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A narrativa e a ordem (possível) de sentidos

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NARRATIVA E CONHECIMENTO

3.3 A narrativa e a ordem (possível) de sentidos

Minha postura crítica frente ao positivismo, como se está vendo, cria as condições teóricas básicas para o entendimento oportuno da complexidade do conhecimento, para as suas diferentes formas de se processar, para a eterna e incessante busca do ser humano por se situar e se entender até onde possível como ser humano e de se narrar como cidadão do mundo.

É nessa esfera de pensamento que a proposta de uma complexidade do saber (MORIN, 1984; 1995; 2001; 2011) advoga mais do que um simples, mas já importante, empenho interdisciplinar. Mais pertinente e contemporânea é a visão de que se trabalha nas práticas de conhecimento e nas ações humanas o tempo todo com saberes plurais, onde pode caber – inclusive como objeto do mais rigoroso estudo científico –, além das ciências, as artes, os saberes comuns, as experiências, as incertezas, os erros, tanto quanto as tecnologias, a filosofia, o pensamento mítico, o pensamento religioso, a literatura e o que mais se ouse acrescentar, last but not least, nosso objeto de estudo, o perfil jornalístico.

É de longe conhecida a visão do jornalista como um contador de histórias, assegurados os princípios e critérios que diferenciam essas histórias de outras, de tipo ficcional ou não. Mas nem seria preciso ir muito longe para reconhecer, por outro lado, que namoros de diversos graus de intensidade entre não-ficção e ficção (BULHÕES, 2007) – a ficção, na ótica aqui proposta, é também lugar de conhecimento – geraram historicamente e continuam gerando os melhores resultados jornalísticos, sobretudo em reportagens, grandes-reportagens e livros-reportagens, assim como em perfis jornalísticos que fizeram e fazem história (“com H” – Matinas Suzuki Jr.). Ensaios e crônicas, com algum tempo maior de dedicação ao assunto, também poderiam ser arrolados.

A razão dialógica de que trata Morin, própria de uma “inteligência geral” capaz de juntar, contextualizar (2011, p. 36), ou de editar – como ocorre ouvir com frequência sempre maior nos meios jornalísticos –, não se curvando jamais à Deusa Razão do

Iluminismo, pode se entender bem com a pluralidade de narrativas humanas,30 umas

aliadas mais ao rigor e outras mais ao vigor, umas fazendo transcender a vida em seus significados aparentes tanto quanto em seus mistérios, e ainda outras ressaltando o privilégio da experiência, a narrativa artística tanto quanto a da produção da informação, da análise, do pensamento crítico.

A metáfora da “modernidade líquida”, criada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman e título de uma de suas obras mais conhecidas (2001), indica, na visão desse autor, uma forma dominante de expressão contemporânea do social, do político, do mercado, do consumo, do trabalho, da produção, em suma, de todas as esferas da vida. Trata-se na visão de Bauman do resultado imediato de uma mudança contínua e hoje muito rápida, líquida, de valores, percepções e práticas, sendo a incerteza nesse contexto a única certeza aparentemente possível. Esse não saber ou não saber direito para onde se vai, num contexto global em que ficar parado é impossível e em que se vai, sempre mais velozmente, para não se sabe aonde, constitui uma das marcas do nosso tempo, ainda dentro dessa mesma visão. Predomina no seio dessa sociedade e dessa cultura líquida uma profusão imensa de nexos e conexões, não (necessariamente) de vínculos.31

Ora, a narrativa jornalística que aqui se anuncia se quer entender como instauradora de laços fortes (e não líquidos) de sentidos, isto é, de vínculos entre fatos, situações, problemas e protagonistas das ações sociais, heróis reconhecidos e também heróis anônimos que participam de diferentes maneiras da construção social da notícia. Esse modo de abordagem do fazer jornalístico, que tece e entretece sentidos de forma complexa, situa-se melhor num campo que estou chamando de compreensivo, dialógico, inclusivo, que privilegia relações de tipo Eu-Tu, ou sujeito-sujeito, no sentido buberiano (2004), frente a uma realidade – e isso é cada vez mais visível também no terreno da produção da notícia – na qual proliferam as relações ligeiras, tendendo para a superficialidade.

Desse modo, chamar hoje a atenção para o poder da narrativa de instaurar ordem no caos de sentidos, sobretudo no campo humano e especificamente das relações sujeito-

30 É interessante, nesse contexto de dialogia de saberes, ver o que diz Morin, por exemplo, sobre a narrativa do romance como mediadora de conhecimento: “Sinto, cada vez mais, que só um grande romance consegue exprimir as múltiplas dimensões da experiência humana, as vidas subjetivas interiores, os comportamentos numa sociedade, numa história, num mundo, pondo ao mesmo tempo os problemas do destino humano, quer pela força das personagens, quer pela pena do autor, quer ainda implicitamente” (MORIN, 1995, p. 21).

31 Um conjunto bem vasto de livros de Zygmunt Bauman ajuda a compreender sua visão sobre o perfil de nossa época (BAUMAN, 2001; 2004; 2007; 2008a; 2008b).

sujeito – que é o campo onde se dá a escrita do perfil jornalístico –, assume um significado que vai além da insistência sobre o valor ancestral e jamais esgotado dessa narrativa: fazemos frente, com esse acento na narrativa e na produção de perfis dentro dela, ao jogo muitas vezes arriscado de se privilegiar as conexões (tecnológicas), que nos situam de forma às vezes brilhante nos setores da informação, mas que deixam a desejar em termos de relações humanas de comunicação. Assim, essa insistência na narrativa se deixa compreender, também e predominantemente, pelo lado da afirmação do sujeito frente às forças que ousam querer estabelecer a hegemonia do mercado, do consumo, do espetáculo ou de outros fenômenos do tempo líquido-moderno.

Na área própria do Jornalismo, trata-se de buscar entender como a força humana ancestral da narrativa – e da narrativa jornalística em particular – pode servir de caminho ou, talvez, como uma rota de fuga para a crise contemporânea da própria notícia. Ou ainda para uma resposta possível, complexa e dialógica, para a resolução do paradoxo atual de quanto mais informações menos informação, ou, dito de outro modo, da hipertrofia de informações gerando atrofia do entendimento ou caos de sentidos.

A metáfora da modernidade líquida, de Bauman, na sua condição aberta e privilegiada de figura de linguagem – e não de conceito ou explicação –, assume nessa discussão um valor hermenêutico próprio, ímpar até. Se é verdade que o autor polonês não esteja em primeiro lugar preocupado em tecer juízos de valor sobre a contemporaneidade ao fazer amplo uso dessa metáfora, pode ser igualmente verdadeiro que o quadro interpretativo para o qual essa mesma metáfora aponta não seja dos mais alentadores. Perde-se algo nesse jogo que institui a modernidade líquida, como é possível inferir das imagens que essa metáfora evoca, dos sentidos em trânsito que ela busca compreender. “Não podemos mais tolerar o que dura”, afirma Paul Valéry em epígrafe ao livro de Bauman (2001), para, em seguida, perguntar-se “Pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?”. Um desses sentidos, o da descartabilidade de coisas e também de pessoas (BAUMAN, 2008a; 2008b), dá o tom da responsabilidade crítica que se deve ter em mira frente à tarefa de preservar os espaços da cidadania.

Ora, a narrativa, se não garante deter o movimento da “liquefação” do mundo contemporâneo, pode nos parecer com dignidade e de forma crítica em meio à crise conservar sua vocação histórica de juntar (ainda que às vezes cacos de) sentidos, colocar pessoas em relação, desacelerar o tempo, refazer o mapa dos espaços, tecer, entretecer..., buscar e sugerir uma compreensão, racional e subjetivamente ancorada, num mundo além de incerto também cansado de tanta explicação. Um mundo que desde o tempo imemorial

das cavernas – com suas pinturas rupestres – preferiu de longe as histórias ao raciocínio lógico-analítico que se apresenta como uma criação posterior na história humana. Um mundo, no entanto, que em sua acepção moderna – com fortes traços cientificistas – prefere a explicação à compreensão, ou a oferta monstruosa de informação à tessitura de nexos, vínculos, sentidos: “Oh! Amontoado de informações! Isso, Isso, Isso” (BUBER, 2004, p. 55).

Ou, ainda, como lembra Walter Benjamin, ao reclamar do que ele imaginava em sua época representar o desaparecimento do narrador:

Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade da arte narrativa está em evitar explicações. Nisso Leskov é magistral. (Pensemos em textos como A fraude, ou A

águia branca). O extraordinário e o miraculoso são narrados com a

maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação (BENJAMIN, 1994, p. 210).32

A percepção de que na narrativa o leitor “é livre para interpretar a história como quiser” e de que “com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação”, como afirma Benjamin, fornece-nos uma dimensão importante de como entendo, neste trabalho, o processo social, humano, intersubjetivo, comunicacional de tessitura de sentidos.

“Impraticável, a ideia triste de um mundo sem narrativa mais seria sinônimo de não-existência, não-vida, não-humanidade”, escreve Künsch (2004, p. 7), que continua, nesse mesmo trecho: “Não pode existir, a bem da verdade, a vida que não se conta. O mundo não pode existir. O amor e o ódio, a flor, a lua e as estrelas, a criança, o saci- pererê, qualquer coisa que de coisa vira história, símbolo, linguagem”.

Mungioli, especulando sobre o crescimento do interesse pela narrativa nas mais diversas áreas do saber humano, insiste nessa mesma linha: que, como “habilidade inerente ao ser humano”, a narrativa, segundo estudiosos, “configura-se como o próprio

32 “Narrativas, ao contrário do que dizia W. Benjamin”, escreve Motta (2009, p. 9), ainda fazendo referência a redes sociais de um tempo que, com a velocidade das mudanças, (quase) já passou: elas “proliferam hoje na mídia mais que qualquer outro ambiente: no jornalismo, telenovelas, filmes, talk-shows, blogs, orkuts. E continuam encantando audiências. Mais que nunca, assistimos a uma profusão de romances, contos, biografias que consumimos incessantemente. Precisamos nos perguntar qual o significado da persistência de tanta narrativa.”

fator de humanização da nossa espécie”. “Desde as rudimentares pinturas nas cavernas até os nossos dias”, ela escreve, “o ser humano tem encontrado no gênero narrativo não só uma forma de demonstrar e interpretar suas relações com o mundo e com as pessoas que o cercam, como também de ser compreendido e interpretado” (apud KÜNSCH, 2004, p. 71).33

Daí por que o interesse pela narrativa, como descreve Mungioli, ultrapassou há tempo o tradicional campo dos estudos literários, para atrair, “a cada dia, mais e mais pesquisadores ligados à área da cognição humana”, que “procuram, no estudo da narrativa, elementos que os levem a entender e a desvendar os mecanismos intrínsecos ao pensamento humano”. Essa corrida ao mundo das narrativas “tem feito com que especialistas de diversas áreas (Psicologia, Neurologia, Literatura, Lingüística, Semiótica, Comunicação) se dediquem ao estudo sistemático de narrativas, tanto escritas quanto orais, produzidas por crianças, jovens ou adultos” (MUNGIOLI, 2002, p. 55-56). A centralidade da narrativa – com foco na narrativa jornalística – é enfaticamente acentuada por Luiz Gonzaga Motta na maior parte de sua obra. Motta (2006, p. 1) fala sobre a “compulsão para contar histórias”, que “provém da necessidade humana de organizar a experiência e torná-la pública”. A ideia é básica em qualquer teoria moderna da narrativa: “Nos contamos tantas histórias porque elas representam nossas ações e situações de vida, nossa história e memória. Representam o mundo de forma coerente e compreensível. Ajudam a entender a aventura humana e organizar nossas experiências no transcurso da vida” (MOTTA, 2006, p. 1-2).34

33 “Inumeráveis são as narrativas do mundo”, escreve Roland Barthes em sua “Introdução à análise estrutural da narrativa”, o primeiro capítulo da coletânea Análise estrutural da narrativa (BARTHES, 2011). “Há em primeiro lugar uma variedade prodigiosa de gêneros, distribuídos entre substâncias diferentes, como se toda matéria fosse boa para que o homem lhe confiasse suas narrativas: a narrativa pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substâncias; está presente no mito, na lenda, na fábula, no conto, na novela, na epopeia, na história, na tragédia no drama, na comédia, na pantomima, na pintura (recorde-se a Santa Úrsula de Carpaccio), no vitral, no cinema, nas histórias em quadrinhos, no fait divers, na conversação. Além disso, sob estas formas quase infinitas, a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há em parte alguma povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm suas narrativas, e frequentemente estas narrativas são apreciadas em comum por homens de culturas diferentes, e mesmo opostas; a narrativa ridiculariza a boa e a má literatura: internacional, transhistórica, transcultural; a narrativa está aí, como a vida” (BARTHES, 2011, p. 19).

34 Karen Armstrong (2005), repercutindo as ideias básicas dos estudos de mito, conhecidos por nós principalmente por meio das obras de Joseph Campbell (sendo a mais conhecida dentre elas O herói de mil faces [2005]) resume o que seria a função primordial das narrativas míticas, que é a de gerar uma ordem de sentidos num mundo em que os sentidos não estão dados: “Criaturas em busca de sentido [...], desde a origem mais remota inventamos histórias que permitem situar nossas vidas num cenário mais amplo e que nos dão a sensação de que a vida, apesar de todas as provas caóticas e arrasadoras em contrário, possui valor e significado” (ARMSTRONG, 2005, p. 8). Neste sentido, “a mitologia, da mesma forma que a

O lugar de honra reservado à narrativa por esses autores, entre outros, e a centralidade desse tema nos estudos contemporâneos das mais diferentes áreas do saber nos autorizam a ampliar o raio de alcance sobre o valor e a urgência da narrativa para muito além do Jornalismo, como se vê. Isso nos levaria a admitir que o ato humano primevo de contar histórias poderia, nesse arco bem amplo, ser estudado tanto no sentido de contestação a uma certa visão fechada e triste de ciência, como já se viu, quanto no confronto com o lastro de desumanidade que a experiência de modernidade líquida carrega consigo (com práticas como a do hiperconsumismo, a descartabilidade, o paradoxo de tanto ver imagens e não mais enxergar o que elas de fato mostram, ou o paradoxo da incomunicação em plena era da informação e da comunicação etc.).

Não por último, a consciência da centralidade da narrativa nos processos de aquisição e de produção de conhecimento poderia trazer sangue novo e vida nova a tantos laboratórios, centros de pesquisa e salas de aula de Jornalismo, onde alunos desgostosos infernizam com tanta frequência a vida, já por si difícil, de mestres e pesquisadores que às vezes não sabem direito o que ensinar. A lembrança e o estudo, na quarta etapa de nossa viagem do projeto de escrita jornalística conduzido por esta autora junto a alunos de Jornalismo, com o propósito de que eles produzam perfis de profissionais jornalistas, encontra aqui a sua legitimidade.

ciência e a tecnologia, nos leva a viver mais intensamente neste mundo, e não a nos afastarmos dele” (ARMSTRONG, 2005, p. 9).

Estação 4

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