• Nenhum resultado encontrado

A NATUREZA DO CERTO

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 58-88)

A taverna Rosa e Espinho estava praticamente vazia. Muitos clientes haviam saído de Medford, com receio da invasão iminente. Apenas os servos por contrato e os que eram tão pobres, fracos ou teimosos que não podiam ir embora tinham ficado. Royce encontrou Hadrian sentado sozinho na Sala do Losango, os pés apoiados numa cadeira vazia e um caneco de cerveja na mão. Sobre a mesa havia dois canecos vazios, um caído de lado, enquanto Hadrian o fitava com uma expressão melancólica.

— Por que você não foi ao castelo? — perguntou Royce.

— Eu sabia que você podia lidar sozinho com a situação — respondeu Hadrian, continuando a fitar o caneco e inclinando ligeiramente a cabeça.

— Parece que as nossas férias vão ter de ser adiadas — contou Royce, puxando uma cadeira e sentando-se. — Alric tem mais um serviço para nós. Ele quer que a gente contate Gaunt e os nacionalistas. Os detalhes ainda estão sendo definidos. A princesa vai enviar um emissário até aqui.

— Sua Alteza está de volta?

— Chegou hoje pela manhã.

Royce enfiou a mão no colete, retirou um saquinho e o depositou diante de Hadrian.

— Eis a sua metade. Você já pediu o jantar?

— Eu não vou — anunciou Hadrian, balançando com o polegar o caneco tombado.

— Não vai?

— Não consigo mais fazer essas coisas.

Royce arregalou os olhos.

— Por favor, não comece tudo de novo. Se você ainda não notou, tem uma guerra acontecendo. É o melhor momento para trabalharmos. Todo mundo precisa de informação. Você sabe quanto dinheiro...

— Essa é exatamente a questão, Royce. Estamos no meio de uma guerra e o que eu estou fazendo? Estou lucrando com ela, em vez de lutar. — Hadrian deu mais um gole na cerveja e devolveu o caneco à mesa, com um gesto um tanto pesado, que fez os demais canecos chacoalharem. — Estou farto de ganhar dinheiro sendo desonesto. Não é a minha índole.

Royce olhou em redor. Três homens que faziam uma refeição olharam para eles, brevemente, e em seguida se desinteressaram.

— Nossos trabalhos nem sempre são por dinheiro — assinalou Royce. — Veja Thrace, por exemplo.

Hadrian exibiu um sorriso amargo.

— E veja o que aconteceu. Ela nos contratou para salvar seu pai. Você o tem visto por aí?

— Fomos contratados para pegar uma espada capaz de exterminar um monstro. Ela pegou a espada. O monstro foi eliminado. Fizemos o nosso trabalho.

— O homem está morto.

— E Thrace, que não passava de uma boa camponesa, agora é uma imperatriz. Se todos os nossos serviços acabassem tão bem assim para os nossos clientes...

— Você acha, Royce? Acha mesmo que Thrace está feliz? Sabe, acredito que ela preferia o pai ao trono imperial, mas talvez esteja enganado... — Hadrian deu

mais um gole e limpou a boca com a manga da camisa.

Mantiveram-se calados por um momento. Royce observou o amigo com o olhar vazio, fixado num ponto distante.

— Então você quer lutar nessa guerra, é isso?

— Seria melhor do que ficar sentado do lado de fora, como um abutre que se alimenta dos feridos.

— Certo. Então me diga uma coisa: de que lado você quer lutar?

— Alric é um bom rei.

— Alric? Alric ainda é um menino confrontando o fantasma do pai. Depois da derrota no Galewyr, os nobres preferem o conde Pickering a ele. Pickering se mantém bastante ocupado, lidando com os erros de Alric, como as rebeliões aqui em Medford. Quanto tempo vai demorar até que o conde se canse da incompetência de Alric e resolva que Mauvin está mais preparado para ocupar o trono?

— Pickering jamais se voltaria contra Alric — disse Hadrian.

— Não? Você já viu esse tipo de coisa acontecer muitas vezes.

Hadrian se calou.

— Ora! Esqueça Pickering e Alric. Melengar já está em guerra com o Império. Você já esqueceu quem é a imperatriz? Se você lutar do lado de Alric e ele vencer, como vai se sentir no dia em que a pobre Thrace for enforcada na Praça Real de Aquesta? Será que isso satisfaria a sua necessidade de uma causa nobre?

O rosto de Hadrian se contraiu e o maxilar ficou trincado.

— Não há causas nobres. Não existe bem e mal. O mal é a palavra com a qual definimos nossos adversários.

Royce pegou o punhal e o cravou, verticalmente, no tampo da mesa.

— Veja esta lâmina. Ela é brilhante ou escura?

Hadrian semicerrou os olhos, com um ar de desconfiança. A superfície reluzente de Alverstone cintilava, refletindo a luz da vela.

— Brilhante — respondeu ele.

Royce concordou.

— Agora, veja daqui, do ângulo em que estou olhando.

Hadrian se inclinou, posicionando a cabeça do outro lado da lâmina, onde a sombra a tornava escura como fuligem de chaminé.

— É o mesmo punhal — explicou Royce —, mas, de onde você estava sentado, a lâmina reluzia, enquanto para mim ela era escura. Então, quem está certo?

— Nenhum de nós — disse Hadrian.

— Não — retrucou Royce. — Esse é o erro que as pessoas sempre cometem, e elas cometem tal erro porque são incapazes de perceber a verdade.

— E a verdade é...

— Que nós dois estamos certos. Uma verdade não anula a outra. A verdade não reside no objeto, mas na maneira como nós o vemos.

Hadrian olhou para o punhal e então para Royce.

— Em algumas ocasiões você é brilhante, Royce, mas em outras não faço a mínima ideia do que está falando.

A expressão de Royce traduziu frustração. Ele arrancou o punhal do tampo da mesa e voltou a sentar-se.

— Nos 12 anos em que a gente está junto, nunca pedi a você para fazer algo que eu não faria, ou que não faria sem você. Nunca menti para você e nunca o enganei. Eu nunca o abandonei e nunca o traí. Diga o nome de algum nobre sobre o qual você acha que poderá afirmar o mesmo daqui a 12 anos.

— Quer me trazer mais uma rodada? — gritou Hadrian.

Royce suspirou.

— Então você vai ficar aqui, sentado e bebendo? — Royce olhou para o amigo por mais um instante, então se levantou. — Vou para a casa de Gwen.

— Escute — deteve-o Hadrian. — Peço desculpas. Eu não sei explicar muito bem. Não me ocorre nenhuma metáfora com punhais que possa empregar para explicar o que estou sentindo. Só sei que não posso mais continuar fazendo o tipo de coisa que tenho feito até agora. Eu tentei encontrar um sentido nessa coisa toda. Tentei me convencer de que a gente havia realizado algum bem, mas, no fim das contas, preciso ser honesto comigo mesmo. Não sou ladrão nem espião. Ou seja: eu sei o que não sou. Eu só gostaria de saber o que sou. É provável que isso não faça muito sentido para você, não é?

— Faça-me um favor, ao menos — disse Royce, ignorando propositadamente a pergunta, vendo que a corrente de prata usada por Hadrian estava aparecendo embaixo do colarinho. — Como você vai ficar aqui, fique de olho na chegada do emissário do castelo enquanto eu estiver na casa de Gwen. Volto daqui a uma hora, mais ou menos.

Hadrian fez que sim.

— Diga a Gwen que mandei um beijo, certo?

— Claro — falou Royce, dirigindo-se à porta e experimentando aquela sensação horrível, aquele peso mórbido. Ele parou e olhou para trás.

De nada adianta dizer a ele. Só faria tudo piorar.

Fazia apenas um dia e meio que não se viam, mas Royce estava ansioso para rever Gwen. Embora a Casa de Medford estivesse sempre aberta, o movimento só era maior à noite. Durante o dia, Gwen incentivava as meninas a aprender a costurar ou fiar, ofícios dos quais pudessem se valer para ganhar a vida na velhice.

Todas as jovens do bordel, mais conhecido como A Casa, conheciam e gostavam de Royce. Quando ele entrava, elas sorriam ou acenavam, mas não se dirigiam a ele. Sabiam que ele gostava de fazer surpresas a Gwen. Naquela noite, apontaram para a sala de visitas, onde Gwen, de pena em punho e diante do livro-caixa, concentrava-se numa pilha de pergaminhos. Imediatamente ela deixou tudo de lado assim que Royce cruzou a porta. Pulando da cadeira, ela correu em sua direção, com um sorriso tão largo que mal cabia no rosto, e deu-lhe um abraço tão apertado que ele mal pôde respirar.

— O que houve? — sussurrou ela, afastando-se e olhando nos olhos dele.

Royce admirava a facilidade com que Gwen conseguia ler seus pensamentos.

Mas se recusou a responder, preferindo apenas olhar para ela, deliciando-se com o que via. Gwen tinha um belo rosto, de tez morena e olhos verde-esmeralda, ao mesmo tempo tão acessíveis e misteriosos. Em toda a sua vida e em todas as suas viagens Royce jamais conhecera alguém como ela.

Gwen havia disponibilizado uma saleta na taverna Rosa e Espinho, onde Hadrian e Royce faziam seus contatos profissionais, e nunca se preocupava com os riscos que corria. No entanto, eles não a utilizavam mais. Royce receava que a sentinela Luis Guy os localizasse no estabelecimento. Contudo, Gwen continuava a guardar o dinheiro deles e a zelar por eles, tarefas das quais se desincumbia desde que os conhecera.

Eles se conheceram 12 anos antes, numa noite em que soldados se apinhavam nas ruas e dois forasteiros surgiram no Distrito Baixo, trôpegos e cobertos de sangue. Royce ainda se recordava da figura turva de Gwen surgindo diante de seus olhos embaçados.

— Deixe comigo. Eu cuido de você — disse ela antes que ele perdesse os sentidos.

Royce jamais compreendera por que Gwen tinha decidido acolhê-los, pois o restante da população havia demonstrado o bom senso de fechar-lhes as portas.

Quando recobrou os sentidos, encontrou-a dando ordens às meninas, como se fosse um general comandando a tropa. Gwen acolheu Royce e Hadrian, escondendo-os e confundindo as autoridades, e cuidou deles até que recuperassem a saúde. Nesse período, tomou providências e firmou pactos, a fim de garantir o sigilo da presença dos dois na Casa. Assim que se restabeleceram, eles partiram, mas Royce sempre voltava.

Um dia ela se recusou a recebê-lo e Royce ficou arrasado. Não demorou muito até que descobrisse o motivo. Com frequência, os clientes maltratavam as prostitutas, e as mulheres da Casa de Medford não eram exceção. No caso de Gwen, o agressor foi um nobre poderoso. Ele a espancara com tamanha violência que ela não queria ser vista. Não importava se o cliente era um cavalheiro ou um meliante, a autoridade policial jamais perdia tempo com queixas apresentadas por meretrizes.

Dois dias depois, o nobre foi encontrado morto. Seu corpo apareceu no centro da Praça da Nobreza, enforcado. As autoridades municipais fecharam a Casa de Medford e prenderam as prostitutas, que receberam um ultimato: se não identificassem o assassino, seriam executadas. Para surpresa geral, as mulheres passaram apenas uma noite na cadeia. No dia seguinte, o local foi reaberto e o delegado de Medford apresentou publicamente um pedido de desculpas pela

detenção, acrescentando que doravante qualquer agressão às mulheres seria punida severamente, a despeito da posição social do agressor. A partir de então, a Casa de Medford prosperou, contando com uma proteção sem precedentes.

Royce nunca tocou no assunto do incidente e Gwen nunca perguntou, mas ele tinha certeza de que ela sabia, assim como sabia da ascendência dele, antes mesmo que a revelasse.

No último verão, ao regressar de Avempartha, Royce decidira revelar a Gwen o seu segredo, pois queria ser totalmente franco e honesto. Jamais havia revelado o fato de que tinha sangue élfico a alguém, nem mesmo a Hadrian. A expectativa dele era que ela o odiasse, fosse por ele ser um desprezível mir, fosse por tê-la enganado. Na ocasião, ele convidara Gwen para fazer uma caminhada pela beira do Galewyr, longe de qualquer pessoa, a fim de minimizar o vexame de uma reação irascível. Royce se preparou para o pior, revelou a verdade e esperou pela bofetada. Previamente, tinha decidido que não reagiria. Ela poderia até arrancar os olhos dele, se quisesse. Ele lhe devia algo assim.

— É claro que você tem sangue élfico — comentou ela, tocando a mão dele, delicadamente. — Isso era segredo?

Ela nunca explicou como obteve conhecimento do fato. Royce ficou tão exultante que não se deu ao trabalho de perguntar. Gwen sempre sabia o que se passava no coração dele.

— O que houve? — perguntou ela, novamente.

— Por que você não se preparou para partir?

Gwen parou e sorriu. Era assim que ela lhe dizia que Royce não levaria a melhor na conversa.

— Porque não é necessário. O exército imperial não vai nos atacar.

Royce ergueu uma das sobrancelhas.

— O próprio rei já fez as malas e seu cavalo está selado para deixar a cidade a qualquer momento, mas, ainda assim, você acha que sabe mais do que todos?

Ela confirmou.

— E como é que você sabe?

— Se houvesse a mínima chance de Medford ser invadida, você não estaria aqui, me perguntando por que não fiz as minhas malas. Eu estaria na garupa da

Rata, agarrando-me com todas as forças, enquanto você a conduzia a pleno galope.

— Ainda assim — continuou ele —, eu me sentiria melhor se você fosse para o mosteiro.

— Não posso abandonar as minhas meninas.

— Leve as meninas com você. Myron tem bastante espaço.

— Você quer que eu leve prostitutas para se hospedar num monastério cheio de monges?

— Eu quero que você esteja segura. Além disso, Magnus e Albert estão lá, e posso garantir que eles não são monges.

— Vou pensar no assunto — respondeu ela, sorrindo. — Mas, como você vai partir em uma nova missão, posso esperar até que volte.

— Como você sabe essas coisas? — indagou ele, perplexo. — Alric deveria contratar você no nosso lugar.

— Eu sou de Cális. Isso está no meu sangue — declarou ela, piscando o olho.

— Quando você vai?

— Em breve... Hoje à noite, talvez. Deixei Hadrian na Rosa e Espinho, esperando um emissário.

— Você já decidiu se vai contar a Hadrian?

Royce desviou o olhar.

— Ah, então é isso. Você não acha que deveria contar?

— Não. Só porque um mago enlouquecido... — Ele se deteve. — Escute, se eu disser o que vi, ele vai perder a razão. Se fosse uma mariposa, Hadrian voaria diretamente para a primeira chama que encontrasse. Ele é capaz de se sacrificar, se necessário, e para quê? Mesmo que seja verdade, toda essa história do Herdeiro aconteceu há séculos e nada tem a ver com Hadrian. É perfeitamente plausível que Esrahaddon estivesse apenas... Os magos brincam com as pessoas, sabia? É o que eles fazem. Ele me diz para manter sigilo e faz um estardalhaço, dizendo que devo levar o segredo para o túmulo. Mas você sabe muito bem que a expectativa dele é que eu conte a Hadrian. Não gosto de ser usado, e não vou deixar Hadrian se matar pelos caprichos de um mago.

Gwen se manteve calada, apenas olhando para ele com um sorriso sagaz.

— O que foi?

— Parece que está tentando se convencer das próprias palavras, mas não está sendo fácil. Acho que convém considerar que você é um tipo de pessoa e Hadrian é outro. Você está tentando zelar por ele, mas está usando olhos de gato.

— Estou usando o quê?

Momentaneamente desconcertada, Gwen olhou para Royce, então deu uma risadinha.

— Ah, pelo jeito a expressão é típica de Cális. Certo. Digamos que você seja um gato e Hadrian, um cão, e que você queira agradá-lo. Você oferece a ele um rato morto e fica surpreso quando ele não demonstra entusiasmo. O problema é que você precisa ver o mundo pelos olhos de um cão, para entender o que é melhor para ele. Se fizesse isso, constataria que um osso bem suculento seria uma opção melhor, ainda que para um gato tal opção não seja muito atraente.

— Então, você acha que devo permitir que Hadrian se exaspere e se sacrifique?

— Estou dizendo é que talvez, para Hadrian, lutar, ou até morrer, por alguma coisa ou por alguém seja o mesmo que um osso para um cachorro. Além disso, você precisa se perguntar: o segredo é mesmo pelo bem dele ou pelo seu?

— Primeiro punhal, agora cães e gatos — murmurou Royce.

— Como?

— Nada. — Ele passou as mãos pelos cabelos dela. — Como você ficou assim tão sábia?

— Sábia? — Gwen olhou para ele e riu. — Sou uma prostituta de 34 anos, apaixonada por um criminoso profissional. Isso lá é ser sábia?

— Se não souber a resposta, talvez valha a pena tentar ver através dos meus olhos.

Ele a beijou ardentemente, abraçando-a com força. Lembrou-se do que Hadrian dissera e se perguntou se não estava sendo um tolo por não querer se apegar a Gwen. Fazia algum tempo que ele notava seu próprio sofrimento a cada despedida, e a sensação de infelicidade que o perseguia toda vez que se afastava dela. Royce não queria que aquilo acontecesse. Sempre tentava mantê-la a distância, tanto pelo bem dela quanto pelo dele. Royce levava uma vida arriscada, uma vida que só era possível porque não tinha laços, pontos fracos dos quais terceiros pudessem se valer para prejudicá-lo.

Os invernos fizeram-no se render. Nevascas e frio intenso mantinham a Riyria inativa, em Medford, durante meses. Em noites longas e escuras, diante do calor da lareira, os dois se aproximaram. Conversas informais se tornaram longas e íntimas, então evoluíram para abraços e confissões. Royce não foi capaz de resistir à bondade e à generosidade dela, tão sinceras. Gwen era absolutamente singular, um enigma que desafiava tudo o que esperava do mundo. Ela não fazia exigências, e queria tão somente a felicidade dele.

Seus sentimentos por Gwen acabaram resultando no período mais longo de detenção da Riyria, seis anos antes. Royce e Hadrian tinham aceitado um trabalho na primavera, o que os levou até Alburn. A ideia de se afastar de Gwen pesava sobre Royce, sobretudo porque ela não estava bem. Gwen havia contraído uma forte gripe e estava em péssimas condições físicas. Ela afirmava que não era sério, mas estava pálida e quase não comia. Royce não queria ir, mas ela insistiu. Ele ainda se lembrava do rosto dela, com aquele sorrisinho corajoso, tremulando nos cantos dos lábios no momento em que ele partiu.

O trabalho foi malsucedido. Royce não conseguiu se concentrar, cometeu erros e a dupla ficou um bom tempo no calabouço do Castelo de Blythin, apodrecendo. Royce ficou o tempo inteiro pensando em Gwen, perguntando-se como estaria a saúde dela. À medida que os meses se passavam, começou a perceber que, se sobrevivesse, seria obrigado a pôr um fim ao relacionamento.

Decidiu nunca mais voltar a vê-la, pelo bem de ambos. Mas, quando voltou a Medford, no instante em que a viu, sentiu o toque de suas mãos e o cheiro de seus cabelos, deu-se conta de que seria impossível deixá-la. Desde aquela época, seus sentimentos apenas se intensificaram. E, agora, a ideia de ficar longe de Gwen, mesmo por uma semana, era uma verdadeira agonia.

Hadrian tinha razão. Ele deveria mudar de vida e levá-la consigo para algum lugar, talvez obter um pedaço de terra onde pudessem criar uma família. Algum lugar tranquilo, onde ninguém soubesse que Gwen havia sido uma prostituta e ele, um ladrão. Poderiam até ir para Avempartha, a velha fortaleza dos elfos. A torre estava desabitada e apenas quem conhecesse seus segredos poderia localizá-la. E, provavelmente, assim permaneceria por tempo indeterminado. A ideia era cativante, mas ele a rechaçou, dizendo para si mesmo que refletiria

sobre a questão mais tarde. Naquele momento alguém esperava por ele, e isso levou-o a pensar mais uma vez em Hadrian.

— Acho que posso conferir a história de Esrahaddon. Hadrian seria um tolo se resolvesse sacrificar a própria vida à concretização do sonho de outra pessoa, mas, ao menos, posso descobrir se a história é autêntica, e não um simples truque de mágico.

— Como você vai saber?

— Hadrian cresceu em Hintindar. Se o pai dele foi um cavaleiro teshlor, é possível que tenha deixado alguma indicação. Ao menos, eu teria a palavra de outra pessoa, além de Esrahaddon. O nosso próximo serviço vai nos levar para o sul. Eu poderia fazer uma parada em Hintindar e ver se consigo descobrir alguma coisa. A propósito — disse ele com ternura —, desta vez vou ficar longe mais tempo do que o normal. Quero que você saiba disso para não se preocupar à toa.

— Eu nunca me preocupo com você — declarou ela.

A fisionomia de Royce expressou a sua mágoa.

Gwen sorriu.

— Eu sei que você vai voltar são e salvo.

— E como você sabe disso?

— Já vi suas mãos.

Royce olhou para ela, confuso.

— Já li suas mãos, Royce — explicou ela sem o menor toque de humor. —

— Já li suas mãos, Royce — explicou ela sem o menor toque de humor. —

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 58-88)

Documentos relacionados