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Academic year: 2022

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS

PROGRAMA DE PÓS­GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

Iñigo Arrazola Aranzabal

Velhas questões sob novas roupagens: continuidades e rupturas dos conflitos socioambientais provocados pelas formas contemporâneas de expansão do

agronegócio na Chapada Diamantina, Bahia.

LINHA DE PESQUISA: Análise Urbana e Regional Orientadora: Noeli Pertile

SALVADOR ­ BA 2022

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Iñigo Arrazola Aranzabal

Velhas questões sob novas roupagens: continuidades e rupturas dos conflitos socioambientais provocados pelas formas contemporâneas de expansão do

agronegócio na Chapada Diamantina, Bahia.

Tese apresentada ao curso de Pós­

Graduação em Geografia do Instituto de Geociências para obtenção do título de doutorado em Geografia pela Universidade Federal da Bahia

SALVADOR – BA 2022

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DEDICATÓRIA

A quienes hacen que la vida importe. A quienes no dejan de luchar.

A quienes se tornan ejemplo desde sus proprias vidas.

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AGRADECIMENTOS

A realização de um trabalho como este não seria possível sem o suporte e o acompanhamento de inúmeras pessoas que estiveram por perto em todo o processo.

À Thais e Alaia, as minhas companheiras nesta caminhada, com as quais tenho compartilhado as vivências mais intensas.

À Comissão Pastoral da Terra, sem quem não poderia ter­me aproximado à problemática. À equipe regional da diocese de Ruy Barbosa por sua hospitalidade, sua generosidade, sua confiança. A Cláudio e Reinaldo, por sua amizade.

Ao pessoal da UFBA e do Programa de Pós­Graduação em Geografia, quem me acolheu como estudante. Que viva a Universidade Pública!

Às comunidades e ativistas de Piatã, com quem tenho compartilhado viagens, pernoitadas e longas conversações.

Aos assentados ao longo do rio Utinga, por me permitir o contato, a confiança, o diálogo.

À Chapada e todos os seres que moram nela, por ter­me servido de refúgio durante o tempo mais duro da pandemia.

Finalmente, à Alexandra Asánovna Elbakián, sem quem nenhuma tese seria possível.

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RESUMO

Nesta tese analisamos as formas socioespaciais da expansão do agronegócio na Chapada Diamantina, e os conflitos decorrentes deste processo, com o propósito de compreender as continuidades e rupturas trazidas pela reestruturação do setor nas últimas décadas em relação aos momentos anteriores de conflitividade no campo. Fazendo uso das ferramentas analíticas da Ecologia Política Latino­

americana, situamos os conflitos atuais pela água na Chapada dentro de uma trajetória histórica que reatualiza a construção dos povos e da natureza enquanto objetos coloniais de conquista. Por outro lado, entendemos as dinâmicas de expansão do capital dentro das lógicas da acumulação por deslocamento, que além de expulsar às populações de seus espaços de vida, se baseiam na acumulação de mais­trabalho e de mais­natureza que curtocircuita os ciclos reprodutivos da vida.

Interrogamo­nos, ao mesmo tempo, sobre as especificidades desta expansão dentro do contexto de neoliberalização da natureza contemporâneo, destacando dois elementos: a financeirização e o rentismo. Em ambos identificamos continuidades respeito a períodos anteriores, como o papel do setor público no acesso ao crédito subsidiado por parte do agronegócio. No entanto, também observamos elementos novos, como a diversidade de estratégias de sujeição da renda da terra seguidas pelos produtores do agronegócio — analisadas a partir de uma dupla dimensão geográfica, a territorial e a das redes —, atravessando setores econômicos e posições variadas nas relações de produção e comercialização agroalimentares.

Posteriormente, incorporamos a análise das dinâmicas de produção de sentido envolvidas nos conflitos e na expansão do setor, fazendo uso do marco da economia política cultural crítica e da dialética entre a justificação e a crítica que acompanham os processos socioeconômicos. Mobilizamos ambos enfoques, fundamentados na não completitude da relação de capital, com o propósito de complementar nossa análise ao considerar as formas pelas que o agronegócio procura absorver as críticas que lhe são dirigidas e produzir justificações sobre suas atividades. Finalmente, abordamos o trânsito do governo à governança, tão aclamado na literatura, como uma continuidade dos modos de dominação política que, no entanto, tem introduzido também transformações. Centramo­nos para isto nas maneiras pelas quais o setor continua exercendo poder estatal através dos sistemas de governança das águas.

Assim, procuramos complexificar nosso entendimento sobre a hegemonia do agronegócio, na medida em que sua expansão é assumida enquanto projeto estratégico de Estado.

Palavras chave: agronegócio, conflitos socioambientais, neoliberalização da natureza, Chapada Diamantina.

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RESUMEN

En esta tesis analizamos las formas socioespaciales de la expansión contemporánea del agronegócio en la Chapada Diamantina y sus conflictos derivados, con el propósito de comprender las continuidades y rupturas provocadas por la reestructuración del sector en las últimas décadas. Haciendo uso de las herramientas analíticas de la Ecología Política Latino­americana, situamos los conflictos actuales por el agua en la Chapada dentro de una trayectoria histórica que reactualiza la construción de los pueblos y de la naturaleza como objetos coloniales de conquista. Entendemos a las dinámicas de expansión del capital en el campo dentro de las lógicas de acumulación por desplazamiento, que además de expulsar a las poblaciones de sus espacios de vida, se basan en una acumulación de plus­

trabajo y plus­naturaleza que cortocircuita los ciclos reproductivos de la vida. Nos interrogamos al mismo tiempo por las especificidades de esta expansión dentro del contexto contemporáneo de neoliberalización de la naturaleza, destacando dos elementos: la financiarización y el rentismo. En ambos identificamos continuidades respecto a periodos anteriores, como el papel del sector público en el acceso al crédito subsidiado por parte del agronegocio. Sin embargo, también apreciamos elementos nuevos, como la diversidad de estratégias de sujeción de la renta de la tierra de los productores del agronegocio ­analizadas desde una doble dimensión geográfica, la territorial y la de redes­, apoyadas en diversos sectores económicos y posiciones dentro de las relaciones de producción y comercialización agroalimentarias. Posteriormente, incorporamos el análisis de las dinámicas de producción y sentido que acompañan la expansión del sector y sus conflictos, haciendo uso del marco de la economía política cultural crítica y de la dialéctica entre la justificación y la crítica propia de los procesos socioeconómicos. Empleamos ambos enfoques, fundamentados en la incompletitud de la relación del capital, con el propósito de complementar nuestro análisis al considerar las formas por las que el agronegocio intenta absorver las críticas que le son dirigidas y justifica sus actividades. Finalmente, abordamos el tránsito del gobierno a la gobernanza, tan aclamado en la literatura, como una continuidad de los modos de dominación política que, sin embargo, también ha introducido transformaciones. Nos centramos para esto en las maneras por las que el sector continúa ejerciendo poder estatal através de los sistemas de gobernanza ambiental y de las aguas. Así, tratamos de complejizar nuestro entendimiento sobre la hegemonía del agronegocio en la medida que su expansión es asumida como proyecto estratégico de Estado.

Palabras clave: agronegocio, conflictos socioambientales, neoliberalización de la naturaleza,

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ABSTRACT

In this thesis we analyse the socio­spatial forms of the agribusiness contemporary expansion in the Chapada Diamantina, Bahia, and its arising conflicts, with the aim to understand the continuities and ruptures caused by the restructuring of the sector in the last decades. Using the analytic tools of Latin American Political Ecology, we place the current water conflicts in the Chapada as an update of the historical ways trough which people and extra­human nature have been produced as colonial objects of conquest. We understand the dynamics of capital expansion in the countryside within the frame of accumulation by displacement. These dynamics, besides expelling people from their living spaces, are based on the accumulation of surplus labour value and surplus nature that short­circuit the reproductive cycles of life. We also wonder about the specific nature of this expansion in the current context of the neoliberalization of nature, pointing out two aspects: financialization and rentierism. In both of them we are able to identify continuities from previous periods, like the providing of public subsidized credit for agribusiness. In addition, we also find new elements, as the diversity of strategies for the appropriation of the rent of land developed by the sector ­ analysed from two geographic dimensions based on territory and networks­ in various economic sectors and different positions in agro­

food production networks. Next, we analyse the dynamics of sense productions related to this process of expansion and its conflicts. For this, we use the frame of the critical Cultural Political Economy and the dialectic between justification and critique inherent to socioeconomic processes. Both approaches are used regarding the incompleteness of the capital­relation, with the purpose of complementing our analysis considering the ways through which the agribusiness tries to absorb the critiques directed to it and justify its own activities. Finally, we deal with the transit from government to governance, so praised in literature, as a continuity of the ways of political domination, even though it also brought transformations. We consider the ways through which the sector continues to exercise state power throughout the water and environmental governance systems. In this way, we try to enrich our understanding of the hegemonic power of agribusiness to the same extent that its expansion is assumed as a state strategic project.

Key words: agribusiness, socio­environmental conflicts, neoliberalization of nature, Chapada Diamatina.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 2.1. Evolução do PIB e do PIB agropecuário nos diversos municípios da área de estudo (2002­

2017)...73

Figura 2.2. Evolução e composição do PIB na área de estudo (2002­2017)...74

Figura 2.3. Evolução das principais culturas plantadas nas áreas de estudo (2002­2017)...75

Figura 2.4. Percentagem de área cultivada por culturas na área de estudo (2002­2017)...77

Figura 2.5. Caracterização da Agroindústria e da Pecuária por sub­região de estudo...78

Figura 2.6. Número de Estabelecimentos Agropecuários por raça e por principais sub­regiões de estudo (2017)...84

Figura 2.7. Área dos Estabelecimentos Agropecuários por raça e sub­região de estudo (2017)...85

Figura 2.8. Expansão dos Pivôs de Irrigação na Bahia (1985­2017)...91

Figura 2.9. Expansão dos Pivôs de Irrigação no Alto Paraguaçu (1985­2017)...92

Figura 2.10. Evolução do Volume de Água acumulado e das precipitações na barragem do Apertado de Mucugê...93

Figura 2.11. Padrão Anual de Precipitações na barragem do Apertado (1985­2019)...95

Figura 2.12. Expansão dos Pivôs de Irrigação no Alto Paraguaçu (1984­2020)...97

Figura 2.13. Evolução do Volume de Água Acumulado na barragem Bandeira do Melo, Médio Paraguaçu (2012­2020)...113

Figura 3.1. Número de Estabelecimentos Agropecuários e valor financiado por sub­região de estudo(2006­2017)...128

Figura 3.2. Número de Estabelecimentos Agropecuários e valor financiado segundo programa e Sub­ região (2006­2017)...129

Figura 3.3. Número de Estabelecimentos Agropecuários por Origem dos Recursos de Financiamento, Grupos de Área Total e Sub­região (2006­2017)...131

Figura 3.4. Valor total financiado pelo SNCR por subregião de estudo e valor financiado referido à cultura de batata na Bahia...134

Figura 3.5. Composição do valor total financiado pelo SNCR sobre a finalidade custeio por produtos e município, com e sem bovinos (2013­2020)...135

Figura 3.6. Composição do valor total financiado pelo SNCR sobre a finalidade investimento por produtos e município, com e sem bovinos (2013­2020)...136

Figura 3.7. Valor financiado sobre as finalidades custeio e investimento por produtos principais no Alto Paraguaçu (2013­2020)...138

Figura 3.8. Valor financiado sobre as finalidades custeio e investimento por produtos principais no Médio Paraguaçu (2013­2020)...139

Figura 3.9. Valor financiado sobre as finalidades custeio e investimento por produtos principais no município de Utinga (2013­2020)...140

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Figura 3.11. Valor financiado sobre as finalidades custeio e investimento por programa no Médio

Paraguaçu (2013­2020)...143

Figura 3.12. Valor financiado sobre as finalidades custeio e investimento por programa no município de Utinga (2013­2020)...144

Figura 3.13. Rede empresarial da componente originada a partir da Fazenda Progresso LTDA...176

Figura 3.14. Rede empresarial da componente originada a partir da Lavoura Igarashi LTDA...179

Figura 3.15. Rede da empresa Agricoffee LTDA simplificada com os nós situados numa distância máxima de 6 respeito ao nó da própria empresa...181

Figura 3.16. Rede do núcleo de sócios e empresas do componente da Agricoffee LTDA...181

Figura 5.1. Esquema da governança multinível da OCDE, Mind the Gaps, Bridge the Gaps...295

Figura 5.2. Posição dos atores nas negociações da Lei de Águas de 1997...300

Figura 5.3. Mapeamento institucional do marco de governança das águas no Brasil...301

Figura A.1. Funcionamento do algoritmo de reconstrução das redes empresariais a partir dos dados da Receita Federal...397

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1.1. Dimensões da estruturação espacial e princípios de estruturação do marco TPSN....20

Quadro 1.2. Princípios de constituição multidimensionais dos processos socioespaciais segundo o marco TPSN...21

Quadro 3.1. Assentamentos criados na Chapada e no Médio Paraguaçu (1980­2010)...162

Quadro 4.1. Síntese das cidades ou regimes de justiça propostos por Boltanski e Thévenot...202

Quadro 5.1. Modos de governança segundo Jessop (2017)...292

Quadro 5.2. Modificações das atribuições do CEPRAM em relação à sua capacidade de expedição de licenças ambientais...316

Quadro 5.3. Críticas às modificações legais que eliminam o licenciamento ao agronegócio...321

Quadro 5.4. Justificações da SEMA e da Secretaria de Agricultura na audiência pública sobre o licenciamento ambiental simplificado, 2017...322

Quadro 5.5. Críticas contra a flexibilização ambiental embasadas na legitimidade das instituições do Estado...323

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LISTA DE TABELAS

Tabela 2.1. População urbana e rural nas sub­regiões de estudo (1991, 2000, 2010)...81

Tabela 2.2. População rural por sub­regiões de estudo e grupos de idade (1991, 2000, 2010)...81

Tabela 2.3. Número de Estabelecimentos Agropecuários por Grupos de Área Total...87

Tabela 3.1. Componentes empresariais identificadas no Alto Paraguaçu...175

Tabela 3.2. Nós por CNAE e distância média à origem da componente empresarial da Agricoffee LTDA...177

Tabela A1. Nós da Rede da Empresa Fazenda Progresso, parte 1...400

Tabela A2. Nós da Rede da Empresa Fazenda Progresso, parte 2...401

Tabela A3. Nós da Rede da Empresa Fazenda Progresso, parte 3...402

Tabela A4. Nós da Rede da Empresa Fazenda Progresso, parte 4...403

Tabela A5. Nós da rede da Empresa Lavoura Igarashi, parte 1...404

Tabela A6. Nós da rede da Empresa Lavoura Igarashi, parte 2...405

Tabela A7. Nós da Rede da Empresa Agricoffe, parte 1...406

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LISTA DE MAPAS

Mapa 2.1. Principais áreas percorridas no trabalho de campo...49

Mapa 2.2: Municípios e população dos centros urbanos da zona de estudo (2010)...80

Mapa 2.3. Localização dos Pivôs de Irrigação e das Barragens do Agropolo de Mucugê­Ibicoara (2013)...102

Mapa 2.4. Agronegócio e Diversidade dos Povos na Sub­Bacia do rio Utinga (2022)...105

Mapa 2.5: Agropolo do Médio Paraguaçu, Igaçu (2022)...112

Mapa 3.1. Distribuição dos tipos de outorgas de água, Alto Paraguaçu...169

Mapa 3.2. Distribuição das outorgas de água por ano de autorização, Alto Paraguaçu...171

Mapa 3.3. Distribuição das outorgas de água pelo tamanho da vazão, Alto Paraguaçu...172

Mapa 3.4. Distribuição das outorgas de água segundo as principais empresas, Alto Paraguaçu....173

Mapa 3.5. Inserção espacial da rede empresarial da Fazenda Progesso LTDA...184

Mapa 3.6. Inserção espacial da rede empresarial da Lavoura Igarashi LTDA...185

Mapa 3.7. Inserção espacial da rede empresarial da Agricoffe LTDA...186

Mapa 4.1. Localização dos gerais da Chapada Diamantina afetados pelo agronegócio...247

Mapa 4.2. Extensão do projeto do agronegócio nos gerais de Piatã...248

Mapa 5.1. Áreas prioritárias de conservação do Estado da Bahia segundo o estudo realizado pela SEMA e por WWF (2017)...338

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LISTA DE IMAGENS

Imagem 2.1. Degradação das áreas da BHRP no Médio Paraguaçu em 2022...52

Imagem 2.2. Expansão do cultivo de banana na sub­bacia do rio Utinga, trecho superior de Utinga (2016­2021)...106

Imagem 2.3. Expansão do cultivo de banana na sub­bacia do rio Utinga, trecho médio entre Utinga e Wagner (2016­2021)...107

Imagem 2.4. Expansão do cultivo da banana na sub­bacia do rio Utinga, trecho inferior de Wagner (2016­2021)...108

Imagem 4.1. Página principal do site do Hotel Refúgio Na Serra da Fazenda Progresso...241

Imagem 4.2. Fotografia promocional 1 do projeto de turismo enológico da Fazenda Progresso....243

Imagem 4.3. Imagem promocional 2 do projeto de turismo enológico da Fazenda Progresso...243

Imagem 4.4. Desmatamento da Fazenda Piabas nos gerais de Piatã...249

Imagem 4.5. Manifestação contra a expansão do agronegócio nos gerais de Piatã...261

Imagem 4.6. Manifestação contra a expansão do agronegócio nos gerais de Piatã...262

Imagem 4.7. Manifestação contra a expansão do agronegócio nos gerais de Piatã...263

Imagem 4.8. Manifestação contra a expansão do agronegócio nos gerais de Piatã...263

Imagem 4.9. Manifestação contra a expansão do agronegócio nos gerais de Piatã...264

Imagem 4.10. Manifestação contra a expansão do agronegócio nos gerais de Piatã...264

Imagem 4.11. Manifestação a favor do agronegócio em Piatã...273

Imagem 4.12. Cartaz de convocatória à manifestação a favor do agronegócio em Piatã...274

Imagem 4.13. Manifestação a favor do agronegócio em Piatã...274

Imagem 4.14. Contraste entre os cartazes a favor e em contra da chegada do agronegócio nos gerais de Piatã...275

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LISTA DE SIGLAS

EPLAT – Ecología Política Latinoamericana.

FPA – Frente Parlamentar Ambiental.

GIRH – Gestão Integrada de Recursos Hídricos.

INEMA – Instituto Estadual de Meio Ambiente.

MST – Movimento dos Sem Terra.

MP – Ministério Público.

OCB – Organização de Cooperativas do Brasil.

PNMA – Política Nacional de Meio Ambiente.

PP ­ Progressistas

PROCEDER – Programa de Cooperação Nipo – Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados.

PSD ­ Partido Social Democrático PT ­ Partido dos Trabalhadores RL – Reserva Legal.

SDE – Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

SEMA – Secretaria Estadual do Meio Ambiente.

SISH – Secretaria de Infraestrutura Hídrica e Saneamento.

SNCR – Sistema Nacional de Crédito Rural.

SNMIRH – Sistema Nacional Integrado de Recursos Hídricos.

SRB – Sociedade Rural Brasileira.

TPSN – Territory, Place, Scale and Networks.

UDR – União Democrática Ruralista.

ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio.

AIBA – Associação de Irrigantes da Bahia.

ALBA – Assembleia Legislativa da Bahia.

ANA – Agência Nacional das Águas.

APP – Área de Proteção Permanente.

APROA – Associação de Produtores de Alimentos da Chapada Diamantina.

ARS – Análise de Redes Sociais.

ASCRA – Associação dos Servidores do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia.

ASV – Autorização de Supressão de Vegetação.

BHRC – Bacia Hidrográfica do Rio de Contas.

BHRP – Bacia Hidrográfica do Rio Paraguaçu.

CAR – Cadastro Ambiental Rural.

CEAMA – Centro de Apoio às Promotorias de Meio Ambiente e Urbanismo da Bahia.

CEFIR – Cadastro Estadual Florestal de Imóveis Rurais.

CEPRAM – Conselho Estadual de Meio Ambiente da Bahia.

CETA – Movimento dos Trabalhadores Rurais, Assentados, Acampados e Quilombolas da Bahia.

CNA – Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil.

CPE – Cultural Political Economy.

CPT – Comissão Pastoral da Terra.

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SUMÁRIO

Introdução. Uma pesquisa em movimento...17

Problema de investigação...20

Capítulo I. Considerações teórico­metodológicas ...11

1.1 A construção em movimento de um objeto em movimento...11

1.2 Um trabalho multidisciplinar...12

1.3 A multidimensionalidade dos processos socioespaciais...17

1.4 Método de Investigação...22

Capítulo II. Ecologia Política dos conflitos socioambientais e as transformações do agronegócio no campo...33

2.1 Formulação da problemática desde a Ecologia Política...33

2.2 Expansão, acumulação por deslocamento e produção de crises...63

2.3 Recapitulação...114

Capítulo III. Ancoras da expansão do agronegócio: a financeirização e a captura da renda da terra como formas socioespaciais...116

3.1 A financeirização e o rentismo no centro das formas socioespaciais da expansão do agronegócio...117

3.2 O peso do Estado no acesso ao crédito rural...124

3.3 Tentativas de extração da renda da terra enquanto territórios em rede...146

3.4 Recapitulação...184

Capítulo IV. Justificações, críticas e tentativas de captura da renda da natureza por parte do agronegócio...190

4.1 Inserindo a produção de sentidos para complexificar o debate...194

4.2 A preocupação do agronegócio pela renovação da produção de sentido...206

4.3 Da renda da terra à renda da natureza: representações e justificações do agronegócio....227

4.4 Justificações e críticas na expansão do agronegócio em Piatã...245

4.5 Recapitulação...276

Capítulo V. A expansão do agronegócio e o papel do Estado: a governança das águas como hegemonia...280

5.1 Pensar o poder estatal para pensar a hegemonia...283

5.2 O papel do Estado no trânsito do governo à governança...291

5.3 A governança das águas na expansão do agronegócio na Chapada Diamantina...325

5.4 Recapitulação...361

Considerações finais...364

Referências...376

Anexo I. Metodologia de análise das redes empresariais do agronegócio no Alto Paraguaçu...396

Anexo II. Detalhes das redes empresariais do Alto Paraguaçu analisadas...400

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Introdução. Uma pesquisa em movimento.

Este trabalho é reflexo de um movimento. Quando cheguei à Bahia para realizar o doutorado em Geografia, trazia uma proposta de investigação estruturada com base a minha experiência no Equador, país em que morei quase dez anos. Lá estive envolvido, trabalhando e como militante, em movimentos e organizações sociais vinculadas aos conflitos territoriais provocados pela expansão do agronegócio, da mineração ou da extração do petróleo. Como no restante da América Latina, estes conflitos são muito frequentes no país andino. Sua grande diversidade, seu nível vibrante de organização comunitária e indígena junto com os muitos processos ativos de resistência e autonomia, ofereceram­me grandes aprendizados que me serviram de inspiração para apresentar um projeto de tese inicial, articulado em torno aos conflitos territoriais causados pelo agronegócio tanto no Equador quanto no Brasil. A partir de estudos de caso em ambos países, o projeto inicial visava problematizar os processos de acumulação, despossessão e resistência ao agronegócio numa escala regional.

Cheguei ao Brasil em 2018 com o objetivo de me inserir em alguma organização para poder trabalhar e acompanhar estas questões aqui na Bahia. Foi um processo lento, de descoberta e apresentações, de procuração de contatos e tentativas de aproximação. Já sabia da existência da Comissão Pastoral da Terra (CPT), conhecia algo de seu trabalho e achava que seria ótimo puder colaborar com eles. Mediante um colega do Equador consegui uma reunião e por fim, alguns meses após ter­me instalado com minha família, comecei a trabalhar com a organização. No começo fiquei em Salvador, onde percebi que o mais interessante em termos de contato com a realidade do campo estava nas diferentes equipes regionais. São elas as que acompanham no dia a dia as problemáticas rurais. Um frade italiano da CPT, que durante muito tempo trabalhou na diocese de Ruy Barbosa, no Centro Norte da Bahia, me convidou me introduzir ao pessoal de lá que percorre a Chapada Diamantina. Assim foi como deparei na região de estudo, mostrada de maneira geral no Mapa 1.

Comecei a viajar frequentemente para Ruy Barbosa, acompanhando o trabalho da CPT na Chapada. Por mais de um ano, a cada duas semanas me apresentava lá para percorrer as comunidades e assentamentos colaborando com a CPT, realizando entrevistas, oficinas ou outras atividades. Envolvi­me em tarefas variadas, tentando

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me tornar “útil” à equipe. Tinha certeza de que estava aí para contribuir, não só por minha tese. Dentro das várias linhas de atuação que a organização tem na região, uma delas, a vinculada aos conflitos hídricos na Bacia Hidrográfica do Rio Paraguaçu (BHRP), em seguida capturou minha atenção. A CPT estava executando já fazia mais de um ano uma campanha para visibilizar a problemática do uso depredatório da água ao longo desta bacia, pertencente a um dos rios mais importantes da Bahia.

A campanha surgiu a partir das secas deste rio e alguns de seus afluentes, especialmente na área da Chapada Diamantina. No entanto, a campanha buscava se articular a atores do Recôncavo, na foz do Paraguaçu, onde comunidades de marisqueiras e pescadores também sofrem com a poluição e manejo das águas realizado grandes empresas.

Assim, devagar, fui chegando à problemática da pesquisa. Uma chegada que simultaneamente, nesse movimento, permitiu­me construí­lo enquanto objeto de investigação para esta tese. O acompanhamento que mantive junto à CPT ofereceu­

me as condições para entender a complexidade dos conflitos de água na Chapada Diamantina. Foram muitas viagens, dormindo em comunidades, igrejas ou

Mapa 1. Visão geral da região de estudo.

Elaboração do autor.

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assentamentos. Muitas horas de conversações sobre a história da região, na qual os conflitos pela terra foram muito importantes pouco tempo atrás. Desde a década de 1970, sobretudo na parte oriental da Chapada, houve fortes lutas contra os latifundiários que queriam vender suas fazendas improdutivas sem se importar com os camponeses que trabalhavam nelas — também conhecidos como posseiros. A partir de meados da década de 1980, em municípios como Andaraí, Wagner, Nova Redenção, Boa Vista do Tupim, Itaetê ou Iaçu, as lutas de camponeses e trabalhadores sem­terra que brigavam para trabalhar em seus próprios lotes para sair das relações econômicas de dependência a que estavam submetidos ganharam intensidade. Hoje, na segunda década do século XXI, as problemáticas parecem ter­

se transformado. Os conflitos pela água trazem elementos novos, mas também se conectam com uma história que continua presente, que não termina de perecer.

Este aprofundamento terminou por me convencer de uma mudança radical na minha perspectiva de pesquisa. A realidade sempre transborda. Progressivamente consegui compreender como a Chapada logra sintetizar ao longo de seus diferentes espaços muitos dos elementos da história dos conflitos no campo brasileiro: desde as lutas camponesas pelo acesso à terra na segunda metade do século XX até o reconhecimento dos direitos de comunidades indígenas e quilombolas perante a expansão do agronegócio e outros projetos extrativos como a mineração. Na medida em que fui compreendendo a complexidade dos processos causantes dos estragos provocados pela expansão do agronegócio, tanto em áreas de fronteira agrícola (como os gerais do município de Piatã) quanto em outros espaços onde os conflitos estão mais instalados (como nos gerais de Mucugê­Ibicoara ou na sub­bacia do rio Utinga), fui entendendo que a expansão do setor na região é representativa das continuidades e rupturas das lutas pela terra; lutas transformadas atualmente também em lutas pela água; uma questão agrária que não morre naquilo conhecido agora como a questão ecológica.

Com tudo isto em mente cheguei a um ponto de inflexão na minha investigação.

A princípio foi uma sensação de estar perdido, desorientado frente ao mundo que estava conhecendo. Nos primeiros meses de trabalho estive desse modo, meio que flutuando, sem ainda me situar nas rodas, nas sessões entre comunidades e a CPT, nas celebrações de São João, nas místicas religiosas que acompanham o trabalho dos agentes no cotidiano de muitas comunidades. Agora, com a perspectiva de ter chegado já ao ponto final do trabalho, julgo que é importante passar por um momento desses de choque. No entanto, não dá para negar que, por vezes, especialmente nos momentos iniciais, essa sensação pode ser um pouco angustiante.

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Assim, através deste processo de ida e volta, fui chegando ao objeto da pesquisa. Decidi desistir da ideia de realizar um estudo embasado nos dois países, perdendo o potencial comparativo, para me aprofundar na riqueza do que estava atravessando. Foi uma escolha de entrar na complexidade histórica dos processos que têm dado forma aos conflitos territoriais da Chapada e nas formas como o agronegócio, hoje, tem conseguido consolidar sua expansão no campo e se estabelecer como ator hegemônico. Uma hegemonia que complementa as maneiras mais coercitivas mediante as quais o capital no campo tem conseguido se impor ao longo do tempo.

As lutas pela água na parte Alta e Média da BHRP têm adquirido visibilidade nos últimos anos. A intensificação da agricultura e a depredação da natureza por parte do agronegócio têm obrigado muitos camponeses da região a se levantar.

Assim aconteceu em 2015 em Utinga, com o corte da BR­242 entre Lençóis e Wagner, ou em 2019, com os protestos que obrigaram o Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA) diminuir as vazões ao 50% entre outubro e novembro. O roubo das águas do século XXI frente à grilagem das terras do século XX. Novos problemas que remetem aos antigos. Atores renovados, empresas agrícolas com um alto nível tecnológico, muitas originárias de outras regiões, que reproduzem uma história de exploração que se mantém por tempos. Comunidades e camponeses, os filhos ou netos dos que décadas atrás lutaram pela terra, que sofrem de uma falta de água que seus pais ou avós não tinham conhecido, mas que também experimentam os mesmos empecilhos e contradições que por tanto tempo têm dizimado as possibilidades de consolidação de uma reforma agrária que mereça tal nome.

Assim, este trabalho, num movimento que persegue entender um objeto também em constante movimento, centra­se numa problemática chave para entender o rumo das reivindicações do campo e suas possibilidades emancipatórias. Os conflitos pela água, tão estudados no Brasil e em outras partes de Nossa América, têm o potencial de nos revelar como os conflitos que decorrem das transformações recentes configuram os novos marcos pelos que as velhas problemáticas se expressam. Esta é a intenção deste trabalho, centrado na forma como estes conflitos acontecem numa parte da Chapada Diamantina. Um trabalho adaptado às circunstâncias de seu desenvolvimento, cujo desdobramento só foi possível a partir do acompanhamento às organizações e às pessoas que lidam cotidianamente com a problemática.

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Problema de investigação

Descrição geral

O interesse inicial pelos conflitos territoriais provocados pelas formas como o agronegócio reestrutura suas atividades nas últimas décadas, foi, a partir do trabalho de campo mencionado, adquirindo conotações mais precisas. O extermínio dos povos indígenas, a escravidão e a consolidação do regime fundiário colonial são elementos que remontam séculos atrás, mas que continuam sendo centrais para a compreensão estes conflitos ainda hoje no Brasil. Igualmente, outros fatores históricos mais recentes, como as lutas populares messiânicas do século XIX ou a consolidação das ligas camponesas e dos sindicatos rurais a partir da segunda metade do século XX, ainda são perceptíveis nas formas de organização e nas subjetividades das gentes do campo. Tudo isto me fez compreender que as formas como se expressam os conflitos territoriais não podem ser entendidas se não estiverem vinculadas a estes processos históricos e aos marcos de representação de seus protagonistas. De igual maneira, os mecanismos de repressão e sedução executados pelo Estado e as formas pelas que os atores privados conseguem influir decisivamente no exercício do poder estatal obrigaram­me a reconsiderar o papel do exercício da violência — física e simbólica — e do disciplinamento nas dinâmicas de acumulação do agronegócio no campo.

De forma mais abrangente, estes conflitos territoriais fazem parte de uma problemática de longa data que remonta ao processo de colonização vivido no continente. A Ecologia Política vem analisando estes conflitos na região há algumas décadas, mostrando a importância de colocar no centro as relações de poder para entender a desigual distribuição dos impactos socioambientais entre os atores envolvidos nestes conflitos (MARTINEZ­ALIER, [s.d.]; SWAMPA, 2013; GIRALDO, 2015). Aliás, América Latina tem sido um locus de enunciação especialmente potente para a Ecologia Política. A Ecologia Política Latino­Americana (EPLAT) tem contribuído significativamente para compreensão dos conflitos socioambientais desde a conceitualização da natureza e dos povos como objetos coloniais de

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conquista (MACHADO, 2009). Adicionalmente a EPLAT tem mostrado sua capacidade de discussão com outras correntes, convergindo com a ecologia política anglo­saxã na importância do entendimento dos processos de neoliberalização da natureza e aportando elementos fundamentais na elaboração de uma perspectiva crítica da modernidade­colonialidade.

Assim, lentamente, o problema de investigação foi tomando corpo. Os processos de reestruturação do agronegócio na América Latina e no mundo vêm sendo estudados fortemente desde os anos 90. A transnacionalização dos mercados agroalimentares e a conformação de redes globais de produção e comercialização destes produtos têm exercido uma forte influência nos países da região, que têm sofrido processos de reprimarização de suas economias a partir de uma redefinição de seu papel como fornecedores globais de commodities (GOODMAN; WATTS, 1997; WILKINSON; ROCHA, 2006; ISAKSON, 2014; KAY, 2016). O Brasil é com certeza um dos países nos quais mais fortemente tem­se desenvolvido esta reestruturação. A consolidação das empresas do agronegócio começou na segunda metade do século XX com o desenvolvimento da agricultura científica e a expansão das corporações ao longo do país. As transformações do setor foram marcadas principalmente pela expansão espacial, o desenvolvimento tecnológico e pela entrada do capital financeiro na agricultura (CARVALHO, 2013; STEDILE, 2013;

OLIVEIRA, 2013). Estes três elementos foram centrais na ocupação da Amazônia e depois dos cerrados por parte das empresas do setor durante as últimas décadas.

Estas áreas são usadas para a produção de soja, milho ou algodão, destinadas aos mercados do norte global mas também a satisfazer a crescente demanda de outros países emergentes como a China. Assim, o processo de reestruturação mencionado tem como correlato uma inserção progressivamente mais complexa das empresas que operam no Brasil dentro das redes globais de produção e comercialização agroalimentares. O que os processos de reestruturação do agronegócio trazem são novas formas que se sobrepõem aos antigos conflitos, provocando uma reconfiguração nas escalas, dinâmicas sociais e marcos de representação em que estes se embasavam. É o velho que não morre, mas que não pode ser simplesmente reconhecido como o de sempre, porquanto novos fatores e novas maneiras de confrontação se justapõem às anteriores.

Na Bahia, as áreas de ocupação das grandes empresas produtoras de commodities tendem a se concentrar no Oeste, na região conhecida como MATOPIBA. No entanto, o fenômeno também se reproduz em outras regiões com fontes de água e terra suscetíveis de serem apropriadas pelo interesse privado. É o

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caso da região de estudo, a Chapada Diamantina. Mais especificamente, nos centraremos em três áreas, uma delas pertencente à Bacia Hidrográfica do Rio de Contas (BHRC) e as outras duas à BHRP. Os rios principais de ambas bacias nascem na Chapada e têm uma importância ecossistêmica muito grande para o estado baiano. O rio Paraguaçu nasce no município de Barra da Estiva, enquanto o rio de Contas nasce no município de Piatã. (Mapa 2.1). O Paraguaçu atravessa por mais de 500 quilômetros o semiárido baiano até chegar à sua foz na baía do Iguape, na região do Recôncavo. O rio se alimenta de numerosos afluentes distribuídos pela bacia, ao redor dos quais se reproduzem também os conflitos vinculados à expansão do agronegócio, como no caso da sub­bacia do rio Utinga, uma das áreas de estudo escolhidas. Hoje em dia, devido à intensificação das atividades do setor, rios que inclusive nas épocas mais duras das secas permaneceram com uma vazão constante, veem seu fluxo de água interditado várias vezes por ano.

A chegada das empresas do agronegócio à Chapada Diamantina data da década de 1980. No entanto, durante os últimos vinte anos, assistimos a um processo de ramificação da atividade agropecuária baseado em altos investimentos tecnológicos e sistemas de irrigação que têm provocado o aumento dos conflitos socioambientais. A Chapada Diamantina, a caixa d'água da Bahia, vai sendo drenada cada vez mais, o que coloca em risco a reprodução da vida humana e extra­humana numa escala além da regional. O aumento das captações nos rios e o incremento dos poços tornam o ritmo atual de exploração provocado pelo agronegócio insustentável. Comunidades camponesas, quilombolas e indígenas foram as primeiras a denunciar este problema, porquanto tiveram afetados seus meios de vida.

No entanto, a problemática é também cada vez mais evidente para as populações urbanas. Várias das pequenas cidades da Chapada, como Mucugê, foram obrigadas a construir poços artesianos para seu abastecimento de água devido às recorrentes secas dos rios que cumpriam anteriormente este propósito.

A presente investigação toma as formas socioespaciais pelas quais se concretiza esta dinâmica, seus modos de regulação, suas práticas institucionais e discursivas como elementos principais de problematização. O estudo aborda as maneiras como os conflitos socioambientais causados pelo agronegócio expressam a evolução do processo de acumulação do capital no campo dentro de um contexto de reestruturação e expansão do setor, ao tempo que continuam sendo o sintoma de uma antiga problemática não resoluta. As formas como o agronegócio se expande embasam­se em velhas e novas práticas por parte das empresas, cujo modelo de desenvolvimento é não é questionado pelo Estado baiano e pelas prefeituras locais.

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O estudo coloca assim o foco nestes pontos para dar conta das transformações e continuidades das problemáticas rurais.

Alguns dos mecanismos dos produtores empresariais para se implantarem no espaço, como a grilagem de terra, são elementos fartamente estudados (AATR, 2017). No entanto, existem outras variáveis que com frequência não são tão consideradas. O estudo pretende compreender a diversidade de estratégias usadas pelas empresas, embasadas em seus diferentes modos de inserção dentro das redes de produção. As formas de vinculação das empresas aos mercados agroalimentares estão embasadas em múltiplas escalas que dificultam uma leitura simplificada dos conflitos como problemas entre latifundiários clássicos e pequenos produtores. As empresas são heterogêneas e desenvolvem complexas estratégias que vinculam os diferentes espaços nos quais se produz, transita e se captura o valor gerado ao longo de suas redes de produção e comercialização. De igual maneira, a relação destas empresas no âmbito estatal é complexa e diversificada, sem que o Estado possa ser concebido como uma simples correia de transmissão das forças capitalistas. Os modos como as corporações tentam influir na esfera pública têm que ser lidos de forma multiescalar, pois a hegemonia das empresas reside também em sua capacidade de sedução para estabelecer as pautas de desenvolvimento territorial dentro do âmbito da opinião pública.

De sua parte, os processos de organização e resistência no campo têm sofrido também importantes transformações durante as últimas décadas as quais colocam desafios nas pesquisas sobre as formas de resistência perante à expansão do agronegócio. Muitos fatores estão por trás destas mudanças. As lutas pela terra alcançaram um momento de máxima intensidade na metade do século XX, antes da ditadura militar, sob o protagonismo das Ligas Camponesas e dos Sindicatos Rurais

— alguns deles influenciados ou diretamente organizados pela Igreja Católica, ou o Partido Comunista. O regime militar tratou a questão agrária e os problemas da terra como um assunto de segurança nacional, limitando­se a aplicar medidas redistributivas nas áreas de maior tensão social (MARTINS, 1995). Com a restauração da democracia, surgiram novos atores como o Movimento dos Sem Terra (MST) que abandeiraram as lutas populares do campo. A influência da proliferação de Comunidades Eclesiais de Base e do auge da Teologia da Libertação entre as décadas de 1960 e 1990 ainda se percebe naqueles que lutam pela terra, embora sua força tenha diminuído consideravelmente. Contudo, os movimentos sociais no campo ainda continuam fortemente organizados em algumas regiões do país, enfrentando os desafios vinculados à crescente capacidade do agronegócio de se

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justificar como o caminho "natural" para os problemas sociais e ambientais que atravessam o Brasil. A capacidade do setor de seduzir parte considerável da sociedade, inclusive onde os conflitos têm lugar, e de disciplinar os sujeitos que poderiam se mostrar contrários a seus interesses, tem transformado consideravelmente o campo de jogo no qual a expansão do agronegócio e seus conflitos decorrentes se desenvolvem.

Perguntas de investigação

Dado o exposto, a pergunta principal que norteia esta investigação é:

De que maneira as novas formas de intensificação e expansão do agronegócio na Chapada Diamantina durante as últimas duas décadas reproduzem e transformam as tensões socioambientais que colocam em risco à vida dos povos da região?

A hipótese geral da pesquisa é que a reestruturação do agronegócio produz certos deslocamentos sobre alguns dos eixos nos que orbitavam os conflitos agrários em épocas anteriores. Os impactos sociais e ecológicos dos conflitos atuais podem ser entendidos a partir das continuidades e descontinuidades que dizem respeito às lutas pela terra da segunda metade do século XX.

Esta questão central pode ser desdobrada em várias perguntas secundárias que outorgam um conteúdo mais específico à problemática:

1. Quais são as formas com as quais o agronegócio tem subordinado a natureza e as comunidades — camponesas, indígenas, quilombolas — enquanto objetos coloniais de conquista?

A reestruturação do agronegócio no período de estudo, embasada em processos de expansão espacial e intensificação tecnológica da produção, se encaixa nos processos de subordinação real da natureza efetuados pelo capital no campo. No marco da Ecologia Política que mobilizaremos neste trabalho, esta subordinação aprofunda os processos de ruptura metabólica e reproduz os esquemas coloniais de dominação que exploram e invisibilizam as comunidades e

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povos.

2. Em que medida os elementos centrais destas formas de expansão e intensificação do agronegócio supõem uma novidade em relação às formas anteriores de acumulação do capital no campo?

Ao longo do trabalho aprofundaremos vários destes elementos: 1) as tentativas de aproveitamento das rendas territoriais por parte das empresas ou grandes produtores dentro de um contexto crescente de financeirização que pauta a reestruturação do capital no campo; 2) os processos de justificação por parte do agronegócio e as tentativas de absorção das críticas que lhe são dirigidas; 3) o uso continuado do exercício do poder estatal em diversas escalas, especialmente através do sistema de governança das águas institucionalizado no período de análise que compreende este estudo. O nosso ponto de partida é que estes três elementos trazem certos deslocamentos que dizem respeito às transformações dos modos de regulação que guiam a acumulação do agronegócio e aos novos limites ecológicos e tensões sociais decorrentes de sua expansão. Contudo, só poderemos compreendê­

los cabalmente se os contemplarmos dentro de uma perspectiva que os enquadre nos processos históricos de acumulação de capital na região e do papel dos atores envolvidos nas lutas históricas pelo acesso à terra.

3. Qual é a influência do processo de renovação discursiva acometido pelo agronegócio nas últimas décadas nas dinâmicas de expansão do setor na Chapada Diamantina e na maneira como se desenvolvem os conflitos relacionados com esta última?

Os processos de reestruturação e expansão do agronegócio podem ser entendidos desde uma dialética entre práticas "materiais" e discursivas. Queremos prestar atenção a estas práticas para compreender como: 1) estabelecem uma ruptura em relação aos modos de exploração agropecuária anteriores ­menos tecnologizados e conectados com as grandes redes de produção; 2) procuram deslocar qualquer proposta alternativa de produção. O discurso produzido pelo setor tem­se consolidado como hegemônico embora existam processos de contestação que procuram aproveitar as brechas existentes.

4. De que maneira os modos de governança ambiental e das águas implementados nos últimos tempos condicionam a expansão do agronegócio e as tentativas de institucionalização dos conflitos?

Existem transformações significativas no papel do Estado na hora de regular a

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acumulação do capital no campo, embora estas não signifiquem o seu esvaziamento tão preconizado por algumas disciplinas. O nosso enfoque se centra em como o agronegócio tem sido capaz de continuar influindo decisivamente no exercício do poder estatal nesse trânsito do governo à governança, enfatizando a maneira pela que as empresas do setor desenvolvem suas estratégias ao longo de diversas escalas.

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Capítulo 1. Considerações teórico­metodológicas.

1.1 A construção em movimento de um objeto em movimento.

A construção deste trabalho pode ser vista como uma espiral. Como já foi colocado na introdução, a minha chegada à Bahia trouxe uma série de surpresas que modificaram substancialmente minha compreensão da problemática sobre a que queria me centrar. O trabalho realizado durante estes anos, na companhia da equipe da CPT regional à qual me somei durante esse tempo, é a base das viradas realizadas na hora de construir o objeto de pesquisa. Trata­se de uma construção em movimento: movimento físico, embora interrompido por um tempo com a chegada da pandemia, com viagens de um lado para outro da Chapada, com inúmeras conversações que me permitiram manter a perspectiva aqui apresentada; mas também movimento conceitual, o que faz com que o objeto de estudo abordado sempre tenha novas camadas a desenrolar, posto que a problemática evolui constantemente e seus múltiplos eixos ganham ou perdem força com o passar do tempo.

Então, a presente investigação foi construída em grande parte no campo, isto é, ao tempo que o trabalho de campo ia se desenvolvendo. O movimento em espiral mencionado é uma metáfora da tentativa constante de introduzir os novos elementos dentro de um esquema de análise coerente que mantivesse o foco na problemática.

Este movimento de ajuste e reacomodação reflete também a intenção da investigação de apontar questões relevantes que possam ir além do caso concreto analisado. Sem deixar de enfocar um estudo de caso específico, a pesquisa levanta perguntas que possam ter uma abrangência mais ampla e servir como estímulo para pensar outras realidades similares — como aquelas que se referem aos impactos das transformações do agronegócio nos últimos anos ou as formas como os sistemas de governança ambiental descentralizados e participativos são um ponto de apoio chave no exercício do poder de Estado. A pesquisa emula assim neste aspecto as características de um estudo de caso analisador­revelador, como aponta Martins

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(2009) ao interpretar Lefebvre (2002).

Por último, é fundamental frisar os próprios limites desta construção em movimento. O desenrolar dos elementos de análise na espiral a que fazemos referência, num diálogo entre nossas ferramentas teóricas e o vivido no campo, nos tem permitido aprofundar determinados aspectos não considerados no começo. No entanto, o entendimento que pode ser produzido sobre o objeto em questão continua sendo parcial. Assim, a escolha dos eixos de análise propostos na pesquisa não responde a uma tentativa de compreensão totalizante, mas a uma procura daqueles fatores que, num contexto de investigação particular, revelaram­se como mais importantes. Justamente, o que isto coloca é a necessidade de entender que o conhecimento produzido em todas as pesquisas é situado, tanto a partir das condições sociais das pessoas envolvidas como a partir das situações sociais pelos que o próprio trabalho de investigação é desenvolvido (HARAWAY, 1988). Para este caso, isto quer dizer que as formas como enxergamos e delimitamos nossa análise não só está mediada pela minha condição de homem branco, europeu e heterossexual, como também está influenciada pelos contextos através dos que cheguei a estar presente no campo, a maioria das vezes como parte da equipe da CPT, mas outras vezes como pesquisador individual. Desta maneira, a metodologia de investigação selecionada não pretende oferecer um enfoque que dê conta do conjunto dos processos que estão por trás do fenômeno estudado. Muito pelo contrário, procura sempre colocar em exposição os limites do conhecimento que se produz em base à situação particular de pesquisa adotada.

1.2 Um trabalho multidisciplinar.

A investigação combina ferramentas de várias disciplinas para encaminhar a análise sobre o processo de expansão do agronegócio, o uso depredatório dos recursos naturais e os conflitos territoriais que este provoca. O trabalho junta perspectivas da geografia, da ecologia política, da economia política e da sociologia.

Neste primeiro capítulo aprofundaremos apenas as fundamentações geográficas que atravessam o trabalho, mas em cada capítulo posterior elaboraremos as perspectivas teóricas identificadas com mais detalhe. No entanto, e para não deixar a questão da ligação entre estas múltiplas disciplinas no vácuo, o que segue na continuação é uma

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as articulações teórico­metodológicas efetuadas neste trabalho.

A elaboração dos construtos conceituais com os que daremos resposta às perguntas que guiam a pesquisa fundamenta­se, em primeiro lugar, em uma leitura geográfica sobre os processos de estudo. A investigação se guia pelas reflexões da geografia crítica anglo­saxã para compreender a multidimensionalidade espacial dos processos socioeconômicos. Acompanhamos neste sentido os trabalhos de Jessop et al (2008) e Brenner (2011), nos quais se critica a ênfase unidimensional que tem acompanhado a evolução dos trabalhos da geografia econômica ­ora com a importância do território e as (multi)territorialidades, ora enfatizando a escala no momento de compreender as reestruturações provocadas pela globalização neoliberal etc. Para estes autores, qualquer processo de reestruturação socioeconômica implica a concorrência de várias dimensões espaciais que atuam como estruturas seletivas que são, ao mesmo tempo, transformadas pelas estratégias dos atores (JESSOP, 2001). Com finalidade de complexificar, portanto, a abordagem das dinâmicas de reestruturação socioeconômica contemporâneas, desenvolvem o marco teórico conhecido como TPSN (Territory, Place, Scale, Network), o qual lhes permite costurar as maneiras como estas quatro dimensões se articulam (JESSOP; BRENNER; JONES, 2008). Em função de cada contexto particular, a ênfase em cada dimensão varia e nem sempre todas são importantes na hora de analisar um caso determinado. No desenrolar da pesquisa, iremos fazendo uso de várias destas dimensões para explicar os diversos aspectos das formas socioespaciais pelas quais o agronegócio se expande na Chapada. Prestaremos especial atenção às maneiras como as estratégias do agronegócio se baseiam na formação de territórios­rede em suas tentativas de captura de renda, sem com isso nos esquecermos de como estas são complementadas por esforços na produção de lugar e pelas práticas do setor em diversas escalas. Ao mesmo tempo, procuraremos também sublinhar como as formas de crítica e mobilização contra a expansão do agronegócio se apoiam em diferentes dimensões espaciais em situações concretas.

Os enfoques da ecologia política em geral e da EPLAT em particular são mobilizados na investigação para problematizar os conflitos derivados do uso depredatório da natureza na região de estudo. Dentro desta tradição, sublinha­se a vigência do sistema moderno­colonial na configuração das relações de poder que produzem a natureza e os povos como objetos de conquista (MACHADO, 2009;

ALIMONDA, 2017). Esta corrente, diferentemente das perspectivas desenvolvidas no norte global, parte de um engajamento político muito mais acentuado perante o entendimento dos conflitos socioambientais, em parte devido a que muitos de seus

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porta­vozes emergiram desses conflitos (MOREANO, 2020). Contudo, o trabalho também dialogará com as correntes da Ecologia Política de outras latitudes, especialmente a anglo­saxã no que concerne aos processos de neoliberalização da natureza (MOORE, 2003; CASTREE, 2008; BAKKER, 2015).

Em alinhamento com algumas correntes da economia política recente, a pesquisa parte também de um entendimento do neoliberalismo como um elenco de estratégias ensaiadas em várias ondas desde a década de 1970. Estas estratégias têm sido diferentes segundo o contexto, e por vezes contraditórias. Apesar disso, orientam­se pela procura de uma saída para a crise de acumulação dos regimes anteriores. Estas estratégias se estenderam de maneira global e seletiva, mas se caracterizam sumariamente por uma mudança dos modos de regulação social do capitalismo a favor da institucionalização de um estado de competência generalizada: liberalizaram­se como nunca os movimentos de capital (dando um peso inédito às finanças), os salários passaram a ser entendidos como custos de produção em vez de vetores de demanda e os processos produtivos se decompuseram em múltiplas partes espalhadas pelo globo coordenadas em rede por fora do guarda­chuva das grandes empresas multinacionais ­que ficaram só com a parte central de seu negócio­ e muito além das capacidades de controle e intervenção públicas (JESSOP, 2013a; DARDOT et al., 2021). Entretanto, entendemos também o neoliberalismo como um conjunto de estratégias criadoras de uma forma de governamentalidade das práticas e dos corpos, aspecto sem o qual não seria possível compreender as transformações subjetivas produzidas por ele (FOUCAULT, 2008; LAVAL; DARDOT, 2015). Tudo isto converge para que, segundo a lógica neoliberal, produza­se um paulatino processo de mercantilização da natureza e dos bens comuns através da introdução de dispositivos de cálculo que apontam para uma transformação dos modos de organização e das subjetividades (JESSOP, 2003). Outras ferramentas teóricas provenientes da geografia econômica e da economia política institucional, como a noção de redes de produção e governança também serão utilizadas no trabalho (CLAPP; FUCHS, 2009; MARKELOVA;

MWANGI, 2012; CEDDIA et al., 2013; COE; YEUNG, 2015; ROBERTSON, 2015). O uso destas categorias visa tornar mais complexa e específica a forma de incrustação espacial das empresas e dos processos políticos que viabilizam as atividades do agronegócio.

Com todo o anterior exposto, estamos já em condições de avançar o primeiro dos eixos em que se fundamenta a articulação interdisciplinar proposta para este trabalho. A leitura geográfica a partir das quatro dimensões espaciais propostas —

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território, lugar, escala e rede — explora uma problemática de investigação conceitualizada em termos da Ecologia Política e da Economia Política — já por si mesmos campos muito plurais. No primeiro momento de enquadramento desta problemática, mobilizaremos as ferramentas da EPLAT para compreender como os processos de expansão do agronegócio podem ser entendidos dentro do que vem sendo trabalhado como neoliberalização da natureza neste campo de estudos, ressaltando as dimensões territoriais e epistêmicas dos conflitos e da violência provocada pelo setor sobre os povos e a natureza da Chapada Diamantina (pergunta de investigação número 1).

O estudo recorre também a ferramentas originárias da economia política para interpretar as mudanças e impactos de um modelo de agricultura em que o capital financeiro cobra cada vez maior papel protagonista. A análise concede especial importância às instituições enquanto elementos que medeiam as relações entre os atores e que, longe de representarem uma solução subótima ao processo de alocação dos recursos, são entendidas como a cristalização das relações de poder, produto dos vínculos históricos e submetidas a constante tensão e negociação (FLIGSTEIN, 1996; HARRISS­WHITE, 1999; BOURDIEU, 2010). Ao longo do trabalho combinaremos esta perspectiva de análise institucional para dar conta das estratégias de acumulação por parte do agronegócio mediante a tentativa de captura de renda, dando lugar a diversos territórios­rede. Refletiremos também com este propósito sobre as continuidades e transformações da renda da terra, categoria analítica central na compreensão da acumulação do capital no campo, que passam entre outras coisas por notáveis esforços pela produção de lugar por parte do agronegócio (pergunta de investigação número 2).

Ao mesmo tempo, utilizam­se também categorias de análise próprias da sociologia econômica para dar conta das interpretações e processos discursivos mais amplos que acompanham estas mudanças. Os conceitos de justificação e crítica fazem parte da análise dos marcos de representação que empresas, camponeses ou funcionários públicos têm de suas ações. Estas noções são derivadas de parte da sociologia francesa contemporânea, que estabelece a relação entre a necessidade do capitalismo de outorgar um sentido de justiça para legitimar suas práticas e de envolver seus quadros em suas práticas. Isto efetua­se em parte através da absorção seletiva das críticas que lhe são dirigidas (BOLTANSKI;

CHIAPELLO, 2010; BOLTANSKI; THÉVENOT, 2006). Exploraremos estes marcos para dar conta das formas como o agronegócio consolida seu domínio no plano ideológico mediante a análise dos discursos de justificação e sedução das empresas

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do setor a partir situações de conflito concretas na região de estudo. Do mesmo modo, analisaremos as críticas dirigidas contra a expansão do agronegócio na Chapada, formuladas tanto nas comunidades locais e movimentos socioambientais afetados quanto no interior do próprio Estado, dando conta da pluralidade de posições em que se baseiam (pergunta de investigação número 3).

Finalmente, usaremos as ferramentas da geografia crítica anglo­saxã para nos centrar nas maneiras como o Estado adquire um papel especial enquanto estrutura institucional complexa e estrategicamente seletiva com particularidades específicas nos contextos latino­americanos (JESSOP, 1982, 2017; KAY; VERGARA­CAMUS, 2018). Mobilizaremos uma perspectiva do Estado como relação social para compreender as formas como ele facilita, por um lado, as atividades do agronegócio enquanto, por outro, é atravessado pelas tensões e disputas políticas decorrentes de sua necessidade de legitimação. Adicionalmente, entendemos o Estado num sentido amplo, em afinidade com o conceito de Estado integral gramsciano, o que nos servirá para compreender como a implementação dos mecanismos de governança ambiental descentralizados e participativos continuam perpassados pelo exercício de poder estatal. Complementaremos esta perspectiva com um olhar multiescalar que dê conta de como os diferentes atores têm capacidades diferenciadas na hora de influir no Estado (pergunta de investigação número 4).

A rede conceitual que envolve a abordagem proposta nesta investigação parte da premissa de que os processos sociais desenvolvem em seu devir inúmeras contradições. A perspectiva teórico­metodológica apenas esboçada até aqui abarca essas contradições para cada eixo de análise proposto, procurando os potenciais que emergem nos limites do possível (LEFEBVRE, 1978). Em primeiro lugar, entendemos a evolução das práticas do agronegócio como parte de um processo de produção do espaço baseado no desenvolvimento desigual. O agronegócio faz com que alguns espaços sejam, num determinado momento, centrais no processo de acumulação. No entanto, o esgotamento das bases que permitem a reprodução deste processo — neste caso a água é um dos recursos centrais para a perpetuação dos lucros extraordinários — obriga ao deslocamento das forças produtivas para outros lugares. Tudo isto é mediado por várias forças que vinculam o setor com o Estado e com a opinião pública em diferentes escalas. Pois bem, longe de significar um movimento coerente e monolítico, este processo está cheio de tensões devido a seus impactos sociais e ecológicos. Na pesquisa pretendemos capturar estas tensões para com isso pôr de manifesto as formas como as contradições do processo mencionado são vivenciadas pelos diferentes atores envolvidos.

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1.3 A multidimensionalidade dos processos socioespaciais.

Questões epistemológicas.

Apesar de se tratar de um trabalho de investigação interdisciplinar, a nossa âncora principal se situa na geografia. Vale destacar, neste primeiro momento, o que estamos entendendo como espaço. Procuramos nos afastar de uma noção deste conceito como recipiente onde acontecem as coisas para partir da sua compreensão enquanto fruto do processo de produção a partir do conjunto das relações que englobam os seres humanos e seu entorno. Assim, mais que de espaço como categoria fixa, falamos de espacialização como dinâmica. As categorias geográficas que se desdobram ao longo da investigação — território, redes, escalas e lugar — querem captar as formas e especificidades deste processo que está constituído pelas dialéticas próprias da dinâmica de desenvolvimento desigual das economias capitalistas (SMITH, 2008; BRENNER, 2011).

Um ponto adicional a respeito o entendimento do espaço aqui utilizado: não enxergamos as categorias geográficas mencionadas como meros recipientes de processos divisíveis de maneira nítida de tal forma que, por exemplo, o que tem a ver com o poder é ligado à noção de território, enquanto o que tange à identidade, ao local ou ao íntimo se vincula com o lugar. Queremos dar conta ao longo da investigação do próprio movimento do objeto, de seu devir constante que por vezes pode aproximar conceitos que tradicionalmente têm sido pensados separadamente (SERPA, 2017; HARVEY, 2019).

Em seguida, é importante frisar que outorgamos, na hora de abordar a problemática de estudo, parte de uma prioridade ontológica das relações de poder e dominação por sobre as outras componentes da realidade social. Esta priorização é o que permite encaixar o problema enquanto conflitos e construir as perguntas de investigação. Entendemos o poder como a lógica exercida sobre os atores dentro de um contexto de relações sistêmicas, diferenciadas historicamente e sobre a qual uns têm mais capacidade de orientar suas ações e prever os resultados que outros.

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