Falar sobre o envelhecimento é abordar o pedaço mais denso da caminhada humana, ou seja, o caminho para a morte, mas antes vamos entender um pouco sobre a tanatologia e as cinco fases do processo de morrer.
Tanatologia do grego (Thanato - morte) e (logos - estudo) é a ciência que estuda a morte. Inicialmente se preocupava com o doente terminal, aquele hospitalizado; depois passou a preocupar-se também com a família deste doente, com os profissionais médicos e da área da saúde e com todos aqueles que de qualquer maneira estejam relacionados com ele. Hoje a tanatologia estuda a representação da morte no psiquismo humano e as perdas diárias, isto é, as pequenas mortes, para que enfim, o homem entenda o que é chamado de “a perda maior” (CARVALHO ET AL, 2006).
A Tanatologia refere-se também à parte da medicina legal que se ocupa da morte e dos problemas médico-legais com ela relacionados, sendo conhecida como tanatologia forense. Nesse contexto analisa o exame do local, da informação acerca das circunstâncias da morte, atendendo dados do exame necrópsico tais como identificação do cadáver, mecanismo, causa da morte e diagnóstico diferencial médico-legal (acidente, suicídio, homicídio).
A morte poder-se-á definir como a cessação total e permanente das funções vitais. Alguns autores afirmam que não é um momento, é um processo que se vai desenrolar ao longo do tempo.
A morte também é vista como um fenômeno impregnado de valores e significados dependentes do contexto sociocultural e histórico em que se manifesta.
Do ponto de vista biológico, tanto a morte quanto o nascimento são dois fenômenos naturais, mas para o ser humano que tem o dom de imprimir valores e significados, a morte acaba por se constituir em algo negativo. Para o homem ocidental moderno, a morte passou a ser sinônimo de fracasso,
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impotência e vergonha. Tenta-se vencê-la a qualquer custo e, quando tal êxito não é atingido, ela é escondida e negada (CARVALHO ET AL, 2006).
De acordo com vários autores, existem cinco fases pelas quais passa um paciente terminal, não havendo necessariamente uma ordem para ocorrência dessas manifestações, podendo até mesmo vivenciar mais de uma fase, concomitantemente, ou num mesmo período ou até mesmo não vivenciar algumas delas (KUBLER-ROSS,2005).
A negação pode ser uma defesa temporária ou, em alguns casos, pode sustentar-se até o fim. O paciente desconfia de troca de exames ou competência da equipe de saúde. Geralmente o pensamento que traduz essa defesa é: “não, eu não, é verdade”.
A raiva é a fase na qual surgem sentimentos de ira, revolta, e ressentimento: “por que eu?”. Torna-se mais difícil lidar com o paciente, pois a raiva se propaga em todas as direções, projetando-se no ambiente, muitas vezes, sem “razão plausível”.
Já na barganha o doente faz promessas por um prolongamento da vida ou alguns dias sem dor ou males físicos. As barganhas são feitas com Deus, na maioria das vezes e, psicologicamente, podem estar associadas a uma culpa recôndita.
A depressão pode evidenciar seu alheamento ou estoicismo, com um sentimento de grande perda. As dificuldades do tratamento e hospitalização prolongados aumentam a tristeza que, aliada a outros sentimentos, ocasionam a depressão.
A aceitação é aquela fase em que o paciente passa a aceitar a sua situação e seu destino. É o período em que a família pode precisar de ajuda, compreensão e apoio, à medida que o paciente encontra uma certa paz e o círculo de interesse diminui. No entanto, há pacientes que mantém o conflito com a morte, sem atingir esse estágio.
Estas fases são como mecanismos de defesa para enfrentar o processo desconhecido do morrer, em que os conflitos de ordem emocional, material,
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psicológica, familiar, social, espiritual, entre outros, surgem de forma acentuada, afetando diretamente o relacionamento com a equipe de saúde.
É também relevante o aspecto emocional dos profissionais de saúde, pois esses também criam mecanismos de defesa que os auxiliam no enfrentamento da morte e do processo de morrer. Por serem preparados para a manutenção da vida, a morte e o morrer, em seu cotidiano, suscitam sentimentos de frustração, tristeza, perda, impotência, estresse e culpa. Em geral, o despreparo leva o profissional a afastar-se da situação.
Nesse contexto de estágio terminal, a Enfermagem deve estabelecer uma comunicação mais estreita com o paciente e sua família, a partir da relação do cuidado, uma vez que desenvolveu habilidades e competências para o desempenho de sua função.
A comunicação se manifesta na relação paciente-equipe de saúde de diversas formas, podendo ser verbalizada ou não. O enfermeiro deve saber relacionar-se e trabalhar com a comunicação não verbal, em que palavras são, às vezes, substituídas pelo comportamento e atitudes que revelam a vivência do paciente; outras vezes, complementadas pelo comportamento e, outras vezes, contraditas.
A comunicação não verbal ocorre na interação pessoa-pessoa e caracteriza-se pela transmissão da informação por meio de gestos, posturas, expressão facial, orientações do corpo, entre outras particularidades. A comunicação com pacientes fora de possibilidades terapêuticas geralmente está prejudicada devido às reações emocionais abruptas deste período, bem como ponto visível do fim da estada (PY; OLIVEIRA, 2007).
Trabalhar com envelhecimento e morte é pôr-se, sobretudo, em estado de escuta e disponibilidade, muito para além do discurso e método científicos.
É o ofício de um encontro pessoal à luz da solidariedade incondicional com
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alguém que tem nome e história, que se dá a ver por meio da precariedade de um corpo decadente, mas fortemente significativo, que manifesta por detrás de sua aparência, uma história de desejos e sonhos, angústias e temores.
Portanto, precisamos e devemos escutar os mistérios de uma vida que se vai definhando. É prática o respeito ao outro, como exigência incondicional da bioética e fundamento da dignidade. Trabalhar com a morte não é mera assistência a um paciente terminal. É um imperativo bioético de inserir-se na vida do outro. É comprometer-se com o corpo de alguém que definha (ALVES, 1982).
A pós-modernidade pauta-se no tempo como grande controladora do amanhã. A ilusão de infinitude, endossada pelos avanços biomédicos e pela indústria da eterna juventude tenta conter angústia da incerteza, e a morte, apesar de certa, não nos dá tantos avisos quanto gostaríamos. O “morrer” sofre com a pressa moderna, já que os rituais em tomo da morte estão empobrecidos, simbolicamente, evitando-se cada vez mais um contato profundo com essa fase da vida. Em consequência, a morte deixa de ser um
“ato social”, partilhado pela comunidade - como foi durante séculos – passando para o âmbito privado, algo a ser vivenciado solitariamente.
Por outro lado, não gostamos e não queremos falar sobre a morte.
Convivemos, diariamente com a morte, porém com o falecimento do outro.
Sempre que falamos dela, nos referimos à terceira pessoa, a colocamos distante de nós. Quando algum ente querido morre, tal fenômeno altera a estrutura da pessoa que sofre a perda e por isso, sentimentos angustiantes brotam, chegando até mesmo a manifestações fenomênicas como o choro. No entanto, não se pensa na morte em primeira pessoa e quando falamos sobre o assunto é do outro, do morto (MARTINS, 2008).
No contexto social, a morte é algo incompreensível e inaceitável, pois vivemos em meio a uma supervalorização dos bens temporais, assim como materiais, e morrendo, não se pode usufruir mais as oportunidades e recursos oferecidos pela sociedade tecnológica e consumista (MARTINS, 2008).
Quando falamos sobre o idoso, a velhice não pode ser considerada isoladamente, sem que seja abrangida a ideia de morte. É parte obrigatória da
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velhice o fato de nessa fase da vida convivermos com o signo da morte, em sua reta de chegada. Na segunda metade da vida tomamo-nos cada vez mais conscientes dos nossos limites temporais, o que uma vez mais, pode ser vivenciado de modos muito diversos pelo indivíduo.
Na cultura ocidental é característico que a morte seja excluída dos nossos pensamentos pelo tempo mais longo possível. Essa timidez que receia incluir a ideia de morte em nossas vidas pode aumentar o medo inconsciente.
Acabamos, assim, nos comportando de maneira infantil-mágica.
Queremos que nada nos lembre da morte e o morrer (BALDESSIN, 2007).
A exemplo do que acontece com qualquer doente quando fala da morte e os que o cercam tentam minimizar a questão, o que faz instaurar-se uma atmosfera de insinceridade e segredo de ambas as partes. O doente suspeita que lhe escondam algo e teme que sua situação seja pior do que imagina, os que o cercam tentam ainda com mais empenho provar o contrário (BALDESSIN, 2007).
O sociólogo Norbert Elias refere que os idosos foram, durante as últimas décadas do século XX, vistos como representantes vivos da morte. Por esse motivo, sua exclusão servia à sociedade pela insuportável possibilidade de contato com a finitude. Atualmente, com o aumento da expectativa de vida, a chamada terceira idade, não mais é associada diretamente à ideia de morte, portanto abriu-se um campo de possibilidades mais inclusivas a esse setor, mas que ainda funcionam dentro da lógica de negação da morte. A morte deve representar à vida uma possibilidade de tomada de consciência de nosso processo existencial e não o marcador do fim da linha. Deve ser uma aliada e não uma adversária (FRANCO, 2007).
O processo de morrer é parte integrante de nossa vida desde o momento em que nascemos.
Teoricamente, o idoso pode ser considerado uma pessoa que está mais próximo da morte e passar pelas fases descritas por Kubler-Ross (1979), que são: negação, revolta, barganha, depressão e aceitação, fases típicas de pacientes que caminham para o fim da vida. Conhecendo estas fases, é possível entender melhor e ajudar o idoso.
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Normalmente, a grande dificuldade que encontramos com um idoso que enfrenta o processo de morte e morrer é como ajudá-Ia?
Um primeiro ponto no acompanhamento do idoso é, sem dúvida, a solidariedade da presença.
Quando alguém é solidário, o idoso sente que possui algum valor. Ao sentir-se acolhido, em geral, ele conta histórias...
Ao contar suas histórias, relata fatos que fizeram parte de sua vida.
Pode nem estar consciente disso e, certamente, nem usa vocabulários elevados, mas fala como de algo sagrado e defende a sua história como cristal límpido.
Portanto, é essencial uma presença amiga dedicada a ouvir, entender e interpretar corretamente, o que os idosos podem, eventualmente, desejar exprimir, direta ou indiretamente, a respeito da sua experiência anterior, de seus pressentimentos de morte, preocupações com relação ao meio familiar ou a negócios que se vê na obrigação de deixar.
Nesse aspecto é importante estarmos disponíveis ao idoso sem nenhuma interferência.
Demonstrar que o medo, a dor e o sofrimento não são certos ou errados.
Nem a morte para ele é boa ou ruim. Porém, tudo existe. Com uma atitude receptiva, podemos sentir melhor as necessidades da pessoa que está vivendo uma grande mudança. Devemos ouvir, ver e tocar. Assim sendo, resgatamos a identidade e a valorização dos idosos, assim como os compreendemos nessa fase da vida (BALDESSIN, 2007).
Cabe ressaltar que os idosos nos falam da vida e da morte, do tempo e da eternidade, do vigor e da fraqueza. Do plantar e do colher, da grandeza e da limitação do humano.
E a nós cabe estar ao lado deles, para que se sintam amparados no processo de viver e morrer com dignidade.
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