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Capítulo 1 Do nascimento dos Deuses

5. Os Sertões de Euclides

O palimpsesto, ou o labirinto no qual, para Euclides da Cunha, Canudos teria consistido espraia-se por seus escritos, a partir de sua escritura. (Carlos Eduardo Capela, Nos confins de Judas)

...o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma pedra que calce as

104 suas junturas vascilantes. (Euclides da Cunha, Os Sertões)

In loco o próprio Euclides da Cunha desconstrói as amarras que havia construído antes de marchar com o exército em direção a Canudos, não se pode dizer que, ao denunciar o crime, está denunciando toda a estrutura que perpetua essa lógica de pensamento, inclusive a literária, seja através de suas historiografias ou de suas necessidades fundacionais?

Ainda, se por um lado, e na tentativa de fundar, de construir e de poder falar da história de uma nação e de uma literatura nacional, o nome de Euclides da Cunha é pensado junto às ordens tradicionais, pode-se perguntar: de que modo isso acontece? Quais são os elementos que subsidiam e reforçam essas correntes de pensamento? De que forma,considera-se que o próprio Euclides da Cunha contribui para esse tipo de leitura?

Pensando no campo da Literatura, o fato de Euclides da Cunha adotar, antes de partir em direção ao sertão, a revolução Francesa como ícone para a construção de uma imagem do conflito em Canudos, e, em seguida, Victor Hugo como referência para a montagem da estrutura do livro faz com que se possa pensar o Brasil de duas formas: primeiro, como periferia de uma discussão europeia, no caso o centro das discussões, assim, o sertão é a periferia da capital federal; segundo, como um país que precisa usar os mesmos

105 exemplos para que possa realmente se constituir como nação. Usa-se o exemplo para que se possa dar exemplo, essa é a fala da razão.82

Assim Euclides sugere para a nação uma unidade, como em “Preliminares”, primeira parte de Os Sertões:

A terra sobranceia o oceano, dominante, do fastígio das escarpas; e quem a alcança, como quem vinga a rampa de um majestoso palco, justifica os exageros descritivos — do gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais de Buckle — que fazem deste país região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina.83

Baseando-se nos aspectos astronômicos, topográficos e geológicos que configuram o país, Euclides aponta para as características geográficas que definem a região em que a guerra se sucedeu e apresenta o país como se tivesse algum tipo de unidade, reforçando com isso a ideia de que o Brasil e os seus moradores são privilegiados por serem seus habitantes. Se essa nação tem uma unidade é essa mesma unidade que deveria ter as forças do exército nacional.

Para quem vem do litoral o sertão tem uma entrada. Há uma primeira delimitação de território feita por Euclides da Cunha e é por essa entrada que marcha o exército:

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Percebe-se que a questão que gira em torno do pensamento de Euclides da Cunha o aproxima do pintor espanhol Goya. Se Goya foi, primeiro, um defensor do iluminismo, no segundo momento, diante da barbárie protagonizada pelo exército de Napoleão, percebeu o equívoco que havia se embrenhado em seu pensamento.

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106 Está sobre um socalco do maciço continental, ao norte. Demarca-o de uma banda, abrangendo dois quadrantes, em semicírculo, o Rio de S. Francisco; e de outra, encurvando também para sudeste, numa normal à direção primitiva, o curso flexuoso do Itapicuruaçu. Segundo a mediana, correndo quase paralelo entre aqueles, com o mesmo descambar expressivo para a costa, vê-se o traço de um outro rio, o Vaza- Barris, o Irapiranga dos tapuias, cujo trecho de Jeremoabo para as cabeceiras é uma fantasia de cartógrafo. De fato, no estupendo degrau, por onde descem para o mar ou para jusante de Paulo Afonso as rampas esbarrancadas do planalto, não há situações de equilíbrio para uma rede hidrográfica normal. Ali reina a drenagem caótica das torrentes, imprimindo naquele recanto da Bahia fácies excepcional e selvagem.84

Ao mesmo tempo que Euclides da Cunha pensa em uma entrada, destaca a diferença da vegetação e do impacto que o viajante sente ao deixar a orla marítima:

“A vegetação em roda transmuda-se, copiando estas alternativas com precisão de um decalque. Rarefazem-se as matas, ou empobrecem. Extinguem-se, por fim, depois de lançarem rebentos esparsos pelo topo das serranias; e estas mesmo, aqui e ali, cada vez mais raras, ilham-se ou avançam em promontório nas planuras desnudas dos campos, onde uma flora característica — arbustos flexuosos entressachados de bromélias rubras — prepondera exclusiva em largas áreas, mal dominada pela vegetação vigorosa irradiante da

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107 Pojuca sobre o massapé feraz das camadas cretáceas decompostas.”85

No entanto, o texto dá a entender que adentrar o sertão e se distanciar do litoral cria outra relação com o espaço, pois o distanciamento daquilo que é compreendido como um porto seguro ao mesmo tempo aproxima daquilo que é desconhecido. O movimento textual feito por Euclides da Cunha além de narrar o deslocamento dele em direção à guerra evidencia um deslocamento de uma maneira de pensar o acontecimento: o texto se desloca, da mesma maneira como Euclides se desloca, do lugar da razão em direção ao desconhecido.

Euclides da Cunha, ao desmontar o (ou dar vazão ao) próprio discurso, indica que se deve ler o livro sem aprisioná-lo. Afinal de contas, precisa-se considerar que o próprio Euclides não o aprisionou. A cada momento em que sinaliza para a criação de um conceito, se desfaz dele.

Quais são os elementos que permitem a possibilidade de olhar Os Sertões como algo descontínuo, que se dissemina, não mais amarrado e solidificado a determinadas instâncias do pensamento? Qual seria o Euclides que permite olhar para Os Sertões não mais como tradição, mas como tradução? Qual seria o Euclides da Cunha que não apenas enterra os cadáveres, mas que dá vida aos fantasmas

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108 (ou, ainda, à fantasmagoria86) do vilarejo de Canudos? Ou seja, qual seria o Euclides da Cunha que dá vida àquilo que não é “palpável” pela ordem racional e que consequentemente, muitas vezes, é desprezado por uma leitura de ordem tradicional?

Considerando que o sertão, tal como é lido, é também tradição, sendo outra face da moeda, talvez essa questão justifique o fato de que o cinema de Glauber Rocha passe também pelo mesmo lugar: pelo modo como a crítica construiu no cinema de Glauber Rocha uma imagem de sertão que é arcaico e atrasado. Em oposição aos conceitos modernos, a contradição parece inevitável, pois acaba por solidificar, no próprio trabalho de Glauber Rocha, a ideia de uma tradição do cinema.

Se o cinema de Glauber é pensado com o olhar da tradição é porque a imagem do sertão está vinculada a uma ideia de árido, seco, escaldante etc. É uma tentativa de percebê-lo como

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Desenvolvo esta questão, em torno do que acredito sejam os fantasmas e a fantasmagoria de Canudos, em outro texto, Qual sertão, Euclides da Cunha e Tom

Zé, quando falo que o exército republicano, no front, estava com o olhar no inimigo

(que não via, pois que a maneira como os sertanejos guerreavam, ou se defendiam, de forma, aparentemente, desorganizada, fugia às táticas tradicionais praticadas ou apreendidas pelo exército de sua época) e com os ouvidos sendo minados constantemente pelas rezas do sertanejo, que aconteciam durante ou no intervalo das batalhas, ou seja, o vulto do sertanejo aliado à repetição de rezas em tons nasalados (fanhosos), acredito, provocavam no exército brasileiro, uma sensação, se não de impotência, de uma espécie de receio do desconhecido. Afinal de contas, a imagem do Antonio Conselheiro era forte: conseguia unir os sertanejos de Canudos bem como se juntar a ele os simpatizantes da capital em função das primeiras batalhas vencidas e da constante retomada das imagens espalhadas pelo sertão (que o exército brasileiro é submetido) do insucesso das expedições anteriores; pretendo retomar a questão e aprofundá-la, pois acredito que o assunto ainda pode ter novos desdobramentos.

109 moderno/modernista, muito bem feita por Ismail Xavier em Sertão

Mar e uma posição mais fácil de ser compreendida no cinema por ele

produzido durante a década de 1960. Todavia, quando proponho que o sertão trabalhado no cinema de Glauber Rocha não é apenas o sertão como geografia, mas é também o sertão do mundo, é com La

nascita (e com os filmes Claro e Idade da Terra), isto é, com o

cinema da década de 1970, que se tem uma alternativa. Essa alternativa vem com as dúvidas presentes no livro de Euclides da Cunha após interiorizar-se, pois esse é o momento em que o homem da cidade e dos livros se aproxima do sertanejo, da tradição oral, daquilo que fica de fora do abraço civilizatório: o Euclides da Cunha que movimenta a imagem de Glauber Rocha é o das dúvidas, é o que está mais próximo das trevas; é esse o escritor que faz com que o cineasta perceba que a ideia de sertão pode ser outra, e isso se torna mais claro com o cinema por ele realizado durante a década de 1970. Se o cinema da década de 1960 ainda o vincula a uma nação e a um discurso de nação, o da década de 1970, por sua vez, é o que o empurra para outro lugar, como possibilidade ainda de reler o da década anterior.

A grande contradição disso tudo é que Glauber Rocha é exilado porque o cinema por ele realizado, visto pela crítica próximo a uma vertente histórica de construção de uma identidade nacional, era considerado durante a década de 1960 pelo governo brasileiro como ameaça à construção de uma nação.

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