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2. A TEORIA S EMIOLINGUÍSTICA DE ANÁLISE DO DISCURSO :

2.5 S OBRE NARRATIVAS DE VIDA : CONCEITOS GERAIS

2.5.1 A NARRATIVA DE VIDA NA S EMIOLINGUÍSTICA

O uso de narrativa de vida na teoria Semiolinguística da AD, segundo Machado (2016b, p. 84), originou-se a priori para esta pesquisadora, da união entre a visão sociológica de Bertaux e o modo de organização do discurso narrativo da teoria de Charaudeau, ambos inseridos é claro em uma maneira discursiva de se conceber e analisar escritos. Para ela, o campo semiolinguístico deve se preocupar em analisar o como, o porquê e a forma dos enunciados nos atos de linguagem e dentro de diferentes textos. Se neles surgirem narrativas de vida, cabe ao pesquisador investigar os diferentes papeis do narrador delegado pelo autor ou sujeito-comunicante e como aquele se afasta ou se confunde com este, bem como a razão de certas emoções que saltam aos olhos em casos de narrativas de vida.

Nesse sentido, sob o olhar da AD, podemos investigar como os eus comunicantes e os eus enunciadores do ser que se narra podem ser materializados discursivamente. Os eus do narrador de uma vida podem, ainda, revelar traços de identidades, posicionamentos ideológicos e morais, como também estratégias argumentativas de sedução/persuasão.

Segundo Cyrulnik (1999, p. 34), citado por Machado (2016b, p. 33; 2020), o relato de vida pode levar o indivíduo a aceitar e a compreender os momentos difíceis de sua história.

Quando o sujeito se coloca em posição de personagem de seu próprio passado, pode haver um exercício de reflexão sobre os acontecimentos.

À luz da situação comunicativa de Charaudeau (1983), o sujeito que estaria no discurso seria o eu enunciador delegado pelo eu comunicante. Porém, a partir de algumas conversas com Machado (2017), ocorridas em aulas ministradas sobre narrativas de vida no Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos da UFMG, a professora insistiu que seria questionável pensar que há uma dicotomia plena entre esses dois eus (sobretudo nos discursos considerados ficcionais). Podemos inferir, então, a impossibilidade de afirmar que o eu comunicante é tão somente um retrato do eu enunciador. Todavia poderíamos ponderar que há muito do eu comunicante no eu enunciador. Acreditamos nessa hipótese, porque consideramos que o autor deixa escapar em seus discursos alguns traços de identidade e imaginários que podem revelar posicionamentos ideológicos. Logo a narrativa de vida seria uma materialidade discursiva em que é possível investigar traços de identidade e de posicionamentos do eu que se narra.

Em diversas situações comunicativas, podemos notar enunciados nos quais o sujeito deixa escapar relatos sobre si ou sobre outrem. Nessas situações, por mais que a intenção inicial não seja a de contar sua vida para outros, o sujeito-enunciador pode invocar um sujeito narrador

que se auto insere em seu discurso. Conforme Machado (2016b), quando essa situação ocorre, podemos pensar em narrativas de vidas.

Baseada na concepção de que alguns casos de narrativa de vida são expostos em concepções minimalistas (BERTAUX, 1997), outros não (este é aliás o caso de Memórias do Cárcere) para Machado (2016,2020) as narrativas de vidas não são propriedade exclusiva dos gêneros biográficos e autobiográficos. A autora considera que a teoria da subjetividade na linguagem de Benveniste foi necessária para compreender a complexidade das situações comunicativas e as teorias de Charaudeau e de Bakhtin, aliadas aos estudos de subjetividade, reforçaram as convicções sobre a flexibilidade para se entender que as narrativas de si podem ocorrer em diferentes circunstâncias comunicativas.

Consideramos que o melhor aspecto para diferenciar a teoria de narrativas de vida, segundo Machado (2016b), de outras teorias de autobiografias e biografias está na visão sensível que a pesquisadora tem sobre os discursos em que o sujeito fala de si. Para a analista do discurso, é possível encontrar narrativas de vida em qualquer gênero discursivo, desde que o sujeito discurse sobre alguma etapa de sua vida, sobre seus sentimentos e sobre outras pessoas.

Há histórias de vida que são mais evidentes, pois estão em gêneros textuais já consagrados, como biografias, autobiografias, memórias e diários. No entanto isso ocorre também no interior de outros discursos em que o foco inicial não seria o de falar de si, tais como vemos frequentemente acontecer em pronunciamentos políticos, um exemplo entre tantos outros. Diante disso, é possível notar a presença de narrativas de vidas, caso o sujeito-enunciador deixe escapar relatos de sua memória em seu discurso, independentemente do lugar e situação onde se encontre.

Para provar essa noção, Machado (2015, p. 100) investigou que, em diferentes

“prefácios”, existem traços de narrativas de vida que levam ao sujeito narrador-prefaciador.

Concordando com Machado (2016b, p. 122), consideramos que a narrativa de vida está atrelada ao exercício da memória do sujeito que se conta. A pesquisadora compreende a recordação de fragmentos de uma vida como um mundo habitado por várias vozes que o constituem, vindas de memórias esparsas.

Para o sociólogo Halbwachs (2006, p. 36), a memória do indivíduo é constituída tanto de uma memória individual quanto de uma memória coletiva. A primeira compreenderia sensações, emoções e sentimentos desse indivíduo, face ao momento relembrado. A segunda indicaria o social que envolve diversos outros seres do mundo, outras vozes, outras situações.

Cabe aqui alertar que não podemos tratar essas memórias como dimensões separadas, posto que

uma está ligada à outra. Isto é, na memória coletiva estarão presentes as memórias individuais do sujeito. Nesse caso, na lembrança mais íntima de alguém, na memória individual, haverá pontos de referência que são externos (mas se ligam) a ele.

Para Halbwachs (2006), a memória individual é heterogênea e não pode ser considerada exclusivamente sob a ótica individual. Sempre no âmago do sujeito haverá vozes vindas de outrem, pois “[...] na realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá, que se distingam materialmente de nós: temos sempre conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem” (HALBWACHS, 2006, p.16)

A memória é carregada de crenças e de imaginários do sujeito em relação a si próprio, aos outros e ao mundo. Nas lembranças e nas crenças também observamos efeitos discursivos de emoção. Na esteira de Santos (2010, p. 113), consideramos também que a memória é uma ressignificação de episódios do passado. Esses episódios, por sua vez, são atravessados por patemizações que remetem às práticas identitárias. Assim, de acordo com o supracitado pesquisador, para entender os efeitos patêmicos na recordação dos fatos, é necessário identificar os saberes de crença.

Em uma tentativa de explicar o que foi dito, vejamos um excerto de Memórias do Cárcere:

Naquele momento a idéia da prisão dava-me quase prazer: via ali um princípio de liberdade. Eximira-me do parecer, do ofício, da estampilha, dos horríveis cumprimentos ao deputado e ao senador; iria escapar a outras maçadas, gotas espessas, amargas, corrosivas. Na verdade suponho que me revelei covarde e egoísta:

várias crianças exigiam sustento, a minha obrigação era permanecer junto a elas, arranjar-lhes por qualquer meio o indispensável. (RAMOS, 1994, p. 18)

Nesse excerto, o sujeito enunciador relembra o período no qual se encontrava em estado de espera pelo cárcere. Ao depararmo-nos com esse trecho de uma narrativa de vida, temos acesso, como leitores, aos projetos de palavras (que imaginamos conter os pensamentos) de G.

Ramos. Nessas lembranças, é possível identificar a memória individual por meio dos sentimentos e do ponto de vista do sujeito face ao perigo iminente. Interligada a tal memória, também observamos a presença da memória coletiva, ao percebemos a inserção de vozes alheias que se encontram com a voz do sujeito narrador da história. Tal sujeito, ao falar desse episódio, parece convocar para ele as vozes de outros, ou seja, as das “crianças necessitadas”, que poderiam ser seus filhos.

Nessa passagem da narrativa, podemos perceber múltiplas memórias. Essa variedade ocorreria porque inferimos, no mínimo, três lembranças:

1. Memórias das especulações sobre as consequências da prisão;

2. Memórias sobre os encontros indesejáveis com deputados e senadores;

3. Memórias sobre as desigualdades sociais que acometeriam seus filhos.

Diante dessa hipótese, compreendemos como pode ser complexo o processo de escritura de uma narrativa de vida. Afinal quando o sujeito narrador passa a colocar no papel as suas memórias, não podemos nos esquecer de que ele já carrega em si diversas outras experiências de vida. Dessa maneira, por mais que consideremos o contar sobre sua vida no cárcere como a intencionalidade maior do autor, não seria possível que Graciliano Ramos se esquecesse de tantas outras vivências.

Observamos que nosso corpus possui narrativas de vida construídas pelo minucioso recurso das memórias, que se farão acompanhar por emoções sentidas/vividas, vozes alheias, imaginários sociodiscursivos, crenças e, conforme Charaudeau (2014) e Machado (2016), por efeitos de realidade e de ficção no campo narrativo propriamente dito.

2.5.2. Algumas sutilezas da memória...

Assim como Charaudeau (2014, p. 154), percebemos que a atividade de contar algo é posterior à existência de uma realidade passada (mesmo quando se trata de ficção).

Paralelamente, essa atividade pode fazer surgir um universo contado, que adquire predominância sobre a outra realidade, visto que, nesse universo, os fatos narrados passam a existir somente por meio dele. Em outras palavras, isso significa compreender que, no universo discursivo da narrativa, a realidade é transmutada para o seu mundo.

Por vezes, haverá uma tensão no processo enunciativo entre realidade e ficção, o que, por conseguinte, resulta em efeitos discursivos de realidade e de ficção. Enunciados narrativos, sobre as lembranças do sujeito, são passíveis de serem organizados, a partir da imaginação e da ficção, por que

[...] é uma tarefa quase impossível a de reconstituir fatos já vividos mantendo a mesma nitidez e precisão do momento em que eles ocorreram, quando se faz apelo somente à memória: os fatos vividos se embaralham a outros, surgem ecos de vozes que ficam na memória de quem reflete sobre sua vida passada. (MACHADO, 2016b, p. 125)

Entendemos que nosso corpus é perpassado pelas memórias que contêm a narrativa de vida do sujeito-comunicante (autor/escritor) G. Ramos. Logo, ao narrar-se, paralelamente em suas lembranças estarão diversos indivíduos com suas múltiplas vozes. Imbricados a essas vozes, estarão também os efeitos de ficção, conforme postula Machado (2016b, p. 80). Para essa pesquisadora, a memória é uma dimensão amalgamada à imaginação, e é muito difícil realizar um relato em que se consiga elaborar o passado, temporalmente e espacialmente, corretamente. Por conseguinte, o passado é fruto de uma “reconstrução” que podemos fazer, de acordo com a maneira pela qual encaramos os acontecimentos: pode ser de forma romanceada, dramática, amedrontada e assim por diante.

A narrativa de vida do sujeito surge de um “equilíbrio” realizado pelo eu que se conta entre o seu testemunho do factual e do ficcional, sendo que este complementa aquele, conforme aponta Machado (Ibid.). Dessa maneira, o imaginário pode ser apreendido como uma forma de preencher as lacunas da memória.

Em Memórias do Cárcere, encontramos reflexões do sujeito narrador de Ramos sobre a ficcionalidade das lembranças relatadas em sua obra. Vejamos os excertos a seguir:

Nesta reconstituição de fatos velhos, neste esmiuçamento, exponho o que notei, o que julgo ter notado. Outros devem possuir lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que não recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e me dão hoje impressão de realidade.

[...]

Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de ficção, bem: fala um sujeito mais ou menos imaginário; [...] (RAMOS, 1994, p. 36-37)

O relato do sujeito enunciador permite-nos inferir sobre a consciência que Ramos revela ter sobre o fazer narrativo da construção discursiva de uma história de si. Na reconstituição do passado, será de acordo com a subjetividade do sujeito narrador que as lembranças ganharão significado. Tal olhar de subjetividade sobre os fatos vividos é que irá proporcionar a

“impressão de realidade” para o sujeito narrador. Dessa maneira, por mais que consideremos a

existência de múltiplas formas de relatos sobre o mesmo evento que vivenciamos, a versão narrativa mais convincente será a que dialoga com as nossas impressões de realidade.

Consideramos, portanto, a subjetividade do sujeito como determinante para a construção do efeito de realidade que a narrativa de vida pode lhe proporcionar. Pode ser o caso, por exemplo, de quando alguém faz um relato sobre alguma situação em que estávamos presentes e a narrativa do outro não se encaixa em nosso olhar subjetivo sobre tais lembranças. Então somos levados a interromper o relato e a tentar corrigi-lo com expressões do tipo: “não, não foi assim que aconteceu; foi assim...”. A tentativa de correção da história está relacionada com as impressões de realidade que cada sujeito adquire sobre determinado evento do passado. Ou seja: com as sutilezas de cada memória.

A memória que levará a uma narrativa de vida pode ser observada na expressão “sujeito mais ou menos imaginário”, utilizada por Ramos. O narrador sabe que sua obra não é uma ficção, mas é fruto de sua visão do mundo e da maneira como sua memória registrou tais fatos.

A imaginação do sujeito que se conta completa os vazios da memória e permite que o enunciador conduza a sua narrativa de forma temporal e espacial, e que ela esteja de acordo com as suas impressões de realidade e de verossimilhança.

Entretanto, em alguns relatos, o sujeito narrador pode simplesmente abdicar de usar a imaginação para preencher os esquecimentos e apenas narrar que não se lembra do acontecido.

Tal recurso narrativo pode ser encontrado em nosso corpus, como na sequência a seguir:

O homem louro, tranqüilo, gordinho, se levantou da rede, acolhedor, fumando cachimbo, disse-nos palavras que não entendi. Impossível fixar a atenção em qualquer ponto, a memória se embotava, observações imperfeitas se atabalhoavam desconexas, deixando largos espaços obscuros. (RAMOS, 1994, p. 125)

No relato de G. Ramos, observamos as reflexões do sujeito narrador face às lacunas da memória. Ele revela não se lembrar perfeitamente do acontecido e não recorre à imaginação para completar as lembranças.

O neurologista Damásio (2000, p. 289) considera que há uma escuridão nas profundezas da memória, pois não temos como saber quais memórias armazenamos e quais não armazenamos. Logo, quando o sujeito elabora uma narrativa de si, as lacunas da memória podem ceder espaços às imaginações que, para o sujeito, podem ser realidades. Ou como no caso do excerto acima, a “escuridão” da memória ganha ênfase e não é reconstituída.

De acordo com o neurologista (2000, p. 291), alguns conteúdos de nossa memória ficam submersos no inconsciente por longos períodos, senão para sempre. As memórias precisam passar por um complexo processo de reconstrução durante sua recuperação. Nesse processo, alguns eventos vividos podem não ser reconstruídos integralmente, ou serem reconstruídos de maneira diferente do original, ou, ainda, nunca se tornar conscientes. Ainda temos outra possibilidade de reconstituição do passado: o evento pode promover a recuperação de outras memórias que, efetivamente, tornam-se conscientes na forma de outros fatos ou estados emocionais concretos. Nesse caso, pode ocorrer uma remodelação do evento que atravessa outros eventos.

Dito isso, consideramos que a memória não é homogênea, ela é essencialmente heterogênea. Por conseguinte, em uma narrativa de si o evento a ser reconstituído pelo sujeito pode sofrer influências de outros acontecimentos da vida desse indivíduo. A memória, então, é atravessada por inúmeras outras lembranças. Ademais, pensando junto a Damásio (2000, p.

280), vemos que a reconstituição dos fatos a partir do exercício da memória permite a construção da consciência de si. Destarte a narrativa de si concede ao sujeito uma elaboração consciente de sua identidade e de suas emoções.

2.5.3 Efeitos de sujeitos na narrativa de vida

O sujeito narrativo em um relato de vida busca contar ou recontar as experiências pelas quais passou. Como vimos linhas atrás, algumas histórias podem ser de um período específico ou de toda a trajetória do indivíduo. Seja como for, alguns acontecimentos do passado marcam a memória desse sujeito, positiva ou negativamente, porque todo ser nesse mundo atravessa por momentos agradáveis e desagradáveis.

Ao passo que o sujeito executa a atividade da memória, surgem também efeitos de si que são moldados pelo e no discurso. Desse modo, a interação do eu passado com o eu presente resulta em diversas nuances identitárias que são observadas nas entrelinhas dos enunciados e do contexto narrado.

Tais nuances identitárias podem ser denominadas como efeitos de sujeitos narrativos.

Com apoio em Machado (2016b, p. 89), que examinou quatro casos de narradores, podemos, então, compreender na narrativa de vida o delineamento de efeitos de sujeitos narrativos conforme o discurso.

Machado (Op. cit.) analisou discursos nos quais os sujeitos narradores são classificados em:

1. Sujeito narrador testemunha de uma fatalidade: o indivíduo vive ou testemunha um momento de desastre, de massacre, de guerra, de mortes e, por fim, resolve contá-lo para outrem.

No início da narrativa de G. Ramos, em Memórias do Cárcere, é exposto ao leitor a intenção discursiva do autor no que se tange ao processo de escritura de um testemunho. Ou seja, o sujeito enunciador expressa claramente que o conteúdo da obra se refere à acontecimentos que ele presenciou no passado. Nisso podemos identificar o sujeito narrador testemunha de uma fatalidade nos seguintes trechos:

Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos — e, antes de começar, digo os motivos porque silenciei e porque me decido. (RAMOS, 1994, p. 33)

Por volta de meio-dia trouxeram-nos caixões com marmitas e o almoço foi distribuído.

Olhei de longe a comida feia, mas não foi o aspecto desagradável que me fez evitá-la.

Reapareceram-se a inapetência, e só a vista do alimento me provocava náuseas.

Voltei-me para o exterior, fui embeber-me na monotonia das ondas, até que a refeição terminasse. Espantava-me conseguir uma pessoa mastigar qualquer coisa diante das imundícies que se agitavam e decompunham na vaga de mijo. O fedor horrível, confusão de cheiros com predominância de amoníaco[...] (RAMOS, 1994, p. 150)

O sujeito narrador testemunha nos relatos de vida visa expor um acontecimento traumático para ele e para outros, referente a uma tragédia. No primeiro excerto, esse efeito é proporcionado tendo em vista que o enunciador relata explicitamente que irá contar casos passados. Tais casos dizem respeito à época em que G. Ramos e outros indivíduos foram presos políticos.

No segundo relato, o efeito de testemunha é observado nas descrições desumanas que o narrador faz sobre o local onde ele e os demais tinham que se alimentar. As refeições eram feitas nos mesmos locais em que havia excrementos humanos. A denúncia da narrativa surge por meio do sujeito narrador testemunha que deseja compartilhar os acontecimentos com os leitores. As acusações têm intuito de revelar aos destinatários os detalhes horrendos, que possivelmente eram escondidos pelos responsáveis pela prisão. Em algumas vezes, só teremos

acesso a tais detalhes por meio de narrativas de vida de testemunho do sujeito narrador, haja vista que muitas informações são mantidas em segredo com o público.

Como Machado (2016b) bem aponta, para que haja efeito de veracidade nas denúncias é necessário que o sujeito enunciador busque uma objetividade histórica e contextual nos seus relatos. A objetividade, nesse caso, é garantida com descrições de horários, do local, das imundices, dos odores. Assim, na subjetividade inerente à narrativa de vida, o sujeito enunciador busca relatar as atrocidades com um certo grau de objetividade, para imprimir efeito de legitimidade em suas acusações e não correr o risco de ser tachado como exagerado.

2. Sujeito narrador intelectual e criador de ideias: parte do princípio de que o enunciador visa relatar seu trabalho e teorias vinculadas à sua história.

Quando o enunciador tem intuito de narrar ideias ou teorias, podemos observar o efeito do narrador intelectual, uma vez que ele busca inserir em seu relato de vida ideias que são geralmente relacionadas ao trabalho. No caso de Memórias de Cárcere, a nuance do narrador erudito é percebida porque G. Ramos lança mão de enunciados referentes ao seu trabalho de romancista e de crítico literário:

Descobri alguns romances de José Lins, de Jorge Amado, meus. [...] Lins é

Descobri alguns romances de José Lins, de Jorge Amado, meus. [...] Lins é