3. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
3.4. A relação entre modalidade e modo
3.4.3. A modalidade irrealis e a volição
A categoria de irrealis é, tradicionalmente, vinculada ao modo subjuntivo. Portanto, desvincular a categoria de modo subjuntivo da categoria de modalidade de incerteza (como faremos aqui a fim de associar irrealis à semântica do volitivo querer) implica situar a modalidade como uma categoria funcional que abrange o campo pragmático/discursivo interacional e situar o modo subjuntivo como uma categoria subordinada a essa modalidade.
O irrealis, como uma categoria funcional, apresenta, mediante determinados mecanismos formais, um subjuntivo gramaticalizado, mas não condiciona o aparecimento de tal modo. Nesses termos, uma vez instaurado o eixo irrealis, a inserção de um indicativo gramaticalizado (na flexão do volitivo) não alteraria o valor pragmático de incerteza epistêmica do discurso interacional, embora possamos traçar gradações de intensidade desses valores diante de diferentes apresentações morfológicos.
O irrealis estaria, segundo essa definição, mais próximo da modalidade que do modo por não se dar através de uma expressão flexional, e sim por vários tipos de expressões lingüísticas, mas, quando se diz que modo pode se referir também a domínio conceptual, aproxima-se o irrealis mais uma vez desta noção. Mas, ainda assim, defendemos que o
irrealis se aproxime mais da categoria de modalidade por incluir a expressão através de
flexão, mas não ocorrer exclusivamente por esse critério. Por isso, a noção de irrealis estaria mais próxima da modalidade que do modo, conforme as definições de Givón (1984/1985), embora, como já dissemos, ambas as categorias estejam intimamente ligadas.
De acordo com Pimpão (2008), quando os termos gramaticais são descritos como
realis ou irrealis, essa alegação é feita com base no fato de esses termos categorizarem
eventos atuais ou não-atuais, como ocorrendo ou não no mundo real, pois o conceito da escolha do usuário da língua de um modal depende do valor de verdade atribuído a uma determinada cláusula. Evidências consideráveis sugerem que isso não é do domínio da verdade ou fato – que é de domínio relevante para a modalidade, mas do domínio da asserção e da não-asserção que é relevante (HOPPER, 1975; KLEIN, 1975). O usuário da língua está, portanto, desinteressado do valor de verdade da construção, o que lhe interessa é demonstrar o modo como ele percebe o evento.
Ainda de acordo com Pimpão (2008), a modalidade não indexa o valor de verdade de uma construção em um sentido abstrato, mas nos mostra a extensão em que o usuário da língua está disposto a declarar a verdade da construção. Inerente na função da modalidade epistêmica é a expressão do nível de comprometimento que o usuário da língua está disposto a admitir com relação à verdade da cláusula, o que nos leva novamente à discussão sobre o entrecruzamento entre volição e modalidade epistêmica.
Ainda segundo a autora, as modalidades orientadas para o falante também não são sobre verdade, mas sobre a função da expressão no contexto: um imperativo tem uma função diferente de uma assertiva e, portanto, são marcadas diferentemente. Mesmo os subjuntivos não são apontados como eventos atuais versus não-atuais. As concessivas expressam proposições de verdade e ainda estão frequentemente no subjuntivo porque suas proposições não estão com a existência confirmada (p. 236-239).
A modalidade, portanto, não está relacionada a valor de verdade, mas às escolhas do usuário da língua entre a asserção e as funções contrastantes (BYBEE et alii, 1994), o que nos leva à hipótese de que o volitivo expressa irrealis, mas marca comprometimento do usuário da língua com relação àquilo que deseja. A ação futura expressa pelo V2 que se segue ao volitivo é perspectivizada mais próxima do realis por ser tratada como fortemente possível, ou seja, o uso do volitivo marca o evento – pertencente ao campo do irrealis – perspectivizando-o como próximo do realis através do comprometimento em realizá-lo.
A categoria irrealis apresenta uma distribuição cognitivo-comunicativa e também uma distribuição gramático-tipológica. Nesses termos, tal modalidade efetiva-se como uma categoria funcional marcada discursivamente por elementos formais.
A definição comunicativa de modalidade distribui-se, entre outras atitudes, na atitude pragmática de irrealis, que, conforme apresentada por Givón (1984/1995), resume dois traços definidores: o de futuridade e o de incerteza epistêmica (com o entrecruzamento do
julgamento deôntico). Esses dois traços interpretam o discurso em termos de projeção futura, e essa projeção de tempo futuro assinala um grau de incerteza aos objetivos comunicacionais do usuário da língua na interação.
Essa definição de irrealis vai ao encontro do que observamos ocorrer nas orações volitivas em estudo: a projeção para um momento futuro expressa por V2 em relação ao volitivo que o encabeça em virtude da noção de desejo, do não realizado.
Para Bybee et alii (1994, p. 300), a modalidade tem por função codificar a atitude do usuário da língua sobre o que se expressa em uma dada cláusula. Temos, então, dois tipos de julgamento feitos pelo usuário da língua a respeito da informação proposicional transmitida pela cláusula:
Julgamento epistêmico: verdade, probabilidade, certeza, crença, evidência.
Julgamento avaliativo/deôntico: conveniência, preferência, intenção, habilidade, obrigação, manipulação.
A modalidade irrealis assinala, então, essas duas atitudes: uma epistêmica e uma deôntica, assim como defendemos que estejam presentes nos volitivos. A primeira dessas atitudes caracteriza-se, como já mencionado, pela baixa certeza, compreendendo graus de verdade, crença, probabilidade, certeza, evidência; a segunda, de caráter avaliativo, assinala desejo, preferência, intenção, habilidade, obrigação, manipulação. Enunciados que apresentem recursos formais indutores de irrealis têm o escopo da modalidade irrealis (PIMPÃO, 2008, p. 4-5), como defendemos que se expresse nas orações com querer, embora com gradações da expressão dessas noções de acordo com as configurações morfossintáticas apresentadas, como será verificado na análise de dados.
Como Givón (1984/1985) afirma que essas duas submodalidades (epistêmica e deônticas) não são sempre mutuamente excludentes e podem se entrecruzar em alguns contextos, e Pimpão (2008) as coloca juntas na modalidade irrealis, voltamos a frisar que acreditamos que essas submodalidades se entrecruzam no volitivo em estudo, pois encontramos em querer probabilidade – de um lado – conveniência, preferência, intenção – de outro.