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CAPÍTULO 2. A Mulher e as Drogas: a perspectiva do desvio e as interfaces com a saúde

2.2 A Mulher no estigma da desviância e as interfaces com a saúde pública

O fato de mulheres estarem presentes nos contextos de usos de drogas, antes tido

como majoritariamente masculino, abriga a complexidade do meio social e nos faz refletir

mudanças nas relações intersubjetivas entre os gêneros e no papel da mulher na sociedade

contemporânea.

Acreditava-se que os homens eram mais propícios ao abuso de drogas, principalmente

devido a aspectos sociais e culturais que associam o sexo masculino com a virilidade, o desejo

de sentir prazer com comportamentos de risco, violência e transgressão, e por isso, uma

demonstração de masculinidade em algumas sociedades (Medeiros et. al, 2015). Tais

suposições apareciam vinculadas a produções discursivas que reforçam o imaginário social

das habilidades masculinas para práticas que garantiam maior acesso às drogas, e por outro

lado, estimularam determinadas práticas para as mulheres, como exemplo, o espaço

doméstico como prioridade e os cuidados do lar, do marido e a maternidade, e com isso,

reforçando a imagem de fragilidade e docilidade acerca do feminino. Isso talvez explique o

porquê das mulheres consumirem menos drogas do que os homens ou de começarem ou não a

usar substâncias.

As aproximações dos papéis sociais de homens e mulheres têm sido apontadas pela

literatura como um dos fatores do aumento de mulheres que consomem drogas (Zilberman,

2003). No entanto, atualmente, ainda que a visibilidade social do feminino nesse contexto seja

notória, se comparado a outros períodos na história, a imagem de mulher “drogada” é vista

com ressalvas pela sociedade.

Apesar de todas as conquistas das mulheres por direitos e espaços no meio social,

tornando-se donas de seus corpos e gerentes de seus comportamentos, o fenômeno das drogas

parece ser ainda um terreno minado por construções de gênero que deflagram hierarquias de

poder (Brasiliano, 2001; Hocgraf & Andrade, 2006). A condenação social da mulher que usa

drogas simbolizaria a submissão destas, sendo um modo de controle de seu corpo e seus

comportamentos. Esse julgamento social rígido estaria relacionado com os efeitos

indesejáveis socialmente que poderia resultar da intoxicação, como por exemplo, o apetite

sexual aumentado ou diminuído e uma maior vulnerabilidade para o abuso sexual (Brasiliano

& Bucaretchi, 2006; Yamaguchi et al. 2008).

A mulher ao ser marcada pelos seus papéis sociais historicamente constituídos, como a

imagem da mãe, dona de casa, esposa, e o estigma da docilidade e fragilidade, carrega

consigo uma carga muito grande, caracterizada por cobranças e imposições sociais,

mascarando a questão da dependência de drogas enquanto um problema de ordem moral e

configurando-a enquanto um espaço de produção de discriminação de gênero e da

vulnerabilização.

Sobre este aspecto, algumas pesquisas têm se dedicado a analisar o impacto dessa

construção na representação da mulher usuária de drogas na sociedade. Cruz (2012) em seu

estudo relata que as usuárias se vêem rotuladas pela sociedade enquanto mulher “sem valor”,

“prostituta” e “irresponsável’, sofrendo com situações de preconceito e exclusão social.

Medeiros et al. (2015) e Medeiros, Maciel e Sousa (2017) também evidenciaram que a figura

da mulher usuária é vista como um problema de ordem moral, ocasionando uma

representação depreciativa ligada sobretudo ao abandono ou afastamento das funções

femininas. Esses dados também coincidem com a literatura internacional em estudo realizado

por Bungay et al. (2010), onde ressaltam usuárias vivendo em precárias condições,

apresentando envolvimento com o trabalho sexual e menos apoiadas pela divulgação de

serviços de saúde.

Esse processo de invisibilidade das mulheres nesse contexto força a adequação destas

aos modelos tipicamente masculinos, de modo que o problema das drogas tem sido enfocado

pelos homens e para os homens, gerando maior ocultação sobre as questões da mulher e da

dependência química feminina. A proposta de construir políticas públicas dirigidas

especificamente às mulheres usuárias de drogas como forma de possibilitar o processo de

equidade nas relações de gênero é recente em diversos países (Luchese & Aguiar, 2002).

A ausência da mulher, na agenda política, principalmente das ações voltadas para as

políticas sobre drogas destinadas ao gênero feminino, enseja preocupação, visto que a

seletividade negativa contribui para uma sociedade punitiva que reproduz hierarquias sociais,

ou seja, fazendo com que se endosse o preconceito frente à mulher usuária de drogas no

cenário público, constituindo a interface negativa do processo de exclusão social.

O foco do gênero na questão das drogas constitui um fenômeno social que tem

interfaces com a saúde pública, pois configura com uma contradição na vida das mulheres

gerando tensão e resultando em processos destrutivos do seu processo saúde-doença. Assim, a

luta pela ampliação dos espaços de liberdade e de produção social da vida das mulheres deve

ter como eixo norteador uma ruptura com a tradição do modelo de assistência hegemônico, de

modo que a superação dessa realidade implica em transformações e enfrentamento nos planos

políticos, ideológicos, técnicos, culturais e sociais (Ferreira, 2013; Medeiros et al., 2015).

A contínua força do “ideal de feminilidade” permanece como tributo intocável,

protegido por um discurso de uma suposta valorização da mulher através dos aspectos

maternos e de cuidadora. Ao adentrar no contexto de uso de abusivo de drogas, a sociedade

encara as mulheres como se estas tivessem fracassado no seu papel feminino. Essa mulher é

vista então como um duplo desvio, seja pelo descumprimento das funções

maternos-familiares, seja pelo envolvimento com comportamentos considerados transgressores, como a

questão do uso e do abuso de drogas.

Posto isso, neste estudo, pretende-se trabalhar com o conceito de “desvio”, visto que

este se torna muito útil para se compreender como a sociedade, especialmente em países

ocidentais, atribuiu valor negativo ao consumo de drogas e, notadamente, às mulheres

usuárias. Faz-se útil também para entendermos o cenário de desigualdades enfrentadas pelas

usuárias de drogas, problematizar os eixos constitutivos do preconceito e os fatores

explicativos da exclusão social destas mulheres.

CAPÍTULO. 3

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Estereótipos de Gênero, Preconceito e suas implicações no

processo de Exclusão Social enfrentada pelas Usuárias de

Drogas

CAPÍTULO 3. Estereótipos de gênero, Preconceito e suas implicações no processo de