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CAPÍTULO 2. A Mulher e as Drogas: a perspectiva do desvio e as interfaces com a saúde

2.1 A Mulher e o uso de drogas enquanto comportamento transgressor

A construção social do “problema” da droga é relativamente novo no curso da

humanidade, isto porque as substâncias nem sempre despertaram representações vinculadas a

malefícios ou à ilegalidade, tanto para homens quanto para mulheres (Bucher, 1992; Nunes &

Jólluskin, 2007; Toscano Jr., 2001). Considerando o caráter mutável das motivações e

finalidades do uso de drogas e influenciado por fatores culturais e sociais, o consumo de

substâncias passou de um contexto socialmente aceito com implicações ritualísticas,

medicinais, recreativas e controlado através de regras informais, para assumir a configuração

de uma “epidemia” que assola a vida em comunidade (Escohotado, 2004).

Tendo em mente o cenário atual de consumo de substâncias, a definição do que seja

droga não é uma tarefa fácil, sendo explorada por diversas áreas do conhecimento, cada qual

tendo uma visão distinta sobre o tema. Para a Organização Mundial de Saúde (2001), droga é

qualquer substância capaz de modificar a função dos organismos vivos, resultando em

mudanças fisiológicas ou de comportamento e, ancorado nisso, postula que o consumo de

drogas é um sério agravante na vida das pessoas (Pratta & Santos, 2009). Sob essa lógica,

consumir abusivamente drogas, tornou-se um fenômeno compreendido sob a insígnia de

problema de saúde pública, ou seja, um fenômeno sobre o qual algo deve-se fazer para

controlar tal “epidemia” (Barroso, 2013). Esta conceituação contribuiu para que recaísse sobre

a questão das drogas, a conotação de doença “perigosa” ou mal indesejável pelas sociedades.

Outros conceitos que ultrapassaram o âmbito da saúde também foram empreendidos

sobre a questão das drogas. O Estado, por meio do aparelho jurídico, o qual aciona aspectos

políticos, econômicos e ideológicos envoltos à oferta, produção e comercialização das

substâncias, assume a função de normatizar e legitimar a permissividade de algumas

substâncias consideradas lícitas, em detrimento da proibição e criminalização de outras,

recebendo o caráter de ilicitude, como reporta Trad (2009).

Cabe acrescentar que o Estado tem um importante papel na atribuição do que a

sociedade julga como “certo” ou “errado” para cada realidade social e cultural. No contexto

brasileiro, o entendimento acerca do uso de drogas se deve em grande medida pelas leis que

regem a questão das drogas no país. Umas das primeiras legislações, conhecida como lei de

entorpecentes, a Lei Federal nº 6.368/1976, considerava o usuário enquanto criminoso ou

traficante. Atualmente, concebe-se uma diferença entre “usuário” e “traficante”, e esta

diferenciação é regulamentada pela Lei Federal 11.343/2006 (Brasil, 2006), onde o usuário

passa a ser considerado “doente” por causa da dependência desencadeada pela doença e/ou

por problemas psíquicos; já o traficante, recebe a denominação de “criminoso”, que deve ser

autuado por suas ações malevolentes relativas aos lucros obtidos com a venda ilegal da

substâncias (Passos & Souza, 2011).

Portanto, ora por fatores de saúde ora por questões judiciais, para Mota (2008), o

usuário de drogas é visto como um agente que produz contínua desagregação à ordem social

com significativas repercussões, especialmente, a nível familiar. Ainda segundo o autor, o uso

de drogas afastaria os jovens do convívio escolar, da religião, do mercado de trabalho e é

improdutivo segundo a lógica do capital; além disso, para o contexto feminino, a dependência

de drogas é uma ameaça concreta aos valores do modelo de feminilidade maternal-familiar.

Essa perspectiva que encara o consumo de drogas enquanto rompimento com os

obstáculos impostos pelo controle social foi inaugurada no campo da sociologia, sobretudo,

pelos estudos desencadeados pela Escola de Chicago sobre a Teoria Interacionista do desvio e

a questão do uso de drogas e seus usuários, proposta pelo sociólogo norte-americano Howard

Becker. Em sua obra clássica Outsiders, publicada em 1960, o autor enfatizava a

compreensão das dinâmicas de “coesão social” e da naturalização das regras para a produção

social das mesmas e os processos de imposição de rótulos sobre os que são designados como

desviantes. O autor também propôs deslocamentos da ideia essencializada de "crime" para o

termo “desvio”, que supõe uma relação social; do foco no indivíduo para o foco nas relações,

que são produtoras de regras e exigem seu cumprimento (Moura, 2009).

Segundo Becker (2008), regras, desvios e rótulos são sempre construídos em

processos políticos, nos quais alguns grupos conseguem impor seus pontos de vista como

mais legítimos que outros. O desvio, nesse sentido, é visto como “produto de uma transação

que tem lugar entre algum grupo social e alguém que é visto por esse grupo como infrator de

uma regra” (p. 22).

Considerando os padrões de comportamento desviante a partir da noção de que grupos

sociais estabelecem o que é considerado infração às regras, Becker (2008), realizou seus

estudos com usuários de maconha e músicos com ênfase no desenvolvimento de práticas,

valores e identidades, voltando-se a sua atenção para os processos de imposição de regras e

institucionalização dos outsiders ou grupos desviantes.

Outro notável teórico na área das Ciências Humanas e Sociais na década de 1960 e

que contribuiu no avanço da discussão sobre grupos desviantes foi o sociólogo Erving

Goffman, o qual desenvolveu importantes estudos de campo em instituições psiquiátricas,

refletindo sobre a formação dos estigmas sociais e a identidade social dos internados. O autor

faz uma reflexão simbólica do estigma enquanto “marca” ou atributo indesejável, constituído

e imposto por uma sociedade que estabelece um modelo de categorias e tenta catalogar as

pessoas conforme os atributos considerados comuns e naturais pelos membros dessa

categoria.

Para Goffman (1993), o estigma, inicialmente se referia à marca de uma queimadura

na pele ou ainda um corte no corpo e significava algo indesejável para o convívio social;

podendo fazer referência à categoria de escravos ou criminosos, um rito de desonra. Tal

marca era concebida enquanto uma advertência ou um sinal para se evitar contatos íntimos no

contexto particular e, principalmente, nas relações institucionais de caráter público,

comprometendo as relações nos espaços sociais. Na época do cristianismo, havia um

significado metafórico para as marcas corporais, em que os sinais significavam “bênção

divina” expressa através da pele; nessa época tais sinais podiam fazer referência à medicina,

aludindo a alterações físicas nas pessoas. Já na atualidade, estas marcas ou sinais ganharam

toda uma envoltura social em sua gênese, passando a referir-se “estigmas”, que representa

algo ruim, que deve ser evitado, uma ameaça à sociedade, isto é, uma identidade deteriorada

por uma ação social. O estigma é, portanto, um atributo que produz ampla desvalorização na

vida do sujeito, sendo interpretado em situações extremas como "defeito", "falha" ou

desvantagem em relação ao outro.

Para os estigmatizados, acrescenta Goffman (1993), a sociedade atua enquanto um

agente perverso, reduzindo as oportunidades, esforços e movimentos, não atribui valor,

impondo a perda da identidade social e por determinar uma imagem deteriorada, de acordo

com o modelo que convém à sociedade. O diferente passa a assumir a categoria de "nocivo",

"incapaz", fora do parâmetro que a sociedade toma como padrão, levando à rejeição, levando

também à perda da confiança em si e reforça o caráter simbólico da representação social

segundo a qual os sujeitos estigmatizados são considerados incapazes e prejudiciais à

interação sadia na comunidade. No campo da saúde e, notadamente, na área de dependência

de drogas, esse estigma social fortalece o imaginário social da doença e do "irrecuperável",

influenciando direta ou indiretamente no tratamento e na qualidade de vida das pessoas com

tal condição de saúde (Ronzani & Furtado, 2010).

Outro salto teórico nas Ciências Sociais ocorre nos anos 1970 a partir de alguns

antropólogos brasileiros, um deles é o estudioso Gilberto Velho, que reconheceu a influência

de Becker e Goffman, da Escola de Chicago, e avançou nas discussões sobre a análise do

cotidiano e das relações interpessoais a partir de pesquisas com ênfase interdisciplinar –

indivíduo e sociedade.

Velho (2002) também apostou em uma crítica à patologia social através da discussão

sobre o desvio na sociedade, enfatizando que o rótulo da “inadaptação” desconsidera padrões

e regularidades existentes, de leituras particulares sobre a vida e simplifica o entendimento da

realidade a partir da ideologia de um grupo de indivíduos – o grupo dominante. Para o autor, o

desviante é um indivíduo que faz uma “leitura” divergente dentro da sua cultura, sendo

considerado “anormal” em uma área de comportamento, mas podendo ser considerado

“normal” em outras áreas. A contribuição da análise feita por Velho (2002) para as Ciências

Sociais é de que através do “comportamento desviante” devem ser percebidos aspectos da

lógica do sistema sociocultural. A ênfase de análise é do “desvio” como categoria moral.

Nesta perspectiva, entendendo o uso de drogas por mulheres enquanto um

comportamento diferente do que é esperado para o feminino, desvio da norma social vigente,

as mulheres usuárias de drogas seriam consideradas desviantes por efetivarem o uso de

substâncias psicoativas na contramão do que proclamam as regras sociais atuais - sendo

considerado um sintoma de deficiência na saúde mental, uma vez que esta rotulação leva em

consideração o fato de que tais substâncias têm potencial para interferir na estabilidade, e

dessa forma, na funcionalidade da sociedade. Logo, essa concepção compreende que as

usuárias de drogas ameaçam os pontos de estabilidade social, e por isso são consideradas

outsiders, ou seja, aqueles que se desviam das regras estabelecidas pelos grupos.

Vargas (2011) acrescenta a essa discussão afirmando que, ao não permitir esses

comportamentos “divergentes”, essa mesma norma social acaba gerando uma

homogeneização ou “valas sociais”, destinando um lugar para a anormalidade existente no

funcionamento da sociedade. Ao nomear as mulheres que usam drogas, ou enquadrá-las na

categoria de “drogadas” ou “noiadas”, é dado um lugar para elas dentro dessa ordem, algo

similar a um “depósito”, não apenas de muros ou celas, mas mais caracterizado pela

segregação ancorada em concepções teóricas as quais não aceitam os divergentes.

Do ponto de vista social, essa vala comum, destinada às mulheres que fazem uso

abusivo de drogas, gera um perverso efeito – o preconceito – nos termos que se foi legado

pela lógica social e que está impregnado no pensamento da coletividade. Aliado a essa

perspectiva, verifica-se na sociedade atual a cultura do medo oriunda da violência, a qual

associa-se às drogas uma relação quase “simbiótica”, conduzindo a proliferação de sensações

sociais de perigo, vinculadas, sobretudo, pela mídia. Essa situação conduz a disseminação de

sentimento de distância social aos grupos minoritários (desviantes) os quais a sociedade

associa como responsáveis por essa onda de violência. Insere-se neste contexto os usuários de

drogas como verdadeiros bodes-expiatórios da atualidade.

Alguns estudiosos têm demonstrado que assim como outros grupos tidos como

minoritários, como os portadores de sofrimento mental, por exemplo, os usuários de drogas

também são alvos de representações distorcidas, crenças e estereótipos negativos e atos

discriminatórios que os excluem, especialmente, do direito ao cuidado e à saúde (Corrigan,

Watson & Barr, 2006; Fortney, et al. 2005; Kulesza, Larimer & Rao, 2013). São comumente

vistos como perigosos, violentos e culpabilizados moralmente pela sua condição (Ronzani,

Noto & Silveira, 2014). Esta condenação social está relacionada, principalmente, a

comportamentos indesejáveis e a ligação do uso de drogas ao aumento da violência e da

criminalidade (Santos, Aciole Neto & Souza, 2012). Sob esta perspectiva, estariam as

mulheres usuárias de drogas na categoria de “desviantes” ou desacreditáveis, ou seja,

indivíduos que são sempre vistos com desconfiança, e por isso, evitados socialmente.

Considerando o impacto negativo na saúde que atitudes de inferiorização e

desvalorização social podem ocasionar na vida dos indivíduos (Link & Phelan, 2006;

Corrigan, 2005; Maciel et al, 2008), alguns autores tem enfatizado o estudo acerca do

processo de estereotipagem do grupo de usuários de drogas. Schomerus et al. (2011) a partir

de um estudo de revisão sistemática de literatura com artigos de pesquisas populacionais

publicados até 2010, examinou aspectos relacionados ao estigma do alcoolismo e

simultaneamente de outras condições mentais, médicas ou sociais na Europa, América do

Norte, Nova Zelândia, Brasil e Etiópia. Os resultados apontaram que em comparação com as

pessoas que sofrem de outros distúrbios mentais não relacionados com substâncias, as pessoas

dependentes do álcool frequentemente são mais responsabilizadas por sua condição.

Observou-se ainda que despertam mais rejeições sociais e emoções negativas; somente em

relação a questão da periculosidade, os alcoolistas são percebidos da mesma forma, ou em

menor grau do que as pessoas que sofrem de esquizofrenia.

Outro estudo realizado por Gomide et al. (2010) utilizando amostra de profissionais de

saúde de nível superior e técnico no Brasil (N=183), relatou que os participantes apresentaram

níveis altos significativos de estigmatização contra alcoolistas. Outro dado relevante desse

estudo é a diferença significativa em relação ao nível de escolaridade dos participantes, onde

os profissionais de nível técnico apresentaram maior estigmatização com relação aos

alcoolistas, do que os profissionais de nível de escolaridade superior. Outros teóricos também

apontam a estigmatização dos usuários de drogas por parte dos profissionais da saúde,

relatando também falta de preparo e dificuldade para lidar com o tema, assim como a

percepção de culpa do usuário sobre usa condição(Laport et al., 2016; Oliveira & Ronzani,

2012; Ronzani, Higgins-Bidd, & Furtado, 2009).

Sobre a percepção de atribuição de responsabilidade imputada aos usuários de drogas,

Martins et al., (2010) ao conduzir um estudo com universitários dos cursos de Enfermagem,

Medicina, Psicologia e Serviço Social (N=138), observou que a dependência de maconha e

cocaína foram vistos como de maior responsabilidade dos indivíduos e sob seu controle, do

que outras condições de saúde como a SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida),

obtendo as médias de 94,04% e 39,5% respectivamente. Sobre esse aspecto, Corrigan et al.,

(2005) acrescenta que é mais provável que um grupo moralizado seja evitado em seu convívio

social ou mesmo não receba ajuda quando necessário.

Considerando o cenário de pesquisas abordando a temática de gênero no contexto das

drogas é notório tamanha escassez de dados publicados. O que se sabe, sobre as mulheres

usuárias de drogas enquanto membros de um grupo socialmente desvalorizado, é visualizado

em grande medida pela mídia, tendo em conta o papel de propagação de informações e ideias.

Cabe destacar que tal protagonismo midiático está a serviço dos aparelhos normatizadores e

ideológicos do Estado. Tem-se diariamente as discussões sobre as drogas em cenários que ora

engendram do senso comum, ora em discursos científicos que situam as drogas como

problemas de segurança pública na esfera da justiça ora no âmbito da saúde pública (Santos,

Aciole Neto & Sousa, 2012). Em todos estes debates, percebe-se uma motivação ideológica

de situar a dependência química no plano individual, esquivando-se de debates que envolvam

aspectos sociais relacionados ao tema, contribuindo para uma culpabilização da mulher

usuária pela sua condição.

No campo da saúde mental, percorreu-se um longo caminho de reforma das práticas de

tratamento dos transtornos mentais (Maciel, 2012; Maciel et al, 2009), área em que é inserida

a abordagem de tratamento dos problemas decorrentes do abuso de substâncias. Contudo,

apesar dos avanços observados a partir do lançamento da Política de Atenção Integral a

Usuários de Álcool e outras Drogas (Brasil, 2004), historicamente, as práticas de cuidado à

saúde, dirigidas a esta população, oscilaram entre os cuidados de caráter religioso ou de

modelos hospitalocêntricos, não garantindo a efetividade e resolutividade no cuidado dessas

pessoas, reforçando o modelo excludente e segregador na sociedade, como ressalta Alves

(2009).

Há, portanto, uma variedade de motivos que levam à desvalorização de grupos sociais,

e em especial, que favoreçam a representação depreciativa acerca dos membros do grupo de

usuários de drogas, bem como a expressão do preconceito frente aos usuários, sejam estes

homens ou mulheres, idosos ou até mesmo crianças e adolescentes. No entanto, ainda que a

interpretação destes sujeitos tenha como pano de fundo a questão das drogas, as

características primárias como o gênero, especialmente, emergem contextos específicos que

moldam a interpretação que a sociedade atribui, dado o grupo de pertença.

Seguindo essa premissa, o presente trabalho pressupõe que o olhar social acerca da

mulher que consome drogas compõe um duplo desvio - seja pelo comportamento abusivo em

relação à substância, seja pelo descumprimento de padrões de comportamentos esperados para

o feminino, cuja compreensão desse fenômeno pela sociedade é feita através da desconstrução

da usuária enquanto 'mulher boa e virtuosa', abrindo espaço para a estereotipagem negativa, a

expressão de atitudes preconceituosas e ocasionando o processo de exclusão social deste

grupo social.