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2 A MODERNIDADE EUROCÊNTRICA E A COLONIALIDADE DO PODER

No documento Debates Interdisciplinares VII (páginas 108-111)

Dizer que a colonização europeia marcou profundamente a história da Amé- rica Latina, além de óbvio, não representa grande novidade. Tampouco relacionar o período colonial com as questões atuais do desenvolvimento do continente. No entanto, o fato de um caminho ter sido percorrido muitas vezes não significa que ele não possa conduzir a novas descobertas. Por isso, quando se observa que América Latina e Europa não se vinculam somente através da colonização, mas também da colonialidade do poder, se percebe que há muito o que descobrir so- bre a maneira com que a construção das nossas sociedades continua sendo feita. O conceito de colonialidade do poder foi desenvolvido pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano4. Trata-se de um sistema de controle social que serve

para criar hierarquias entre populações e entre regiões, criando uma divisão do trabalho a partir de determinados critérios de diferenciação/exclusão. Em termos jurídico-institucionais, Mignolo5 afirma que a prática europeia de hie-

rarquizar populações teve origem nos critérios de “pureza de sangue”, que se espalharam pela Península Ibérica no século XVI, dividindo a sociedade entre “puros” (cristãos) e “impuros” (não cristãos). Segundos essas leis e decretos re- ais, os judeus sofriam limitações ao exercício do direito de propriedade e eram obrigados a converter-se ao cristianismo, enquanto os muçulmanos eram simplesmente expulsos da região.

4 QUIJANO, Aníbal. Colonialidade, poder, globalização e democracia. Novos Rumos, São Paulo, ano 17, n. 37, 2002. 5 MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/Projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento laminar.

Com base na ideia de pureza de sangue, segundo Quijano6, o critério da cor

da pele dos indivíduos passou a orientar a política de expansão ibérica para o além-mar, especialmente a partir de 1492, com a chegada de Colombo às ilhas caribenhas. Foi o critério racial, portanto, que passou a pautar a ideia de inferio- ridade das populações indígenas, na qual seus membros foram considerados seres portadores de “almas ingênuas”, que precisavam ser salvas pelos catequi- zadores. Pelo mesmo critério, os negros africanos foram reduzidos a simples objetos de troca. O objetivo dessa categorização era definir os lugares e os pa- péis sociais correspondentes a cada um desses grupos. “Em outras palavras, raça e identidade racial foram estabelecidas como instrumentos de classifi-

cação social básica da população.”7

A grande diferença com os períodos anteriores foi que, a partir de 1492, a utilização de critérios de classificação das populações passou a responder a uma articulação mundial da produção capitalista. Ou seja, o que antes era res- trito às relações entre Europa e “Oriente Próximo”, tornou-se constituinte de uma divisão do trabalho de escopo transcontinental. Foi a partir da colonização das Américas que surgiu o que Mignolo8 chama de “circuito comercial atlânti-

co”, e que se deu o início, segundo Wallerstein9, da “economia-mundo capitalis-

ta”. Em qualquer uma das definições, a América Latina foi incorporada, desde o

começo, como periferia, ou, na expressão de Mignolo10, como “extremo-Oci-

dente” do sistema capitalista internacional. “Periferia”, é claro, tomando-se a Eu- ropa como referência.

A ideia de que o branco europeu era superior exigia, portanto, um du- plo movimento. De um lado, era preciso promover a destruição cultural dos povos não europeus, os “outros”. E aqui não se trata somente da dizimação física, em larga medida promovida pelo colonizador: trata-se, segundo Qui-

jano11, do “desaparecimento de todo padrão livre e autônomo de objetivação

de ideias, de imagens, de símbolos”. O movimento inverso era a contínua subs- tituição desses padrões por uma matriz europeia de conhecimento. Para que

6 QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A Colonialida- de do Saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005a. 7 QUIJANO, 2005a, op. cit. p. 228.

8 MIGNOLO, 2003, op. cit.

9 WALLERSTEIN, Immanuel. Análisis de sistemas-mundo. Una introducción. Madrid: Siglo XXI, 2005. 10 MIGNOLO, 2003, op. cit.

isso fosse possível, a Europa considerou seu pensamento local como portador de uma verdade superior e universal, o que dava direito ao colonizador de não somente se apropriar das riquezas materiais e do trabalho das civilizações en- contradas, mas também de impor-lhes sua forma de ver o mundo, promoven- do o que Dussel12 chamou de “epistemicídio”. É nisto, em suma, que consiste a

modernidade eurocêntrica: na continua expansão de epistemologias locais eu- ropeias com base na sua pretensão de universidade. Esse padrão continua em vigor até dos dias de hoje, embora sofrendo os primeiros abalos significativos.

Na fase ibérica de dominação das Américas, ocorrida após a Renascença europeia, a colonização ainda estava erigida sobre o papel salvador do homem branco cristão, tendo a Roma papal como epicentro intelectual. No entanto, a decadência do Império Espanhol, que mantinha uma estrutura social de carac- terísticas feudais, na qual a exploração das colônias sustentava uma nobreza improdutiva, foi dando lugar à ascensão do Norte da Europa, principalmente de Holanda e Inglaterra, os novos centros dinâmicos dos circuitos capitalistas. Esses países, que já haviam rompido com Roma nas Reformas do século XVI, passaram a construir seus próprios critérios de superioridade civilizacional, com base no racionalismo e na crença nas ciências ocidentais. De acordo com Mig- nolo13, no século XIX, quando o imperialismo inglês atingiu seu ápice, o papel

justificador, que um dia coube ao “salvacionismo cristão”, passou a ser exercido pelo “papel civilizatório” das sociedades de razão pretensamente “mais evoluí- da”. Nessa fase, surgiram teses como “darwinismo social”, que percebe algumas sociedades como mais evoluídas que outras. Essa visão evolucionista ligou-se à ideia positivista de progresso contínuo, muito presente no alvorecer da ciência moderna, tornando-se uma crença fundamental desse período histórico.

Tem-se, portanto, que a modernidade europeia, iniciada com a colonização ibérica das Américas e tendo como contraparte a inferiorização dos povos maias, incas, astecas, tupis-guaranis e outros, foi continuada com a expansão do norte da Europa e do imperialismo Britânico, que deram sequência ao pro- jeto colonizador (com Espanha e Portugal, nesse momento, relegados à perife- ria da Europa). Nessa trajetória, foi sendo imposto um modo de pensar europeu (local) a outros lugares do mundo (universal), ao mesmo tempo em que outras

12 DUSSEL, op. cit. 13 MIGNOLO, 2003, op. cit.

formas de conhecimento iam sendo destruídas. O fato de esse padrão ter con- tinuado como dominação cultural, mesmo que findada a colonização política, consiste na ocorrência da colonialidade do poder. A ideia de desenvolvimento, que passou a ser o grande paradigma do século XX e teve forte influência na América Latina, foi uma continuação dos ideais de progresso e civilização do século XIX. Isso significa que ela representou uma nova roupagem da moderni- dade eurocêntrica, inserida no contexto de colonialidade do poder.

No documento Debates Interdisciplinares VII (páginas 108-111)