DIREITO FUNDAMENTAL AO SANEAMENTO BÁSICO
III.2. Saneamento básico como direito fundamental
A falta de políticas adequadas para os serviços de coleta, manejo de resíduos sólidos e de limpeza urbana também compõe um dos desafios a uma Política de Saneamento Básico.
Cerca de 25 milhões de toneladas de lixo são destinadas aos oceanos. Avalia-se que 80%
131BURGUER (2017), op. cit., p. 4.
132BRASIL. Artigo 1º da http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d2519.htm/07 - Esta Lei estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico e para a política federal de saneamento básico.
desse lixo tem origem nas cidades e é consequência da falta de gestão dos resíduos por parte do Poder Público. No Brasil aproximadamente 2 milhões de toneladas de lixo são anualmente descartadas em nossos litorais, o que corresponde a 10% do total mundial133.
A discussão quanto à importância da aplicação de medidas que garantam a universalização do acesso aos serviços de saneamento básico é demasiadamente extensa.
Dentre inúmeras medidas tomadas ao longo dos anos, no âmbito internacional, podemos citar em 1977 o ―Plano de Acção‖, elaborado pela Organização das Nações Unidas – ONU que reconhecia a água como um direito de todos os povos, independentemente das suas condições econômicas e sociais134. Dois anos depois, destaca-se a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres – CEDAW que defendeu a obrigação dos Estados em assegurar a igualdade entre homens e mulheres, especialmente, no que se refere ao abastecimento de água e acesso ao saneamento135.
No ano de 1989 a Convenção sobre os Direitos da Criança dispôs sobre o dever do Poder Público em assegurar o acesso à água potável e ao saneamento básico em condições suficientes136.
A Conferência Internacional sobre a Água e o Desenvolvimento Sustentável137 e a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento138, ambas de 1992, também foram importantes à defesa para o direito à água limpa e ao saneamento básico.
Em 1994, a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre População e
133 PORTAL SANEAMENTO BÁSICO. Oceanos recebem, por ano, mais de 25 milhões de toneladas de lixo.
Disponível em: <https://www.saneamentobasico.com.br/oceanos-recebem-toneladas-de-lixo/>. Acesso em 05.05.2018.
134UN. O Direito Humano à Água e ao Saneamento. Disponível em:
<http://www.un.org/waterforlifedecade/pdf/human_right_to_water_and_sanitation_milestones_por.pdf>. Acesso em: 05.05.2018.
135UN. Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres Disponível em: < www.un.org/womenwatch/daw/cedaw/>. Acesso em 05.05.2018.
136UNICEF BRASIL. Convenção sobre os Direitos da Criança. Disponível em:
<https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10120.htm> . Acesso em 05.05.2018.
137WOM. The Dublin statement on water and sustainable development. Disponível em <
www.wmo.int/pages/prog/hwrp/documents/english/icwedece.html>. Acesso em 05.05.2018.
138 UN. Agenda 21. Disponível em <www.un.org/esa/dsd/agenda21/>. Acesso em 05.05.2018.
Desenvolvimento reafirmou o posicionamento da organização, no que se refere ao reconhecimento do direito universal a água e a saneamento básico139. Publicada em 1999, a Resolução nº 54/175140 dispôs como direito fundamental o acesso à água limpa. Três anos depois, em 2002, foi elaborada por vários governantes mundiais, a Declaração Política da Cimeira, que aliou a dignidade humana aos serviços de abastecimento de água potável e saneamento141. Na sequência, o Conselho dos Direitos Humanos através do relatório do Alto Comissário para os Direitos Humanos, afirmou que o acesso à água potável e ao saneamento básico eram direitos humanos, de formo que o seu acesso deveria se dar de forma igual e em quantidade suficiente à todos, garantindo-se assim a vida e a saúde de seus usuários142 .
Diante desse cenário adveio o ―Relatório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos‖, o qual enfatiza a correlação entre os direitos humanos e o direito à água potável e ao saneamento. Posteriormente, no ano de 2009, a ONU aprovou a Resolução nº 12/8. O novo marco reconhecia a obrigação dos Estados em implementar medidas públicas no combate a precarização dos serviços de saneamento básico143.
Em 2010, a Resolução n° 64/292144 da ONU, aprovada em 28 de julho 2010 em sua 108ª Reunião Plenária, reconheceu formalmente o direito ao saneamento e à água potável como direitos humanos fundamentais. Recentemente, a ONU reconheceu que o direito à água potável e ao saneamento básico são direitos fundamentais autônomos. Nas palavras do presidente do Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais,
139UN. International Conference on Population and Development. Disponível em
<www.un.org/popin/icpd2.htm>. Acesso em: 05.05.2018.
140UN. Resolução nº 54/175 – The right to develompment. Disponível em <
www.un.org/ga/search/view_doc.asp?symbol=A/RES/54/175>. Acesso em 05.05.2018.
141 NAÇÕES UNIDAS. Cimeira de Joanesburgo aprova medidas amplas para reduzir a pobreza, proteger o ambiente. Disponível em: <https://www.unric.org/html/portuguese/joanesburgo/CIMEIRA_-_16.pdf >.
Acesso em: 05.05.2018.
142UN. O Direito Humano à Água e ao Saneamento. Disponível em:
<www.un.org/.../pdf/human_right_to_water_and_sanitation_milestones_por.pdf>. Acesso em 05.05.2018.
143 UN. Resolução nº 12/8 - Human rights and access to safe drinking water and sanitation. Disponível em:
<www.un.org/ga/search/view_doc.asp?symbol=A/HRC/RES/12/8>. Acesso em 05.05.2018.
144ONU. Resolução n. 64/292. Disponível em: <www.un.org/ga/search/view_doc.asp?symbol=A/RES/64/292>.
Acesso em 01.05.2018.
Waleed Sadi: ―o reconhecimento explícito dos direitos humanos ao saneamento e à água reafirma que o saneamento tem características distintas que justificam o seu próprio reconhecimento e tratamento separado da água em alguns aspectos‖ 145.
As diretrizes demonstram a preocupação dos entes internacionais com a dura realidade vivenciada por cerca 884 milhões de pessoas no mundo que não tem acesso ao abastecimento de água potável. Busca-se chamar a atenção dos atores sociais para os dados alarmantes, no qual aproximadamente mais de 2,6 bilhões pessoas sobrevivem em situações degradantes, sem o acesso adequado a infraestrutura de saneamento146.
O relator especial da ONU Léo Heller afirma que a proposta da Resolução n° 64/292 era difundir o conhecimento acerca dos direitos à água potável e ao saneamento básico entre os cidadãos, ―fortalecendo sua capacidade de reivindicá-lo quando o Estado lhe falhar em prover os serviços ou quando eles não se apresentarem seguros, ou quando forem inacessíveis ou sem a privacidade adequada‖147.
No Brasil, estudos promovidos pelo Instituto Trata Brasil examinam a evolução dos indicadores de água e esgoto nas 100 maiores cidades do país. Neste ano (2018), os resultados chamam atenção para a discrepância dos valores nas diferentes regiões do país. Dos vinte melhores municípios listados no Ranking, os indicadores médio de atendimento para os serviços de abastecimento de água e esgoto são de, respectivamente, 99,34% e 95,99%, o que assinalaria para a proximidade da universalização dos serviços de saneamento básico nas cidades. Em contrapartida, os vinte piores municípios apresentam um atendimento total de
145ONU. General Assembly. Disponível em: <https: //nacoesunidas.org/assembleia-geral-da-onu-reconhece-direito-ao-saneamento-que-ainda-nao-chega-a-25-bilhoes -de-pessoas/>. Acesso em 26.05.2018.
146ONU. Água potável: direito humano fundamental. 2010. Disponível em: < https://nacoesunidas.org/>.
Acesso em 01.05.2018.
147ONUBR. Assembleia Geral da ONU reconhece saneamento como direito humano distinto do direito à água potável. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/assembleia-geral-da-onu-reconhece-saneamento-como-direito-humano-distinto-do-direito-a-agua-potavel/>. Acessado em 01.05.2018.
água de 79,22%, sendo que os índices para coleta de esgoto não ultrapassam os 24,96%148. Embora, haja alguns poucos casos com indicadores positivos, o que se prevalece no país são os dilemas na busca da universalização dos serviços de saneamento básico. A realidade é que no Brasil ainda há cerca 35 milhões de cidadãos não tem acesso ao serviço de abastecimento de água potável149. Mais de 100 milhões de brasileiros despejam esgoto de maneira irregular, de modo que apenas 44,92% dos esgotos do país são tratados150. Estima-se, ainda, que aproximadamente 4 milhões de habitantes não tem acesso ao banheiro, realizado suas necessidades fisiológicas ao ar livre151.
O saneamento básico, além de serviço essencial, se revela como instrumento indispensável à garantia da dignidade da pessoa humana e dos demais seres vivos. Conforme será demonstrado, o acesso adequado aos serviços de saneamento é ferramenta necessária para assegurar o respeito aos demais direitos sociais, como á água potável, à saúde, ao trabalho e à vida digna, de modo que a ausência de acesso adequado aos serviços de saneamento significa a precariedade das garantias constitucionais.
Nesse sentido, a ascensão dos modelos de produção em massa, a exaustão dos recursos naturais e o aumento das diversas formas de poluição tem implicado em mudanças de comportamento e de paradigma na sociedade atual. o cenário de preocupação com a preservação ambiental impõe a consolidação de instrumentos capazes de garantir o uso consciente e sustentável dos recursos naturais e a falta de acesso adequado aos serviços de saneamento básico acaba por contribuir para a degradação ambiental, com o aumento da
148TRATA BRASIL. Ranking do Saneamento Instituto Trata Brasil 2018. Disponível em:
<http://www.tratabrasil.org.br/estudos/estudos-itb/itb/ranking-do-saneamento-2018>. Acesso em 06.05.2018, p.
93-96.
149 TRATA BRASIL. Principais estáticas no Brasil água. Disponível em:
<http://www.tratabrasil.org.br/saneamento/principais-estatisticas/no-brasil/agua>. Acesso em 05.05.2018.
150 TRATA BRASIL. Principais estáticas no Brasil esgoto. Disponível em:
<http://www.tratabrasil.org.br/saneamento/principais-estatisticas/no-brasil/esgoto>. Acesso em 05.05.2018.
151TRATA BRASIL. Principais estáticas no mundo esgoto. Disponível em:
<http://www.tratabrasil.org.br/saneamento/principais-estatisticas/no-mundo/esgoto>. Acesso em 05.05.2018.
poluição dos oceanos, mares e rios, a proliferação de doenças infecciosas e para mortandade da fauna e da flora.
São inúmeras as consequências decorrentes da ausência desse serviço público essencial, de modo que os danos não atingem só a espécie humana, mas também todas as formas de vida do planeta. Nesse cenário, defende-se o reconhecimento do saneamento básico como direito fundamental e como condição necessária à manutenção da qualidade das águas.