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Apresentação de V2 explícito ou não explícito

No documento fernandacunhasousa (páginas 107-111)

4. ANÁLISE DE DADOS

4.2. Realização formal e diferentes valores semânticos apresentados por querer

4.2.3. Apresentação de V2 explícito ou não explícito

Dando continuidade à verificação das particularidades de cada uma das configurações sintáticas possíveis de acordo com a semântica do volitivo, a partir da correlação estabelecida entre semântica e configuração sintática de V2, passamos à discussão sobre a possibilidade de elipse de V2. São casos em que defendemos que haja uma categoria vazia (Ø) que possibilite a retormada, pelo contexto, do V2 que complementa a idéia expressa pelo volitivo, mas não está explícito naquele ponto da cadeia sintática.

Foram encontrados exemplos de V2 não explícito tanto na forma infinitiva quanto na finita, como apresentaremos a seguir.

 Com V2 infinitivo não explícito:

(20, corpus sincrônico) Scott insiste que até os mais sérios conseguem melhorar a imagem e se cercarem da aura de leveza. “Seus colegas vão perceber que você quer e pode ser uma pessoa mais divertida se começarem a notar seu interesse genuíno pelos problemas dos outros e sua vontade de enxergar pontos positivos mesmo em momentos de crise”. (133, texto 50, Você SA)

No exemplo 20, entendemos que haja um verbo infinitivo não explícito completando a ideia de querer, pois o que se entende do trecho destacado é que você quer ser uma pessoa mais divertida e pode ser uma pessoa mais divertida se começarem a notar seu interesse genuíno pelos problemas dos outros e sua vontade de enxergar pontos positivos mesmo em momentos de crise. Embora a repetição explícita do verbo ser não se faça necessária pela proximidade e facilidade de recuperação da ideia, entendemos que ela está presente no texto após querer através de uma categoria Ø que representa ser uma pessoa mais divertida.

(21, corpus pancrônico) E q(ue) des alj adea~t(e) q(ue) o P(ri)ol (e) sseu Conue~to dessen a d(i)ta ssa h(er)dade ((L038)) a q(uem) q(ui)sessem (e) p(or) bem teuessem (e) fezessem dela sseu p(ro)uei´to sen e~bargo ne~hu~u (77, texto 8, sec. XIV)

No exemplo 21, entendemos que haja um verbo infinitivo não explícito completando a ideia de quisessem, pois o que se entende do trecho destacado é que o priol e o convento

dessem a dita herdade a quem quisessem dar. Embora a repetição explíctia do verbo dar não se faça necessária pela proximidade e facilidade de recuperação da ideia, entendemos que ela está presente no texto após querer através de uma categoria Ø que representa dar.

As ocorrências de V2 infinitivo explícito e não explícito distribuem-se da seguinte maneira nos corpora:

V2 SÉCULO

Infinitivo XIII % XIV % XV % XVI % XVII % XVIII % XIX % XX % XXI %

Explícito 20 71,42 24 92 19 58 24 62 1 25 6 100 5 100 7 87,5 1 100

não explícito 8 28,58 2 7,7 14 42 15 38 3 75 0 0 0 0 1 12,5 0 0

Tabela 18: Frequência de ocorrências com infinitivo explícito e não explícito – Corpus documental pancrônico

V2 Você SA

Infinitivo total % Explícito 145 96 não explícito 6 4

total 151 100

Tabela 19: Frequência de ocorrências com V2 infinitivo explícito e não explícito – Corpus sincrônico da Revista Você SA

A ocorrência de querer com V2 infinitivo explícito é muito mais frequente que com não explícito, variando entre 100 e 58% do total de ocorrências infinitivas no corpus pancrônico e ocorrendo em 96% das ocorrências do corpus sincrônico. Isso mostra que a forma prototípica é de V2 infinitivo explícito. A única exceção foi no século XVII, em que apenas 25% das ocorrências apresentam V2 explícito contra 75% não explícito, mas defendemos que se deva ao baixo número de ocorrências encontradas neste século: somente 3, o provocou o enviesamento dos dados.

Mesmo assim, a possibilidade de elipse nos leva a verificar sua relação com os tipos de querer e observamos que, assim como aconteceu com a possibilidade de elipse do volitivo, a elipse de V2 se concentra diante de querer 2 e 3, como demonstra a tabela seguinte:

V2

inf. XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI

querer expl n.expl expl n.expl expl n.expl expl n.expl expl n.expl expl n.expl expl n.expl expl n.expl expl n.expl total 2 21 9 25 2 18 14 26 15 3 1 8 0 5 0 0 0 1 0 148 3 0 0 0 0 0 0 3 0 0 0 0 0 0 0 7 1 0 0 11

total 21 9 25 2 18 14 29 15 3 1 8 0 5 0 7 1 1 0 159

Tabela 20: Frequência de ocorrências com querer diante de V2 infinitivo explícito e não explícito divididas de acordo com o tipo de querer – Corpus pancrônico documental

V2

infinitiva Você SA

querer Explícita Não explícita Total

2 10 0 10

Tabela 21: Frequência de ocorrências com querer diante de V2 explícito e não explícito divididas de acordo com o tipo de querer – Corpus sincrônico da Revista Você SA

Novamente, defendemos que a elipse de partes da construção só seja possível quando o volitivo está mais próximo de seus valores semânticos “fontes” em nossa língua, ligados mais diretamente à volição, como ocorre com querer 2 e 3.

 Com encaixada finita não explícita:

(22, corpus sincrônico) Por resultado, entenda-se: o profissional supera a dificuldade e começa a gerar a receita que a empresa quer.(45, texto 15, Você SA)

No exemplo 22, entendemos que haja uma encaixada finita não explícita completando a ideia de querer, pois o que se entende do trecho destacado é que o profissional supera a dificuldade e começa a gerar a receita que a empresa quer que ele gere. Embora não se faça necessário o desenvolvimento explícito de uma oração com o verbo gerar pela proximidade e facilidade de recuperação da ideia, entendemos que ela está presente no texto após querer através de uma categoria Ø, que equivale a: empresa quer que ele gere.

Também há uma encaixada finita não explícita completando a ideia de querer no exemplo 23, pois o que se entende do trecho destacado é que o escudeiro quis (q(ue) todo

ouuesse o d(i)to Mon(steiro)) e por isso consentiu (q(ue) todo ouuesse o d(i)to Mon(steiro)).

Embora não se faça necessário o desenvolvimento explícito de uma encaixada finita com o verbo querer pela proximidade e facilidade de recuperação da ideia, entendemos que ela está presente também diante dos dois verbos que os antecedem: outorgar e mandar, através de categorias vazias que representam respectivamente a: outorgou Ø (q(ue) todo ouuesse o d(i)to

Mon(steiro)) e mandou Ø (q(ue) todo ouuesse o d(i)to Mon(steiro)) e quis Ø (q(ue) todo ouuesse o d(i)to Mon(steiro)).

(23, corpus pancrônico) Ento~ o d(i)to scudeyro uisto os d(i)tos st(rument)os q(ue) lhj o d(i)to Priol mostrara (e) o q(ue) ffora fei´to ((L029)) p(e)lo d(i)to P(e)d(ro) loure~ço seu ti´o;. Outorgou todo o q(ue) ff(ei)to era co~ o d(i)to P(e)d(ro) loure~ço (e) p(er) el sobr(e) ff(ei)to das ((L030)) d(i)tas h(er)dades (e) q(ui)nta~a (e) Casal dela como era co~teudo no d(i)to strom(ento) ff(ei)to p(e)lo d(i)to affon(so) p(er)iz. E outorgou (e) ((L031)) ma~dou (e) q(ui)s (e) co~sentiu q(ue) todo ouuesse o d(i)to Mon(steiro) como era (con)teudo (e) diuisado no d(i)to strom(ento) (74, texto 8, sec. XIV)

As ocorrências de encaixada finita explícita e não explícita distribuem-se da seguinte maneira:

encaixada SÉCULO

finita XIII % XIV % XV % XVI % XVII % XVIII % XIX % XX % XXI % total

explícita 1 100 0 0 2 32 2 32 0 0 1 100 1 100 0 0 0 0 7

não

explícita 0 0 1 100 3 68 3 68 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0

7

total 1 0 1 0 5 100 5 100 0 0 1 100 1 100 0 0 0 0 14 Tabela 22: Frequência de ocorrências com encaixada finita explícita ou não explícita – Corpus documental

pancrônico encaixada Você S A finita total % explícita 9 90 não explícita 1 10 total 10 100

Tabela 23: Frequência de ocorrências com encaixada finita explícita ou não explícita – Corpus sincrônico da Revista Você SA

No corpus sincrônico, a maioria (90%) é de ocorrências de encaixadas finitas é explícita. No corpus pancrônico, as ocorrências com encaixada finita dividem-se entre explícitas e não explícitas. Acreditamos que essa oscilação no corpus pancrônico se deva ao baixo número de ocorrências encontradas, o que provoca enviesamento dos dados.

Há ainda o fato de termos encontrado a elipse mesmo da encaixada finita, diferentemente da elipse do volitivo, que não ocorreu neste sintático finito. Entendemos, portanto, que o tamanho da encaixada não tenha relação com a possibilidade ou não da elipse dessa parte da construção como tem com a possibilidade de elipse do volitivo.

Como todas ocorrências de querer com encaixada finita concentram-se em querer 2, não há como dividir as ocorrências explícitas e não explícitas de acordo com os valores semânticos do volitivo.

Não encontramos exemplos de construções com falso encaixamento com uma das partes não explícita (como demonstra a tabela seguinte), o que demonstra maior integração nesse tipo de construção, que não permite uma parte não explicitada.

Todas as ocorrências com falso encaixamento são com querer do tipo 8: sentido igual a qualquer coisa, lugar ou pessoa, o que também dispensa comparativo com outros tipos de querer dentro desta construção, além de confirmar a relação que vem sendo traçada entre a possibilidade de elipse e o valor semântico de querer, pois, como este tipo de querer está mais distante dos valores básicos para esse volitivo, não há possibilidade de elipse de uma das partes da construção.

SÉCULO

f. encaix. XIII % XIV % XV % XVI % XVII % XVIII % XIX % XX % XXI %

explícita 7 100 4 100 8 100 8 100 1 100 0 0 0 0 0 0 0 28

Não

explícita 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0

total 7 100 4 100 8 100 8 100 1 100 0 0 0 0 0 0 0 28

Tabela 24: Frequência de ocorrências com falso encaixamento explícito ou não explícito – Corpus pancrônico documental a ou não explícita – Corpus pancrônico documental

O que observamos com relação a V2 explícito ou não explícito é que, a exemplo do observado em relação a querer explícito ou não explícito, as ocorrências com V2 explícito +

querer tipo 2 são muito mais frequentes que as demais construções com os demais tipos de querer. Entendemos, portanto, que a forma prototípica para construções com querer + V2 seja

com ambas as partes explícitas e com querer do tipo 2, embora a possibilidade de elipse do volitivo diante de V2 infinitivo e da elipse da encaixada tanto infinitiva quanto finita mostre que as duas porções da construção não formam (pelo menos ainda) um único todo, exceto nos casos de querer 4 e 8, quando temos um só todo que não permite a elipse de uma de suas partes.

No documento fernandacunhasousa (páginas 107-111)