância do adjetivo para a construção do sentido do sintagma e, consequentemente, do texto.

O sintagma, ora analisado, apresenta a metáfora coração humano. O termo coração se encontra, no texto, em sentido figurado, posto que o cronista não se refere ao coração como órgão físico. Deve-se notar, no entanto, que o coração é um órgão vital muito importante. Quando ele para de funcionar, extingue-se a vida. A expressão coração humano apresenta em humano a forma de se chegar ao mundo do concreto.

Humano se apresenta como adjetivo especificador. Temos em coração uma metáfora que encapsula a ideia da relação entre a vida e o amor, ambos essenciais para o homem. Essa metáfora já está incorporada à comunidade linguística a que o autor se dirige.

De acordo com Garcia (2002) uma metáfora encaminha outra(s) metáfora (s). Na construção longa e dilacerada história do coração humano, pode-se identificar mais de uma realização metafórica. O adjetivo longa imprime ao substantivo história a ideia de extensão e complexidade. Rodrigues dialoga (interdiscurso) com o ditado popular : “ o coração tem razões que a própria razão desconhece”. O cronista articula a possibilidade do duplo sentido que o termo coração sugere: órgão vital e símbolo de sede dos sentimentos, reforçado pela combinação com o adjetivo dilacerada.

Dilacerada sugere despedaçada. Encontramos, para dilaceração, substantivo do mesmo campo lexical de dilacerada, os seguintes sinônimos: ato de rasgar, despedaçar, arrebentar. Sugere, ainda, aniquilamento. (HOUAISS, 2001)

Os sinônimos referentes a dilaceração/dilacerada mostram a presença da metáfora na argumentação. Atente-se para a construção do sentido a partir da metáfora longa e dilacerada história que se completa em coração humano. Dilacerada, no sintagma dilacerada história do coração humano, apresenta sentido de passividade.

É um adjetivo que tem origem na forma de particípio do verbo dilacerar. Nesse trecho, o autor faz uso da hipálage, figura que consiste na transferência de um atributo de um ser a outro. O locutor faz um jogo de palavras em que relaciona o atributo do coração à história, o que reforça o valor discursivo de dilacerada, já que não é a história que é dilacerada e, sim, o coração humano. De acordo com Azeredo (2010, p. 494), a hipálage consiste na associação de um determinante a um termo que não é, logicamente, o seu determinado. Essa estratégia desloca a atenção do interlocutor para o objeto de maior relevância para o locutor. O determinado lógico (coração) fica no plano secundário, enquanto o determinado ilógico (história) ganha maior relevância. A organização do enunciado estruturado pelo cronista tem mais expressividade do que a estrutura lógica: a longa história do coração dilacerado.

Identifica-se, em dilacerada história do coração humano, a relação entre os sentidos passivo e ativo, respectivamente, já que dilacerada possui a ideia de passividade e história, de ação. Cabe concluir que o locutor pretende mostrar que o coração humano sofre as influências dos acontecimentos ocorridos durante a história.

6.3 O uso da Dialética na elaboração de metáforas com fins discursivos