2. A TEORIA S EMIOLINGUÍSTICA DE ANÁLISE DO DISCURSO :
3.4 P OLIFONIA INTERNA DO SUJEITO - QUE - SE - NARRA
Para discursar sobre a polifonia interna do sujeito discursivo, Machado (2016b, p. 109) utiliza o tema de fragmentação dos eus. Com o intuito de exemplificar do que se trata esse desdobramento, a autora faz uso do conceito de “confederação de almas” concebido por dois filósofos franceses mostrado no livro de A. Tabucchi, Afirma Pereira. Tal livro foi transformado no filme Sostiene Pereira, em italiano, Pereira Prétend, em francês, e Afirma Pereira, em português de Portugal. O longa-metragem foi produzido por Roberto Faenza, em 1996, e apresenta a trajetória de um personagem que toma a consciência de que há, em todos nós, essa “confederação de almas”, ou seja, de que todo ser humano possui mais que uma única alma. Várias almas compõem o âmago do sujeito, e de vez em quando uma se sobressai e domina as outras.
Essa heterogeneidade de almas comanda as transformações identitárias do personagem na trama, segundo a analista do discurso supracitada (Ibid.). As mudanças são produzidas à medida que as almas adormecidas no íntimo do sujeito assumem o controle da mente e das ações.
Essa simbologia desenvolvida no livro e, depois, no filme é aproveitada na Análise do Discurso pela autora no que se refere às questões da identidade discursiva. A “confederação de almas” é compreendida como os eus divididos no discurso, ou melhor, como a polifonia interna do sujeito enunciador.
Os traços de imagem do sujeito discursivo estarão sempre relacionados com o meio externo, com as emoções, as crenças e as posições que ele precisa ou quer assumir diante do outro. Para isso, ele irá selecionar um dentre os diversos eus de identidades internas que ele possui, para legitimar sua ação.22 Em seus discursos, ele pode se mostrar ora polêmico, ora sedutor, ora dramático etc., ou, ainda, pode realizar uma mistura de tudo, a fim de que sua identidade e seu discurso sejam aceitos pelo receptor.
De todo modo, essas identidades que o sujeito assume em determinadas situações são identidades externas, são eus externos, buscados pelos diversos sujeitos comunicantes que surgem para legitimar a posição que se quer assumir. Todavia, a complexidade que envolve a noção de identidade não se esgota por aí, pois o sujeito enunciador, ou seja, o eu interior, pode se desdobrar e se dividir em diversos outros eus, adotando diversas nuances de identidades.
Seria o caso de se refletir sobre o exemplo que demos (pai e filha). Esses seres de palavra, antes de se pronunciarem, ou de assumirem posições, fariam uma deliberação interna sobre a identidade que um apresentará ao outro. Em outras palavras:
[...] ao procurar impor essa identidade ao outro, o sujeito em questão está também procurando aceitá-la, ele próprio. Acreditamos que, para emocionar o outro ou para convencê-lo do bem fundado de nossos propósitos, precisamos nos convencer a nós mesmos de sua valia, antes de tudo. O que resulta em uma curiosa estratégia que age em dois sentidos: no sentido do comunicante e no sentido do sujeito-interpretante. (MACHADO, 2015, p. 94)
22 Vale destacar que, em algumas situações, pode ocorrer de o sujeito não ter consciência sobre qual o eu de identidade melhor se enquadraria no contexto situacional, o que pode ocasionar problemas de comunicação, por exemplo.
Consideramos que o jogo interpretativo entre o sujeito comunicante e o sujeito interpretante ocorre no âmago dos sujeitos participantes do ato comunicativo. Cada sujeito interpreta (muitas vezes em silêncio) seus enunciados, suas decisões. Ele pode pensar que poderia ter usado outras palavras, ter tomado outras atitudes. Ele realiza, assim, um julgamento da imagem de si enviada ao outro, ou seja, realiza uma autocrítica.
Machado, adepta dos pensamentos bakhtinianos, afirma que nos sujeitos comunicantes aflora um dialogismo que os comanda. Para exemplificar, a autora mergulha no conceito de memória coletiva, de Halbwachs (1997),23 e ilustra como o eu nunca está só em sua narrativa, como ele se faz acompanhar por outros eus, ligados ao pensamento coletivo. Machado utiliza, então, um exemplo do próprio autor, que se toma como exemplo para simbolizar que há vários eus dentro de si, que o acompanham. Halbwachs (op.cit.) faz o relato de sua primeira viagem a Londres:
Lá, um amigo pintor o acompanha e chama sua atenção para as cores e os tons da cidade, dos jardins. Um amigo arquiteto, que também ali se encontrava, lhe mostra a grandiosidade das construções. Também se depara com um amigo comerciante que lhe apresenta o centro comercial de Londres, suas lindas lojas e a vibração que reina na City. Por fim, um amigo historiador vai narrar-lhe acontecimentos importantes da história de Londres. O fato mais intrigante é que, na verdade, o viajante-protagonista Halbwachs passeava sozinho em Londres. Os ‘amigos’ que lhes mostravam isso ou aquilo, e que com ele dialogavam, poderiam ser representados pela coletividade de saberes que o protagonista havia já armazenado sobre Londres. (HALBWACHS apud Machado, 2015, p. 9)
A polifonia24 interna (ou o dialogismo) que acontece no caso da viagem do sujeito-enunciante formulado por Halbwachs (1997, p. 52) é produto da coletividade de saberes, de conhecimentos e de sensações que outros viajantes já tiveram sobre Londres e que foram por ele incorporados. Por conseguinte, Machado (Op. cit.) nota que houve um desdobramento de eus do autor, ocasionado por uma memória coletiva sobre a cidade que já existia. Em um mesmo sujeito, surge um eu que assume a identidade de um pintor, depois outro eu com a identidade de arquiteto, posteriormente um eu como comerciante e, por fim, um eu como historiador.
Em nossa pesquisa atual, consideramos que há também essa polifonia interna em uma narrativa de vida, pois ao narrar sobre seu passado, inevitavelmente estarão presentes — no
23 É preciso ressaltar que a data 1997 refere-se à edição crítica da obra de Halbwachs, estabelecida por Gérard Namer. O editor reuniu vários textos/escritos de Halbwachs, publicados anteriormente.
mínimo, e em constante diálogo — o eu do passado e o eu do presente. (MACHADO, 2014, p.
111) Por esse motivo, inferimos que na construção discursiva de uma história de si, o sujeito narrador pode desvelar em seus escritos múltiplas pistas sobre suas nuances identitárias.
Além da presença desses eus temporais nas histórias de vida, podemos nos deparar com uma heterogeneidade de eus que surgem conforme a necessidade e a intencionalidade do sujeito enunciador. Outros fatores, como as emoções e as crenças, interferem na expressão de si e no surgimento de outros eus que se desvelam nas entrelinhas. O relato de si, nesse caso, torna-se uma materialidade discursiva riquíssima no que se refere à polifonia interna do sujeito.
No prefácio do livro Dizer é Morrer: a vergonha (2012), de Cyrulnik, deparamo-nos com enunciados que nos fazem perceber a polifonia interna do sujeito que se conta. Decidimos usar esses trechos, pois ao ler esse livro em busca de estudar as emoções, identificamos uma riquíssima história de si no prefácio da obra, o que muito enriquece nosso olhar sobre o entendimento do sujeito que se desdobra no discurso.
Se querem saber por que eu não disse nada, basta tentarem descobrir o que me forçou a calar. As circunstâncias do acontecimento e as reações do meio são coautoras do meu silêncio. Se eu lhes contar o que aconteceu comigo, vocês não vão acreditar, vão dar risada, tomar o partido do agressor, vão me fazer perguntas obscenas ou, pior ainda, ter dó de mim. Seja qual for sua reação, bastará eu contar para me sentir mal sob seu olhar.
Portanto, vou me calar para me proteger, vou pôr na fachada apenas a parte da minha história que vocês são capazes de suportar. A outra parte, a tenebrosa, viverá sem uma palavra nos subterrâneos da minha personalidade. Essa história sem palavras governará nossa relação porque, em meu foro íntimo, contei interminavelmente palavras não compartilhadas, relatos silenciosos. (CYRULNIK, 2012, p. 1)
Eis uma breve e suscinta narrativa do autor: Cyrunilk é conhecido como o criador da teoria da resiliência do indivíduo após eventos traumáticos. Aos seis anos de idade ele teve a família morta na Segunda Guerra Mundial e ficou órfão. Na vida adulta, optou por estudar os traumas na vida das pessoas, sendo motivado pela própria experiência.
Nos enunciados do excerto acima observamos o relato de si do sujeito enunciador de Cynulnik e identificamos o ponto de vista do autor sobre o narrar-se a outrem. Nas entrelinhas do discurso, o narrador afirma que não se sente à vontade para dizer sobre os acontecimentos que o assombraram no passado, por medo da forma como o outro irá arquitetar a sua imagem.
Por receio da vergonha, ele admite que irá revelar apenas uma parte da história, a mais digestível aos seus olhos.
É nesse ponto que identificamos a emoção na polifonia interna do sujeito-que-se-narra de G. Ramos:
D. Irene, diretora de um grupo escolar vizinho, apareceu à tarde. Envergonhei-me de tocar na demissão, e falamos sobre assuntos diversos. Aí, me chegaram dois telegramas. Um encerrava insultos; no outro, certo candidato prejudicado felicitava a instrução alagoana pelo meu afastamento. Rasguei os papéis, disposto a esquecê-los.
Sumiram-se na verdade os nomes dos signatários e as expressões injuriosas, ter-se-ia talvez a pequena infâmia esvaído inteiramente se não contrastasse com a presença de d. Irene ali na sala. (RAMOS, 1994, p. 46)
Nesse fragmento, notamos a narrativa de vida do sujeito narrador em que ele relata alguns acontecimentos posteriores à sua demissão. Consideramos que há nessa história de vida a dimensão da polifonia interna, pois conseguimos notar traços do eu íntimo e do eu externo.
No eu íntimo, notamos que o enunciador realiza uma atividade de percepção de seus sentimentos, ao expressar que sentia vergonha de dizer sobre a sua demissão para D. Irene.
Esses relatos são realizados porque inferimos que há a construção de uma autoimagem e de uma autorrepresentação do sujeito, segundo as quais o emprego lhe forneceria bem-estar social.
Quando o narrador avalia sua situação atual, ele sente a necessidade de moldar um eu que esconde a vergonha e a demissão para o outro. Não somente a vergonha é escondida dentro do eu íntimo, mas também a raiva que ele sente ao receber os telegramas é silenciada para o outro.
Esse silenciamento das emoções pode ser interpretado como a configuração da dimensão do eu íntimo, afinal, o sujeito narrador esconde o seu eu subterrâneo e cede lugar ao eu ideal para o outro. Por fim, podemos ainda compreender que o eu ideal para o outro é uma formulação do próprio sujeito, em que as características dependerão dos seus imaginários sociais sobre o outro, sobre si e sobre o mundo.
Diante disso, inferimos a fragmentação identitária discursiva que surge em relatos de vida. Haverá sempre uma confederação de almas, de nuances identitárias que borbulham nos enunciados de si. O eu externo busca manter e moldar a imagem que assim lhe convém, contudo, em um outro enunciado deixa emergir o eu profundo, o eu subterrâneo, que revela seus sentimentos e anseios mais íntimos.
Na tentativa de não revelar os segredos da alma, o sujeito narrador acaba por revelar características discursivas do eu íntimo em histórias de vida. Isso porque a própria negativa de tentar se esconder produz nuances de si no discurso. O eu íntimo mostra-se, então, receoso e preocupado com a forma que, após os relatos dos acontecimentos que o assombraram, a imagem
de si assumirá ao ser produzida aos olhos alheios. Nesse exemplo, percebemos a polifonia interna discursiva do sujeito narrador em narrativas de vida. Ou melhor: percebemos os vários eus que surgem nos relatos de si.
Para finalizar esse capítulo e iniciar as análises, sucintamente, consideramos que a narrativa de vida pode ser interpretada e trabalhada como materialidade discursiva de terreno fértil para a análise da construção de si e do outro, por meio do discurso e da memória. A memória e as emoções, como vimos, são suportes necessários à constituição de si, que perpassam representações e imaginários sociais e discursivos tangentes na sociedade.
O discurso de si se constrói como dimensão apreciável para se realizar enunciados que refletem as mudanças e as continuidades da imagem desse sujeito que se conta. A atividade de refletir sobre o passado, bem como sobre os eventos e as consequências destes para a imagem do sujeito, pode ser observada nos enunciados do sujeito enunciador.