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A mulher no lar – Texto I: Com açúcar e com afeto(1966)

3.4 A crônica do cotidiano

4.1.1 A mulher no lar – Texto I: Com açúcar e com afeto(1966)

Apresenta-se, assim, o primeiro texto, produzido por Chico Buarque na década de sessenta, intitulado Com açúcar e com afeto.

De acordo com Homem (2009), esta canção, cujo texto passará a ser analisado, foi a primeira de inúmeras outras produzidas por Chico Buarque que tornaram uma característica da obra desse compositor tratar da temática feminina.

No texto em questão, conforme registros biográficos, o autor compôs letra e música por encomenda de Nara Leão, cantora de música popular brasileira, que, segundo o próprio Chico, gostava de cantar “músicas onde a mulher fica em casa chorosa e o marido na rua, farreando”. (HOMEM, 2009, p.38)

Com açúcar e com afeto. Chico Buarque (1966) Com açúcar, com afeto Fiz seu doce predileto Pra você parar em casa Qual o quê!

Com seu terno mais bonito Você sai, não acredito Quando diz que não se atrasa Você diz que é um operário Vai em busca do salário Pra poder me sustentar Qual o quê!

No caminho da oficina Há um bar em cada esquina Pra você comemorar Sei lá o quê

Sei que alguém vai sentar junto Você vai puxar assunto

Discutindo futebol E ficar olhando as saias

De quem vive pelas praias Coloridas pelo sol

Vem a noite e mais um copo Sei que alegre ma non troppo Você vai querer cantar Na caixinha um novo amigo Vai bater um samba antigo Pra você rememorar

Quando a noite enfim lhe cansa Você vem feito criança

Pra chorar o meu perdão Qual o quê

Diz pra eu não ficar sentida Diz que vai mudar de vida Pra agradar meu coração E ao lhe ver assim cansado Maltrapilho e maltratado Como vou me aborrecer Qual o quê

Logo vou esquentar seu prato Dou um beijo em seu retrato E abro os meus braços pra você

As representações do feminino, no texto I, produzida por Chico Buarque, serão diferenciadas a partir do contexto de linguagem, do social, do cognitivo e do contexto discursivo.

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Pelo contexto de linguagem, é possível de se reconhecer as representações do feminino por figuras de estilo e pela variedade de linguagem relativa ao uso oral de uma mulher com um nível de escolaridade médio.

Na superfície textual-discursiva buscam-se as palavras que criaram relevância em termos de organização sintático-semântica, o que leva à observação de rupturas entre verbos e complementos. Desde o início, na linearidade linguística do texto, às ações são atribuídas as circunstâncias “com açúcar” e “com afeto”. Ambas constituem locuções adverbais de modo e indicam <<o modo de fazer algo>>, ou seja, <<fazer, por uma mulher, o doce predileto de seu homem>>.

Ao se buscarem as palavras que são relevantes no texto, as quais nos levam a reformular o contexto cognitivo por exigirem inferências para a produção de sentidos, verifica-se já no título uma ruptura no paralelismo sintático-semântico, estabelecida pelo sintagma “com afeto”.

Essa expressão é retomada nos primeiros versos, indicando o modo de fazer algo, ou seja, uma circunstância à ação de fazer um doce, com a qual é possível estabelecer paralelo com o sintagma “com açúcar”, mas não com o outro, “com afeto”.

A agramaticalidade leva ao questionamento sobre o que significa fazer algo “com afeto”, no caso o doce. Há, ainda, na mesma sequência, a justificativa, a causa da ação, expressa no segmento “pra você parar em casa”. Nessa relação causa/consequência, a primeira está relacionada ao ato de fazer o doce e a segunda, ao de ele “parar em casa” = <<estar junto com ela, amorosamente, quando não estiver trabalhando>>. E para que haja a consequência, há o acréscimo da circunstância de modo como ela faz o doce – com afeto.

Na sequência, há uma expressão oral coloquial, que representa a escolaridade média da mulher representada no texto I.

Tal nível de escolaridade é representado pelas concordâncias verbais, nominais e regências prepositivas. Assim, a seleção lexical, na linearidade do texto, é apresentada pela introdução de um clichê popular: “qual o quê!” = << não é nada disso>>.

A sequenciação antitética representa, pelo contexto de linguagem do texto I, a fala irônica da mulher:

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Qual o quê!

...

Fiz seu doce predileto X Com o seu terno mais bonito Pra você parar em casa Você sai

Você diz que é operário Com o terno mais bonito Você diz que não se atrasa Você sai

Vai em busca do salário Pra poder me sustentar

Com o seu terno mais bonito No caminho da oficina

Você diz que é operário Há um bar em cada esquina

Vai em busca do salário Pra você comemorar Pra poder me sustentar

... Sei lá o que

Há um bar em cada esquina Quando a noite enfim lhe cansa Pra você comemorar sei lá o que Você vem feito criança

Pra chorar o meu perdão

Sei que alguém vai sentar junto

Vai puxar assunto (...)

E ficar olhando as saias (de mulheres nas praias) Vem a noite mais um copo(...)

Você vai querer cantar (...) Vai bater um samba antigo (...) ... Qual o que!

Diz pra eu não ficar sentida Ao lhe ver assim cansado

Diz que vai mudar de vida Maltrapilho e maltratado

Pra agradar meu coração Como vou me aborrecer

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Qual o que!

Logo vou esquentar seu prato Dou um beijo em seu retrato E abro meus braços para você

Observa-se que a seleção lexical para representar o masculino expressa verbos de ação com sujeito deliberador, que age guiado por seus interesses e desejos, sendo livre para realizar as suas ações.

Já a seleção lexical para representar o feminino é de verbos de emoção : “fiz seu doce predileto pra você parar em casa”; “pra poder me sustentar”; “pra chorar o meu perdão”; “pra eu não ficar sentida”; “pra agradar o meu coração”; “como vou me aborrecer”.

Os verbos de ação que representam o feminino como sujeito agente indicam ações guiadas pelos sentimentos do amor e do perdão: “com açúcar e com afeto fiz seu doce predileto pra você parar em casa”; “vou esquentar seu prato”, “dou um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você”.

O contexto de linguagem orienta o interlocutor à construção opinativa de Chico que representa, avaliativavemnte, a submissão da mulher ao homem, ficando restrita ao espaço doméstico e escrava do seu próprio amor e da aceitação dos desejos e interesses masculinos.

b. Contexto Social

O texto representa o contexto social de um grupo de operários que buscam o seu salário fora de casa para poder dar sustento à companheira.

O contexto social representa também o típico malandro carioca, que é agente de sua própria vontade, tendo, assim, dois tipos de atividades sociais: com certa pobreza no ambiente familiar e com certo poder aquisitivo em ambiente extrafamiliar.

Nesse contexto social, o feminino é representado, avaliativamente, pela obediência e pela necessidade de satisfazer o parceiro, apesar do abandono. O masculino é representado pelo poder masculino de tomar decisões e ludibriar a parceira para continuar a agir conforme seus interesses.

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c. Contexto Cognitivo

De acordo com as cognições sociais dos grupos sociais em que as pessoas são salariadas, os papéis representados são:

-Fora do lar – a representação do masculino: patrão/empregado; pagador/recebedor.

- dentro do lar: (masculino) provedor/ (feminino) provida.

As avaliações culturais atribuem valor positivo ao provedor, operário que não se atrasa e vai em busca do salário para sustentar a família. Atribuem também valor positivo à provida que fica circunscrita ao espaço doméstico, obediente e prestativa ao poder masculino.

Há, ainda, o valor positivo atribuído ao malandro, pelo papel de ludibriador (masculino)/ludibriada(feminino),

d. Contexto Discursivo

Por se tratar do gênero textual-discursivo crônica, toda representação em língua é permeada pelo fio condutor opinativo. O autor exprime implicitamente uma opinião negativa à conduta feminina e à descrição dos papéis representados por ela em sociedade.

A conduta criticada pelo cronista é a da mulher submissa, que se restringe a cuidar dos afazeres domésticos e do bem-estar do marido, assumindo o papel de esposa e o de dona-de-casa, e com eles se satisfaz (o que é objeto de crítica do autor).