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(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO – UMESP DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Renata Carraro. NARRAR É PRECISO Uma viagem pela teoria e prática do perfil jornalístico Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), área de concentração “Processos comunicacionais” e linha de pesquisa “Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais”, como exigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Comunicação Social. Orientador: Prof. Dr. Mateus Yuri Passos. São Bernardo do Campo, SP 2019.
(3) FICHA CATALOGRÁFICA. C231n. Carraro, Renata Narrar é preciso: uma viagem pela teoria e prática do perfil jornalístico / Renata Carraro. 2019. 330 p. Tese (Doutorado em Comunicação Social) --Diretoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientação de: Mateus Yuri Passos. 1. Comunicação 2. Jornalismo 3. Jornalismo – Estudo e ensino 4. Perfil jornalístico 5. Projeto “Jornalistando” I. Título. CDD 302.2.
(4) A tese de doutorado intitulada: NARRAR É PRECISO: UMA VIAGEM PELA TEORIA E PRÁTICA DO PERFIL JORNALÍSTICO, elaborada por RENATA CARRARO, foi apresentada e aprovada em 12 de fevereiro de 2019, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Mateus Yuri Ribeiro da Silva Passos (Orientador e Presidente da Banca Examinadora/Umesp), Profa. Dra. Adriana Barroso de Azevedo (Titular/Umesp), Profa. Dra. Cilene Victor da Silva (Titular/Umesp), Profa. Dra. Cremilda de Araújo Medina (Titular/USP) e Profa. Dra. Maria Elizabete Antonioli (Titular/ESPM).. PROF. DR. MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS Orientador e Presidente da Banca Examinadora. PROF. DR. LUIZ ALBERTO BESERRA DE FARIAS Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Pós-Graduação em Comunicação Social Área de Concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais.
(5) Agradeço. Aos meus orientadores, professores, doutores e amigos Marli dos Santos – que me conduziu com alegria e competência em boa parte de minha trajetória no Doutorado – e Mateus Yuri Passos, a quem eu não sei nem mesmo como e o quanto agradecer. Ao CNPq, cuja bolsa me permitiu realizar esta pesquisa comendo com menos dureza o pão que o diabo amassou – e a torcida forte para que o Brasil respeite, promova e apoie sempre mais o direito de todo cidadão ao estudo e à pesquisa. À Universidade Metodista de São Paulo e ao seu Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, com seu quadro docente antigo e atual. Aqui fiz o meu Mestrado e aqui encerro agora o meu Doutorado em Comunicação Social. Às Faculdades Integradas Rio Branco, o berço material e espiritual do projeto de perfis com alunos de Jornalismo, e à Escola Superior de Propaganda e Marketing, onde me é dado cultivar a aposta no Jornalismo que esta tese de Doutorado encerra. A todos e todas que me apoiaram e sustentaram com a sua força, o seu apoio e a sua luz – em especial meu companheiro Dimas A. Künsch e meus filhos, Thales e Agnes..
(6) Dedico. A Roberto Campos, artista plástico autodidata e meu primeiro perfilado, negro, pobre, órfão e hoje cego, que para sempre será o príncipe de um desmundo chamado Puruba..
(7) LISTA DE QUADROS. Quadro 1 – As vinte e três histórias de A vida que ninguém vê – p. 32 Quadro 2 – Os conteúdos de Casa de taipa – p. 49 Quadro 3 – Súmula do primeiro perfil de cada uma das três coletâneas – p. 241 Quadro 4 – Súmula do perfil de Patrícia Campos Mello (LIPORONI, 2017) – p. 245 Quadro 5 – Cronograma de atividades da disciplina “Jornalismo literário e grandereportagem” (2018) – p. 248 Quadro 6 – Os doze perfis de Não é aventura – p. 252 Quadro 7 – Os treze perfis de Jornalismos – p. 256 Quadro 8 – Os quinze perfis de Elas amam o que fazem – p. 259 Quadro 9 – Súmula do perfil de André Barcinski (PALADINO, 2015) – p. 267 Quadro 10 – Súmula do perfil de Klester Cavalcanti (SANTOS, 2015) – p. 277 Quadro 11 – Súmula do perfil de Patrícia Campos Mello (LIPORONI, 2017) – p. 291.
(8) LISTA DE FIGURAS. Figura 1 – O primeiro livro, de 2013 – p. 251 Figura 2 – O segundo livro, de 2015 – p. 254 Figura 3 – O terceiro livro, de 2017 – p. 258 Figura 4 – “Bastidores” de Jornalismos (CARRARO, 2015, p. 250) – p. 270.
(9) ROTEIRO DE VIAGEM. TRAÇANDO O ROTEIRO – p. 11 1. Primeira etapa da viagem NARRATIVA JORNALÍSTICA E CONHECIMENTO: UM OLHAR SOBRE O FENÔMENO DO PERFIL JORNALÍSTICO Roteiro de viagem: parte 1 – p. 19 Estação 01: O perfil e a vida que ninguém vê – p. 29 Estação 02: Um perfil do bairro paulistano da Mooca – p. 46 Estação 03: Narrativa e conhecimento – p. 59 Estação 04: O perfil jornalístico: uma primeira aproximação – p. 86 2. Segunda etapa da viagem O BERÇO ESPIRITUAL E MATERIAL DO PERFIL JORNALÍSTICO Roteiro de viagem: parte 2 – p. 105 Estação 05: Berço espiritual do perfil jornalístico – p. 110 Estação 06: O resfriado de Frank Sinatra – p. 127 Estação 07: Berço material do perfil jornalístico – p. 143 3. Terceira etapa da viagem CENÁRIOS BRASILEIROS Roteiro de viagem: parte 3 – p. 176 Estação 08: Três modos ou espaços de produção – p. 183 Estação 09: Revista Realidade (1960-1970) – p. 207 Estação 10: Projeto “São Paulo de Perfil” (1990-2010) – p. 213 Estação 11: Revista piauí (2006-atual) – p. 221 4. Quarta etapa da viagem UM PROJETO DE PRODUÇÃO DE PERFIS JORNALÍSTICOS.
(10) Roteiro de viagem: parte 4 – p. 234 Estação 12: Descrição geral do projeto – p. 237 Estação 13: Um perfil das três coletâneas publicadas – p. 251 Estação 14: Artes e aprendizagens – p. 263 Estação 15: Roda de conversa com os autores – p. 275 ESTAÇÃO DE CHEGADA – p. 300 REFERÊNCIAS – p. 306 APÊNDICES 1. Não é aventura, é reportagem...: súmula – p. 318 2. Jornalismos...: súmula – p. 322 3. Elas amam o que fazem...: súmula – p. 326.
(11) RESUMO. Um estudo do perfil jornalístico no quadro amplo e diversificado da narrativa em geral e jornalística em particular é o que aqui se apresenta. O tema assume na última parte do trabalho um aspecto prático, pedagógico e também empírico, porque nessa etapa da viagem se descreve, analisa e interpreta um conjunto de características, sentidos, possibilidades e também limites da experiência de composição de perfis desenvolvida com alunos do terceiro ano do curso superior de jornalismo. Quarenta autores – em formação na época da escritura dos textos – assinam os perfis até este momento publicados e que deram origem a três coletâneas – o corpus principal da parte analítica. O trabalho, como aqui se dá a conhecer, ensina e educa tanto pelo lado do esforço empreendido para dar conta da tarefa constante do plano de ensino da disciplina “Jornalismo Literário e Grande-reportagem” quanto pelo fato de esse empreendimento vir associado à aproximação com personagens que fizeram do jornalismo a atividade profissional mais importante de suas vidas. A organização da tese em forma de viagem, com quatro etapas e quinze estações, precisa ser vista no contexto de uma opção por mostrar, ver e interpretar, mais do que por demonstrar – em resumo, prefere-se a incerteza da compreensão (dialógica) à ilusória certeza de uma explicação (autoritária). Melhor: metodologicamente, compreensão e explicação conversam entre si – e às vezes animadamente – num texto de natureza em boa medida ensaística. Esse diálogo, sério mas sem se deixar submeter à forca do método, vê, nos princípios de análise que erige e nas técnicas de escrita que o perfil jornalístico evoca, um convite à compreensão de um “perfil do perfil jornalístico”, à elaboração de uma noção (pertinente), e não de um conceito (fechado). Perpassa o trabalho, do princípio ao fim, a ideia-força de que toda narrativa nos situa no campo da produção de conhecimento sobre a vida, o mundo, a pessoa, a história. Assim, narrar é preciso: a narrativa, da sua maneira, nos institui como humanos. A busca nem sempre fácil, jamais certa e segura, de conversar com princípios, técnicas e teorias deixa com algum prazer o mundo da abstração para estabelecer um diálogo com estudiosos, pesquisadores e, particularmente, produtores de perfis jornalísticos. Situando-nos diretamente sob a luz do signo da relação (Cremilda Medina), esse modo de escrita jornalística se movimenta tanto nas proximidades dos fenômenos sociais e políticos quanto da própria alma humana. A proposta do gênero perfil é também, por isso mesmo, uma aposta no cultivo de vínculos e de relações neste nosso mundo às vezes tão fascinado quando endoidecido pelas maravilhosas possibilidades técnicas de conexões. Palavras-chave: Comunicação. Jornalismo. Perfil jornalístico. Ensino de Jornalismo. Projeto “Jornalistando”..
(12) ABSTRACT. A study of journalistic profile in the wide and diverse scope of narrative in general and journalistic narrative in particular is presented here. The subject is examined in the last part of this dissertation in a practical, pedagogical and also empirical manner, since that stage of the journey describes, analyses and interprets a set of characteristics, meanings, possibilities and also limits of an experience of profile writing developed with undergrad students in the third year of a Journalism program. Forty are the authors – still in training at the time the texts were written – of the profiles which until now have been published in three anthologies – the main corpus in our analysis. The project, as presented here, teaches and trains as much through the students’ efforts in order to deliver the frequent assignments proposed in the Teaching Plan of the “Literary Journalism and Longform Reporting” as through the fact that such efforts are associated with being close to people for whom journalism was the most important profesional activity of their lives. The organization of this dissertation in the form of a journey in four stages and fifteen stations must be seen in the context of an option for showing, seeing an interpreting, more than demonstrating – in sum, we prefer the uncertainty of (dialogical) comprehension and understanding to the illusory certainty of an (authoritarian) explanation. Or rather: in a methodological sense, comprehension and explanation are able to converse and sometimes excitedly do so in a text akin in nature to the essay. Such a dialogue is a serious one, albeit not letting itself submit to be hanged by the method, and sees in the principles of analysis it constructs and in the writing techniques evoked by the journalistic profile an invitation to the comprehension of a “profile of the journalistic profile”, the proposition of a (pertinent) notion instead of a (closed) concept. The work is transpassed from beginning to end by the idea/strength that all narratives put us in the field of knowledge construction regarding life, world, people, history. Thus, we have to narrate: narrative in its own way institutes us as human beings. The not always easy and never certain and safe search for conversing with principles, techniques and theories happily leaves the domains of abstraction in order to establish a dialogue with scholars, researchers and in particular profile writers. Standing directly under the light of the sign of relation (Cremilda Medina), this approach to journalism writing moves in the vicinity of political and social phenomena as well as of the human soul itself. The proposal of profile as a genre is thus, for that very reason, a bet on the cultivation of bonds and relations in this world which at times becomes as much fascinated as crazed by the marvelous technical posibilities for connection. Keywords: Communication. Journalism. Journalistic Profile. Journalism Teaching. “Jornalistando” Project..
(13) RESUMEN. En esta tésis presentase un estudio del perfil periodístico en el amplio y diverso cuadro de la narrativa en general y de la narrativa periodística en particular. En la última parte del trabajo explorase el tema bajo sus aspectos prácticos, pedagógicos y también empíricos, pues la etapa final del viaje describe, analisa y interpreta un conyunto de características, sentidos, posibilidades y también límites de la experiencia de composición de perfiles desarrollada junto a estudiantes del tercero año del curso de grado en Periodismo. Son cuarenta los autores – estudiantes cuando escribiran los textos – que soscreven los perfiles que han sido publicados hasta este momento y que originaran tres antologias – el principal corpus de análise de esta tésis. El proyecto de escritura de perfiles, como se puede conocer acá, enseña y educa tanto por medio de los esfuerzos de los jovens periodistas para cumplir las constantes tareas del plano de enseñanza de la disciplina “Periodismo Literario y Grande Reportaje” cuanto por el facto de ese emprendimiento estar asociado a la aproximación con personajes que tienen o tuvieron el periodismo como la más importante actividade profesional de sus vidas. La organización de la tésis como un viaje en cuatro etapas y quince estaciones necesita ser vista bajo el contexto de una opción por mostrar, veer y interpretar, más que demostrar – en síntesis, prefierese la incertidumbre de la comprensión (dialógica) que la ilusoria certeza de la explicación (autoritaria). Mejor decir: metodologicamiente, comprensión y explicación hablan una con la otra y por veces de manera emocionada en un texto cuya natureza es en gran parte similar al ensayo. Ese diálogo, muy serio pero todavía sin dejarse someter a la fuerca del método, ve en los principios de análisis que construye y en las técnicas de escritura que el perfil periodístico evoca una invitación a la comprensión de un “perfil del perfil periodístico”, a la elaboración de una noción (pertinente) en vez de un concepto (cerrado). Desde su principio hasta en fine l trabajo es atravesado pela idea-fuerza de que toda narrativa pone a nosotros en el campo de producción de conocimiento sobre la voda, el mundo, la persona, la historia. Así, sin embargo narrar es necesario: a la suya manera la narrativa instituye a nosotros como humanos. La búsqueda ni siempre fácil, jamás coerta y segura, de hablar con principios, técnicas y teorías deja con algun placer el mundo de las abstraciones para establecer un diálogo con estudiosos, onvestigadores y particularmiente productores de perfiles periodísticos. Poniendonos directamente bajo la luz del signo de la relación (Cremilda Medina), esa manera de escritura periodística movimientase tanto en las proximidades de los fenómenos sociales y políticos cuanto de la propia alma humana. La propuesta del género perfil es también, por eso, una aposta en el cultivo de vínculos y relaciones en este mundo por veces tan fascinado cuanto hecho loco por las maravillosas posibilidades técnicas de conexión. Palabras clave: Comunicación. Periodismo. Perfil periodístico. Enseñanza de Periodismo. Proyecto “Jornalistando”..
(14) 11. TRAÇANDO O ROTEIRO. As mentes acostumadas a cobrar a aplicação estrita e restrita do método na pesquisa científica e a exigir o mais firme, consciente e consistente exercício do rigor em cada passo dessa mesma pesquisa – sobretudo na hora de se tirar “conclusões” – podem enfrentar alguma dificuldade de dialogar com este trabalho. Claro que seria leviano assumir algo tão estranho a esta tese como a total renúncia ao método e ao rigor em sua aplicação. Não pretendo oferecer às mentes rigorosas o prazer de denunciar tamanho deslize. Entretanto, seria também e ao mesmo tempo uma renúncia injustificada, quase um gesto de covardia intelectual e espiritual, não tentar demarcar, até onde possível, o que esta pesquisa possui de diferente, às vezes até irreverente, na contramão – em vários de seus pontos – em relação às linguagens do rigor e da ordem. Para simplificar, e num gesto de boa vontade para com todos, pode-se argumentar que muitos caminhos levam a Roma e que diversas são também as formas de se viajar – deixando por enquanto de lado o enfrentamento da questão de que há caminhos que não levam aos lugares desejados e outros que, recusando-se o personagem, estudioso ou pesquisador a enfrentar o desafio da jornada de heróis e heroínas, acabam por nos fixar no terreno seguro do mundo comum. Uma coisa se pode assumir sem problemas da teoria do conhecimento de Platão, um dos pais do racionalismo ocidental: é quando ele sugere que é de caráter amoroso-erótico o gesto de romper as cadeias que nos prendem ao mudo da caverna para caminhar, mesmo com o olhar ofuscado pela claridade, em direção à luz, à brisa, ao verde das plantas e ao horizonte sem fim. O tema da viagem assume neste texto um verdadeiro estatuto metodológico e epistemológico. Sem hora certa para chegar nem um ponto fixo e determinado que se possa estabelecer como fim, a viagem se situa por sua natureza bem próxima da experiência, aqui realizada, de se ir avançando por estradas conhecidas sem nunca.
(15) 12. desmerecer o valor e a importância dos caminhos vicinais. Porque o território por onde estamos circulando é o de um objeto de estudo que, situado no universo das ciências humanas, terá sempre muito mais a mostrar e a representar do que a ser fixado em conclusões finais, nele o viajante perambula mais pelo mundo dos sentidos, da narrativa e do imaginário do que um certo pendor positivista consegue frequentemente imaginar. O desejo mais arraigado desta viajante é ensaiar uma compreensão do tema, muito mais do que tentar explicar o que às vezes nem explicação possui. O gosto bom e agradável de experimentar essa compreensão disputa, é claro, com a tristeza de o pesquisador se sentir tantas vezes frágil e limitado em suas intenções e em suas conquistas. Querer não é poder. Não é o caso, me parece, de deixar por isso que o gosto ruim dos limites impeça o viajante de avançar numa compreensão possível – se navegar é preciso, narrar também é. E, da mesma forma, ousar. É assim que eu, narradora, relato a viagem que fiz nas páginas que seguem, parando nas estações que elegi, embora sabendo que há outras, há sempre muitas outras estações, e tendo consciência de que a viagem nunca termina, de fato. Escolhas representam isso que a palavra diz: escolhe-se entre as possibilidades existentes, porque se fosse assumir e pegar tudo, então não seria mais escolha. Escolhe-se bem, escolhe-se mal, mas quem irá dizer que escolhas que podem não ser as melhores determinam, sem mais, o fracasso da viagem? Com efeito, é muitas vezes o caminho mal escolhido – porque, quem sabe mais esburacado ou mais longo –, que pode revelar um detalhe da viagem que os guias se esqueceram de mostrar. Escolher, no entanto, é preciso. Porque uma tese de doutoramento é também o lugar do exercício sagrado da autoria. Esta tese trabalha com o tema do perfil jornalístico como um recorte específico daquilo. que. Cremilda. Medina. costuma. chamar. de. grande. narrativa. da. contemporaneidade. O perfil é um gênero de escrita entre outros, ou às vezes até um subgênero, por exemplo, de uma grande-reportagem. Pretendo, no entanto, advertir desde já que não dispenso no trabalho muitas palavras para “explicar”, “definir” ou mesmo “conceituar” o perfil jornalístico como um gênero, ao lado de outros como a reportagem, a notícia, o editorial... Sempre que possível, fujo das explicações e das definições. Definir pode representar às vezes um problema para um modo de pensar o jornalismo, a comunicação e a arte como camadas de significação que vêm e que vão, misturam-se, fertilizam-se, às vezes sem muita cerimônia. Mais que um conceito, uma explicação ou uma definição, o que busco é uma noção do perfil jornalístico, uma ideia da coisa, tão pertinente que me auxilie a distinguir.
(16) 13. – para usar uma metáfora –, um tomate de uma cebola ou de um pimentão. Mas sem esquecer que o bom da coisa é que os três legumes podem se juntar em formações alimentares de dar água na boca e de atiçar o veio criativo de um poeta como Pablo Neruda, com suas famosas odes às coisas que frequentam o mundo comum e fantástico de nossas cozinhas. O método (re)nascido desse contágio com a leveza – e também com os riscos da viagem em suas distintas estações – se faz patente na tessitura bibliográfica de uma conversa ou de um diálogo (possível) com e entre personagens situados em distintas áreas de saber (da Sociologia à Antropologia, da Filosofia à Comunicação, do Jornalismo à Literatura...), com um privilégio especial concedido a estudiosos, pesquisadores e sobretudo praticantes do gênero. Ouço com bastante atenção o que os próprios autores de perfis dizem sobre sua arte, e também aquilo que aparece em comentários de autores jornalistas convidados a apresentar ou a assinar prefácios e posfácios de mais de uma coletânea de perfis. O risco de qualquer lista é o de pecar por esquecimento ou sugerir certa hierarquia onde nenhuma hierarquia deveria ser bem-vinda. Mas eis aqui alguns nomes de autores que colaboram para preencher, com conteúdos e indagações, as próximas páginas. Primeiro os de fora – até onde a noção de “fora” pode ajudar – da área de Comunicação e de Jornalismo: Zygmunt Bauman, Boaventura de Sousa Santos, Michel Maffesoli, Hannah Arendt, Martin Buber, Theodor Adorno... Da lista de estudiosos e pesquisadores “de dentro” da área de Comunicação e de Jornalismo não podem faltar, de jeito nenhum, os nomes de autores brasileiros a quem em mais de um momento tento prestar as justas homenagens: Cremilda de Araújo Medina, Edvaldo Pereira Lima, Sergio Vilas-Boas, Monica Martinez e Mateus Yuri Passos. Adelmo Genro Filho e Eduardo Meditsch levantam a discussão do jornalismo como forma de conhecimento. Profissionais jornalistas, mulheres e homens, há muitos que comparecem às páginas deste trabalho, dentre os quais talvez fosse mais injusto que em outros casos não citar os nomes de Eliane Brum, Gay Talese, Joseph Mitchell, David Remnick... Humberto Werneck e João Moreira Salles precisam também ser nomeados, assim como Matinas Suzuki Jr., sobretudo na condição de comentadores. Essa roda bem grande de conversa assume maior envergadura e se reveste quase de uma militância metodológica na quarta parte da viagem, em que abro um espaço muito merecido aos alunos e alunas autores dos quarenta perfis que compõem as três coletâneas até o momento publicadas. É-lhes dada a voz, para que digam o que perfil jornalístico.
(17) 14. pode ser e significar, a partir de sua experiência como jornalistas em formação, o que não pode jamais significar algo como uma espécie de menoridade intelectual, ainda que resguardada a condição, tão importante para este trabalho, de ensino e aprendizagem na condução de um projeto no interior de um curso de Jornalismo. Toda essa ampla, rica e multiangular conversa sobre o perfil jornalístico assume, em determinados momentos, a conotação de análise de conteúdo; momentos esses em que, no entanto, tento preservar aquela liberdade de espírito de que fala Adorno ao escrever o seu famoso “O ensaio como forma”. Da metodologia da análise de conteúdo se pode assinalar aquilo que é algo como um lugar comum na literatura sobre o assunto: as escolhas do corpus de pesquisa (os quarenta perfis que compõem o objeto da quarta parte do trabalho são precedidos por uma lista bem extensa de outros perfis com os quais me ocupo nas três partes anteriores), a leitura atenta, as classificações possíveis com o auxílio de categorias de análise etc. Tudo isso e mais coisas podem ser encontradas neste trabalho, como por exemplo listas e mais listas, tabelas, sumários. Entendo como categorias de análise aquilo que Edvaldo Pereira Lima chama de pilares ou princípios filosóficos do jornalismo literário, e que eu, sem renegar a importância, o valor e a graça do jornalismo literário – “Jornalismo Literário e a Grandereportagem” é o nome da disciplina na qual desenvolvo o projeto de perfis jornalísticos – , entendo ser útil e oportuno, no contexto deste trabalho, estender para todo o jornalismo enquanto missão e arte de produção da narrativa da contemporaneidade. Como categorias também podem ser contempladas as próprias técnicas utilizadas no setor da narrativa de não-ficção, e ainda, sempre tentando manter acesa a chama da liberdade de espírito, os princípios que a partir de Medina recebem os nomes de signo da relação e de linguagens dos afetos. As noções de polifonia e de polissemia – entendidas, de modo bem simples, como multiplicidade de vozes e de sentidos, como “pluralogia” – também comparecem o tempo todo, mesmo se não com um lugar determinado numa lista de critérios. É inútil, no entanto, buscar no trabalho uma aferição quase que lógicomatemática da aplicação ou presença desse amplo conjunto de princípios nas dezenas de perfis jornalísticos estudados. Porque o cálculo, a régua, o metro, o raciocínio matemático ou similares não podem, a meu ver, ocupar nas ciências humanas o que um certo tipo de pensamento duro imaginou dever ser aplicado a toda ciência do mundo. Sempre é possível imaginar, como eu imagino, que a ordem dos sentidos e da pertinência deva ocupar um assento à mesa em que se negociam os sentidos da própria ciência e, mais amplamente, das formas diversas de conhecimento..
(18) 15. Em mais de um momento dessa viagem com tantas paradas se faz ouvir uma voz inquieta de crítica à técnica e de uma chamada de atenção para o risco, não tão pequeno assim, de que dígitos e conexões – e a menina dos olhos atual dessa cultura, a inteligência artificial – façam o jornalista tirar o pé da rua e acreditar que possa se desocupar do ser humano vivo, de pele e osso, memória e história, sentinte, pensante, vibrante, sofrente... Essa crítica, que pode sem nenhum problema ser classificada como retrógrada se esse pequeno insulto não abafar o som da voz inquieta, aparece na reclamação de Gay Talese contra o gravador; na insistência de Cremilda Medina no afeto e na relação, tanto quanto na convívio da técnica, da ética e da estética no campo do jornalismo; ou, ainda, no “olhar insubordinado” de que fala Eliane Brum... Não são todos, mas são alguns marcos importantes dessa crítica. Fundamentais. Vou direto agora ao traçado do roteiro da viagem, que compreende quatro etapas e quinze estações. Considero importante apontar que, para efeito de clareza, cada uma dessas etapas, no momento certo – como se pode observar já a partir do Sumário –, é precedida por um roteiro próprio de viagem, por meio do qual é possível entender melhor os pormenores da parada em cada estação. Tais pormenores não se apresentam nem aqui nem no Sumário, porque, de novo por motivo de clareza, achei por bem manter a atenção voltada para os grandes eixos articuladores da tese (suas quatro etapas e quinze estações). Na primeira etapa de Narrar é preciso: uma viagem pela teoria e prática do perfil jornalístico (“Narrativa jornalística e conhecimento: um olhar sobre o fenômeno do perfil jornalístico”) são quatro as estações. A primeira entra direto e sem muitas abstrações no mundo do perfil jornalístico, por meio de um estudo da obra A vida que ninguém vê, de Eliane Brum. A segunda estação faz o mesmo, desta vez com o perfil do bairro da Mooca, na capital de São Paulo, por meio de Casa de taipa: o bairro paulistano da Mooca em livro-reportagem, uma obra coletiva de que participei como autora. As duas experiências de perfis abrem, de forma que me parece bem consistente, as portas do trem para a parada na terceira estação da viagem, onde se debate o tema do jornalismo como forma de conhecimento ligada às vicissitudes do momento presente, ou da contemporaneidade – e o jornalismo exercita essa sua condição por meio, especialmente, da narrativa, na qual um lugar que não é dos menos relevantes está reservado à produção de perfis. A primeira parte da viagem se encerra, na quarta estação, com “uma primeira aproximação” ao perfil jornalístico, a partir da visita às estações anteriores. Aí vem então a segunda parte da viagem, “O berço espiritual e material do perfil jornalístico”, com três estações. Na primeira discorro sobre o que eu chamo de berço.
(19) 16. espiritual desse gênero de reconhecido sucesso – basta ver a quantidade de perfis que continuam sempre mais sendo escritos e de quantos deles assumem a condição de livros –, que é o universo do jornalismo literário, com aquela nota que fiz linhas atrás. É nessa parte do trabalho que teço uma longa conversa com os pilares do jornalismo literário apresentados por Edvaldo Pereira Lima e, ainda, com as principais técnicas do jornalismo de não-ficção. A segunda estação desta etapa, sexta do trabalho, nos leva aos Estados Unidos, de onde nos vem em grande medida a tradição dos perfis jornalísticos, para o estudo de um perfil que de várias maneiras fez escola, escrito por Gay Talese para a revista Esquire, em 1965, “Frank Sinatra has a cold” (“Frank Sinatra está resfriado”). Por “berço material do perfil jornalístico”, a terceira e última estação desta etapa da viagem, entendo, nos Estados Unidos – onde nos encontramos nesse momento da viagem –, a mais famosa de todas as revistas jornalísticas do mundo, a The New Yorker, que foi onde o termo “profile” pela primeira vez apareceu, tendo sido reservada desde o seu início, em 1925, uma seção da publicação para a prática do gênero. A terceira etapa da viagem trata dos “Cenários brasileiros”, em quatro estações. Na primeira delas, oitava no geral, quase que como curiosidade, falo de três modos ou espaços de produção de perfis jornalísticos, para sublinhar a ampla variedade de possibilidades de prática do gênero: perfis de coisas (supostamente) inanimadas (“Gente, cães, ratos, urubus”), perfis de pessoas falecidas (“Obituários: a morte conversa com a vida”) e perfis que nascem ao redor da mesa de um restaurante, que têm por base uma entrevista em profundidade (“‘À mesa com o Valor’: o poder da fala”). A estação seguinte não tem como não se ocupar com a história da revista brasileira Realidade, nossa escola de jornalismo de reportagem – e também de perfis – nos anos 1960 e 1970. Uma visita carinhosa é feita, na décima estação, ao projeto “São Paulo de Perfil”, desenvolvido durante quase duas décadas por Cremilda Medina junto a alunos do curso de Jornalismo da Universidade de São Paulo, a USP. E uma última parada, na décima primeira estação, traz a experiência atual e exitosa da revista piauí, que desde o seu lançamento, em 1986, tem reservado ao perfil um lugar que lembra, de alguma forma, o que fazia a publicação estadunidense The New Yorker – em que sua irmã brasileira menor se inspira. Chegamos então, e finalmente, à quarta e última etapa desta viagem pelo mundo do perfil jornalístico, “Um projeto de produção de perfis jornalísticos”, que aborda a experiência do projeto “Jornalistando”, de escrita de perfis jornalísticos, que desenvolvo com alunos do terceiro ano do curso de Jornalismo. Uma primeira estação, a décima segunda do conjunto de estações, traz uma descrição geral do projeto. A estação seguinte,.
(20) 17. décima terceira, traça um perfil geral das três coletâneas publicadas, enquanto a décima quarta estação fala das “Artes e aprendizagens” que o projeto provoca e evoca. A “Roda de conversa com os autores” encerra a viagem, na décima quinta estação, que é até onde “o dinheiro” deu para comprar a passagem de trem”, nas circunstâncias entre auspiciosas e dramáticas da confecção de uma tese de doutorado. O que se pode esperar com este trabalho são várias coisas, dentre as quais eu gostaria de salientar as seguintes: a centralidade do humano frente à técnica, algo sempre tão importante na história humana, hoje (quase) dramático. Em seguida, a possibilidade de pensar a crise – entendida como tempo de mudança, e não como sinônimo de desgraça – do exercício do jornalismo como uma saída para a frente, com o foco naquilo que em toda a história da humanidade, e em todos os campos da atividade, sempre rendeu os melhores e mais promissores resultados, a saber: o drama humano. A aposta na narrativa, na reportagem, na rua é o que também saliento e, por fim, a transformação do espaço em crise da sala de aula em um lugar de desafios, aprendizagem, sensibilidade e arte. Parece muito, mas se olharmos bem, fica a sensação de que é quase tudo a mesma coisa. A mesma busca. A mesma verdade... em movimento..
(21) 18. Primeira etapa da viagem. NARRATIVA JORNALÍSTICA E CONHECIMENTO: UM OLHAR SOBRE O FENÔMENO DO PERFIL JORNALÍSTICO. Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. João Cabral de Melo Neto. “Tecendo a manhã”, em A educação pela pedra..
(22) 19. ROTEIRO DE VIAGEM: PARTE 1. Nesta primeira das quatro partes em que se divide esta viagem, cada parte com suas respectivas estações, o foco principal de minhas preocupações incide sobre um tema que assume no contexto geral da discussão uma importância fundamental. Trata-se da defesa da ideia de uma visão plural, compreensiva, inclusiva, agregadora, de conhecimento, que se opõe à identificação positivista, pura e simples, entre ciência e conhecimento. A crítica geral ao cientificismo, esse filho dileto do racionalismo que impõe profundas restrições ao nosso modelo de pensamento, libera o caminho para a compreensão da narrativa jornalística, bem como de outras narrativas – como podem ser a literatura e as artes, as filosofias, as narrativas míticas etc. –, e para a sua inclusão no território das diferentes formas humanas de conhecimento ou de saber. Faz-se necessário ter em cm conta, nesse caminho, que a produção de conhecimento/saber de que estou falando deve a meu ver ser entendida mais como uma tentativa, como uma busca (por sentido) que como coisa acabada, uma explicação, uma palavra final e decisiva sobre as coisas – daí, a exigência e urgência de essa atividade humana fundamental, com seus altos e baixos, com seus limites, potencialidades e angústias, entender-se como dialógica, compreensiva, por natureza. “Conhecer e pensar”, aponta Edgar Morin (2001, p. 59), “não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza”. Essa promissora distinção entre ciência e conhecimento, promissora justamente porque promete em sua melhor parte estabelecer pontes de diálogo entre distintas formas de conhecimento/saber,1 vem associada nesta tese ao campo da produção de informação de atualidade, ou jornalismo. Entendo nesse contexto o jornalismo como um saber que 1. O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (2008) propõe neste contexto o que chama de “ecologia dos saberes”, cuja aceitação vai de encontro ao que denomina “fascismo epistemológico” nas relações entre saberes do Norte e saberes do Sul. Norte e Sul não se deixam entender, no entanto, apenas por critérios geográficos. Há, nesse sentido, um Norte no Sul e um Sul no Norte. O que parece difícil negar é a assimetria de poder no exercício das práticas de conhecimento..
(23) 20. carrega consigo – como todo saber e tanto mais quando se está falando de um saber historicamente organizado – as suas características próprias, os seus procedimentos e técnicas, as suas linguagens, os seus gêneros de expressão, as suas antigas e novas plataformas, as teorias que o compreendem e, também, as suas crises passadas e atuais. Um saber, portanto, que possui uma gramática. Em suma, uma forma legitimada de conhecimento. Tenho consciência de que a defesa dessa ideia compreensiva do saber jornalístico tem a ver de perto com o empenho que se faz hoje em favor da configuração do próprio campo do Jornalismo, junto e ao lado de outros campos de conhecimento/saber, ao se assumi-lo como um conhecimento/saber específico no vasto e multiforme esforço do ser humano, desde sempre – também antes, muito antes do aparecimento da ciência organizada2 – por se compreender no mundo e por compreender o mundo em que vive. Ainda que não seja o estudo da cultura humana e da sua natureza mais profunda, das suas características e possibilidades hermenêuticas, minha preocupação neste trabalho, pode ser interessante ressaltar que, ao nos situarmos no amplo e dinâmico universo das distintas formas de conhecimento – ou das narrativas que instituem o mundo e nós dentro dele –, estamos no fundo abordando a cultura humana como esforço de produção, reprodução e negociação de sentidos. E, também, como busca de soluções para os problemas e os conflitos que esses sentidos ou ausências de sentidos geram para o ser humano em suas relações de amor e ódio com o mundo das coisas e com a sociedade. O tema da narrativa em geral e da narrativa jornalística em particular – entendendo-se a narrativa como instauradora de uma ordem possível de sentidos no meio dos conflitos, crises e embates do viver pessoal e social3 – tem o seu foco ajustado neste trabalho, como já se sabe, para a produção do perfil jornalístico. Este constitui – repetindo para deixar bem claro – o objeto desta tese de Doutorado, culminando, em seu momento final, na quarta e última parte da viagem, no estudo específico de uma experiência. Paul Feyearbend, que em Contra o método expressa a ideia de que a “ciência é uma das invenções mais maravilhosas da mente humana” e que ao mesmo tempo afirma ser “contra ideologias que usam o nome da ciência para o assassínio cultural” (2011, p. 23), retoma as ideias do antropólogo Lévi-Strauss – que não cria uma hierarquia entre o pensamento selvagem e o pensamento dito civilizado, mas os observa, de igual para igual, em sua capacidade de dar conta da vida em suas vicissitudes – para lembrar que “as pessoas sobreviveram por milênios antes do surgimento da ciência ocidental” (FEYERABEND, 2011, p. 21). 3 Esta constitui o que eu poderia chamar de uma perspectiva teórica com a qual trabalho na consideração do tema da narrativa, como deverá ficar claro no trajeto da viagem, uma noção que devo em grande parte a Cremilda Medina, especialmente a partir de A arte de tecer o presente: narrativa e cotidiano (MEDINA, 2003). 2.
(24) 21. didático-pedagógica de produção de perfis por alunos do curso de Jornalismo das Faculdades Integradas Rio Branco (FRB), o projeto “Jornalistando”. É bom desde logo frisar, ao enunciar o tema das narrativas, que quaisquer que elas sejam, sempre se dão em contextos sociais, políticos, econômicos etc., no convívio, difícil para todos nós, com relações sociais de poder e com ideologias, sendo portanto atravessadas o tempo todo por conflitos e lutas de toda ordem. A exposição de um ou mais acontecimentos por meios de palavras, para dizer de forma bem simples e rejeitar com isso uma certa noção idílica e asséptica que costuma rondar os territórios por onde circulam os mais empolgados, não é “do bem”. É por demais conhecido o empenho histórico de toda espécie de poder por estabelecer, às vezes a ferro e fogo, a sua própria versão da história. Assim, as narrativas são também uma forma de disputa entre percepções diferentes, contrastantes, contraditórias – ou elas podem conversar entre si, ainda que às vezes em suas diferenças.4 Ora, o perfil jornalístico, como parte do conjunto de ferramentas, técnicas, linguagens e gêneros de expressão desse campo de conhecimento/saber que é o jornalismo, como derivação dessa ideia, aparece também como um tipo de fazer jornalístico que participa desse esforço geral por se tecer a narrativa do presente. Auxilia a seu modo na geração de informação, análise e interpretação dos/sobre os fatos, personagens e situações do presente imediato, ou, num sentido mais alargado – como prefere, por exemplo, Cremilda Medina (2003)5 –, “da contemporaneidade”, que é o tempo do jornalismo. Assim, podemos dizer, repetindo um velho princípio da Filosofia que é lembrado por Morin (2001; 2011), na relação entre perfil jornalístico e jornalismo como tal, que o todo está na parte e a parte está no todo. O “conhecimento pertinente”, de que trata esse autor, é de natureza multidimensional: não se pode “isolar uma parte do todo”, nem “as partes umas das outras” (MORIN, 2011, p. 35). Nosso objeto de estudos, o perfil jornalístico, escolhe dar as caras logo na primeira estação desta viagem, traçado o roteiro desta primeira etapa – numa rápida visita que fazemos à obra A vida que ninguém vê, de Eliane Brum (2006). Essa primeira, ligeira e 4. Merece ser lembrado neste contexto o nome do autor e estudioso árabe-palestino Edward Said (19352003), que em várias de suas obras, mas sobretudo na mais conhecida delas, Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente (2007), publicada em 1978, ocupa-se criticamente com a construção narrativa do oriental, mais especificamente o mundo árabe, pelo Ocidente. A visão distorcida dessa narrativa, como avalia Said, pode ser resumida por nós do seguinte modo: o Ocidente criou do Oriente a imagem de que precisava para seus propósitos colonialistas e imperialistas. 5 Ver a respeito especialmente o capítulo “Narrativas da contemporaneidade” (MEDINA, 2003, p. 47-61)..
(25) 22. ao mesmo tempo muito concreta aproximação ao perfil jornalístico abre as portas dessa casa, em que se privilegia o contar boas histórias, humanas, vivas, sedutoras, em duas direções: tanto para um primeiro e provisório acercamento ao gênero perfil, suas características e suas potencialidades, quanto para – tomando-se como base do estudo uma obra jornalística brasileira dentre tantas de prestígio nessa área – pensar o tema do perfil o mais possível na perspectiva de uma produção nacional. Nunca é demais sublinhar, no entanto, que por mais que o meu olhar esteja atento e comemore a produção nacional sobre o tema, estudando experiências específicas e citando diversos exemplos, não constitui parte dos objetivos deste trabalho propor uma espécie de etnografia do saber jornalístico, científico e prático brasileiro sobre perfis nem mapear toda a riqueza e os limites das pesquisas e das produções nesse campo. Isso renderia uma outra pesquisa, que o futuro poderá inclusive me reservar, em forma de artigos científicos e de livros. Aliás, nesse mesmo intento de trazer o gênero para bem perto de nós e de dar a ele suas credenciais de nobreza, tendo em conta as motivações assinaladas no parágrafo anterior, o trabalho se volta na sequência, na Estação 2, para a obra Casa de taipa (KÜNSCH, 2006), um livro-reportagem, como diz o subtítulo, sobre o bairro paulistano da Mooca. Trata-se de um projeto de reportagem de que esta autora participou com intenso vigor. Sua escolha para o estudo, neste momento da pesquisa, ressalta o valor e a importância de se pronunciar uma palavra a partir de uma experiência situada um pouco na contramão de uma escolha metodológica que privilegia o distanciamento e a isenção. Na perspectiva de um pensamento compreensivo, porém – que não renuncia à ideia de rigor mas sem ficar estacionado nela –, a experiência adquire um estatuto positivo na pesquisa, sem com isso ter que abrir mão, até onde necessário, da ideia de isenção. 6 O estudo descritivo-analítico de Casa de taipa se aproveita dos estímulos, dicas, procedimentos e metodologias gerados pela reflexão do momento anterior, sobre A vida que ninguém vê, para avançar na busca por um entendimento amplo e seguro, sem amarras desnecessárias, do gênero perfil jornalístico. Aliás, a liberdade de espírito que espero e desejo que me conduza nessa tarefa, e que me situa bem distante da pretensão delirante 6. Mateus Yuri Passos (2017b), num estudo que faz sobre o papel das fontes de informação no jornalismo literário e no “jornalismo de pirâmide”, sublinha que a epistemologia do jornalismo literário valoriza a experiência acima da expertise. A ideia dialoga com a proposição do valor da experiência nesta e em outras partes desta tese. Desde Montaigne (2010a), passando pelos principais teóricos do ensaio moderno, a experiência forma também a base mais ampla sobre a qual se assenta esse gênero de escrita. E isso de novo combina com a proposta deste meu trabalho que, em conversa com a experiência própria e de outros, produtores e estudiosos do perfil jornalístico, quer ensaiar uma compreensão do fenômeno..
(26) 23. de fazer do gênero perfil ou de qualquer outro gênero uma camisa-de-força avessa ao diálogo, aos entrecruzamentos e hibridismos entre os distintos gêneros de escrita, não vê um problema em falarmos de perfil jornalístico no mesmo lugar onde o próprio título da Casa de taipa fala de “livro-reportagem”.7 O assunto desses “namoros” entre os gêneros será retomado, muitas vezes de forma indireta, em mais de um momento desta tese, como reforço à própria ideia de liberdade de espírito sobre a qual falei linhas acima.8 Toda história de pesquisa é também a história de coisas que não se fazem, em função de certas escolhas e de certos recortes. Assim, nessa busca ao mesmo tempo séria e encantada pelas marcas do perfil jornalístico e pela celebração de suas potencialidades, não irei (poder) observar os contornos desse gênero em outros cantos do pensamento que não o da Comunicação, como nos campos da Sociologia, da Política, da Antropologia etc. Aliás, a profusão de estudos da narrativa nas mais diversas áreas de conhecimento, mutatis mutandis, poderia ser entendida de alguma forma como uma possibilidade para o próprio perfil enquanto gênero se manifestar igualmente em todas elas, para os propósitos que cada área se coloca no trabalho com essas pequenas histórias de personagens de todos os tipos. Trata-se sem dúvida de uma especulação, mas é possível avançar um pouco mais o sinal para presumir, pelo menos, que os movimentos plurifacetados de busca do humano em todos os setores possa representar novas chances para o trabalho com o perfil. O fato de não poder me desviar do foco sobre o perfil jornalístico não me impede, no entanto, de mostrar um ou outro exemplo e de indicar caminhos possíveis de estudo e análise. Um desses exemplos é o perfil de Walter Benjamin (1892-1940) escrito por Hannah Arendt, em Homens em tempos sombrios [Men in dark times] (2008). Aliás, o 7. Em Páginas ampliadas (2009, p. 425), Edvaldo Pereira Lima cita Casa de taipa como exemplo brasileiro de “matéria-retrato”, segundo o autor, “uma variação da reportagem temática”. O “livro-reportagem retrato”, escreve Lima no primeiro capítulo de sua obra (2009, p. 53), “exerce papel parecido, em princípio, ao do livro-perfil. Mas, ao contrário deste, não focaliza uma figura humana, mas sim uma região geográfica, um setor da sociedade, um segmento da atividade econômica, procurando traçar o retrato o objeto em questão”. 8 Considero ser necessário evitar, no estudo da narrativa, e erro maior em que parece ter incorrido o estruturalismo, com o tempo, ao investir tanto esforço e energia na reflexão sobre os modos como o arcabouço do ato humano de narrar se monta ou pode ser também desmontado, que terminou por esconder, esquecer ou até menosprezar o lado dinâmico e incerto da narrativa como produtora de sentidos. Essa visão em grande parte quase matemática da narrativa está presente em vários momentos de uma obra como Análise estrutural da narrativa (BARTHES et al., 2011), lançada em 1966 primeiro como número 8 da revista Communications, do CNRS (Centre Nationale de Recherche Scientifique), de Paris, num momento de bastante euforia do pensamento estruturalista. Ver, a respeito, o capítulo “Estruturalismo”, do livro Teoria da comunicação: ideias, conceitos e métodos (MARTINO, 2009, p. 127-152), cujo autor, referindose ao “último Barthes” em um momento em que este afirma a narrativa (literária) como antídoto à fixação do significado, comenta que “escrever é uma exploração de caminhos livres” (MARTINO, 2009, p. 131). Como deve ficar claro em toda a exposição de meu ponto de vista sobre a narrativa, não é a força e a importância da narratologia que nos comovem, e sim o poder (e também os limites) da arte narrativa na construção de sentidos sobre a vida e sobre o mundo..
(27) 24. livro traz não um, mas dez perfis (Gotthold E. Lessing, Rosa Luxemburgo, Angelo Giuseppe Roncalli – o papa João XXIII –, Karl Jaspers, Isak Dinesen, Hermann Broch, o já citado Walter Benjamin, Bertold Brecht, Radall Jarrell e Martin Heidegger), que “partilham entre si a época em que decorreram suas vidas, o mundo da primeira metade do século XX, com suas catástrofes políticas, seus desastres morais e seu surpreendente desenvolvimento das artes e das ciências”, escreve Arendt. “Exceto Lessing [1729-1781], evidentemente”, a autora lembra, “que, no entanto, é tratado no ensaio introdutório como se fosse um contemporâneo”. Interessante observar que no próprio prefácio (ARENDT, 2008, p. 7) a autora da obra dá a esse conjunto de textos tanto o nome de “ensaios” como de “perfis”, dois gêneros que às vezes conversam um com o outro, manifestando certa porosidade, como mostra Mateus Yuri Passos (2016), ao comparar o segundo perfil de Joseph Mitchell sobre Joe Gould (“O segredo de Joe Gould”) com o primeiro perfil (“O professor Gaivota”) e identificar no segundo perfil um caráter mais ensaístico. Está presente, na obra de Arendt, uma ideia a que deve voltar muitas vezes daqui para a frente: lidos dentro de uma situação histórica específica, os perfis que se escrevem nos auxiliam também na construção do perfil de uma época, nos ajudam a entender melhor os contextos em que essas narrativas nascem e dentro das quais encontramos propostas para um seu entendimento. Em resumo: o perfil nos situa, como estou interessada em afirmar, nesse mundo incerto da produção de conhecimento. O olhar humano de Hannah Arendt se mostra capaz, na feitura do perfil de Walter Benjamin, de captar detalhes da vida de seu personagem que arrancam os seus significados mais profundos do mundo fantástico dos símbolos. O Pequeno Corcunda, 9. um personagem de conto de fadas alemão, acompanha Benjamin vida afora. Lembra-lhe. a mãe, como lembra outros tantos momentos de infortúnio que culminaram no infortúnio dos infortúnios: o suicídio numa noite do inverno de 1939-1940 para tentar escapar dos fantasmas do totalitarismo que haviam se apossado de sua alma.10. Referindo-se à “má sorte” que teria acompanhado Benjamin vida afora, Arendt (2008, p. 170-171) diz que, “em seus escritos, e também em conversa, costumava falar sobre o ‘pequeno corcunda’, o bucklicht Männlein’, um personagem de conto de fadas alemão, de Des Knaben Wunderhorn, a famosa coletânea da poesia popular alemã. [...] O corcunda era um velho amigo de Benjamin, que o encontrou pela primeira vez quando, ainda criança, se deparou com o poema num livro infantil e nunca o esqueceu”. 10 Sobre o olhar “insubordinado” (Eliane Brum) ou insurgente, de que trataremos adiante, convém avançar uma observação sobre a obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal [Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil] (ARENDT, 1999), que não apenas deixa clara a natureza do olhar arendtiano, como também traz à luz o fato, de interesse para esta pesquisa, de que a autora traça propriamente um perfil do carrasco nazista numa revista, a The New Yorker, reconhecidamente da linha de frente tanto na promoção do perfil jornalístico quanto do próprio jornalismo literário. Com efeito, o jornalismo literário pode ser visto como o berço que embalou dentro e fora dos Estados Unidos as melhores 9.
(28) 25. Voltando o olhar para o Brasil, é obrigatório lembrar neste contexto, como tributo mas também como legitimação dessa ideia da importância e valor do perfil no Jornalismo e em outros campos de produção de saber, a obra Memória e sociedade: lembranças de velhos, de Ecléa Bosi (1994). Editado pela primeira vez em 1979 como resultado da tese de livre-docência da autora pela Universidade de São Paulo (USP), o livro reúne estudos de psicologia social, história oral e memória em um texto, “considerado como obra-prima da psicologia social e das ciências humanas” (OLIVEIRA, 2013), que une engenho e arte numa aproximação compreensiva ao real, fazendo uso do gênero perfil para os propósitos que a obra se coloca. Esse pequeno desvio e a decisão de retornar logo à estrada principal me ajuda a manter firme a ideia de focar esta pesquisa na escritura de perfis no Jornalismo, sem desconsiderar o fato, na escolha que faço pelo texto escrito, de que podem haver perfis também em forma de imagens com ou sem movimento, de narrativas orais etc. Assim, quase que lamentando por esse (re)corte, vou repetir que não faz parte do escopo desta pesquisa – não pelo fato de o assunto não o merecer, mas em estrita observância à necessidade mesma de se recortar o objeto de estudo – identificar as formas como esse gênero se mostra e se dá a conhecer em áreas distintas de conhecimento, para além do Jornalismo. O confronto amigável com o exercício da produção do perfil jornalístico em A vida que ninguém vê (BRUM, 2006), na Estação 1, e em Casa de taipa (KÜNSCH, 2006), na Estação 2, e os estímulos que desse primeiro e rico confronto advêm para a sua compreensão exigem, como anunciado no início, um outro tipo de confronto, já não tão amigável assim, com o positivismo, naquilo que ele tem de nocivo, e até perverso às vezes, ao entendimento plural e compreensivo de conhecimento que estou defendendo. O culto divino, fechado e dogmático ao império da razão não impede apenas um diálogo aberto e complexo com o real, mas também proíbe, infelizmente, que outras divindades e outros seres menos divinos se manifestem e se somem à tarefa de tentar compreender o mundo, de descobrir formas dignas e justas de atuação no campo da política, da cidadania, da sociedade. A crítica irrenunciável, porque necessária, ao positivismo e à sua infame identificação de ciência com conhecimento, uma tarefa para a nossa parada na Estação 3 (“Narrativa e conhecimento”), se dá num bloco que começa pela reflexão sobre o experiências de produção de perfis jornalísticos. Mais sobre o assunto eu trago nas estações 5 (“Berço espiritual do perfil jornalístico”) e 7 (“Berço material do perfil jornalístico”)..
(29) 26. Jornalismo como forma de conhecimento e termina com considerações importantes sobre o tema da narrativa, complementando desse modo a lista de intenções reservadas para a nossa parada nesta terceira estação. Os grandes momentos articuladores das temáticas das três primeiras estações – sobre A vida que ninguém vê, sobre Casa de taipa e sobre o tema do Jornalismo como forma de conhecimento, com incursões pelos mundos da crítica ao positivismo e da afirmação do valor da narrativa – preparam, cada um do seu jeito, o terreno para o passo seguinte, a Estação 4, última parada desta primeira parte da viagem: o terreno da observação de como o fenômeno do perfil jornalístico – participante da grande narrativa da contemporaneidade e, como tal, um ator ao lado de outros atores no processo de produção de conhecimento – aparece nas obras estudadas nos dois primeiros capítulos. Complementam essa observação de natureza prática as considerações teóricas advindas de autores e pesquisadores brasileiros que se ocupam com o tema do perfil. Duas observações se fazem necessárias, e devem contribuir para uma noção mais transparente dos objetivos desta pesquisa: a primeira é que deverá, em todo o percurso, ficar patente essa visão de narrativa, que já vem sendo discutida nas linhas e entrelinhas de tudo quanto se escreveu até aqui. Entendo a narrativa não a partir da ótica de uma narratologia – sem desqualificá-la, mas sem investir tempo em seu estudo – e, sim, enquanto articuladora de sentidos de cosmos em sua interface com sentidos de caos. Isto é, como “uma das respostas humanas diante do caos”, uma forma de a inteligência humana organizar “o caos em um cosmos”, uma “necessidade vital” (MEDINA, 2003, p. 47-48). Assim, onde diferentes autores se ocupam com e investem tempos em destrinchar os elementos e os subelementos da composição narrativa, eu prefiro neste trabalho chamar a atenção para o campo, largo e de horizontes distantes, dos sentidos, do imaginário, dos símbolos e dos mitos que povoam a vida e a cultura humanas. Aliás, assim fazendo, presto, já a partir do próprio momento da afirmação dessa escolha teórica, o mais justo e encantado tributo ao trabalho da jornalista, pesquisadora, docente e autora Cremilda Medina, citada aqui e em vários momentos desta tese. Ela que no Brasil, desde o início dos anos 1970 – antes ainda, portanto, de conquistar o título de primeira mestra em Comunicação do país pela Universidade de São Paulo (USP), o que ocorreu em 1975 –, deu início aos estudos e pesquisas nessa direção.11. 11. Em 1973, junto com Paulo Roberto Leandro, com quem dividia na graduação em Jornalismo da Universidade de São Paulo a disciplina “Jornalismo Interpretativo”, Cremilda Medina lançou, em edição dos autores que acabou depois sendo usada de norte a sul do Brasil como bibliografia de referência sobre o.
(30) 27. O uso que fiz linhas atrás do termo “fenômeno” associado ao perfil jornalístico – e esta é a segunda observação –, não é acidental: revela a opção por um método de trabalho que, no espírito da sociologia compreensiva de Michel Maffesoli, em O conhecimento comum: introdução a uma sociologia compreensiva (MAFFESOLI, 2007), revela maior interesse em “mostrar” que em “demonstrar” algo, em “compreender” que em “explicar”. Nunca é demais, neste sentido, lembrar que o termo grego phainomenon chama a atenção para “aquilo que se mostra”. O que, na verdade, em estreita relação com os propósitos mais relevantes desta tese, dá bem a dimensão da tarefa de conversar com o objeto de pesquisa, privilegiando os termos e os resultados, ainda que sempre provisórios e em construção, dessa conversa, mais que a compulsão pelo método – este vai sendo mostrado aos poucos, na medida em que se apresenta como auxílio, e não como barreira ou esconderijo para o objeto de estudo ou para a própria autora da tese. Convém, me parece, insistir sobre a noção de fenomenologia e sua inserção como método, em diálogo com outros métodos que estão sendo explicitados um pouco em cada parte, sempre e onde julgo necessário – sem dar ao método, como eu dizia e como costuma bastante acontecer, um peso maior que ao objeto de estudo e às questões que ele levanta. Com efeito, é justamente a “pegada” fenomenológica que me faz ir direto às obras e a seus autores-produtores – como o faço já na primeira estação com A vida que ninguém vê (Eliane Brum) e, na segunda, com Casa de taipa (organizada por Dimas A. Künsch) –, para ver, sentir e experimentar nos perfis neles inclusos – construídos, digamos, “a quente”, no calor do empenho e da emoção –, os traços desse gênero de expressão do Jornalismo. A “pegada” fenomenológica, indo de encontro ao positivismo de sangue azul, renuncia, por isso mesmo, ao costumeiro recurso de lançar mão a todo momento de conceitos e definições. Assim, pretendo deixar claro que, mais do que dizer, ao final da minha pesquisa, o que perfil jornalístico “é”, afinal – o que seria envaidecedor, mas eu não saberia dizer exatamente para quê serviria tal definição –, quero ver, experimentar e. assunto, A arte de tecer o presente: jornalismo interpretativo (MEDINA & LEANDRO, 1973), que já colocava fortemente o acento na narrativa jornalística, com foco na (grande-)reportagem, tendo cada vez mais como moldura o que apareceria em 2006 como título de uma das mais de 50 obras de autoria própria e como organizadora que lançou: O signo da relação: comunicação e pedagogia dos afetos (MEDINA, 2006)..
(31) 28. mostrar como ele pode ser feito e compreendido, e os significados que promete assumir para a vida social, para o Jornalismo e para a Comunicação. Essa atitude espiritual e cognitiva, no espírito do pensamento da compreensão e do grupo de pesquisa “Da compreensão como método”, de que participo, mais uma vez, revela ao mesmo tempo o desafio, que pretendo enfrentar, de fugir ao pensamento redutor. Este, com efeito, confunde rigor do pensamento com o desejo compulsivo de tudo querer explicar, responder, conceituar, amarrar. Agindo assim, essa mesma atitude nociva também substitui muitas vezes a força de um argumento pelo argumento da força. O tempo que nesta primeira etapa da viagem, com suas quatro estações, é empregado na troca de ideias e experiências no terreno da produção de perfis jornalísticos e de suas relações com o conhecimento e a narrativa, na tentativa de melhor apreender seu estatuto, sua compreensão e suas características, prepara o caminho para a segunda etapa (“O berço espiritual e material do perfil jornalístico”). Esta irá cuidar particularmente dos modos como esse gênero de expressão textual veio se configurando ao longo das últimas décadas da história do Jornalismo, nos Estados Unidos. Na terceira etapa (“Cenários brasileiros”), o perfil jornalístico é observado em sua relação com a produção nacional – sempre mantendo viva a ideia de uma aproximação de natureza fenomenológica ao objeto de estudo. O esforço descritivo “do perfil do perfil” despendido nesta primeira etapa complementa-se, assim, na segunda e na terceira, abrindo a estrada para a etapa final da viagem (“Um projeto de produção de perfis jornalísticos”), que é sobre o projeto “Jornalistando”. Assim, onde trago, na segunda e na terceira etapas, quase que uma pequena história do gênero a partir de seu berço nos Estados Unidos (segunda etapa) e depois também no Brasil (terceira etapa) – estou me referindo especificamente, mais uma vez, ao perfil jornalístico, porque a história da origem do gênero poderia ser provavelmente estudada em diferentes culturas e lugares desde a noite dos tempos em que o sapiens inventou a arte de contar histórias e, somente muito mais tarde, de escrevê-las –, pretendo ao mesmo tempo aprofundar os sentidos que o gênero em cada país e em cada caso eventualmente assume, sem no entanto poder me aprofundar tanto no assunto. Configurase, desse modo, um dos objetivos desta pesquisa, que irá ser mais de uma vez lembrado: renunciando-se à violência simbólica das definições, busco por meio de uma troca (sistematizada) de ideias juntar sentidos que nos situem no campo muito útil de um pensamento pertinente, avesso à lógica não dialógica..
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