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Capítulo 1 Do nascimento dos Deuses

4. A Nação Imaginada

No Brasil, por paradoxal que possa parecer, as ditaduras têm sido modernizadoras tanto como a modernização, ditatorial. (Raúl Antelo, Potências da Imagem)

Raúl Antelo trabalha - no texto “Artefatos verbais”, presente no segundo capítulo do livro Algaravia, a partir de uma citação de Murilo Mendes (acompanhado dos ecos de leitura do livro de Benedict Anderson, Comunidades Imaginadas77) - história e ficção como algo imaginado, uma construção de linguagem que auxilia na constituição de uma tradição. O texto de Antelo permite perceber as mudanças que ocorrem no fim do século XIX, e isso é de suma importância para o entendimento do texto de Euclides da Cunha, assim como da guerra de Canudos. Raúl Antelo nos diz que:

História e ficção seguem caminhos paralelos porque ambas recorrem à legitimação de relatos maiores que validam o conteúdo de verdade de

77

Na verdade, qualquer comunidade maior que a aldeia primordial do contato face a face (e talvez mesmo ela) é imaginada. As comunidades se distinguem não por sua falsidade/autenticidade, mas pelo estilo em que são imaginadas. (ANDERSON, 2008, p. 33)

98 histórias (verídicas) e ficções (verossímeis). História e ficção não descansam, portanto, em verdades objetivas, universais, porque elas estão condenadas a trabalhar fragmentariamente e sua ambição de totalidade não passa de compromisso ideológico camuflado ou metafísica dogmática. História e ficção definem-se, pois, como construções de linguagem, fruto de convenções, no mais das vezes explícitas, que se armam em virtude de redes de sentido intertextual. Assim, a verdade (o real) que ambas constroem seria aquilo que simula um significado, fingindo uma congruência e completude que, a rigor, nós só podemos imaginar mas não exatamente experimentar.78

Mais adiante ele argumenta que:

Se toda história, além de enigmática, é provisória, todo saber é, a seu modo, cúmplice de um relato. Assim, o percurso da ficção histórica latino-americana, tal como costumeiramente fixada pela historiografia literária, acompanha o trajeto de um relato maior: o da constituição de um marco simbólico (um Estado, uma língua) que definimos como nacional... ...Pensar a nação como comunidade imaginada à maneira de Anderson implica pensar a identidade nacional como algo explicitamente ficcional, não no sentido de essa identidade ser ‘falsa’ e sim no sentido de ela ter uma constituição ‘discursiva’.79 78 ANTELO, 1998, p. 15. 79 ANTELO, 1998, p. 16.

99 Antelo sinaliza para o fato de que a (história da) constituição de uma ficção (a história literária) se encontra atrelada (ou acontece concomitante) à constituição de uma nação, de um estado, de uma língua, e que as duas, nação e ficção, não passam de algo imaginado, ficcionalizado. Isto é, se esses lugares são construídos e se estabelecem como marcos simbólicos em uma sociedade, de que maneira podemos reconsiderá-los e repotencializá-los?

Raúl Antelo nos informa também que esses marcos simbólicos constituíram arquivos que se solidificaram, permanecendo estáticos em relação à linguagem, ou seja, não passam de jogos que se armam entre aquilo que pode e aquilo que não pode ser dito, dessa maneira, uma outra proposta de leitura passa pela possibilidade de ler o objeto como discurso, como ficção, podendo manejá-lo, remanejá-lo, montá-lo e desmontá-lo como um jogo, um joguete. Olhar para a ficção, à maneira como Antelo sugere, nos dá a oportunidade de um olhar que não seja o mesmo que ampara o discurso da historiografia literária, ou, ainda, por extensão, que ampara um discurso moderno/modernista de leitura para as ideias de nação e de ficção.

Talvez se torne mais fácil compreender o que Raúl Antelo desenvolve em “Nação: noções”, que também faz parte do livro em questão, quando, amparando-se no conhecido ensaio “Instinto de Nacionalidade”, de Machado de Assis, propõe a seguinte situação:

Se, acompanhando ainda Machado de Assis, é lícito pensar que a construção da nação corre

100 paralela à construção de uma tradição, não é menos lícito afirmar o contrário: a radical impossibilidade de tornar as ideias de nação e ficção como dados definidos a priori e livres de controvérsia.80

Por um lado, pode-se pensar, junto com Machado de Assis (ou como Antelo lê Machado de Assis), uma nação e uma ficção que se constituem (ou que buscam ser constituídas) atreladas a uma tradição, a um conceito de verdade81, com conhecimentos intransponíveis (ou transponíveis quando e se desejáveis), com lugares postos, bem definidos, marcados, demarcados,

80

ANTELO, 1998, p. 11.

81

Foucault estabelece, na A Ordem do Discurso, três sistemas que considera de exclusão (do exterior): a palavra proibida, ou interdição, que seria aquela frase (ou palavra) que não pode ser falada em qualquer lugar e que, para Foucault, isso ocorre na sociedade contemporânea quando se fala sobre política e sexualidade; a segregação da loucura, que é a maneira como a palavra do louco ou não é aceita e por mais que ele fale não passa de um ruído, ou em alguns momentos atinge um tom de profecia; e, por último, a vontade de verdade, que Foucault diferencia do discurso verdadeiro por considerar que o que está em jogo neste último é apenas o desejo e o poder, desta forma, “O discurso verdadeiro, que a necessidade de sua forma liberta e libera o poder, não pode reconhecer a vontade de verdade que o atravessa, e a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela quer não pode deixar de mascará-la. Assim, só aparece aos nossos olhos uma verdade que seria riqueza, fecundidade, força doce e insidiosamente universal. E ignoramos, em contrapartida, a vontade de verdade, como prodigiosa maquinaria destinada a excluir todos aqueles que, ponto por ponto, em nossa história, procuram contornar essa vontade de verdade e recolocá-la em questão contra a verdade, lá justamente onde a verdade assume a tarefa de justificar a interdição e definir a loucura;” (página 20, A Ordem do Discurso). Em relação ao que chama de exclusão exterior, Foucault tem outro texto, Pensamento do Exterior – Ditos e Escritos III,

Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema, em que retoma a questão, nos diz

que, em uma época em que Kant e Hegel buscavam a interiorização da lei da história, a primeira brecha por onde o pensamento do exterior se revelou está em Sade. E que mais tarde, já na metade do século XIX, essa manifestação ocorre novamente, com particularidades que as diferenciam, em nomes como os de Nietzsche, de Mallarmé, de Artaud, de Bataille, de Klossowski e de Blanchot.

101 territorializados e, aparentemente, livres de toda controvérsia, fundados e afirmados por um conceito de verdade que se opõe ao restante, que ocuparia o seu espaço na condição de mentira. Por outro lado, é possível dizer que a nação e a ficção são imaginadas e que - ao invés de meramente se oporem às posições edificadas – se pode montar outras leituras dos acontecimentos que envolvem as mesmas, sem pretender, desta maneira, dar um juízo de valor que as enraíze como forma de solidificação e de manutenção das instituições de poder.

Raúl Antelo está propondo, como alternativa para pensar a nação e a ficção - que se constituem amparadas pela (e amparando a) ideia de tradição, com suas rupturas e retomadas -, o que ele chama de tradução: ao invés de uma nação e de uma ficção com uma história contínua, linear, seminal e amparada pelos vários conceitos e discursos que justificam essa maneira de pensar tanto uma como a outra, a opção é por um olhar descontínuo, disseminado, que nos permita olhar para o objeto estudado sem o peso que a própria tradição impõe, mas, nem por isso, desprezar a responsabilidade que o próprio objeto cobra.

Desse modo, a partir dos apontamentos realizados até o dado momento e ainda com o olhar da tradição, torna-se possível dizer que o livro de Euclides da Cunha se encontra no limiar de duas construções que são tomadas pelo conceito de história:

102 - a construção de uma nação brasileira que se ampara no conceito de história como maneira de reforçar e solidificar a lógica de verdade e faz valer (de todas as formas) esse absolutismo;

- a construção de uma “Literatura Nacional”: a ficção que, para se constituir, acaba se apoiando no - ou estabelece um diálogo forte com o - mesmo conceito de história (reforçando a História Literária), ou seja, uma busca pelo “real” para sustentar a verossimilhança;

Juntamente com Raúl Antelo e com Benedict Anderson, se pode dizer que se a nação e a ficção brasileiras foram imaginadas, esse mesmo processo de imaginação ocorre também com o sertão. O sertão precisa, portanto, ser imaginado com todos os aspectos possíveis de rudeza e de barbárie para que se possa valorizar aquilo que o coloca como oposição. No sertanejo, tão rude quanto o solo em que vive, se valoriza o elemento polarizador para que se possa dizer que a cidade (o centro) precisa se impor sobre esse monstro.

O sertão, na condição de algo imaginado, é colocado em oposição ao centro, à cidade, ao moderno, de três maneiras:

- o sertão serve de oposição à cidade e à necessidade que se tinha de construção de centros urbanos modernos.

103 - o sertão, e em especial a figura de Antonio Conselheiro com o seu sebastianismo, serve de oposição à recém-formada República; para tanto, o monstro de Conselheiro e de seus simpatizantes precisava ser o maior possível para justificar a operação militar e, consequentemente, o “crime”;

- o sertão é imaginado quando a literatura lê, e a questão da historiografia literária parece ser fundamental para isso, em Euclides da Cunha, em Os Sertões, apenas as características que referendam uma geografia, a ponto de elas se tornarem preponderantes na construção de um sertão que se limita a uma geografia. Isto é, a partir da maneira como Euclides monta o tabuleiro do que chama de um esboço geográfico do sertão para narrar a guerra, a palavra se solidifica na literatura com a sinonímia apresentada pelo autor, sendo que a crítica tem papel fundamental nesta construção.

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