6 A FUNÇÃO MODALIZADORA DO ADJETIVO NA CONSTRUÇÃO
6.3 O uso da Dialética na elaboração de Metáforas com fins
A Retórica não deixa de apresentar analogias com a Dialética, pois ambas tratam de questões que de algum modo são da competência comum de todos os homens, sem pertencerem ao domínio de uma ciência determinada. Todos os homens participam, até certo ponto, de uma ou de outra; todos se empenham dentro de certos limites em submeter a exame ou defender uma tese, em apresentar uma defesa ou uma acusação.
De acordo com Aristóteles, a Dialética é um processo em que se apresenta um raciocínio lógico e coerente que traz a possibilidade de sofrer refutação. Atente-se para o fato de que todos se empenham dentro de certos limites em submeter a exame ou defender uma tese (ARISTÓTELES MCMLXIX,). O discurso é direcionado em função do auditório, do contexto e dos personagens nele envolvidos (no discurso). Além desses componentes essenciais que, em Aristóteles, aparecem por meio da expressão dentro de certos limites, não se pode deixar de observar a relevância da intenção do locutor, componente primeiro que norteia todos os outros. A intenção do locutor apresenta como ícone, na maioria das construções, o adjetivo qualificador, que possui dupla função no contexto retórico: direcionar o sentido da metáfora presente no substantivo e influenciar na construção do conteúdo no interpretante do interlocutor (TU interpretante).
Valente (1999) nos aponta a importância da dialética para o processo da interação. Para o estudioso, “enquanto o maniqueísmo gera divisão e preconceitos tanto na vida como nos textos, a dialética traz a interação.”
Rodrigues demonstra a importância de abordar visões distintas sobre um mesmo objeto: ausência, história do coração humano (sentimento). O cronista apresenta expressões em que atribui ao substantivo a função de transmitir o conteúdo que sugere a ideia geral do objeto a ser compartilhado com o interlocutor e delega ao adjetivo a função de modalizador da ideia expressa pelo substantivo abstrato. Observe-se a capacidade de concisão do cronista nas construções grifadas no trecho seguinte:
E eis que, nos três dias de carnaval (aliás, quatro), desapareceu uma aluna da PUC. Se me perguntarem se é bonita ou feia, teria de confessar a minha humilhante perplexidade: “– Não sei ” já a vi umas cem vezes e, repito, não sei se é bonita, feia ou simpática. Direi apenas que é interessante. Aí está a palavra a um só tempo vaga e precisa, misteriosa e concreta (RODRIGUES, 2007b, p.218) (grifos meus)
Rodrigues rompe com o maniqueísmo. Articula, por meio de sintagmas construídos com base na figura da metáfora, ideias de universos opostos. O autor aplica o recurso estilístico descrito por Azeredo (2010) como oximoro, figura que se caracteriza “Em sentido amplo, por qualquer combinação de ideias contraditórias. O oximoro é uma variedade formal do paradoxo e pode ocorrer no interior de um sintagma ou no âmbito de uma construção coordenada.” (p. 497). Nelson Rodrigues
demonstra conhecimento da estrutura do idioma, pois consegue transmitir suas ideias por meio de expressões inusitadas, sem, contudo, ferir os princípios da gramática.
Rodrigues se apropria de possibilidades do sistema e seleciona a opção que melhor lhe serve para transmitir ou comunicar o que deseja.
A língua é um sistema parcialmente autônomo (NEVES, 2002). Assim, a gramática da língua é o arcabouço que o usuário utiliza com vista à produção de sentido. A língua existe, e só existe em uso, na forma de discurso. Quando os recursos gramaticais se tornam insuficientes para situações de comunicação, os falantes criam, em sociedade, novos recursos.
Para Azeredo (2010), “A metáfora é ‘um princípio onipresente na linguagem’, pois é um meio de nomear um conceito de um dado domínio pelo emprego de uma palavra usual em outro domínio.”
A descrição da metáfora, em Azeredo, aponta o valor discursivo dessa figura, visto que, por meio da metáfora, conseguimos facilitar o entendimento de conceitos, por vezes, abstratos. Na metáfora se desencadeia um processo que envolve domínios conceituais distintos. A metáfora constitui um recurso de economia lexical de grande potencial expressivo.
As construções metafóricas apresentadas, nas crônicas analisadas neste capítulo, apontam o funcionamento de metáforas como elemento discursivo da interação entre os sujeitos presentes no discurso, pois entendemos que o ato da linguagem deve ser visto como um encontro dialético entre dois processos: o processo de produção e o processo de interpretação. Este criado pelo sujeito responsável pela interpretação do enunciado; aquele criado pelo sujeito enunciador. É nesse encontro dos universos da produção e da interpretação que se dá a função discursiva da metáfora, pois é por meio desse recurso que o locutor direcionará a construção da ideia sobre determinado objeto, a ser apreendida pelo interlocutor. O objetivo de todo locutor é convencer o ouvinte de que a proposta é passível de aceite. Para tanto, organiza os enunciados de forma que o interlocutor se sinta parte dessa proposta. É o que se pode constatar, no excerto seguinte, no qual o cronista torna o leitor parte da proposta. Usa a
metáfora interessante, que pode ser interpretada como alegoria, visto que é resultante de outras metáforas como bonita, feia, simpática.
Se me perguntarem se é feia ou bonita, terei de confessar minha humilhante perplexidade: — “Não sei.” Já vi umas cem vezes e, repito, não sei se é bonita, feia ou simpática. Direi apenas que é interessante. Aí está a palavra a um só tempo vaga e precisa, misteriosa e concreta. (RODRIGUES, 2007b, p.218)
É por meio da união de universos opostos que Rodrigues constrói a metáfora interessante. Para esclarecer o significado dessa metáfora, o autor apela para a coordenação de adjetivos qualificadores que representam conceitos opostos na construção de um mesmo universo: a mulher interessante. O qualificador interessante abarca tantos outros, que os qualificadores selecionados pelo autor não dão conta de explicar. É o que se pode concluir pelo significado de vaga, precisa, misteriosa e concreta.
As construções metafóricas, que têm, no adjetivo qualificador, um potente recurso para a formação do conceito do substantivo abstrato, apontam para a teoria dos sujeitos em Charaudeau (2009). Segundo o estudioso, o modo de organização argumentativo se caracteriza pelo encontro de dois universos opostos: universo da produção X universo da interpretação.
6.4 A função discursiva de metáforas no desdobramento dos sujeitos EU e TU
Nesta seção, abordaremos a função discursiva das metáforas no desdobramento dos sujeitos EU e TU no modo de organização argumentativo. Identificaremos, com base na construção de expressões linguísticas, a presença de quatro sujeitos discursivos. Observaremos que é por meio da linguagem que o homem se faz sujeito do discurso.
Para Charaudeau (2009), o ato da linguagem deve ser visto como um encontro dialético entre dois processos: o processo de produção e o processo de interpretação.
Este criado pelo sujeito responsável pela interpretação do enunciado; aquele criado
pelo sujeito enunciador. Partindo desse encontro, o teórico registra o aparecimento de quatro sujeitos.
O sujeito EU se apresenta, no processo de produção, como enunciador (EU enunciador) que dirige a mensagem a um destinatário TU (Tu destinatário). Nesse processo, observa--se, revestido de enunciador, um sujeito comunicador, que organiza os enunciados (EU comunicador). A esse comunicador nomearemos ‘eu inteligente’, visto que, durante o processo da encenação, temos personagens construídas a partir das leis do discurso. O orador deverá demonstrar segurança em relação à proposta que pretende apresentar. Cabe tão somente a esse orador verificar como se dará o processo de interpretação. Não se pode perder de vista que o processo de interpretação é tão importante quanto o de produção, já que a eficiência do orador aparecerá no processo de interpretação. No esquema seguinte, constata-se a fusão entre esses dois processos:
EU Processo de produção => TU
EU’ <= Processo de interpretação TU’
Zona de Intercompreensão suposta
Universo de discurso do TU’
Universo de discurso do EU
O esquema apresenta dois universos distintos, construídos, com base nas personagens EU e TU. Atente-se para o espaço da interseção dos dois processos, no qual podemos identificar a fusão dos universos de discurso do EU e do TU, espaço que o autor intitula Zona da intercompreensão suposta. É nesse espaço (virtual) que se verificará a tríade argumentativa: compreensão, julgamento e razão. É nesse momento que se dá o convencimento.
Verifiquemos a presença dos processos de produção e de compreensão.
Identificaremos a função discursiva das metáforas arquitetadas por Rodrigues na fusão desses dois processos, motivação primeira do orador que busca a adesão do auditório.
No trecho seguinte, pode-se identificar a presença de metáforas que sugerem a interpretação da proposta do enunciador. Rodrigues prossegue seu projeto de fala, no qual, para mostrar a relevância da temática ausência, estabelece a união dos universos: ausência e presença.
Um colunista falha de vez em quando. Ou porque tomou férias, ou teve nevralgia, ou foi batizar o caçula. E o nosso estilista não falhou jamais.
Compareceu, dia após dia, no mesmo canto da página. Pois bem. E, durante os dez anos, Marques Rebelo fora, para mim, o ausente absoluto. Ausente da paisagem literária, jornalística ou, simplesmente, humana. Eu me daria por satisfeito se ele fosse, ao menos, uma lembrança. Mas nem isso, nem isso.
Através dos dez anos, eu me lembrara de tudo e de todos, menos do ficcionista. Ainda agora me pergunto: — e por que, meu Deus, por quê?
(RODRIGUES, 2007b, p. 220)
Rodrigues coloca, no sintagma ausente absoluto, a ideia de que há pessoas que estão presentes e não são percebidas. Ao contrário de ausência tão densa, metáfora que representa a ausência (sentida como presença) da “maravilhosa aluna da PUC”, o cronista aborda o tema ausência de maneira diferente, por meio da metáfora ausente absoluto. Entendemos que o ausente absoluto é aquele que está presente e não é percebido. Veja-se o estabelecimento do diálogo entre o sintagma ausente absoluto e a coordenação dos adjetivos que apresentam atributos de ausente em: “Ausente da paisagem literária, jornalística, ou simplesmente, humana.” Entendemos que, nesse período, o adjetivo humana é o de maior relevância e desfaz a metáfora existente em ausente absoluto, que é uma sequência metafórica. Por isso diz mais do que toda a descrição da relação de Rodrigues e Rabelo.
Rodrigues, quando faz a opção pelo sintagma o ausente absoluto, em lugar de colunista ausente, por exemplo, coloca em evidência uma qualidade que tem o status de um ser, nomeia a qualidade, que ganha, pois, autonomia.
Veja-se, na seguinte passagem, o valor discursivo da metáfora falso ausente.
Ausente é um substantivo de base adjetiva. Temos, neste caso, a construção da metáfora ausente, por meio do recurso da reutilização. O qualificador falso influencia diretamente no, então substantivo, ausente.
Creio ser a seguinte a explicação: – há no mundo, uma figura trágica. É o falso ausente.
Passa por nós, e nos cumprimenta, e paga o nosso cafezinho, e dá tapinhas. E, no entanto, essa presença sólida, palpável, visível escapa à nossa percepção.”
(RODRIGUES, 2007, p. 220) (grifos meus)
Evidencia-se, nesse fragmento, o estabelecimento do diálogo entre as formas o falso ausente e presença sólida, palpável, visível. O cronista tem, no adjetivo, o recurso da significação do termo genérico presença. Sólida, palpável, visível são elementos afetivos, apelam para o campo sensorial, estratégia recorrente no texto. Rodrigues conduz o leitor do mundo das sensações ao mundo dos significados.
Quando nos deparamos com a expressão nominal o falso ausente, temos dois conceitos distintos que se fundem num todo significativo. De uma maneira geral, ausente nomeia ‘objetivamente’ um ser que não é ou não está presente. Essa caracterização sofre a influência do adjetivo falso, que discursivamente, aparece anteposto ao substantivo ausente e não só tematiza a expressão, como também reforça o sentido conotativo expresso por esse adjetivo.
Nossa hipótese é que o uso de metáforas é um recurso usado por Rodrigues para estabelecer a interação das personagens Eu e TU no discurso. Toda a nossa análise é baseada na descrição do adjetivo em gramáticos respeitados no ramo das letras, como se pode confirmar na fundamentação teórica.
7 A ALTERNÂNCIA DE ADJETIVO E SUBSTANTIVO DO MESMO CAMPO LEXICAL COMO ELEMENTO MODALIZADOR DO DISCURSO
Desenvolveremos, neste capítulo, o estudo do adjetivo como elemento modalizador do discurso. Identificaremos, nas construções arquitetadas por Nelson Rodrigues (2007a), a materialização da intenção do autor. Teremos, na alternância de adjetivos e substantivos do mesmo campo lexical, o recurso usado pelo cronista para apontar a relevância do conteúdo expresso pelo adjetivo, visto que, ao apresentar uma qualidade de um ser por meio de um substantivo, tematiza-se essa qualidade. Quando um adjetivo qualificador é empregado como substantivo, passa a ter o status de um ser, o que lhe imprime relevância. Sobrepõe-se o conteúdo à forma.
Observaremos, na crônica “É aluna da PUC e desapareceu como se jamais tivesse existido” (2007),que Rodrigues utiliza como recurso a alternância entre adjetivos qualificadores e substantivos do mesmo campo lexical (MARTINS, 2000).
Concentraremos nossa análise na parte da crônica que remete ao texto (intertextualidade)“A mulher interessante” (RODRIGUES, 2007a) e que estabelece um paralelo entre o tema da crônica e o desparecimento da mulher “interessante”.
Observaremos o funcionamento do adjetivo como elemento direcionador do sentido estabelecido pela combinação ‘substantivo + adjetivo’. Basearemos o estudo dessa forma a partir da descrição do adjetivo em Azeredo (2010), Bechara (2009), Castilho (2011), Neves (2007).
Constataremos o funcionamento do adjetivo como elemento norteador do sentido que o enunciador pretende imprimir ao substantivo ausência. Selecionaremos, ainda, adjetivos e substantivos do mesmo campo lexical e observaremos a influência que o uso dessas classes representa para a construção do sentido do texto.
7.1 O adjetivo como elemento modalizador da proposta
No decorrer desta dissertação, que tem como proposta inicial a descrição do adjetivo qualificador como elemento modalizador da construção do modo de
organização argumentativo, podemos identificar, nas expressões organizadas por Nelson Rodrigues (2007b), a relevância do adjetivo qualificador para a construção do sentido do texto que passa pela influência dessa subclasse, uma vez que “os adjetivos qualificadores interferem nas propriedades intensionais do substantivo, alterando-as.
Esses traços derivam das propriedades intensionais do adjetivo.” (CASTILHO, 2010).
As propriedades semânticas do substantivo poderão ser modificadas, com absorção das propriedades do adjetivo qualificador.
A distinção do adjetivo nas subclasses qualificador e classificador é ponto comum em Castilho (2010), Neves (2007) Azeredo (2010). Os três autores abordam a função modalizadora do adjetivo qualificador. Atribuem a essa classe a função de construir ou até modificar o sentido do substantivo, já que o conteúdo expresso pelo substantivo é genérico. Ao adjetivo qualificador caberá, então, o direcionamento do sentido estabelecido pelo enunciador, visto que todo enunciado traz uma carga expressiva da intenção do sujeito responsável pela elaboração da proposta e pela adesão a ela.
O sucesso da argumentação se encontra atrelado à adesão de um enunciatário.
O discurso é uma prática cotidiana social. É por meio da linguagem que o homem se expressa. A linguagem é um instrumento eficaz de socialização. O adjetivo qualificador é o elemento que desempenha importante papel para a expressividade, para a construção do sentido idealizado pelo locutor. Na crônica “É aluna da PUC e desapareceu como se jamais tivesse existido” (RODRIGUES, 2007b), podem-se constatar exemplos em que o adjetivo funciona como ícone da construção do sentido, e, ao mesmo tempo, o instrumento que projeta para o discurso a ideia de ação, pois o modo de organização argumentativo pressupõe, em sua estrutura, no mínimo, dois sujeitos: enunciador e enunciatário.
Rodrigues apresenta sintagmas, em sua maioria, na forma ‘substantivo abstrato + adjetivo’, nos quais o adjetivo funciona como ícone direcionador na interpretação do sentido do substantivo. No fragmento da crônica “É aluna da PUC e desapareceu como se jamais tivesse existido”, transcrito a seguir, pode-se constatar a influência do adjetivo qualificador na construção do sentido. Constata-se, também, a capacidade que possui o qualificador de influenciar na construção do sentido abstrato expresso pelo substantivo ausência. (função intensional do adjetivo qualificador).
Veja-se a relevância dos adjetivos como denotadores de opinião ou de juízo de valor do enunciador na encenação do discurso.
‘Mas ninguém suporta a ausência da mulher “interessante”, simplesmente
“interessante” como a aluna da PUC. E, como a sua ausência tinha a densidade da morte, começou o pânico.’ ( RODRIGUES, 2007b, p. 218)
Nesse excerto, o cronista pretende desfazer a abstração que o termo ausência possui, apela para a expressão adjetiva da mulher interessante. Rodrigues poderia, simplesmente, dizer a ausência da mulher amada. Seleciona, no entanto, o adjetivo qualificador interessante. A expressão adjetiva da mulher interessante apresenta, como esteio semântico, o adjetivo qualificador. Ainda que mulher seja o núcleo do sintagma nominal, ele funciona como parte do todo que constitui essa expressão.
No decorrer da crônica, identifica-se a recorrência da alternância de adjetivos e substantivos do mesmo campo lexical, estratégia utilizada por Rodrigues. O uso de substantivos derivados de adjetivo qualificador que exprimem sensação é outro recurso presente na crônica, como se constata em densidade.
De acordo com Martins (1999: 79), “Através do adjetivo o falante caracteriza emocionalmente o ser de que fala; através do substantivo abstrato destaca o sentimento, a qualidade, o estado, apresentando-os com mais realce, menos presos ao ser.”
A autora aborda a possibilidade de alternar o adjetivo com o substantivo abstrato como recurso estilístico de forte efeito. O texto, que nos serve como corpus, apresenta exemplos que materializam essa alternância. Na passagem “O morto seria um ausente como outro qualquer, se não fosse, repito, uma ausência tão densa, obsessiva, inapelável.”, constata-se um mesmo lexema nas palavras ausência e ausente.
Rodrigues, por meio dessa estratégia, desenvolve um projeto de argumentação, no qual utiliza a perspectiva dialética: ausência X presença.
O recurso da alternância entre adjetivos e substantivos materializa, num só termo, dois aspectos: o conteúdo expresso pelo qualificador e a versatilidade sintática do
substantivo (núcleo do sintagma nominal). Um qualificador, em forma de substantivo, expressa o conteúdo que lhe é característico sem, contudo, estar preso a um outro ser.
Na descrição do adjetivo em Azeredo (2010), é possível confirmar que o adjetivo é uma classe atrelada ao substantivo, isso nos conduz ao raciocínio de que o adjetivo é uma classe adjacente, dependente do substantivo. Atentemos para a descrição do adjetivo no autor: “são adjetivos os lexemas que se empregam tipicamente para significar atributos ou propriedades dos seres e coisas nomeadas pelo substantivo.” A definição de Azeredo aponta a relevância do adjetivo na construção do significado do substantivo. ( p.168)
A descrição do adjetivo como uma classe de lexema aponta para o fato de essa classe pertencer ao grupo de vocábulos que expressam conteúdo. O adjetivo, portanto, não é um mero acessório do substantivo. Ao contrário, o adjetivo qualificador, mais que o adjetivo classificador, possui a função de modalizar o substantivo, amenizando, senão neutralizando, o caráter genérico do substantivo.
Monteiro (2002) aponta para a impropriedade da definição da NGB em relação às classes de palavras do português. Acrescenta, no entanto, a dificuldade ou impossibilidade de outra classificação. Para o autor, a distinção entre classe e função precisa ser revista. De acordo com Monteiro, o substantivo, o adjetivo e o advérbio são funções, enquanto que o nome, o pronome e o verbo são classes. Acrescenta o estudioso, “As classes são estudadas dentro da morfologia; as funções pertencem ao domínio da sintaxe. Ou então, desfaçam-se as fronteiras para uma interpretação conjunta, que deve constituir a morfossintaxe.” (p.226)
A descrição de Monteiro reforça nossa opinião de que o adjetivo, ao ganhar uma
‘roupagem’ de substantivo, não deixou de ser adjetivo, apenas assume função substantiva dentro de um sintagma nominal, uma possibilidade do sistema que funciona como relevante estratégia discursiva. Essa versatilidade do qualificador é a aplicação do princípio de que a relação do adjetivo com o substantivo não pressupõe, necessariamente, uma relação de subordinação entre substantivo (subordinante) e adjetivo (subordinado). Descrever o adjetivo como a classe de lexema que possui a propriedade de influenciar o conteúdo expresso pelo substantivo é admitir que, nos
sintagmas nominais compostos na forma ‘substantivo + adjetivo’, ambas as classes se interpenetram para a construção do sentido do texto. (e não apenas do sintagma)
Ao apresentar um adjetivo na forma de substantivo, Nelson Rodrigues mostra a relevância do conteúdo expresso pelo qualificador, dando-lhe a roupagem de substantivo, “a classe que dá nome às parcelas de nosso conhecimento e serve de núcleo às expressões referenciais do texto” (AZEREDO, 2010, p. 155). O continente (substantivo) passa a ser uma ferramenta de forte efeito discursivo, visto que, quando o autor fala de uma ausência densa tira de cena a protagonista (a aluna da PUC) e apresenta, de forma recorrente, o assunto principal da crônica “ausentes serão aqueles que se fizerem presentes”.
Na passagem, “O morto seria um ausente como outro qualquer, se não fosse, repito, uma ausência tão densa, obsessiva, inapelável.” (RODRIGUES, 2007b, p. 218), pode-se constatar a presença do termo morto, primitivamente adjetivo, que aparece na forma substantiva. Morto tematiza o enunciado, funciona como sujeito da declaração expressa por Rodrigues. Quando o cronista, sem desrespeitar princípios norteadores do sistema, tece a construção o morto, delegando a morto o status de substantivo,
Na passagem, “O morto seria um ausente como outro qualquer, se não fosse, repito, uma ausência tão densa, obsessiva, inapelável.” (RODRIGUES, 2007b, p. 218), pode-se constatar a presença do termo morto, primitivamente adjetivo, que aparece na forma substantiva. Morto tematiza o enunciado, funciona como sujeito da declaração expressa por Rodrigues. Quando o cronista, sem desrespeitar princípios norteadores do sistema, tece a construção o morto, delegando a morto o status de substantivo,