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Procure a reposta e descubra a contento A vida do homem, a face do lamento

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 190-200)

— Você sabe que o montante é uma arma utilizada por um cavaleiro? — perguntou Royce.

Hadrian confirmou.

— E o seu montante é bem antigo, não é?

Novamente Hadrian confirmou.

— Eu diria que tem, mais ou menos, 100 anos. Acho que você é descendente de Jerish, o guardião do Herdeiro — declarou Royce. — Ainda que não seja um descendente direto. Pelo que ouvi falar, a descendência do Herdeiro é direta e sanguínea, mas ao Guardião bastava transferir suas habilidades a outro indivíduo. O sucessor não precisava ser seu filho, embora eu suponha que isso fosse possível.

Hadrian encarou Royce. Não sabia como reagir. Até certo ponto, sentia-se entusiasmado, empolgado, vingado, mas também suspeitava que Royce estivesse delirando.

— E você escondeu isso de mim? — indagou Hadrian, perplexo.

— Eu só queria contar a você depois que tivesse certeza. Desconfiei que Esrahaddon estivesse nos manipulando.

— E você não acha que eu também desconfiaria? Pelo que está me tomando?

Você trabalha comigo há 12 anos e acha que sou idiota? Como pode ser tão convencido? Você não me acha capaz de tomar as minhas próprias decisões, então resolve tomá-las em meu lugar?

— Estou contando tudo agora, não estou?

— Mas você demorou um ano inteiro para me contar, Royce! — exclamou Hadrian. — Você não acha que isso era importante para mim? Quando falei a você que me sentia infeliz porque a minha vida carecia de propósito, que eu buscava uma causa pela qual lutar, não achou que a proteção do Herdeiro fosse algo que valesse a pena? — perguntou Hadrian, balançado a cabeça em sinal de descrença. — Você é um arrogante, um manipulador, um mentiroso...

— Eu nunca menti para você!

— Não, você apenas ocultou a verdade, o que, para mim, é o mesmo que mentir; porém, para a sua mentalidade torpe, é uma virtude!

— Eu sabia que você reagiria desse jeito — disse Royce com ar de superioridade.

— Como você queria que eu reagisse? Ei, amigão! Obrigado por me subestimar tanto a ponto de não poder me contar a verdade a respeito da minha própria vida.

— Não foi por isso que não contei — retrucou Royce.

— Você acabou de dizer o contrário!

— Eu sei!

— Então você está mentindo para mim novamente?

— Se você me chamar de mentiroso mais uma vez...

— O quê? O que foi? Você vai querer brigar comigo?

— Aqui dentro está escuro.

— Mas não tem espaço para se esconder. Só representa um perigo até o momento em que eu pegar você. É só eu agarrar o seu pescocinho. Você pode ser ágil, mas, depois que eu o pegar, ponto final.

Sem qualquer advertência, caiu sobre eles um balde de água gelada. Olhando para cima, Hadrian avistou silhuetas.

— Ei, vocês! Calem a boca aí embaixo! — gritou uma voz. — Sua Excelência quer falar com vocês!

Uma cabeça desapareceu do campo de visão e outra surgiu à beira do poço.

— Aqui fala Luret, emissário imperial de Sua Eminência, a imperatriz Modina Novronian. Em virtude de seu envolvimento na condução de um membro da família real de Melengar à presença dos inimigos de Sua Eminência, os nacionalistas, vocês foram considerados culpados de espionagem e serão levados à forca dentro de três dias. Contudo, se quiserem transformar a sentença de morte em prisão perpétua, estou disposto a concordar, desde que me revelem o paradeiro da princesa Arista Essendon, de Melengar.

Nenhum dos dois pronunciou uma palavra sequer.

— Digam-me onde ela está ou serão enforcados assim que o carpinteiro da aldeia acabar de preparar o patíbulo.

Novamente silêncio.

— Muito bem, talvez um ou dois dias apodrecendo aí dentro farão vocês mudarem de ideia. — Em seguida ele se dirigiu ao carcereiro: — Nada de comida nem bebida. Vai ajudá-los a soltar a língua. Além do mais, não há por que desperdiçar água e comida.

Os dois aguardaram em silêncio enquanto as silhuetas se afastavam.

— Como ele sabe? — sussurrou Hadrian.

Royce reagiu com uma expressão medonha.

— O que foi?

— Etcher. Ele é o delator que está traindo o Diamante — disse Royce, desferindo um pontapé na parede e chapinhando a água. — Como pude ser tão cego? Foi ele quem acendeu a lanterna lá no rio, sinalizando a nossa localização para o barco que vinha atrás de nós. Ele não verificou as pás do moinho porque, para ele, isso não fazia a menor diferença. Aposto que sequer informou a Price onde estávamos, para que o Diamante jamais pudesse nos encontrar. Deve haver uma emboscada em Amberton Lee ou em algum lugar no caminho.

— Mas por que ele a levaria até lá? Por que simplesmente não entregou Arista a Luret?

— Aposto que isso faz parte do jogo de Merrick. Ele não quer que um palhaço imperialista como Luret conquiste o prêmio. Ela é uma mercadoria, que pode ser vendida para o Império ou devolvida a Melengar, com lucro. Se Luret pegar Arista, Merrick não terá benefício algum.

— Então por que ele nos entregaria a Luret?

— Por precaução. Com os oficiais do solar em nosso encalço, precisaríamos agir com pressa e não teríamos tempo para questionar a história de Etcher. Tenho certeza de que o objetivo era apressar a nossa partida e nos surpreender despreparados, mas o resultado foi ainda melhor, porque você foi capturado e resolvi ficar para ajudá-lo.

— E você despachou Arista sozinha, aos cuidados de Etcher.

— Ela está indo ao encontro de Merrick, de Guy, ou de ambos. Talvez eles a detenham e, em troca, exijam que Alric entregue Medford. É claro que ele não vai fazer isso. Pickering não vai deixar.

— Para início de conversa, mal posso crer que Alric tenha enviado Arista.

Que idiota! Por que não designou um representante que não pertencesse à família real? Por que teve de enviar logo ela?

— Ele não a enviou — disse Royce. — Duvido que alguém em Medford desconfie de onde ela esteja. Arista agiu por conta própria.

— Como?

— Ela chegou à Rosa e Espinho sem escolta. Você já viu a princesa ir a qualquer lugar sem um guarda-costas?

— Então por que você...

— Porque precisava de uma desculpa para trazer você até aqui, a fim de descobrir se o que Esrahaddon me mostrou naquele dia era verdade.

— Quer dizer que a culpa desta situação é minha? — perguntou Hadrian.

— Não, a culpa é de todos nós: sua por insistir nessa aposentadoria, minha por não dizer a verdade, de Arista por ser tão impulsiva, e até do seu pai por nunca ter lhe dito quem você é.

Mantiveram-se calados durante alguns instantes.

— Então o que vamos fazer agora? — perguntou Hadrian finalmente. — O seu plano inicial já não vai funcionar tão bem.

— Por que sou eu quem sempre tem de pensar num plano?

— Porque, quando o assunto é decidir como devo conduzir a minha vida, a escolha deve caber a mim... Mas, quando o assunto é escapar de uma prisão, por mais patético que pareça, você é o especialista.

Royce suspirou e começou a examinar a parede do poço.

— A propósito — continuou Hadrian —, qual foi o verdadeiro motivo que impediu você de me contar essa história?

— Hein?

— Agora há pouco você disse que...

— Ah, sim — disse Royce, e continuou a examinar a parede. Parecia um tanto preocupado. Quando Hadrian se convenceu de que ele não responderia, Royce falou: — Eu não queria que você fosse embora.

Hadrian quase riu do comentário, pensando que fosse uma piada, mas se conteve. Era difícil imaginar que Royce pudesse ser um sujeito sensível. Mas se lembrou de que ele não tinha família e que contava com poucos amigos leais.

Crescera na condição de órfão, correndo pelas ruas de Ratibor, roubando comida e roupas, e provavelmente sendo espancado em consequência dos furtos. Com certeza havia ingressado no Diamante tanto pelo desejo de inclusão quanto para juntar alguma fortuna. Ao cabo de poucos anos, foi traído pela guilda. Naquele momento, Hadrian percebeu que Royce não o via apenas como parceiro, mas como família. Além de Gwen e talvez Arcadius, Hadrian era o único amigo que ele tinha.

— Você está pronto? — perguntou Royce.

— Para o quê?

— Vire-se de costas. Vamos ficar de costas um para o outro e dar os braços.

— Você está brincando. A gente não vai fazer aquilo de novo, vai? — quis saber Hadrian, em desespero. — Faz horas que estou sentado na água gelada.

Vou ter cãibras.

— Você sabe outro jeito para chegar lá em cima? — indagou Royce, e Hadrian balançou a cabeça. Royce ergueu os olhos. — Não é tão alto quanto aquele poço da outra vez, e é ainda mais estreito; portanto, vai ser mais fácil.

Levante-se e se alongue um pouco. Você não vai ter cãibras.

— E se o guarda estiver lá em cima, com uma vara para nos cutucar?

— Você quer sair daqui ou não?

Hadrian respirou fundo.

— Ainda estou zangado com você — avisou ele, virando-se de costas e dando os braços a Royce.

— Pois é, nesse momento também estou meio zangado comigo.

Apoiando-se um nas costas do outro, começaram a subir pelas paredes do poço. Imediatamente as pernas de Hadrian deram sinais de fadiga, mas, em certa medida, a pressão nelas era aliviada pelo vigor dos braços entrelaçados e pela alavancagem que a postura ensejava.

— Pressione as minhas costas com força — mandou Royce.

— Eu não quero esmagar você.

— Não se preocupe. Incline-se um pouco mais para trás.

No início os movimentos eram desajeitados e o esforço foi imenso; no entanto, logo a subida passou a obedecer a um determinado ritmo.

— Agora... — sussurrou Royce.

A pressão exercida pelas costas de um sobre as do outro bastava para mantê-los grudados.

— Agora... — E eles davam mais um passo, subindo pelas paredes pedregosas.

A água que escorria pelas paredes produzia um lodo escorregadio; Hadrian tomava cuidado para posicionar os pés sobre as pedras mais secas e se valia das junções, a fim de ganhar tração. Royce era infinitamente mais hábil naquele tipo de ação e se mostrava um tanto impaciente com o avanço lento da dupla.

Hadrian sentia dificuldade e às vezes exagerava na pressão. Suas pernas eram

mais longas e mais fortes, e ele precisava se lembrar de que era preciso relaxar um pouco.

Finalmente transpuseram o nível onde havia lodo, alcançando o ponto onde as pedras estavam secas, então prosseguiram com mais confiança. Se caíssem da altura em que estavam, sofreriam fraturas. Hadrian começou a transpirar em consequência do esforço, com suor escorrendo por sua pele. Uma gota desceu pelo rosto dele e ficou pendurada na ponta do nariz. Acima, via a grade de proteção cada vez maior, mas ainda estava desesperadamente distante.

E se não conseguirmos? Como vamos descer sem despencar?

Hadrian foi obrigado e expulsar da mente o pensamento e se concentrar. De nada adiantaria pensar no fracasso. Em vez disso, pensou em Arista a caminho da morte ou da captura. Precisavam chegar lá em cima, e logo, antes que suas pernas perdessem a força. Já estavam trêmulas, quase falhando, tamanho era o esforço.

Ao se aproximarem do topo, Royce parou de orquestrar os passos. Hadrian manteve os olhos fixos na parede, nos pontos onde fixava os pés, e sentia que Royce inclinava a cabeça para cima.

— Pare — sussurrou Royce.

Ofegantes, os dois se aprumaram, soltaram os braços e se agarraram à grade.

Descansando as pernas torturadas, ficaram pendurados por um instante. O relaxamento da pressão foi reconfortante, então Hadrian fechou os olhos, sentindo grande alívio e balançando-se levemente.

— Notícia boa e notícia má — declarou Royce. — Não tem guarda, mas a grade está trancada.

— Você pode cuidar disso, certo?

— Só preciso de um segundo.

Hadrian podia sentir Royce se mexendo atrás dele.

— Consegui.

Seguiu-se mais uma breve pausa e os dedos de Hadrian já começavam a doer.

— Certo. Vamos empurrar a grade para a sua esquerda. Pronto? Pés nas paredes!

A grade era mais leve do que Hadrian esperava e cedeu facilmente. Saíram do interior do poço, rolaram pela relva úmida do gramado do solar e ficaram

deitados por algum tempo, recuperando o fôlego. Estavam sozinhos num canto escuro do pátio.

— Armas? — perguntou Hadrian.

— Vou dar uma olhada dentro da casa. Tente conseguir cavalos.

— Não mate ninguém — mencionou Hadrian.

— Vou tentar, mas, se eu vir Luret...

— Ah, sim. Acabe com ele.

Hadrian prosseguiu, com toda cautela, até o estábulo. Assustados com a aproximação dele, os cavalos bufaram e deram coices nas divisórias das baias.

Hadrian pegou a primeira sela e os primeiros arreios que encontrou, e os reconheceu prontamente. A égua baia que Arista montara, o cavalo dele e Rata estavam naquele estábulo.

— Calma, menina — murmurou Hadrian gentilmente enquanto encilhava dois dos animais. No momento em que ele ajustava o arreio em Rata, Royce entrou no estábulo, carregando uma pilha de espadas.

— As suas espadas, senhor cavaleiro.

— E Luret? — perguntou Hadrian, enquanto prendia as espadas no cinto.

Royce emitiu um leve muxoxo, exprimindo decepção.

— Não o vi. Não vi quase ninguém. Essa gente do campo vai para a cama com as galinhas.

— Somos gente simples.

— Rata? — murmurou Royce. — Eu não consigo me livrar dessa égua, não é mesmo?

Arista descobriu que viajar na garupa de um cavalo era bem menos confortável do que na sela. E Etcher contribuía para o desconforto, conduzindo o animal a trote. O impacto dos solavancos constantes no corpo de Arista lhe provocou uma dor de cabeça. Ela pediu a Etcher que diminuísse a velocidade, mas ele ignorou a solicitação. Então, espontaneamente, o animal desacelerou a corrida e prosseguiu a passo. O cavalo espumava e Arista sentia o suor dele encharcando seu vestido.

Etcher esporeou o animal, até que ele voltasse a trotar. Quando o cavalo tornou a andar a passo, Etcher usou as rédeas como chibata. Ao fazer isso, em dado momento ele errou o alvo e atingiu a perna de Arista com violência. Ela deu um grito, que também foi ignorado. Finalmente Etcher desistiu e desacelerou, deixando o cavalo descansar. Ela perguntou aonde estavam indo e por que tamanha pressa. Ele nada respondeu — sequer virando a cabeça para trás. Após dois ou três quilômetros, voltou a exigir que o animal trotasse e continuava a agir como se Arista não estivesse ali.

A cada sacolejo sofrido no dorso do cavalo, Arista tomava mais consciência de sua vulnerabilidade. Estava sozinha, escoltada por um desconhecido, nos confins de Rhenydd, onde qualquer autoridade legal optaria por prendê-la, em vez de deter seu acompanhante, a despeito do que ele fizesse. Tudo o que sabia de Etcher, ou melhor, a única certeza, era que a moral dele era duvidosa. Uma coisa era confiar em Royce e Hadrian, mas pular no lombo de um cavalo com um estranho que a conduzia pela mata era algo bem diferente. Se tivesse refletido, se houvesse tempo para ponderação, talvez tivesse se recusado a seguir com ele, mas agora era tarde demais. Ela prosseguiu, entregando-se à misericórdia de um homem perigoso numa terra hostil.

O silêncio dele em nada aliviava o medo que ela sentia. Em questão de mudez, Etcher desbancava Royce. Ele simplesmente não abria a boca. O ofício de ladrão não costumava atrair indivíduos muito sociáveis, porém Etcher parecia constituir um caso extremo. Chegava a ponto de se recusar a olhar para Arista.

Talvez fosse melhor do que certas alternativas. Provavelmente um homem como Etcher estaria habituado a conviver com mulheres de vida fácil, curtidas pelo sol e trajando vestidos sujos. Que sensação não experimentaria tendo uma jovem da nobreza sozinha, agarrada às suas costas, no meio da mata — e logo uma princesa.

Se ele me atacar, o que posso fazer?

No Castelo de Essendon, um grito estridente e sonoro atrairia uma dúzia de soldados armados, mas, desde que saíra de Hintindar, Arista não via uma casa ou uma luz sequer. Mesmo que alguém a escutasse, assim que sua identidade fosse descoberta, ela provavelmente passaria o resto da vida numa prisão imperialista.

Ele poderia fazer com ela o que bem quisesse. Poderia matá-la ou entregá-la às

autoridades imperiais, que, sem dúvida, pagariam muito bem pela entrega.

Ninguém se importaria se ela chegasse machucada ou ensanguentada.

Arrependia-se de ter saído com tanta pressa sem se permitir uma reflexão. Não tinha como se defender. Sua bolsa lateral continha apenas a escova de cabelos que seu pai lhe presenteara e algumas moedas. O punhal estava no meio da trouxa que guardava sua roupa de cama.

Quanto tempo vou levar para encontrá-lo no escuro?

Arista suspirou.

Por que sempre vejo o lado negativo? O sujeito não fez absolutamente nada.

Ele é caladão, mas e daí? Está arriscando a vida ao me levar a esse encontro.

Está nervoso, atento. Talvez também esteja amedrontado. Será realmente estranho o fato de ele não estar tentando puxar conversa comigo? Eu estou com medo, só isso. Tudo parece pior quando se está com medo. É possível que ele seja apenas tímido ao interagir com mulheres? Será que se sente inseguro diante de damas da nobreza? Estaria preocupado com a possibilidade de dizer ou fazer algo que possa ser mal-interpretado e resultar em acusações perigosas?

Obviamente ele tem bons motivos para se preocupar. Eu praticamente já o condenei por crimes que ele não cometeu! Royce e Hadrian são ladrões honrados. Por que Etcher não pode ser honrado também?

A trilha desapareceu completamente e eles agora cavalgavam por campos abertos, cobertos de relva e varridos pelo vento. Pareciam se dirigir a um morro indistinto e longínquo. Arista avistava a silhueta de algumas estruturas, tendo como pano de fundo um céu pálido. Então novamente adentraram a mata, desta vez por uma abertura estreita na densa folhagem, e Etcher permitiu que o cavalo seguisse a passo. Como não ventava ali, o ambiente era sereno. Vaga-lumes piscavam ao redor deles e Arista escutava os estalidos provocados pelos cascos da montaria.

Estamos numa trilha?

Embora estivesse escuro demais para enxergar com clareza, Arista reconheceu o ruído de cascos sobre uma via pavimentada.

Onde estamos?

Quando finalmente saíram da mata, Arista avistou a encosta de um morro árido onde havia alguns restos de edificações. Rochas gigantescas se espalhavam

pela relva, formando ruínas escuras de arcos de portas e pilares de pedra.

Parecendo lápides, as pedras se projetavam para cima em ângulos estranhos, como se fossem cadáveres e ossos descoloridos, remanescentes de memórias apagadas.

— Que lugar é este? — indagou Arista.

Ela ouviu um cavalo relinchar e avistou o brilho de uma fogueira, estrada acima. Sem dizer uma só palavra, Etcher esporeou novamente o cavalo e saiu trotando. Arista sentiu um mínimo de alento ao pensar que aquelas agruras estavam perto do fim.

Nas proximidades do topo do morro, dois homens estavam sentados em meio às ruínas. Uma fogueira queimava, protegida do vento pelo canto de uma parede de pedra, parcialmente desmoronada. Um deles usava capuz, o outro estava sem chapéu, e Arista logo pensou que fossem Royce e Hadrian.

Eles conseguiram de algum jeito chegar antes de nós?

Quando se aproximaram, Arista constatou que estava enganada. Os sujeitos eram mais jovens e tão corpulentos quanto Hadrian, se não fossem ainda mais musculosos. Vendo os cavalos se aproximarem, levantaram-se, e Arista notou que usavam camisas escuras e túnicas de couro, e que espadas de lâminas largas pendiam dos cinturões deles.

— Atrasados — anunciou o que usava capuz. — Pensamos que não viriam mais.

— Os senhores são nacionalistas? — perguntou ela.

Os homens hesitaram.

— Claro — respondeu o outro.

Aproximaram-se, e o encapuzado a ajudou a desmontar. As mãos dele eram grandes e fortes. O peso de Arista nada representou para ele. Não se barbeava havia dois dias e cheirava a leite azedo.

— Um dos senhores é Degan Gaunt?

— Não — respondeu o encapuzado. — Ele nos enviou para confirmar a identidade da senhorita. A senhorita é a princesa Arista Essendon, de Melengar?

Ela desviou o olhar de um rosto ao outro e ambos exibiam uma expressão sisuda. Agora até Etcher olhava para ela.

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 190-200)

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