Com o intuito de discutir sobre o caráter multimodal dos textos selecionados pela professora-pesquisadora e pela professora regente, serão discutidos conceitos introdutórios
150 referentes à Semiótica Social (VAN LEEUWEN, 2005) e à Gramática do Design Visual, doravante, GDV. (KRESS & VAN LEEUWEN 2006 [1996])
Nesta subseção, esses conceitos serão apresentados de forma breve, por não constituírem o foco principal deste trabalho. Todavia, desconsiderá-los consistiria em negligência, uma vez que todos os textos, os verbais e os não verbais, presentes no discurso oral e no escrito, são multimodais; e a percepção da diversidade de recursos linguísticos e imagéticos contribuiu no processo de construção de inferências dos alunos durante as atividades de leitura e de compreensão textual.
Bezemer & Jewitt (2010, não paginado) indicam que todas as formas de comunicação são moldadas por meio dos usos históricos, sociais e culturais para realizar suas funções
sociais68. Desse modo, os significados realizados por qualquer modo de comunicação (oral, escrito, visual) estão sempre entrelaçados com os significados feitos com outros modos e colaboram para que ocorra um evento comunicativo. Essa interação produz o significado, e a
multimodalidade concentra-se em um processo de construção de significados, sendo um processo no qual as pessoas fazem escolhas a partir de uma rede de alternativas, selecionando um significado modal em detrimento de outro (ibid) ou considerando ambos os
significados e enfatizando aquele que mais se destacou.
Assim, a extensão espacial de um gesto, as formas de entonação da voz e a direção do olhar constituem recursos que contribuem na construção de sentidos. Ressalte-se que a Sociolinguística Interacional e as demais áreas que utilizam orientações da etnografia para a construção de suas pesquisas consideram, em seus estudos, todos os recursos semióticos que compõem as interações sociais para compreender os sentidos partilhados pelos colaboradores de pesquisa.
Van Leeuwen (2005, p.03) entende os recursos semióticos como
ações e artefatos que usamos para nos comunicarmos, quer sejam eles produzidos fisiologicamente — com o nosso aparelho vocal; com os músculos que usamos para criar expressões faciais e gestos, etc. — quer por meio de tecnologias – com caneta, tinta e papel; com hardware e software; com tecidos, tesouras e máquinas de costura, etc. Tradicionalmente, eles são chamados de “sinais”(...). (VAN LEEUWEN, 2005, p.03)69
Isso significa que todos os textos são multimodais, desde a diagramação, as cores, as
figuras, o tipo de papel (no caso do texto escrito) ou até como as pessoas se comportam nos
68 Tradução própria. 69 Tradução própria.
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textos orais (gestos, entonação de voz, expressões faciais) pode ser chamado de multimodalidade (FERRAZ, 2011, p.45), uma vez que todos os textos são produzidos e
recebidos por meio de recursos semióticos variados. Esses recursos precisam ser considerados no processo inferencial para que a compreensão textual ultrapasse as estruturas linguísticas e alcance as práticas sociais representadas pelo texto.
Sobre a importância da Semiótica Social nos estudos linguísticos, Santos & Pimenta (2014, p.300) entendem que, dentro dessa perspectiva, a linguagem constitui
um tipo de comportamento social, ou seja, ela tem uma “função” (aspas das autoras) que é construída a partir das interações humanas e está organizada em “sistemas” contextualmente sensíveis. Assim, o uso da linguagem está revestido por significados potenciais, associados a situações específicas e influenciados pela organização social e cultural.
A Gramática do Design Visual reúne os principais fundamentos das teorias da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) desenvolvidas por Halliday & Matthiessen (2004) e Halliday & Hasan (1976), bem como as da Semiótica Social (VAN LEEUWEN, 2005). Assim sendo, a multimodalidade deve ser entendida como característica intrínseca aos textos e, por essa razão, precisa ser levada em conta pelos professores ao realizarem quaisquer atividades de compreensão textual.
Ao introduzirem a GDV, Kress e van Leeuwen (2006[1996], p.03) deixam claro o seguinte:
(...) ‘nossa’ (aspas dos autores) gramática é uma gramática bastante geral de design visual contemporâneo na cultura “ocidental” (aspas dos autores), um relato dos conhecimentos e práticas explícitas e implícitas em torno de um recurso, que consiste dos elementos e regras subjacentes a um formulário específico da cultura de comunicação visual. (KRESS & VAN LEEUWEN 2006 [1996], p.03)70
Kress e van Leeuwen (2006[1996], p.05) acreditam que, assim como as línguas constituem construções sociais, a linguagem visual dominante é resultado da cultura de globalização vivida pela sociedade. Por essa razão, há de se ter cuidado, ao analisar imagens, em considerar as condições sociais, culturais e históricas sob as quais elas se inscrevem. Esses autores (ibid, p.33-34) defendem que as escolas precisam repensar a inclusão da comunicação visual nos currículos de alfabetização, pois a escrita continua sendo privilegiada e a
multimodalidade de textos escritos tem, de modo geral, sido ignorada, seja em contextos de
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ensino, na teorização linguística ou no senso comum. Por essa razão, hoje, na era da multimídia, a multimodalidade necessita ser percebida e abordada. (Ibid, p.41)
Desse modo, a multiplicidade de semioses presentes nos textos verbais e não verbais passa a ser estudada por meio das teorias relacionadas à Semiótica Social, à LSF e à GDV, e os estudos linguísticos voltados para essas áreas passam a considerar os aspectos imagéticos e composicionais de um texto, ou seja, a construção de sentidos deve ser o resultado de um princípio integrador do uso de vários recursos semióticos que conferem significado ao texto (VIEIRA, 2015, p.48). Logo, o formato da letra, a fonte, a cor e o tamanho escolhidos; o tipo de suporte selecionado para divulgação do texto; a organização dos participantes dentro de um enquadre e a sobreposição de um sobre o outro na imagem; assim como a escala de cores fortes ou fracas utilizadas, representam traços semióticos que compõem o quadro multimodal do texto.
Nessa perspectiva, quando o professor reconhece os elementos multimodais presentes nos textos que utiliza em suas aulas, espera-se que as interações face a face realizadas com seus alunos, durante as atividades de compreensão textual, sejam guiadas por ele sob a ótica de que o texto possui muito mais elementos a serem considerados além das estruturas linguísticas já consagradas.
Sobre a abordagem realizada pela professora-pesquisadora a respeito dos aspectos multimodais presentes nos textos trabalhados, tem-se, como exemplo, a discussão sobre texto
O Fundo do Poço, da revista Super Interessante (Anexo II). Na aula 04, a professora-
pesquisadora apresentou, por meio da projeção de imagens do computador, o gênero textual infográfico (Figura 23), que fazia parte dessa reportagem sobre a crise hídrica no estado de São Paulo. O objetivo do infográfico era mostrar a queda do nível de água no Sistema Cantareira, reservatório que fornece água para uma grande parte do estado de São Paulo. O excerto 20 ilustra como a professora-pesquisadora apresentou esse gênero textual para os alunos, caracterizando-o e mostrando sua funcionalidade para a compreensão do assunto abordado na reportagem.
153 Figura 23 – Infográfico sobre o nível de água no Sistema Cantareira.
Fonte: http://super.abril.com.br/crise-agua/ofundodopoco.shtml. Acesso em 20/03/2015.
Excerto 20 – Aula 04
O excerto 20 expressa um momento da quarta aula em que a professora-pesquisadora explicou aos alunos a maneira de realizar a leitura de um infográfico, gênero textual 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17
Professora: Na última página do texto de vocês, tem um “infográfico”, abaixo, que tem um título
de baixo nível, né, “navegue pelo gráfico e veja como é o nível dos reservatórios e veja como o nível dos reservatórios mudou na última década apesar do nível baixo nas épocas de secas, nunca houve tão pouca água como em 2014” ((lendo a informação que precedia o infográfico)). Como não deu para fazer uma cópia colorida pra cada um, a cópia tá em preto e branco e ficou muito pequeno, mas o que eu quero é que vocês percebam que isso aqui é um gráfico é... a leitura de gráfico é uma leitura muito importante, que muita gente tem dificuldade e, às vezes, até ignora o gráfico. No momento que está lendo uma notícia, lê o texto da notícia, mas não lê o gráfico. E, às vezes, o gráfico traz informações mais importantes que a própria notícia, tá, ele complementa a notícia, então, por que eu trouxe aqui? Porque esse infográfico ele é muito interessante /.../ Esse é o infográfico, não sei se vocês percebem que quando eu mudo o cursor aqui ((movimentando o cursor do notebook)) ele se movimenta, tá vendo? Então, olha que interessante aqui nós temos, no início do infográfico, /.../ o percentual do nível de água e aqui/.../ os anos. Eu começo em 2003 e vou até 2015, o ano em que nós nos encontramos. E aqui a gente percebe o nível de água, que estava aqui e aqui, olha ele sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce e ele chegou a um nível em determinado momento do ano passado que foi crítico, observem qual é o menor nível aqui, gente? É aqui, não é?
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emergente, que necessita da mobilização não apenas de recursos intelectuais, mas de recursos
tecnológicos para a realização da leitura. Marcuschi (2004, p. 13) compreende que os gêneros emergentes estão relacionados com as novas tecnologias e que eles reúnem, num só meio,
várias formas de expressão, tais como texto, som e imagem, o que lhe dá maleabilidade para a incorporação simultânea de múltiplas semioses interferindo na natureza dos recursos linguísticos utilizados.
Há também outro momento, na aula 05, em que a professora-pesquisadora destacou (Excerto 21) outro aspecto multimodal desse mesmo texto, que diz respeito à imagem (Figura 24), que explicitou como se encontrava, então, o volume útil do reservatório de água do Sistema Cantareira.
Figura 24 – Volume útil do reservatório do Sistema Cantareira.
Fonte:http://super.abril.com.br/crise-agua/ofundodopoco.shtml. Acesso em 20/03/2015.
Excerto 21 – Aula 05 01
02
Professora: 11,8 milhões de habitantes. E aí cada habitante usa muitos litros de água, se a gente
multiplicar aí a gente vai ver que não vai dar pra todo mundo. 03
04 05
Aluna 04: Você viu que, eu vi no jornal hoje meio-dia que tava falando a respeito/sobre isso que
a Cantareira/que o pouco de água que juntou por causa da chuva, né, já tá secando novamente, assim tava (( )) aí hoje tava passando no jornal falando.
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Professora: Em São Paulo tá, tá há muito tempo sem chover, aqui nós temos, então, gente uma
explicação, um desenho explicativo sobre o volume morto, o que seria o volume morto, aqui? Eu tenho, né, o sistema Cantareira e aqui nós temos todo o espaço de reserva de água, o volume morto é uma reserva de água exatamente para esses casos de exceção, só que a gente percebe que ele é previsto mais assim como uma situação à parte não como um estado inteiro que está em crise, que não tem água, e a gente percebe que esse volume morto ele começou a ser usado, eles começaram a bombear água, porque é muito profundo tem que bombear pra água subir, mas mesmo assim não foi suficiente/.../
155 Sobre o trabalho com os textos multimodais em sala de aula, Silvestre (2015, p.95) assegura que a escola ainda privilegia os aspectos verbais do texto, e, para ela, essa instituição social ainda é compreendida como aquela que mantém o suporte ilustrativo da linguagem
verbal (Ibid). Sobre essa afirmação da autora de que a escola só tem se ocupado com o texto
verbal, é preciso considerar que, mesmo na perspectiva tradicional, existem muitas semioses nos materiais didáticos elaborados e/ou utilizados por essa instituição como, por exemplo, nos materiais de artes visuais ou cênicas, nas fórmulas das ciências exatas ou nas figuras geométricas da matemática. Os livros didáticos de história e geografia, há muito tempo, já trazem imagens, assim como os livros de biologia e outras áreas do saber. Na verdade, é preciso que haja preocupação com os modos como os professores têm utilizado essas imagens. Será que realmente há um processo de leitura colaborativa do texto não verbal que considere essas múltiplas semioses?
De fato, os aspectos visuais sempre integraram os textos verbais, uma vez que todo texto é multimodal, e o homem, desde os tempos mais primórdios, sempre utilizou desenhos para imprimir seus modos de vida. Exemplos disso são os diversos sistemas de escrita que possuem bases imagéticas, como o alfabético.
Todavia, há de se considerar que, no mundo pós-moderno, os textos estão cada vez mais compostos por diversas semioses e passam a circular em uma velocidade muito maior. Silvestre (2015, p.99) nomeia de ressemantização, quer dizer, uma mutação semântica de um
estado “ser literato” para um processo em desenvolvimento de “construir-se literato”71
(aspas da autora), em outras palavras, o enfoque deixa de ser o conhecimento para passar a
ser a atividade (SILVESTRE, 2015, p.99). Ou seja, é preciso letrar-se constantemente a fim
de acompanhar a renovação dinâmica da leitura dos gêneros emergentes, que surgem, ganham força e tornam-se obsoletos em curtos espaços de tempo.
É necessário, pois, no ambiente escolar, considerar a diversidade de gêneros que surgem e desaparecem rapidamente nesta era imagética vivenciada pela sociedade pós- moderna, de modo que esses textos possam figurar nas atividades de leitura.
O processo de construir-se literato, defendido por Silvestre (2015, p.99), pode ser entendido, no contexto deste trabalho, como toda atividade de construção colaborativa do sentido de textos multimodais. O Excerto 22 exemplifica, mais uma vez, o processo de construção colaborativa de sentidos para o texto 07.
71 O termo literato (Português Europeu), utilizado pela autora, equivale à palavra letrado, no Português
156 Texto 07
Fonte: http://www.maiusculo.com.br/wp-content/uploads/2012/08/Dia-d_agua.jpg. Acesso em 24/03/2015.
Excerto 22 – Aula 04
01 Professora: /.../ o primeiro anúncio, o que vocês entendem com essa imagem? 02 Aluna 01: A torneira derramando água.
03 Professora: A torneira? 04 Aluna 02: Derramando água.
05 Professora: Derramando água. Estragando água?
06 Aluna 03: (eu acho) que a água mesmo tá desligando a torneira. 07 Professora: A água mesmo está desligando a torneira.
08 Aluna 04: É mesmo.
09 Professora: Essa água, quando a gente abre a torneira, né, a lei da gravidade né? A água cai né? 10 Aluna 05: Uhum.
11 12
Professora: Mas essa, nesse anúncio publicitário há uma, há algo diferente, não há o segmento
da lei da gravidade. O que ocorre? A água está subindo. 13 Aluna 06: Ela faz um movimento que...
14 Professora: Ela faz um movimento, o quê? Que é isso aqui? 15 Aluna 06: Circular.
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Professora: Que eu estou fazendo? Circular. Isso quer dizer que a água que sai da torneira ela
tem o quê?
18 Alunas: Voltar ((várias alunas)). 19
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Professora: Né? Então essa propaganda, quando a gente olha, a gente já percebe assim, esse
impacto, essa mensagem, a água que sai da sua torneira ela tem precisa voltar pra sua torneira. E 22 de março. Dia mundial da Água. Dia mundial de lembrar do que somos feitos. Não desperdiçar é ajudar o planeta, é ajudar a nós mesmos.
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como fazer isso? Agora sim eu vou colocar um pouquinho da lupa, que está escrito aí com letras bem, bem, com letras muito pequenas tá, tá escrito o seguinte, e aí eu vou ler pra vocês, porque ainda tá pequeno. “Se nosso corpo é 70% água, os outros 30% tem que ser responsabilidade.” Olha que interessante?
Todos os exemplos apresentados e as teorias discutidas levam à compreensão de que textos presentes nas aulas precisam ser reconhecidos como multimodais, e essa percepção leva o docente a conduzir seu trabalho com práticas que despertem nos alunos a percepção das múltiplas semioses presentes no texto a fim inseri-los no processo de construção do letramento crítico.