CONTORNOS DA PESQUISA
1 CONTORNOS DA PESQUISA
1.4 A Natureza da Pesquisa
Estudar um tema que trata da compreensão das relações estabelecidas entre a população de um sítio histórico tombado e as implicações da patrimonialização, tendo na paisagem as formas de se construir e expressar o ideal patrimonializado não foi fruto de ideias extraídas de leituras prévias ou de inquietações pregressas. Este tema é resultante da minha vivência ao longo de três anos não apenas como moradora do município de Penedo, mas como moradora do seu sítio histórico tombado no período de 2010 a 2013.
Por esta razão, ele não pode ser atribuído a uma “escolha acidental” pois é fruto da observação cotidiana da dinâmica deste território patrimonializado. De início chamou-nos a atenção a ocorrência de pequenas obras nos finais de semana e no turno da noite. Era como se a vizinhança tivesse a certeza de que não seria notificada, pois sabia das brechas na fiscalização a cargo dos fiscais da Prefeitura Municipal de Penedo (PMP) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A Secretaria de Cultura do Estado de Alagoas, não figurou como ator presente no município durante o período em que lá morei e durante o período de realização desta pesquisa, fosse ocupando o seu assento no conselho curador do Fundo de Preservação do Patrimônio (FUNPATRI), fosse exercendo a sua função de agente fiscalizador do conjunto por ela tombado, e por esta razão, decidimos realizar uma entrevista semi-estruturada com esta entidade como detalharemos no sub-capítulo 1.5.
Por meio de diálogos despretensiosos com a população do sítio tombado, meus vizinhos, eu sempre conseguia extrair desabafos de insatisfação e por vezes até de raiva. O aumento da criminalidade no sítio tombado e as recorrentes insistências dos vizinhos me fizeram colocar grades na janela e na porta da ‘minha’ casa. Por desconhecimento da legislação vigente, fosse pela falta de orientação por parte da imobiliária que me alugou o imóvel, fosse pela ausência de contato com a proprietária do imóvel, somada à insuficiente fiscalização das citadas entidades, a obra na ‘minha’ casa seguiu sem transtornos. Uma dúvida surgiu ao final das obras: o que fazer com os restos da construção? A busca por orientação na Secretaria de Infraestrutura e Obras (SEINFRO) apenas confirmou o despreparo da prefeitura para lidar com a questão.
A ausência de um local adequado para a destinação daquele lixo fez com que a orientação oficial fosse despejar às margens do rio São Francisco. Diante do meu espanto e negativa veemente, a recomendação foi destiná-lo como parte do aterro do novo fórum que estava sendo construído nas proximidades da feira, no entorno da área tombada.
Um desconforto que só reforçou a importância da compreensão do fenômeno de maneira objetiva, amparada conceitualmente, mas impossível de assegurar absoluta imparcialidade pois o meu olhar neste estudo é contextualizado. Isto implica reconhecer a existência de um conhecimento situado, fundado em um ponto de partida e de produção. Os conhecimentos situados correspondem,
[...] a uma incorporação dos saberes, partindo da opção pela responsabilidade na produção dos saberes e pela sua localização sócio- histórica. A própria constituição de um sujeito que conhece não é unificada, como pretendiam as filosofias assentes na estrita separação entre sujeito e objecto. As subjectividades são múltiplas, localizadas e construídas, de modo que o próprio sujeito que conhece é parcial, ligando-se aos outros, por via da inter-subjectividade. Desse modo, não é a identidade que estrutura a posição de quem investiga, mas sim a afinidade parcial (OLIVEIRA E AMÂNCIO, 2006, p. 601-602).
O conhecimento situado permite que possamos fazer a análise a partir do nosso lugar de ‘fala’, do nosso ponto de vista, e da nossa interação com o lugar. Por esta razão, entendemos que o “habitar por obrigação”, acabou se transformando
também na melhor estratégia para captar a realidade do mundo, vista pela perspectiva da população local residente no sítio tombado de Penedo.
A abordagem qualitativa da pesquisa mostrou-se a mais adequada pois permitiu a adoção de métodos plurais de investigação que vão de encontro tanto do sentido do fenômeno, quanto da interpretação dos significados que as pessoas lhes atribuem (CHIZZOTTI, 2003). Foi uma opção justificada pelo fato deste trabalho estar fundado em uma reflexão sobre a percepção da patrimonialização da paisagem e dos conflitos que este processo envolve.
Assim, a patrimonialização pode ser analisada como um processo social que se estrutura em seis categorias segundo Lofland, citado por Triviños (1987, p. 126- 127):
Os atos. Seriam ações que se desenvolvem em uma situação cujas características principais, em relação ao tempo, estariam representadas por sua brevidade (...).
As atividades. Estão representadas por ações em uma situação mais ou menos prolongada e que poderiam ser estudadas através de dias, semanas, meses.
Os significados. Manifesta-se através das produções verbais das pessoas envolvidas em determinadas situações e que comandam as ações que se realizam.
A participação. É o envolvimento do sujeito ou adaptação do mesmo a uma situação em estudo.
As relações. Surgem no intercâmbio que se produz entre várias pessoas que atuam numa situação simultaneamente e toma as características de inter-relações.
As situações. Estão constituídas pelo foco em estudo, pela unidade que se pretende analisar.
Ao contextualizarmos estas categorias na política preservacionista, que é um instrumento da patrimonialização como veremos, poderíamos ilustrá-las para fins de exemplificação deste fenômeno social da seguinte maneira: Um ato poderia ser a busca por informações junto às entidades patrimonializadoras sobre como proceder para iniciar a reforma de um imóvel particular. Já uma atividade seria a tramitação do projeto da reforma em atendimento às exigências protocolares da política, tanto na prefeitura como no IPHAN, tendo em vista a multiescalaridade do tombamento. Os significados envolveriam as trocas de ideias entre vizinhos que já realizaram reformas, para buscar maior esclarecimento acerca das razões da falta de celeridade no posicionamento das entidades fiscalizadoras especialmente quando a reforma
que se deseja implementar está associada a uma benfeitoria sem a qual o imóvel pode oferecer risco de vida aos seus ocupantes. A participação seria o monitoramento, via contatos frequentes, da interação entre sujeitos e agentes da fiscalização no despacho da solicitação. As relações envolveriam o acionamento do representante da associação dos moradores do sítio tombado que tem assento no conselho curador do Fundo de Preservação do Patrimônio (FUNPATRI), para que intercedesse em favor do reclamante. Seria criada a oportunidade de mobilizar, não apenas aquela associação, mas seriam provocadas discussões entre os membros do conselho no intuito de repensar as falhas decorrentes do descumprimento dos prazos e das normas fixadas por elas mesmas. A situação, seria uma consequência esperada diante da ineficiência dos órgãos públicos na execução dos dispositivos normativos da ação preservacionista: a execução da reforma à revelia dos despachos.
Uma pesquisa de abordagem qualitativa prevê, segundo Godoy (1995a) ao citar Bogdan e Biklen (1982), a existência de alguns aspectos essenciais que a identificam como tal.
i) A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental. Ela ressalta a importância do ambiente na configuração da personalidade, problemas e situações de existência do sujeito. O chamado ‘ambiente natural’ existe, mas seria observado numa perspectiva que o vincula a realidades sociais maiores que integram o fenômeno social concreto. No caso da pesquisa de caráter fenomenológico, o importante é o conteúdo da percepção. Destacamos que ao longo do trabalho, por diversas vezes optamos em não reduzir demasiadamente o tamanho de alguns relatos para que se consiga contextualizar adequadamente o ponto de vista e a visão de mundo do entrevistado.
ii) A pesquisa qualitativa é descritiva. Especialmente quando o suporte teórico está ancorado na fenomenologia, a pesquisa qualitativa mostra-se descritiva pois está impregnada de significados que o ambiente lhe outorga e é produto de uma visão subjetiva. Desta forma, a interpretação surgiria como uma totalidade de uma especulação que tem como base a percepção de um
fenômeno num contexto; não sendo, portanto, vazia, mas coerente, lógica e consistente.
iii) Os pesquisadores qualitativos estão preocupados com o processo e não simplesmente com os resultados e o produto. A investigação histórico-cultural é decisiva no desenvolvimento do fenômeno não só em sua visão atual que orienta o início da análise, como também em sua estrutura íntima e latente, inclusive não visível, para descobrir suas relações e avançar no conhecimento de seus aspectos evolutivos. Por esta razão, o capítulo seguinte prevê um detalhamento da trajetória histórico-cultural do município analisado.
iv) O significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida são a preocupação essencial do investigador. Ao tentar compreender os fenômenos sob a perspectiva dos participantes, a pesquisa considera todos os pontos de vista como importantes e, assim, esclarece o dinamismo interno das situações. v) Pesquisadores utilizam o enfoque indutivo na análise de seus dados. Este tipo
de pesquisa permite ao pesquisador partir de questões de interesses amplos que vão se tornando mais diretos e específicos ao longo da investigação, incorporando, ademais, o quadro teórico aos poucos, à medida que coleta os dados e os examina. Neste estudo, ampliamos o termo coleta de dados no intuito de incorporarmos as nossas vivências, experiências e percepções em campo.
Para a definição dos sujeitos da pesquisa e dos elementos esclarecedores dos fundamentos da pesquisa qualitativa, foram adotados os escritos de Triviños (1987), Godoy (1995a; 1995b), Chizzotti (2003), além de informações na fase da observação direta que contou com a utilização de caderno de campo, a realização de registros fotográficos e a consulta a alguns dados e documentos cedidos pelo IPHAN, embora nem tudo o que foi solicitado realmente foi disponibilizado.
Foram entrevistados 15 moradores e 13 empresários/autônomos. No caso específico dos moradores, observamos a predominância do sexo feminino (60%) em relação ao masculino (40%). Embora a maior parte dos entrevistados tenha informado que é casada (47%) (Gráfico 1), chamou-nos a atenção a quantidade de pessoas viúvas, solteiras e divorciadas que somadas totalizam 53%, pois estes dados esclarecem os poucos membros que habitam estes imóveis. Segundo as respostas
obtidas, em 74% das residências (Gráfico 2) residem apenas 1 ou 2 pessoas, evidenciando um território sem vitalidade, decorrente da diminuição dos núcleos familiares outrora compostos por adultos, filhos e netos. Situação que se confirma ao considerarmos a faixa etária da maioria dos entrevistados, que quando somados revelam que 72% do total de moradores encontra-se na faixa acima dos 56 anos de idade (Gráfico 3). Destacamos também que o nível de escolaridade dos entrevistados no sítio tombado é considerado elevado, pois 60% do total de entrevistados tem o nível superior concluído (Gráfico 4).
Gráfico 1- Estado civil dos moradores do sítio tombado
Gráfico 3 - Faixa etária dos moradores do sítio tombado
Gráfico 4 – Escolaridade dos moradores do sítio tombado
Dos 13 empresários/autônomos entrevistados, destacamos que embora levemente mais equilibrado que os moradores, a maior parte é composta por indivíduos do sexo masculino (54%), sendo que a maioria é casada (77%) (Gráfico 5). O Gráfico 6 mostra que a maior parte dos empreendedores se situa na faixa etária de 46 a 55 anos (54%). Entretanto, ao adicionarmos pessoas pertencente de outras faixas etárias mais avançadas, chegaremos a 85% das pessoas entrevistadas com faixa etária acima dos 46 anos, demonstrando que ao invés de desacelerarem o ritmo de trabalho, na verdade o mantém. Nenhum entrevistado enquadrou-se na faixa dos 26 aos 35 anos, o que sugere que os adultos jovens não estão vendo oportunidades de inserção atraentes em negócios relacionados direta ou indiretamente com o turismo,
já que a patrimonialização busca se realizar principalmente neste setor. Quanto ao nível de escolaridade (Gráfico 7), embora 46% dos entrevistados tenham nível superior, o quantitativo de 38% de empreendedores apenas com o nível fundamental pode sinalizar para a importância de uma maior qualificação em seus respectivos ramos de atuação.
Gráfico 5 - Estado civil dos empresários/autônomos do sítio tombado
Gráfico 7 – Escolaridade dos empresários/autônomos do sítio tombado
A definição da amostra desta pesquisa baseou-se em seu caráter proposital ou intencional (não-probabilística) que tem na compreensão de Dourado (2014, p. 55) tomando Turato (2003, p. 357) como referência, “[...] aquela de escolha deliberada de respondentes, sujeitos ou ambientes, oposta à amostragem estatística, preocupada com a representatividade de uma amostra em relação à população total [...]”. No caso da população do sítio tombado, especialmente os empresários/autônomos, adotamos apenas esta estratégia de amostragem e optamos pela maior concentração de entrevistas na área comercial e de serviços que fica no núcleo original do povoamento de Penedo, mais próximo à orla do rio São Francisco. Fomos diminuindo a quantidade de entrevistas na medida em que nos distanciávamos da orla e adentrávamos na área predominantemente residencial.
Nesta área adicionamos à amostragem não-probabilística uma adaptação da técnica bola de neve que nos permitiu, de maneira mais informal entrevistar os moradores. A bola de neve pode ser descrita como “uma técnica que busca encontrar respondentes para pesquisas. Um respondente diz ao pesquisador o nome de outro respondente, que por sua vez, indica o nome de um terceiro respondente, e assim vai” (ATKINSON, R.; FLINT, J., 2001, p. 02). Fizemos a adaptação no intuito de minimizar um risco comum nesta técnica que é a tendência dos respondentes fazerem indicações de outros respondentes, tomando como referência a subjetividade e/ou proximidade com os respondentes anteriores, podendo sugerir maior convergência de opiniões e comprometer a sua diversidade.
Assim, selecionamos apenas um respondente principal para nos indicar os demais. Nas ruas nas quais foram realizadas uma única entrevista, esta deveria ser aplicada com moradores que lá residissem há pelo menos 20 anos, recorte que se refere ao tempo de tombamento de Penedo a nível nacional. As ruas onde foram realizadas apenas uma entrevista foram aquelas onde contabilizamos ao longo das nossas incursões ao município durante a etapa de observação, menos de 50 imóveis com funções residenciais e aparentemente ocupados4.
No caso de ruas com um quantitativo superior, foi solicitado ao morador que indicasse outro morador que residisse há menos de 10 anos naquela rua. Buscamos com isso observar eventuais diferenças na relação dos moradores com o patrimônio edificado antes e após o tombamento do sítio.
No primeiro caso, quase 90 % deles residiam no sítio tombado há mais de 25 anos (Gráfico 8). Deste total, a maioria (66%) reside há mais de 40 anos, havendo casos de entrevistados que residem no imóvel desde o seu nascimento. No caso dos empresários/autônomos, o Gráfico 9 aponta que 77% deles residem em Penedo há mais de 26 anos, evidenciando que o primeiro tombamento ocorrido em 1986, portanto, há quase 30 anos não suscitou o interesse de investidores de fora do município na velocidade esperada pela patrimonialização.
Gráfico 8 - Tempo de residência do morador do sítio tombado
Fonte: Pesquisa de campo, 2015.
4 Ressaltamos que o Sistema Integrado de Planejamento e Gestão (SICG) do IPHAN foi concluído 6
meses após a realização das nossas entrevistas e, portanto, reconhecemos que pode haver contrastes na quantificação e qualificação destes imóveis.
Gráfico 9 - Tempo de residência do empresário/autônomo no sítio tombado
Fonte: Pesquisa de campo, 2015.
Escolhemos uma pessoa que é, ao mesmo tempo, morador antigo e que exerce um ofício como autônomo no sítio tombado, um artista plástico bem quisto e conhecido no município, que aceitou ser a pessoa a indicar todos os respondentes às entrevistas, segundo os critérios explanados anteriormente. Foi uma escolha acertada haja vista que a menção ao nome do artista de fato permitiu o nosso ingresso no interior das residências sem desconfianças, mesmo quando ele não podia nos acompanhar. Em alguns momentos ele fez questão de se fazer presente pois parecia que ali se apresentava mais uma chance de conhecer melhor os seus vizinhos em sua intimidade.
Além das entrevistas, outra técnica adotada para a ampliação do escopo da pesquisa de modo a permitir maior imersão no cotidiano do sítio tombado foi o registro das informações no diário de campo. Este recurso permitiu a liberdade para a fluição das ideias, para o registro íntimo que acompanha as impressões pessoais, os fatos banais e inusitados. Ele acolhe e condensa reflexões acerca do visível, pois “[...] ao descrever fatos, situações, gestos e acontecimentos sobre uma realidade conhecida e mediada pela teoria, já está realizando um processo interpretativo, pois no Diário de Campo os fatos são narrados numa perspectiva que foge ao senso comum – científica, portanto” (LOPES, 2002, p. 134).
A observação também se constituiu como técnica de pesquisa em meio aos procedimentos metodológicos adotados e reconhecidos como fundamentais. Para observar, o tempo deve ser visto como aliado, os sentidos devem ser aguçados e
orientados para captar movimentos, reações, atos que se oferecem a todo o momento para aqueles “com olhos de ver e ouvidos de ouvir”. A observação pode ser compreendida também pela sua flexibilidade e assim, pode assumir a condição de observação não estruturada e estruturada. Em nossa pesquisa privilegiamos a observação estruturada, em que os comportamentos observados obedecem a uma forma sistematizada de registro, construída a partir das categorias de observação que responderão os objetivos da pesquisa.
A observação, portanto, vem acompanhada de vantagens realçadas por Alves- Mazzotti e Gewandsznajder (2002, p. 164):
a) Independe do nível de conhecimento ou da capacidade verbal dos sujeitos;
b) Permite ‘checar’, na prática a sinceridade de certas respostas que, às vezes, são dadas só para ‘causar boa impressão’;
c) Permite identificar comportamentos não-intencionais ou inconscientes e explorar tópicos que os informantes não se sentem à vontade para discutir;
d) Permite o registro do comportamento em seu contexto temporal- espacial
Nas etapas iniciais de realização da pesquisa, quando ainda residente no sítio tombado, podemos afirmar que ali travávamos com o lugar uma relação de vivências fecundas que, metodologicamente, nominaríamos de observação participante.
A própria relação interpessoal e o próprio dado da subjetividade são partes de um método de trabalho, por isso que a gente vai falar em observação participante; que vai falar, numa outra dimensão, em pesquisa participante; vai falar em envolvimento pessoal do pesquisador com as pessoas, com o contexto da pesquisa e assim por diante, como dados do próprio trabalho científico (BRANDÃO, 1984, p. 12)
A emigração de Penedo converteu a nossa observação participante em observação não participante, técnica na qual o pesquisador mantém o contato com a comunidade, mas não mais se integra a ela, “[...] presencia o fato mas não participa dele; não se deixa envolver pelas situações; faz mais o papel de espectador” (MARCONI; LAKATOS, 2010, p. 176). Isto não implica na perda de objetividade da observação, como se não tivesse um fim determinado.
Partindo destas considerações, a observação do lugar de estudo se fez baseada em um roteiro (Apêndice A) apoiado nos elementos que buscamos perceber como genericamente integrantes da paisagem:
a) Os aspectos da paisagem relevantes na composição da memória afetiva; b) A organização geral da rua, monumentos e edificações definidores de valores
estéticos;
c) Infraestrutura, serviços públicos e outros elementos indicativos da presença do Estado;
d) Atividades de lazer e outros tipos de sociabilidade; e) Composição etária da população da área estudada; f) Elementos da vida cotidiana.
A etapa da observação direta não aconteceu em uma única ocasião. Seríamos incapazes de seguir apreendendo a dinâmica da cidade em uma única incursão. Os vários deslocamentos realizados a Penedo para fins de coleta de dados primários e secundários, eram sempre um momento de renovação do olhar e de reconhecimentos ou estranhamentos expressos nas paisagens móveis. Curiosamente, o sítio tombado, aquele no qual vivemos e cujas características mais marcantes eram a calmaria, a estabilidade, uma tranquilidade até enfadonha de tão previsível, cobrava-nos deslocamentos quase mensais no intuito de acompanharmos a sua transformação/refuncionalização.
Brandão (1984) observa que na perspectiva antropológica, o trabalho de campo é uma vivência, ele ultrapassa o puro ato do conhecimento científico. Através da vivência se concretizam as relações que produzem o conhecimento, aquelas que são oriundas do encontro de diversas categorias de pessoas. Cada (re)encontro com a cidade e os seus cidadãos, quer nos fossem anônimos ou familiares, estava sempre envolto em expectativas e repleto de curiosidade. Este entendimento do trabalho de campo como vivência é uma assertiva que se aplica bem à geografia, especialmente a de abordagem cultural.
Desta forma, os registros fotográficos e as observações diretas ocorreram ao