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3 INTERFACES DA PATRIMONIALIZAÇÃO

3 INTERFACES DA PATRIMONIALIZAÇÃO: POLÍTICAS, VALORES E CONFLITOS

3.1 O contexto do seu tombamento multiescalar

Penedo passa por um processo curioso de inchaço da área que compreende a sede do município devido ao processo gradual de imigração dos trabalhadores rurais25 para a zona urbana, somado à ampliação do fluxo de servidores públicos

concursados nas instituições interiorizadas, sobretudo as federais. São fatores que resultaram em especulação imobiliária e forçaram a PMP a conceber com algum atraso, o seu Plano Diretor Participativo (2007) que incorporou em suas diretrizes algumas recomendações oriundas do Programa Monumenta/BID iniciado em 2002, e cuja legitimidade gera controvérsias pois decorre de uma conduta política questionável. Segundo um dos entrevistados,

(...) eu já tive a tristeza de ir numa audiência pública amplamente divulgada, uma das primeiras do Plano Diretor, no Teatro Sete de Setembro, aberta. Se tinha 10 pessoas, era muito. Sabe o que fizeram pra ter uma legitimidade? Chamaram todos os funcionários da prefeitura. Agora me diga, o que eu aprendi de Penedo é o seguinte: uma elite que quer continuar no controle (...).(ex-arquiteta do Programa Monumenta).

Neste caso, o documento que foi aprovado adotou como princípios: i) a função social da cidade e da propriedade, com a priorização do interesse comum sobre o individual; ii) a gestão democrática, para estimular a maior participação dos cidadãos no processo de planejamento, tomada de decisões e fiscalização das ações públicas; iii) a sustentabilidade, como elo de integração das estratégias de desenvolvimento. Tais princípios foram perseguidos e no tocante à ação patrimonializadora, não se mostraram efetivos em sua totalidade, como veremos nos capítulos que seguintes.

O Plano Diretor (2007) estabeleceu uma política territorial a partir das seguintes diretrizes setoriais: a) saneamento ambiental; b) habitação; c)

25 Estão entre os fatores determinantes da migração da zona rural para a sede do município:

precariedade das condições de vida nos povoados do município (precariedade da pavimentação das ruas, ausência do sistema de esgotamento sanitário, deficiências na prestação de serviços nas áreas de saúde e segurança), falta de opções de lazer, baixo acesso à tecnologia, dificuldades de abastecimento de gêneros de primeira necessidade, escassez de oportunidades de emprego.

desenvolvimento sócio-econômico; d) patrimônio histórico; e) mobilidade e acessibilidade.

Estas diretrizes têm sido implementadas obedecendo a um ordenamento territorial que subdividiu o município em macrozonas: i) a Macrozona Urbana (MZU); ii) a Macrozona Rural (MZR); iii) Macrozona Urbano-Rural (MZUR). Interessa-nos focar na Macrozona Urbana pois é nela que se situa a Zona de Proteção Histórico- Cultural (ZPHC).

O plano diretor prevê em seu art. 39 que a política de preservação e conservação do patrimônio histórico-cultural de Penedo, deverá atenderos seguintes objetivos:

I- Criar cadastro municipal integrado ao Sistema de Gestão de Informação Urbana dos bens referenciais da identidade do povo penedense;

II- Promover exploração econômica sustentável do patrimônio cultural;

III- Promover a integração das ações públicas e privadas destinadas à proteção do patrimônio cultural existente;

Em seu parágrafo único define que “as ações e estudos do Programa de Valorização do Patrimônio Cultural deverão articular-se com as ações e estudos promovidos pelo Programa Monumenta, presente no município no ano de 2002”.

O Programa tem por objetivo a preservação de áreas prioritárias do patrimônio histórico e artístico urbano do país, incluindo espaços públicos e edificações, de forma a garantir sua conservação permanente e a intensificação do seu uso pela população, sendo o primeiro projeto de financiamento à cultura apoiado por organismos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A macrozona urbana subdivide-se em: ZPHC (Figura 36), Zona de Investimentos Públicos Prioritários (ZIPP); Zona de Requalificação Urbana (ZRU); Zona Especial de Interesse Ambiental (ZEIA); e Zona de Expansão Urbana (ZEU).

Figura 36 - Mapa do Zoneamento da Macrozona Urbana do município de Penedo-AL

Fonte: Oficina de Projetos/ Plano Diretor Participativo de Penedo, Secretaria de Infraestrutura e Obras/PMP, 2007.

Alguns investimentos conjuntos entre o governo federal, estadual e municipal tem tornado a parte alta da cidade mais atraente para a fixação da população. Os conjuntos residenciais do Programa Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal, tem começado a atender a demanda por habitação popular prevista no plano diretor, com a criação de um conglomerado de residenciais situados próximos uns aos outros: residenciais Marisa Letícia Lula da Silva 1 e 2, Mata Atlântica 1 e 2, Velho Chico 1, Nilo Menezes e Vale do Marituba. Ainda não podemos afirmar que foram criados verdadeiros bairros, considerando que não foram fruto de uma ocupação intencional dos grupos humanos, mas uma alocação de pessoas segundo critérios previamente definidos pelo ente público em sintonia com a política de ordenamento territorial do município.

O bairro se circunscreve a uma escala espacial mais reduzida, na qual se estabelecem relações sociais, não raro conflitantes, mas que também se define por uma certa coesão social o que configura a sua singularidade. Os residenciais

mencionados são, em grande medida, um acolhimento de grupos e de classes diferentes, favorecendo integrações e/ou estimulando tensões, mas também projetando uma referência simbólica que assume uma expressão espacial conflitante causada pela “[...] insuficiência dos equipamentos de consumo coletivo, problemas habitacionais, segregação sócio-espacial, intervenções urbanísticas autoritárias, centralização da gestão territorial, massificação do bairro e deterioração da qualidade de vida urbana” (SOUZA, 1989, p. 140).

Destacamos aqui a fala de uma moradora do sítio tombado, que paga o aluguel de imóvel à Santa Casa de Misericórdia (SCM) e aguarda ser contemplada com uma casa nestes residenciais. Em seu depoimento, ela destaca porque a parte baixa ainda é importante, deixando claro que mesmo na expectativa da realização do sonho da casa própria, a tristeza com a saída do bairro, do ‘centro histórico’ aonde vive, será grande por ser o lugar em que se sente emocionalmente vinculada e por ser também o bairro comercial que lhe permite uma redução no custo de vida.

Significa assim, você tá perto da igreja, você tá perto do banco, você tá perto dos Correios, está perto das ‘festa’; que dia Sete de Setembro que tá tendo desfile por toda rua aqui. (...) Carnaval, tudo passa aqui. Festa da Gincana [de Pesca], tudo passa aqui; procissão, passa aqui, de Santo Antônio; Senhor Morto, passa aqui; da Aleluia, passa aqui. Então, minha filha, tem tudo de bom. Você morar aqui é perto de tudo. Você acha que quem mora aqui, próximo de tudo, vai comparar você morar por exemplo, na Mata Atlântica? No Barro Duro? [localizados na parte alta] Você tem que pegar o coletivo pra descer! Pra fazer feira, pra sacar um dinheiro, qualquer coisa. Pro INSS....o que você quiser fazer tem que descer, você tem que ter o dinheiro do ônibus e [morando]aqui você tem a possibilidade de ir a pé e voltar. Olhe! (...) Eu tô esperando a minha e quando saí eu vou morar lá [refere-se à casa no Programa Minha Casa, Minha Vida na zona de expansão]. Sem dúvida! Agora que eu vou dizer a você, que eu vou e tô gostando de ir, eu tô mentindo. Porque eu já tô acostumada aqui, que eu sempre morei aqui! Desde os 18 anos que eu moro aqui na parte baixa. Aí então você sabe que é difícil, é difícil porque aqui você tem um padrão de vida e lá você vai ter outro. Principalmente você não ter transporte pra se locomover de lá pra cá...(...) Aí é muita diferença(...). (F, 54 anos, rua João Pessoa).

Além dos conjuntos populares, existem os loteamentos de caráter privado, atualmente em franca expansão, produzidos para o consumo da restrita classe média e média alta penedense, composta basicamente por alguns comerciantes bem- sucedidos, profissionais liberais e servidores públicos concursados. A política preservacionista é vista como um empecilho para os possíveis novos moradores. Este

último grupo ao migrar para Penedo tem procurado fixar residência fora do sítio tombado, onde pode acomodar mais adequadamente o imóvel ao gosto e expectativa das famílias, seguindo um modelo de moradia tomado como referência nas suas cidades de origem. Em conversa informal com a proprietária de uma imobiliária do município, o desinteresse pelo sítio tombado se dá em virtude da legislação específica do tombamento que limita as possibilidades de intervenção26 no

imóvel, como a abertura de garagens, a substituição do piso, alteração das fachadas, dificuldades de ventilação por serem geminadas, etc. Aliado a isso, setores do comércio como supermercado, farmácias, lojas, sorveterias; e de serviços como clínicas de saúde e de estética, academias de ginástica, bares e restaurantes, hotelaria, templos religiosos, estão se expandindo e/ou migrando para atender a demanda da parte alta do município, conduzindo a uma polarização inexorável e cada vez mais acentuada entre as partes alta e baixa.

A mesma interlocutora também afirmou que o custo para a aquisição ou aluguel de imóvel na ZPHC é inferior em comparação com a parte alta da cidade considerando padrões semelhantes em tamanho do imóvel e quantidade de cômodos. Mesmo sendo relativamente mais barato, o núcleo primitivo do sítio tombado continua pouco atrativo. Trazemos o relato de um morador deste perímetro que endossou as afirmações da dona da imobiliária e apontou uma consequência que testemunhamos algumas vezes:

Você tem vários imóveis aqui fechados, o proprietário quer vender, alguém quer comprar, tem medo de comprar porque diz ‘eu não posso mudar’. A gente também não vai exigir que a pessoa fique morando numa casa com as características de uma construção de 100 anos atrás. Aí a gente também há de buscar um consenso de dizer: ‘peraí, vamos buscar um meio termo quanto a isso’. Mas o que tá acontecendo? Essas casas do centro histórico tão desvalorizadas e não encontra quem compre. Enquanto isso vão desabando. (M, 56 anos, rua Fernandes de Barros).

Ainda assim, devemos enfatizar que ao responderem porque as pessoas de fora do sítio tombado continuam a frequentá-lo, os moradores observam que o seu

26 As intervenções caracterizam-se, conforme prevê o Código de Postura da PMP (2007) em seu art.

94, “pela execução de obras e instalação de aparelhos e equipamentos nas fachadas e quaisquer elementos externos das edificações situadas na área histórica, quando esta intervenção, a critério de órgão competente, vier comprometer-lhe ou desfigurar-lhe o estilo arquitetônico”.

bairro não perdeu nem a centralidade nem a funcionalidade, embora reconheçam que o crescimento da parte alta tem dividido a população.

Porque aqui na verdade é onde que tá as agências bancárias, n/é? Eu acho que a feira também, a maioria das lojas, apesar de que lá em cima também tem. Tá caindo muito o movimento aqui porque lá em cima agora tem mercados, tem feira, açougue, posto de arrecadação, posto de gasolina, não é? Mas aqui é o forte ainda (M, 55 anos, Pça Marechal Deodoro).

O pessoal já tá acostumado, quando vem aqui já resolve várias coisas em um lugar só. Não precisa ir a outro lugar. Aqui já tem tudo. É melhor você resolver aqui, que é no centro (M, 18 anos, Rua Dâmaso do Monte).

Empresários e autônomos também compartilharam de opinião semelhante:

Porque é onde tem tudo, os bancos estão aqui. A parte do INSS é aqui, as lojas de tecido, lojas de aviamentos, tudo é aqui embaixo, os Correios...então tem muitos serviços que são do dia a dia, que estão aqui em baixo. Não tem como. Eu nunca fui na loteria lá em cima. Quando eu penso em loteria, eu já associo aqui em baixo, por mais que [lá em cima] seja perto da minha casa. A gente tem muitos serviços que são aqui em baixo e que são fundamentais. (F, 62 anos, cooperativa de artesanato). É muita gente pro comércio, n/é? Outros vem resolver problemas bancários e outros vem só a passeio mesmo. (M, 52 anos, pescador).

Um depoimento nos chamou a atenção porque, ao mesmo tempo em que reconhece que as instituições financeiras são um dos serviços que garantem ainda a centralidade do sítio tombado, o empresário se diz uma vítima do processo de reabilitação urbana, ao invés de ser um dos seus principais beneficiários por ser um empresário do setor turístico. Ele critica as obras que, no seu entendimento, ao contrário do esperado aumento do fluxo turístico, contribui para o comprometimento do acesso à parte baixa do sítio tombado. O IPHAN e a PMP são apontados, contraditoriamente, como agentes desencadeadores da fragilização do turismo no território patrimonializado, sugerindo que, ou os órgãos desconhecem, ou então subestimam, ou não demonstram interesse pelas dinâmicas de uso e ocupação do espaço na av. Floriano Peixoto.

[Procuram]bancos, mas tem caído muito, principalmente porque não tem aonde estacionar. Aqui mesmo [no piso térreo] a gente tinha 3 pontos

alugados, aqui no hotel. Agora mesmo, não temos. Porque? Porque não tem onde estacionar com a obra aqui. À noite é esquisito. E vão fazer um calçadão em detrimento do automóvel. Tudo o que é cidade que tem rio, a atração se puxa pro lado do rio. Mas com o IPHAN e com a prefeitura fazendo ‘essas coisas boas’ pela gente, todo mundo só bota os restaurantes lá em cima, todo mundo bota os hotéis lá em cima, qualquer coisa turística, lá em cima, longe dos atormentos do IPHAN. (M, 49 anos, dono de hotel).

Penedo ainda não experimenta o esvaziamento massivo do seu sítio tombado nos moldes do Pelourinho, em Salvador, ou do Bairro do Recife, na capital pernambucana, mas estagnou na renovação e no estímulo à moradia nesta área. Entretanto, embora ainda pontual, a patrimonialização em Penedo mostra sinais da adoção de estratégias semelhantes no processo de requalificação urbana da área comercial e do Largo de São Gonçalo, uma obra do PAC2 que analisaremos mais adiante.

Pontuamos algumas questões introdutórias para que pudéssemos começar a dimensionar o tamanho do desafio que as intervenções urbanas estão introduzindo no sítio histórico tombado. Embora os estudos sobre a patrimonialização tendam a justificar o processo de enobrecimento urbano, como oriundo da perda de funcionalidade do centro, há nuances que apontam para outras possíveis interpretações. Tal como expresso por Leite (2016)27 o centro de qualquer cidade

“passa a ser patrimônio porque perdeu a sua característica de centro”, ou seja, porque perdeu a sua funcionalidade operacional em qualquer cidade ou município, seja no comércio ou no setor de serviços.

Observamos que Penedo, embora fragmentada ainda mantém instituições político-administrativas, financeiras, acadêmicas bem como templos católicos que conservam e reafirmam os vínculos da população penedense com o sítio tombado, e cuja funcionalidade assegura ainda um papel de centralidade deste território patrimonializado. A reunião destas instituições ainda garante a esta área uma função simultaneamente residencial, comercial e de serviços. Desta forma, as intervenções urbanísticas das quais é objeto, sugerem no momento uma proposta de

27 Em palestra proferida no mês de abril/2016 no I Congresso Brasileiro de Sociologia durante o

complementariedade com possível substituição da funcionalidade no futuro do sítio tombado, como consequência dos projetos controversos no âmbito da patrimonialização. A centralidade de que ainda goza esta área, estaria então apoiada segundo Serpa (2011, p. 100), no “movimento dialético que a constitui e a destrói, e que, ao mesmo tempo, a cria e a extingue [...] a cidade não cria nada, mas centraliza as criações. E, contraditoriamente, cria tudo! Nada pode existir sem intercâmbio, sem aproximação, sem proximidade, sem relações”.

Algumas informações adicionais sobre a realidade socioeconômica atual de Penedo devem ser mencionadas. Chama-nos a atenção alguns dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde, pois dizem respeito ao quantitativo aproximado da população residente no sítio tombado, algo em torno de apenas 4.000 pessoas. A faixa etária não foi informada, mas as nossas pesquisas e o tempo de moradia neste sítio apontam para uma população composta majoritariamente por adultos e pessoas idosas. Neste caso, dos quase 50 mil habitantes da zona urbana, considerando a projeção de aumento da população em 2015, apenas cerca de 8% da população reside nesta área central, demonstrando o “pouco interesse” pelo sítio histórico.

De acordo com Ramos (2014), 26,9% da população do município vive entre a linha da indigência e da pobreza e 33,7% abaixo da linha da indigência, sendo o índice de analfabetismo de 29,3% entre os que têm 15 anos ou mais de idade. Apenas 26,7% dos domicílios em Penedo possuíam acesso à rede geral de esgotamento sanitário sendo coletado e lançado direto no rio São Francisco sem qualquer tratamento.

Informações contidas no site do Ministério do Desenvolvimento Social revelam que o total de famílias cadastradas no Programa Bolsa Família do Governo Federal em Penedo, até dezembro de 2015, era de 16.451 e, deste total, 10.161 famílias são caracterizadas como extremamente pobres, o que significa que apresentam renda per capita familiar de até R$ 77,00 por mês (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2015).

Em relação ao emprego, boa parte da população penedense depende das políticas de transferência de renda oriundas do Governo Federal. Muitos trabalham de forma sazonal nas usinas de cana de açúcar existentes no entorno; outros são absorvidos pelo comércio do município, sendo que nem sempre têm a carteira assinada. Em 2013, Penedo computou a existência de 845 empresas, ocupando 5.744

pessoas com renda média mensal equivalente a dois salários mínimos, considerado baixo. Outras 510 pessoas assalariadas estão vinculadas a 73 entidades sem fins lucrativos (IBGE, 2014). Devemos destacar que aproximadamente 90% deste total de pessoas estão vinculadas a duas categorias: saúde (229) e educação e pesquisa (217), o que nos sugere que as associações beneficentes de outrora, com forte atuação na assistência social estão provavelmente sendo substituídas pelas políticas públicas de combate à pobreza.

Embora tenha apresentado evolução no seu IDHM - Índice de Desenvolvimento Humano Municipal desde 1991 (0,411), 2000 (0,495) e 2010 (0,630), ficando em sétimo lugar no Estado de Alagoas, ainda assim é um dado alarmante considerando que em 2010, segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, este estado ocupava a última colocação (0,631) no ranking das demais unidades federativas (PNUD, 2010).

Desde a década de 1950, Penedo vivencia momentos difíceis do ponto de vista econômico e social como descrevemos no capítulo dois. A necessidade de buscar alternativas econômicas, a existência em seu território de um patrimônio cultural28 e

a mobilização internacional e nacional em favor da valorização econômica dos monumentos, fez com que Penedo voltasse as suas atenções para o turismo.

O incentivo ao uso dos monumentos como recurso econômico foi destaque em reunião da Organização dos Estados Americanos (O.E.A.) de onde saíram as Normas de Quito (1967, p.01), no tocante à valorização dos monumentos,

[...] o acelerado processo de empobrecimento da maioria dos países americanos como consequência do estado de abandono e da falta de defesa em que se encontra sua riqueza monumental e artística demanda a adoção de medidas de emergência tanto em nível nacional quanto internacional, mas sua eficácia prática dependerá, em último caso, de sua adequada formulação dentro de um plano sistemático de revalorização dos bens patrimoniais em função do desenvolvimento econômico-social.

28 Patrimônio Cultural é aqui entendido com base no previsto na Constituição de 1988 no seu Artigo

216: “ Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico”.

Por esta razão, alguns termos como “melhor aproveitamento” e “utilização adequada” passaram a integrar o texto das recomendações feitas nesta publicação que, por sua vez, fazem parte do acervo das Cartas Patrimoniais disponibilizadas pelo IPHAN em seu site. Tais Cartas recomendam que as medidas preservacionistas estejam também previstas nos planos de desenvolvimento. Pelas Normas de Quito (1967), o turismo deve ser encorajado como uma das formas de uso do patrimônio cultural, pois ainda neste documento:

[...]os valores propriamente culturais não se desnaturalizam nem se comprometem ao vincular-se com os interesses turísticos e, longe disso, a maior atração exercida pelos monumentos e a fluência crescente de visitantes contribuem para afirmar a consciência de sua importância e significação nacionais (1967, p. 06).

De acordo com estas normas, o turismo é visto de maneira otimista, como setor a ser encorajado pois desempenha uma função alavancadora da economia,