Problema de investigação
Capítulo 1. Considerações teóricometodológicas
1.3 A multidimensionalidade dos processos socioespaciais.socioespaciais
1.3 A multidimensionalidade dos processos
Entendemos também que o poder não opera como mera coerção — nem muito menos violência direta, embora por vezes seja o caso —, senão que funciona também através de uma dimensão simbólica que contribui à naturalização das posições e dos resultados de cada um dos atores envolvidos. O poder, mais do que permitir que A consiga que B faça uma coisa que não quer fazer de outro modo, consiste no que A e B fazem normalmente (SUM; JESSOP, 2013). Assim, por exemplo, entendemos que as formas como o agronegócio consegue legitimar suas atividades têm muito a ver com uma capacidade de sedução e estabelecimento das pautas do desenvolvimento territorial como naturais, como doxa, que são assimiladas pela população, inclusive às vezes pelos próprios camponeses, sem questionamento.
Esta capacidade é por sua vez reflexo da própria hegemonia do agronegócio e de sua capacidade de produzir efeitos de Estado.
Teorizando as relações socioespaciais.
A ampla diferenciação entre áreas e lugares, apresentada pelo desenvolvimento espacial desigual do capitalismo tardio, tem estimulado um extenso debate sobre as formas de entender o neoliberalismo e os processos de neoliberalização. Esta pesquisa parte da compreensão desta diferenciação a partir das formulações do neoliberalismo variegado fornecidas por Peck e Theodore (2007), e por Brenner e Peck (2010). A virtude desta perspectiva é que permite compreender as formas como os processos de neoliberalização se ancoram numa variedade de formas institucionais e contextos espaçotemporais. No entanto, esta variedade não impede que certos elementos sejam comuns aos processos de neoliberalização, tais como o favorecimento das políticas a favor do mercado, os direitos de propriedade, os critérios de otimização econômica e os processos de mercantilização das relações sociais. Para estes autores, a reprodução dos processos de neoliberalização do desenvolvimento espacial desigual considera o espaço em diversos sentidos: 1) os padrões de diferenciação espacial no capitalismo resultam de sua tensão intrínseca entre superar o espaço e a organização socioespacial (infraestrutura, instituições etc) requerida para tal fim; 2) a contradição entre os processos de mobilidade e fixação do capital enquanto forças de homogeneização/heterogeneização espacial; 3) a criação destrutiva do capitalismo como processo histórico que encontra soluções parciais através dos arranjos espaçotemporais; 4) os processos de negociação/contestação
que terminam por dotar estes arranjos de uma estrutura coerente das relações de produção, reprodução, intercâmbio e consumo (BRENNER, 2011). Desta maneira, o desenvolvimento espacial desigual é produzido a partir das contradições básicas do capitalismo ao passo que se torna também sua condição de reprodução.
Com estas premissas os processos de reestruturação socioeconômicos próprios da fase neoliberal têm sido analisados também desde uma perspectiva espacial. No entanto, muitas destas análises têm frisado unicamente uma das dimensionalidades possíveis do espaço, correspondentes em geral aos característicos giros das ciências sociais. Desta forma, muita energia tem sido colocada em entender os processos de reorganização escalar decorrentes da globalização neoliberal, enfatizandose a emergência de "outras" formas geográficas, como por exemplo as redes, enquanto forças disruptivas dos padrões socioespaciais prevalecentes. Isto tem provocado críticas por parte de autores que consideram que a multidimensionalidade geográfica é inerente aos processos de reprodução do capitalismo (BRENNER, 2001; JESSOP; BRENNER; JONES, 2008).
Como já mencionamos, nesta pesquisa partimos de um enfoque geográfico multidimensional que tem por base o marco heurístico desenvolvido por Jessop, Brenner e Jones (2008) conhecido como TPSN — territory, place, scale, network.
Valernosemos deste marco para dar conta das maneiras como os processos de reestruturação do agronegócio na área de estudo têm reconfigurado as relações socioespaciais entre os atores envolvidos. O TPSN consiste num notável esforço de teorização e síntese em relação ao estudo historicamente situado de geografias e relações sociais específicas. Pode ser entendido também como uma proposta de espacialização da abordagem estratégico relacional (SRA), inicialmente proposta para estudar as imbricações do Estado na regularização das relações de produção (POULANTZAS, 1978, 1982). Esta abordagem foi posteriormente reelaborada por Jessop dentro de uma perspectiva históricoinstitucional mais abrangente e nos será de grande utilidade ao longo da pesquisa1 (JESSOP, 2001).
O estudo das múltiplas formas das relações socioespaciais proposto por este marco coloca de maneira heurística quatro eixos de gravitação: o território, o lugar, a
1 O enfoque estruturalista estratégicorelacional de Jessop consiste numa elaboração que pretende superar a dicotomia entre agência e estrutura em dois níveis: no primeiro, estabelecese uma dialética entre as estruturas seletivamente dispostas para os atores — de maneira que não são iguais para todos, oferecendo diferentes possibilidades e constrições — enquanto a capacidade dos atores vêse estruturalmente condicionada por suas próprias disposições; no segundo nível, a dialética anterior se concebe de maneira processual, conformando dependências de trajetória e se abrindo seletivamente às possibilidades de mudança estrutural (JESSOP, 2001).
escala e as redes. Estes eixos foram escolhidos por sua comprovada importância nos processos políticoeconômicos de reestruturação socioespacial, embora não sejam os únicos possíveis de serem pensados.2 O Quadro 1.1 mostra os princípios de estruturação socioespacial vinculados a cada dimensão, junto com algumas de suas configurações e tensões socioespaciais mais associadas. A tabela serve como estímulo para pensar no potencial explicativo de cada dimensão e não oferece uma lista fechada. O que os autores propõem de fato é pensar no uso combinado de cada uma das filas da tabela, de maneira a evitar qualquer fetichismo ou essencialismo.
O Quadro 1.2 é um exemplo de como poderia se pensar nisto. A matriz pode ser lida em duas direções: a horizontal nos oferece uma maneira de entender como o princípio de cada fila atua nos diferentes campos de operação das relações socioespaciais analisadas. Assim, lendo a primeira fila, obtemos uma compreensão de como a territorialização atua sobre o território mas também sobre o lugar, a escala ou as redes. Por outro lado, a leitura vertical nos permite ter uma ideia sobre como um campo de operação específico — como o das redes — está constituído por diferentes princípios de estruturação geográficos — como no caso das redes o escalar, de maneira que se consegue evitar as ontologias reticulares planas tão abundantes em certos trabalhos da geografia e da sociologia econômica.
Quadro 1.1. Dimensões da estruturação espacial e princípios de estruturação do marco TPSN.
Fonte: Jones e Jessop (2015).
Os autores da proposta do TPSN argumentam que talvez podem existir outras dimensões que valeria a pena incorporar para algumas análises, tal como a posicionalidade ou a natureza, 2
As duas tabelas anteriores nos servem de inspiração ao longo da tese.
Faremos uso delas na hora de pensar as formas socioespaciais pelas quais o agronegócio se expande na Chapada Diamantina e ao refletir sobre os conflitos atuais, fortemente marcados pelas disputas pela água, procurando as semelhanças e diferenças em relação aos conflitos mais centrados nas disputas pela terra que tiveram lugar na região na segunda metade do século XX. Assim, por exemplo, as estratégias dos empresários do agropolo de Mucugê para assegurar seu domínio sobre os recursos naturais e se tornar influentes no Estado — elementos mais vinculados aos processos de territorialização — mas também por explorar as rendas decorrentes das tentativas de produção do lugar — a Chapada Diamantina como de destino turístico privilegiado em nível nacional e internacional — através da construção de hotéis de luxo nas próprias fazendas.
Um aspecto adicional a considerar na abordagem heurística fornecida pelo TPSN tem a ver com as formas como as contradições são incorporadas. As tensões decorrentes dos processos de reestruturação socioespaciais expressamse também através das dimensões geográficas que compõem este marco de análise. A última
Quadro 1.2. Princípios de constituição multidimensionais dos processos socioespaciais segundo o marco TPSN.
Fonte: Jessop, Brenner e Jones (2008).
coluna da Tabela 1.1 aponta para estas contradições, embora seja necessário compreender que a forma concreta que assumem depende do tipo de processo estudado e de seu contexto geohistórico. Da mesma maneira, a Tabela 1.2 pode ser compreendida além de uma mera tentativa taxonômica.3 Cada célula pode ser interpretada como tensões que compreendem suas dimensões socioespaciais e adicionalmente como âmbitos de dilemas específicos que abrem espaço para que a agência dos atores crie uma diferença, podendose estabelecer arranjos espaço
temporais específicos (JONES; JESSOP, 2015). Adiantando parte dos resultados do trabalho da pesquisa, podemos ver como estas tensões aparecem no próprio sistema de governança das águas ao longo das redes e escalas que o constituem. A implementação dos mecanismos que o conformam foi promulgada, no marco do trânsito do governo à governança exposto no Capítulo 5, com o propósito de tornar mais participativos os processos de tomada de decisões, aspirando à criação de redes e relações de confiança entre os atores envolvidos. No entanto, as próprias condições e contextos desta implementação têm levado à captura destes espaços, reproduzindo velhas formas de exclusão e centralização das decisões.
Adicionalmente, os atores que integram estes espaços mostram capacidades diferenciadas na hora de elaborar suas estratégias no âmbito estadual e municipal, o que repercute na influência que podem exercer nos processos decisórios.