DIREITOS FUNDAMENTAIS E UMA NOVA PERSPECTIVA
II. 2. Direitos da Natureza: um novo olhar e uma análise crítica da amplitude de dignidade humana
II.2.1. A natureza como sujeito de direitos e titular de dignidade
No Capítulo I, do presente trabalho, abordou-se a relação entre a humanidade e a natureza na era do Antropoceno.
Verificou-se que, ao longo da história a relação entre a humanidade e natureza passou por um processo de transformação. Com o advento da Revolução Industrial, o desenvolvimento do sistema de produção em massa e o crescimento acelerado da população, a sociedade passou a sofrer com diferentes impactos ambientais, que cominaram em um novo olhar sob a natureza.
Embora, ainda predominante o pensamento antropocêntrico no Direito – no qual a proteção da natureza se dá pelo seu valor ao homem e não em razão do seu valor intrínseco – foram desenvolvidas teorias em contraponto, que fundamentam a concepção da natureza como um ente dotado de personalidade e com status de titular de direitos e de dignidade.
São diferentes pensamentos que apresentam a natureza como um ser dotado de vida e que não deve ser subjugada à vontade humana. Nesse ínterim, a Teoria de Gaia, desenvolvida por James Lovelock, defende a ideia de que a Terra é um ser vivo. E como tal, possuiu um sistema de auto regulação responsável por criar condições favoráveis à vida no planeta84.
De acordo com a hipótese de gaia, os seres vivos e não-vivos estão interligados.
Isso significa que o que acontece a um acontece com o outro e sugere que todas as rochas na superfície da Terra, toda atmosfera e as águas foram profundamente alteradas pela vida e vice-versa. A auto-regulação que brota dessa união estreita é uma propriedade emergente, que não poderia ter sido prognosticada a partir do conhecimento da biologia, geologia, física ou química, como disciplinas separadas85.
84ARAIA, Eduardo. James Lovelock: ―A Terra é um ser vivo do qual somos o sistema nervoso‖. Revista
Planeta, n. 454, julho de 2010. Disponível em: <
http://www.colegiosantanna.com.br/formacao/downloads/Revista%20Planeta%20jul-2010%20ano%2038%20ed.%20454.pdf.>. Acesso em 28.05.2018, p. 45.
85HARDING, Stephan. Terra Viva: ciência, intuição e a evolução de gaia. Tradução de Mario Molina. São Paulo: Editora Cultriz, 2008, p. 80.
Portanto, a partir dessa concepção é possível afirmar que a humanidade deve buscar construir uma relação de respeito e de igualdade com a natureza, na medida em que nada mais é do que parte integrante e tão dependente desta, quanto qualquer outro ser vivo.
Além disso, tem-se a evolução da denominada Ecologia Profunda, apresentada por Sthephan Harding. Entende-se por essa teoria que o homem precisa explorar de forma prática a sua conexão com a natureza86.
A partir dessa observação, a Ecologia Profunda propõe romper com o velho paradigma, tirando o foco do homem e de sua ultrapassada maneira de enxergar o mundo em segmentos para oferecer uma visão ecológica, ética, integrada do mundo, na qual o ser humano constitui apenas uma pequena parte e encontra-se lado a lado com os demais seres vivos, todos detentores de valor intrínseco87.
São igualmente relevantes, as ideias de Fritjof Capra, abordadas no Capítulo I. Para o autor:
Todos os membros de uma comunidade ecológica estão interligados numa vasta e intrincada rede de relações, a teia da vida. Eles derivam suas propriedades essenciais, e, na verdade, sua própria existência, de suas relações com outras coisas. A interdependência — a dependência mútua de todos os processos vitais dos organismos — é a natureza de todas as relações ecológicas. O comportamento de cada membro vivo do ecossistema depende do comportamento de muitos outros. O sucesso da comunidade toda depende do sucesso de cada um de seus membros, enquanto que o sucesso de cada membro depende do sucesso da comunidade como um todo88.
Trata-se da percepção de que todos os seres vivos estão interligados e são interdependentes impõem uma relação de respeito entre os seres humanos e não humanos com a natureza com vistas à manutenção do equilíbrio ecológico.
86HARDING, (2008), op.cit., p. 63-64.
87GOUVEIA, Claudia. COURI, Isabela Taranto. FREIRE, Pedro Henrique de Souza Gomes. FONSECA, Vinicius da Silva. A positivação dos direitos da natureza na Constituição Equatoriana e sua compatibilidade com as propostas do movimento da ecologia profunda. Disponível em: <
https://portalseer.ufba.br/index.php/RBDA/article/viewFile/8388/6006>. Acesso em 29.05.2018.
88 CAPRA (1996), op. cit, p. 217-218.
Outros filósofos, como Hans Jonas, Martin Heidegger e Michel Serres também contribuíram para a compreensão da Terra como ente titular de direitos e dotado de dignidade, conforme pontua Matheus Gomes Viana, corroborando89:
O futuro da humanidade é dever do comportamento coletivo humano e tal futuro inclui o da natureza como sua condição sine qua non. Em uma perspectiva verdadeiramente humana, a natureza conserva a sua dignidade, que se contrapõe ao arbítrio do poder humano. O dever em relação à natureza é condição da própria continuidade do homem e um dos elementos da sua própria integridade existencial90.
Nessa seara, cabe tecer breves comentários acerca do posicionamento do Poder Judiciário diante desse novo paradigma ambiental.
No Equador, o caso rio Vilcabamba foi à primeira decisão a se fundamentar no reconhecimento dos direitos da natureza pela Constituição Equatoriana. No dia 30 de março de 2011 a Corte Provincial de Loja reconheceu a qualidade de sujeito de direitos ao rio Vilcabamba. Com a decisão espera-se assegurar à natureza a concretização dos direitos à regeneração e proteção, além da representação judicial por seres humanos91.
O rio Vilcabamba é um manancial de água doce localizado entre a cidade de Vilcabamba e Quinara, na Província de Loja. Tal manancial de água doce ganhou destaque quando em 2009 aconteceram fortes chuvas que provocaram severas enchentes se tornando um verdadeiro desastre. Tudo começou em 2008 quando o Governo Provincial de Loja (GPL) iniciou as obras de ampliação da estrada entre Vilcabamba e Quinara. No entanto, a referida obra não possuía o devido licenciamento ambiental. Ainda, os responsáveis pela sua execução jogavam os materiais de escavação e pedras nas margens do rio. Por conseguinte, os entulhos depositados no leito do rio provocaram sérios danos à natureza e às propriedades ao redor,
89 VIANA, Matheus Gomes. A Terra como sujeito de direitos. Revista da Faculdade de Direito, Fortaleza, v.
34, n. 2, p. 247-275, jul./dez. 2013. Disponível em:
<http://www.revistadireito.ufc.br/index.php/revdir/article/viewFile/106/87>. Acesso em 29.05.2018.
90 VIANA (2013), op.cit, p. 253.
91GUSSOLI, Felipe Klein. A natureza como sujeito de direito na Constituição do Equador: considerações a partir do caso Vilcabamba. Disponível em <http://www.direito.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/Artigo-Felipe-Gussoli-classificado-em-1%C2%BA-lugar-.pdf>. Acesso em 27.05.2018.
uma vez que o acúmulo de detritos provocou a erosão das margens do rio. Na ocasião, as chuvas do inverno de 2009 provocaram fortes enchentes, de modo que os moradores, como Richard Frederick Wheeler e Eleanor GeerHuddle denunciaram a situação ao Ministério do Meio Ambiente (MAE) do Equador.
Os órgãos locais deste Ministério (Dirección Nacional de Prevención de la Contaminación Ambiental e Dirrección Provincial de Loja del MAE) apuraram a denúncia e concluíram que as obras promovidas pela empresa pública do GPL eram as principais responsáveis pelo desastre ambiental. O depósito dos materiais de construção nas margens promovido pela empresa provocou não só a erosão do solo, mas também as enchentes, a destruição da fauna e da flora aquática.
Dessa feita, o Ministério do Meio Ambiente equatoriano buscou solucionar de maneira rápida o problema, firmando um acordo com a referida empresa, a qual se comprometeria a reparar os danos provocados, bem como realizar os depósitos dos materiais em outro local.
Entretanto, a despeito de ter havido tentativa de solucionar a controvérsia no ano de 2010, os trabalhos de ampliação da estrada às margens do Rio Vilcabamba só aumentaram e, bem assim, as práticas irregulares continuaram.
Os proprietários dos terrenos ao lado do rio, Richard e Eleanor registraram através de fotos e vídeos o ocorrido, visando buscar uma consultoria jurídica acerca das medidas cabíveis a serem aplicadas ao caso. E é nesse momento que o caso ganha sua maior relevância. O advogado contratado orientou que se realizasse a invocação dos direitos da natureza prelecionados na Constituição do Equador de 2008.
Assim, se deu início a uma disputa judicial, na qual o rio seria representado pelos moradores. Apesar de no polo ativo constar como autores Richard e Eleanor, na realidade o que se tinha era que o Rio Vilcabamba como sujeito interessado da ação e representado judicialmente.
No decorrer do processo judicial, aplicou-se o princípio da precaução para fundamentar a inverter o ônus da prova e conhecer dos danos ambientais provocados ao rio. O princípio da precaução está previsto no artigo 73 da Constituição do Equador e impõe ao Estado aplicar a precaução e restrição de atividades lesivas ao meio ambiente, em especial aquelas que ameacem à extinção de espécies, a destruição de ecossistemas ou a alteração permanente dos ciclos naturais.
Com fulcro na Constituição do Equador (2008), foi defendido que o direito à existência, manutenção e regeneração dos ciclos vitais naturais do Rio Vilcabamba haviam sido violados. Logo, objetivando-se minimizar os problemas ambientais e recuperar a área dos prejuízos causados, foi determinada a fiscalização da obra pelos órgãos públicos responsáveis, a fim de se averiguar o cumprimento das determinações judiciais, bem como o cumprimento das recomendações do MAE por parte da empresa GPL. Além disso, a empresa pública foi condenada a elaborar um pedido de desculpas a ser divulgado em jornal local.
Apesar do apresentado, as determinações não foram seguidas adequadamente, o que deu ensejo a um novo procedimento judicial e o envio dos autos à Corte Constitucional.
Em suma, o caso refletiu o conflito existente entre os direitos da natureza e os direitos do homem, se tornando imprescindível que o julgador com base no princípio da proporcionalidade, lembra-se que a Constituição do Equador asseverou os direitos do homem e os da natureza como equivalentes, sendo certo que os direitos da natureza são pressupostos para os direitos humanos fundamentais, como o direito à saúde, à vida digna e um ambiente saudável.
Na Colômbia, a sentença T-312/12, da Sala Novena de Revisión de la Corte Constitucional, defendeu o acesso a uma quantidade essencial mínima de água para o uso
pessoal e doméstico como verdadeiro direito fundamental e autônomo92.
A sentença T-312/12 surgiu a partir da representação dos habitantes das aldeias de La Ceiba, La Horqueta e San Carlos, nos municípios de Apulo e Tocayman, que apresentaram um pedido de proteção em face dos prefeitos dos municípios de Apulo, Tocayman e Viota, do governador do Departamento do Interior de Cundinamarca, da "CAR" - Corporação Autônoma Regional de Cundinamarca, da Superintendência de Serviços públicos e da empresa Aguas del Alto Magdalena, por violação aos direitos à água, à vida, a dignidade humana, a saúde e a igualdade.
Os cidadãos argumentaram que a infraestrutura do aqueduto que fornecia água para a população da região teria cerca de 27 anos, portanto, seria obsoleta para as necessidades atuais (à época dos cidadãos), razão pela qual os habitantes eram obrigados a conviver com o racionamento de água. Além disso, os moradores recorriam à coleta e armazenamento de água da chuva para satisfazer as suas necessidades básicas, o que resultou a uma série de prejuízos a saúde.
Assim, buscando a tutela dos seus direitos fundamentais à água potável, a saúde pública e a uma vida digna, os habitantes peticionaram ao juízo, requerendo não só a construção de aquedutos, mas também a soluções para os problemas técnicos que inviabilizavam o acesso adequado ao serviço público de água.
A referenciada tutela foi concedida em 21 de janeiro de 2011. Para o juízo, era notória a violação do direito fundamental à água, na medida em que os demandantes afirmavam que tinham que recolher a água da chuva para atender as suas necessidades básicas (alimentação, banheiro, higiene...), sendo que o líquido era armazenado em péssimas condições, o que
92BRASIL. Supremo Tribunal Federal - STF. Direito Fundamental. Direito a água na comunidade.
Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/repositorio/cms/portalStfInternacional/newsletterPortalInternacionalJurisprudencia/anexo/
Direito_Fundamental_Direito_a_agua_na_comunidade.pdf>. Acessado em 27.05.2018.
aumentava a sua insalubridade. Logo, o nobre julgador, entendeu pela gravidade do problema enfrentado pelos moradores, ordenando assim o efetivo cumprimento da decisão, com envio de cópia aos representantes dos municípios envolvidos.
Referida sentença, acabou por refletir sobre o reconhecimento do direito fundamental à água. Em seu texto, verifica-se que o Tribunal Constitucional já havia declarado em diferentes ocasiões a importância da tutela ao direito à água, que era analisado a partir de duas perspectivas, uma de acordo com o uso que dela era feito - direito de natureza fundamental e outro ou a partir de um direito coletivo.
A água, então, foi classificada não só como parte do direito a um ambiente saudável, mas também como um serviço público essencial de responsabilidade do Estado.
Importante frisar que a sentença trouxe o reconhecimento internacional acerca do valor que a água possui. O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, mencionado na decisão, aponta para a água como um dos direitos assegurados.
Além disso, a sentença, ora em análise, destacou o processo C-220 de 2011, que analisou a natureza jurídica fundamental do direito à água potável. Na ocasião, o Tribunal colombiano declarou que como um direito fundamental, o direito à água tem um alcance tanto subjetivo, quanto objetivo, na medida em que a proteção pode ser reivindicada perante os tribunais tanto por parte do Estado como por parte dos indivíduos.
Diante de tal cenário, constata-se que a Corte Consittucional da Colômbia tem se posicionado no sentido de garantir o acesso a um mínimo essencial de quantidade de água para uso pessoal e doméstico como uma questão que constitui um direito fundamental real e autônomo da população, de modo que as instituições devem tomar todas as medidas necessárias e ao seu alcance para salvaguardar o mínimo do direito à água e o seu pleno gozo.
Em outra ocasião, a Corte Constitucional da Colômbia, por meio da sentença n°
T622/2016 proferida pela Sala Sexta de Revisión, também reconheceu a qualidade de sujeito
de direitos ao Rio Atrato93. A ação foi proposta pelo Centro de Estudos de Justiça Social
―Tierra Digna‖, representando o ―Consejo Comunitario Mayor de la Organización Popular Campesina del Alto Atrato‖, ―Consejo Comunitario Mayor de la Asociación Campesina Integral del Atrato‖, a ―Asociación de Consejos Comunitarios del Bajo Atrato‖ e o ―Foro Inter-étnico Solidaridad Chocó‖, entre outros, em face do Estado.
A controvérsia pautava-se no uso em larga escala de vários métodos de mineração e extração ilegal de madeira, incluindo o uso de máquinas e substâncias como o mercúrio altamente tóxico-no rio Atrato (Chocó), o que estaria contaminando suas bacias, pântanos e afluentes. A intensificação da mineração, e, por conseguinte, os danos prejudiciais e irreversíveis no ambiente, afetavam os direitos fundamentais das comunidades locais.
Diante de tal conduta, os requerentes visavam com a ação judicial retardar o processo de exploração e garantir o respeito aos direitos fundamentais ali violados, entretanto, no dia 11 de fevereiro de 2015, o Tribunal Administrativo de Cundinamarca decidiu contra o pedido de tutela interposto. Para o tribunal, o pedido seria inapropriado, na medida em que na realidade o que se pretendia era a proteção dos direitos coletivos e não dos direitos fundamentais, portanto, a ação cabível não seria aquela anteriormente interposta, motivo pelo qual entendeu pela sua inadmissibilidade.
O Centro de Estudos de Justiça Social "Tierra Digna" impugnou a decisão do tribunal, fundamentando que o tribunal se equivoca ao ignorar a violação e ameaça aos direitos fundamentais das comunidades. Contudo, apesar da manifestação o Conselho Estadual em Providence manteve a decisão impugnada. O argumento permaneceu no sentido de não haver violação dos direitos coletivos alegados, não tendo os autores demonstrado a lesão irreparável ou a ineficácia das ações populares para a proteção de seus direitos.
93JUSTICIA AMBIENTAL. Red por la Justicia Ambiental en Colombia. Disponível em
<https://justiciaambientalcolombia.org/2017/05/07/sentencia-rio-atrato/>.Acesso em 27.05.2018.
Dada à problemática do tema e a gravidade da situação denunciada, o douto magistrado solicitou informações relacionadas ao caso em exame, buscando talvez encontrar uma solução que atendesse a ambas as partes. Posteriormente, o Tribunal ordenou a realização de uma inspeção judicial em Quibdo e alguns setores da bacia do rio Atrato, no departamento de Choco. Com base nisso, e tendo em conta as reivindicações das comunidades, o Conselho considerou que o caso em questão levantava várias questões legais constitucionais complexas.
Nesse sentido, a Câmara considerou que à realização de atividades de mineração ilegais na bacia do Atrato (Chocó), em seus afluentes e áreas vizinhas, aliadas a omissão das autoridades, provocou uma violação dos direitos fundamentais à vida, a saúde, à água e ao meio ambiente saudável.
Em resumo, pode-se concluir que a premissa central é fundada na relação de profunda unidade entre a natureza e os seres humanos. Por conta, da gravidade da violação dos direitos fundamentais que a mineração ilegal e outros problemas estruturais causaram ao departamento de Chocó, o Tribunal pode lembrar que o Estado colombiano, como um todo, tem uma série de obrigações constitucionais inalienáveis para o único propósito de garantir o pleno respeito dos direitos fundamentais ao povo colombiano.
Assim, ao final da demanda o Tribunal emitiu ordens de execução simples e ordens complexas destinadas a garantir os direitos fundamentais das comunidades étnicas na bacia do rio Atrato. Nestas ordens foram abordadas em termos gerais as decisões eficazes e concretas para superar os problemas apontados. Em especial, destacamos que o Tribunal finalmente reconheceu o rio Atrato, a sua bacia e os seus afluentes como uma entidade sujeita de direitos - à proteção, preservação, manutenção e recuperação – de responsabilidade do Estado e das comunidades locais.
Recentemente, a Corte Suprema de Justiça da Colômbia, através da senteça STC4360-2018 proferida pela Sala Civil Especializada en Restitución de Tierras del Tribunal Superior
del Distrito Judicial de Bogotá, decidiu que a região da Amazônia localizada no país é ―sujeito de direitos‖ 94. Para o Supremo Tribunal, o Estado tem sido omisso na proteção da Amazônia, que sofre com o efeito do desmatamento e das mudanças climáticas. Nos últimos anos, constatou-se o aumento de 44% do desmatamento na região95.
Diante desse cenário, a Corte determinou que à Presidência da República e às demais autoridades nacionais, regionais e municipais adotassem um plano de ação de curto, médio e longo prazo para proteger a Amazônia colombiana.
Dentre as ações ordenadas, destaca-se o desenvolvimento do "Pacto Intergeneracional por la Vida del Amazonas Colombiano-PIVAC". O projeto visa reduzir a zero o desmatamento e a emissão dos gases de efeito estufa. Além disso, impõe-se aos planos municipais a preservação ambiental e a efetiva execução de medidas policiais, judiciais e administrativas pelas três corporações regionais com jurisdição no território amazônico.
Ainda, merece destaque a decisão da Nova Zelância, sob o rio Whanganui, localizado na Ilha do Norte. A partir de um projeto de lei aprovado pelo parlamento o rio Whanganui passou a ser considerado um ser vivo dotado de direitos, recebendo o mesmo status legal que um ser humano96.
Na Índia, o rio Ganges foi à primeira entidade não humana do país a receber os mesmos direitos legais do que as pessoas. O tribunal do estado de Uttarakhand reconheceu ao rio Ganges e seu principal afluente, o Yamuna, o status de entidades humanas vivas. Os juízes responsáveis pelo caso Rajeev Sharma e Alok Singh afirmaram que os rios Ganges e Yamuna e seus afluentes seriam entidades legais vivas com status de pessoa jurídica com todos os
94CORTE SUPREMA DE JUSTICIA. Corte Suprema ordena protección imediata de la Amazonía Colombiana. Disponível em: <http://www.cortesuprema.gov.co/corte/index.php/2018/04/05/corte-suprema-ordena-proteccion-inmediata-de-la-amazonia-colombiana/>. Acesso em 28.05.2018.
95Ibidem.
96BBC NEWS. New Zealand river first in the world to be given legal human status. Disponível em:
<http://www.bbc.com/news/world-asia-39282918>. Acesso em 27.05.2018.
direitos, deveres e responsabilidades correspondentes97.
No Brasil, a Associação Pachamama ajuizou ação em face da União Federal e do Estado de Minas Gerais pedindo o reconhecimento da Bacia Hidrográfica do Rio Doce como sujeito de direitos. A ação teve origem em razão dos danos ambientais provocados com o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco no município de Mariana-MG98. O desastre ocorreu em 5 de novembro de 2015 e foi responsável por despejar 62 milhões de metros cúbicos de lama de minério de ferro no rio, desabrigar 1.265 pessoas,
No Brasil, a Associação Pachamama ajuizou ação em face da União Federal e do Estado de Minas Gerais pedindo o reconhecimento da Bacia Hidrográfica do Rio Doce como sujeito de direitos. A ação teve origem em razão dos danos ambientais provocados com o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco no município de Mariana-MG98. O desastre ocorreu em 5 de novembro de 2015 e foi responsável por despejar 62 milhões de metros cúbicos de lama de minério de ferro no rio, desabrigar 1.265 pessoas,