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Capítulo 2. Objetos intencionais inexistentes: Twardowski e a rejeição de

3. O objeto de representação

3.2. A natureza do objeto

A estratégia de Twardowski no Capítulo 7 do ensaio para elucidar o autêntico conceito de objeto — delinear os seus contornos por apelo a outras noções às quais aquele conceito se associa e se desassocia em diferentes aspectos — é talvez o máximo que se possa oferecer a respeito de um conceito tão fundamental; com efeito, embora Twardowski não o declare, a extrema generalidade da noção de objeto parece torná-la uma noção primitiva, indefinível. Seja como for, o exercício de comparação com aquelas diferentes concepções — elas mesmas, em sua maioria, tão abstratas quanto a defendida por Twardowski — não é capaz de evitar, a nosso ver, que o conceito twardowskiano de objeto permaneça de difícil apreensão. Trata-se, em última instância, do problema de conceitualizar o que se coloca, por sua própria natureza, nos limites de qualquer conceitualização: o rechaço de categorizações ontológicas tradicionais (o existente, o real etc.), marca distintiva daquela noção de objeto, é também o motivo pelo qual esta noção resiste à absorção por nossos esquemas conceituais.

148 Ibid., p. 65-66.

O incômodo que uma tal noção provoca advém, em suma, da incerteza que resta, após toda a tentativa de elucidação do Capítulo 7, acerca de o objeto ter ou não, afinal, qualquer estatuto ontológico. É certo, por um lado, que, na medida em que Twardowski declara o objeto um sinônimo do ens medieval, tópico central de toda metafísica, a única resposta correta parece ser “sim”. Todavia, a sobrelevação deste conceito em relação às categorias próprias de uma tal ciência, e em particular sobre a categoria da existência, parece ameaçar a possibilidade de que mesmo um grau mínimo de “densidade ontológica” seja atribuído ao objeto em geral. Tudo parece depender, quanto a isso, do peso que se dê às explícitas associações entre objeto e ser presentes no texto de ZLIGV. Porta, por exemplo, interpreta a transcendentalidade do objeto em relação às categorias da existência e da realidade como, precisamente, uma declaração, por Twardowski, de que o objeto é tudo aquilo que é, independentemente de subsunção a qualquer daquelas categorias.150 Em sentido contrário, Grossmann toma o ser-representado como o único atributo legítimo do objeto twardowskiano, e afirma que a exclusão da existência dentre as determinações do objeto equivale à negação de que o ser-representado deva ser acompanhado do ser predicativo. Em verdade, acredita Grossmann, o objeto de Twardowski não tem qualquer estatuto ontológico e, em particular, qualquer ser; e a tese fundamental da teoria da intencionalidade twardowskiana seria a de que algo que é (o ato) pode se dirigir a algo que não é (seu objeto).151

Ainda que, como cremos, a interpretação de que o objeto twardowskiano é portador de ser esteja mais amparada pelo texto de ZLIGV, a leitura divergente de Grossmann reflete, a nosso ver, uma dificuldade legítima: a de conceber o sentido de um ser do objeto que seja preservado na hipótese da inexistência do objeto. Trata-se, não de ignorar as evidências textuais (as quais, em qualquer caso, são escassas152), mas de confrontar a noção de objeto que se delineia ao longo do ensaio — e em particular a sua capacidade de abarcar a inexistência — com a concepção intuitiva de ser como algo indissociável da existência. O lembrete de que lidamos, aqui, com duas categorias distintas (ser e existência) não é suficiente

150 A respeito especificamente da separação entre ser e existência, diz Porta: “O ser é independente da (e ‘anterior à’) existência; o ser predicativo é mais originário que o ser-existencial. Tudo o que existe é, porém nem tudo o que é existe. Tudo o que é é algo (etwas); tudo o que é ‘determinado’ (bestimmt) ‘é’ em algum sentido. Ser, ser-algo e ser-determinado são sinônimos.” (PORTA, 2014b, p. 94.)

151 GROSSMANN, 1977, p. XI-XII.

152 Apenas duas passagens do ensaio parecem indicar que todo objeto é portador de ser: aquela que afirma que “tudo o que é, é um objeto de uma representação possível; tudo o que é, é algo” (TWARDOWSKI, 2017, p. 65) e a que identifica o estudo dos objetos em geral com a metafísica tomada como “ciência do ser enquanto ser” (Ibid., p. 67).

para aplacar o estranhamento provocado pela noção de algo que é mas não existe — e tampouco para afastar a suspeita de que esvazia-se de sentido, assim, a palavra “ser”. De fato, uma tal noção, se tem precedentes na história da filosofia (como os que Twardowski resgata no Capítulo 7), não deixa de ser bastante impopular entre autores contemporâneos — como atesta a ampla oposição sofrida pela teoria do herdeiro mais notório da concepção de objeto twardowskiana, Meinong.153 Com efeito, a versão twardowskiana de uma tal hipótese de subsistência do inexistente será duramente criticada por Husserl, como veremos no próximo capítulo.

Uma dificuldade adicional à compreensão da natureza do objeto em ZLIGV concerne a exata relação entre as diferentes formulações do caráter essencial do objeto oferecidas pelo texto — em particular, em que ordem de precedência conceitual situam-se o atributo psicológico do ser-representado e a concepção ontológica do objeto como algo (ou como o ser em geral). Como comenta Porta, ainda que ambos os conceitos tenham a mesma extensão (ao menos sob a condição de que concebamos o ser-representado como um atributo meramente possível e não atual de todo objeto; ou seja, se tomarmos em consideração o representável, por oposição ao representado), eles não são intensionalmente equivalentes, e não é claro no texto de Twardowski qual dos dois teria primazia sobre o outro: “É o ‘ser-representável’ uma condição do ‘Ser’ ou é o ‘Ser’ uma condição do ‘ser-representável?’”154

Esta questão está fortemente ligada às motivações da chamada leitura fenomenalista da obra de Twardowski, como a defendida por Ingarden: como relata Cavallin, Ingarden argumentou que, ainda que se tome o ser-representado como uma possibilidade e não uma característica atual de todo objeto, a colocação deste atributo no centro conceitual do objeto twardowskiano transforma este objeto em dependente de uma representação.155 Uma tal dependência estaria, para Ingarden, em contradição com as formulações puramente ontológicas da essência do objeto em ZLIGV, a ponto de que nem sequer se poderia falar, a

153 Não pretendemos adentrar, aqui, uma discussão distinta sobre a adequada interpretação da teoria de Meinong. Basta-nos mencionar que Grossmann, por exemplo, tampouco entende haver separação entre existência e ser na obra daquele autor; para ele, o conceito meinonguiano de Aussersein tem precisamente a função de permitir a atribuição de propriedades a determinados objetos independentemente de estes objetos portarem, também, qualquer ser. Assim, uma montanha de ouro teria legitimamente as propriedades de ser uma montanha e de ser de ouro sem, no entanto, ser (GROSSMANN, 1977, p. XVII-XVIII).

154 PORTA, 2014b, p. 96-97. Porta dá razões, todavia, para crer que Twardowski considerava o ser (ou ser-algo) logicamente anterior ao ser-representado.

rigor, numa equivalência extensional entre o ser-representado e o ser-algo, haja vista o caso dos objetos (isto é, portadores de ser) não representáveis, como a coisa-em-si kantiana.156

156 Ibid., p. 72. Note-se que a afirmação de Twardowski, no Capítulo 7, de que o seu conceito de objeto não se identifica com o de coisa-em-si não parece envolver uma tal exclusão das coisas-em-si da extensão dos objetos em geral; pelo contrário, o intuito de Twardowski naquela passagem parece ser o de garantir a neutralidade metafísica do objeto em relação às categorias do transcendente e do imanente (ver PORTA, 2014b, p. 97-98).

CAPÍTULO 3

Objeto em sentido próprio: Husserl e o vínculo essencial entre o representado e o existente

O recorte temático que impusemos, nesta dissertação, aos escritos intermediários de Brentano e ao mais importante ensaio de Twardowski recebe, afinal, estatuto de mote central no manuscrito husserliano “Objetos intencionais” (IG), de 1894.

Como procuramos mostrar, o impasse concernente aos juízos negativos verdadeiros na psicologia descritiva de Brentano pode ser descrito como uma contradição entre a recusa da existência de um objeto, pela qual se define todo juízo negativo, e a impossibilidade da inexistência do mesmo objeto, em vista de sua imanência no próprio ato de julgar. Já a teoria twardowskiana do objeto de representação, a qual remove este objeto do âmbito de imanência psíquica e determina-o unicamente pela propriedade do ser-representado, pode ser compreendida como uma saída à contradição brentaniana: negar existência a um objeto, em Twardowski, não mais implica a implosão dos atos representacional e judicativo, já que estes atos não mais incluem o objeto como parte de sua estrutura.

Em IG, Husserl interpreta o embaraço em que desembocou a doutrina brentaniana, e do qual buscou se livrar a proposta twardowskiana, como o resultado de um choque entre duas teses bastante plausíveis: a de que toda representação representa um objeto e a de que nem toda representação tem um objeto correspondente. Aquela primeira resume-se a uma expressão mais restrita da Tese Psicológica de Brentano: a marca característica de todo fenômeno psíquico (cuja modalidade básica é a representação) é o seu direcionamento a um objeto (o que significa, no mínimo, o representar tal objeto, sem prejuízo das formas de direcionamento objetual fundadas sobre a representação: o julgar e o amar ou odiar). A segunda tese, por seu lado, remonta à sugestão bolzaniana de que representações como montanha de ouro ou quadrado redondo merecem a designação de representações sem objeto: afirmar que os objetos representados por tais representações não existem é exatamente o mesmo que afirmar que não há objetos correspondentes a tais representações. A plausibilidade de cada uma das teses parece ameaçada, ao menos à primeira vista, por considerações que apontam para a correção da tese contraposta — por mais incontestável que pareça a tese bolzaniana, por exemplo, é evidente que podemos afirmar algo como “‘um quadrado redondo’ representa um objeto que é simultaneamente quadrado e redondo” e que

esta afirmação é verdadeira; mas como explicar que uma proposição possa se referir verdadeiramente ao objeto de uma representação sem objeto?157 Como observa Husserl, trata-se de um problema que desconcertava já a filosofia medieval e que jamais recebeu solução unânime entre os filósofos contemporâneos. Percebe-se, portanto, que um considerável esforço teórico ainda é necessário para dirimir o problema — o que deve ser possível, sob a premissa de que não existem paradoxos legítimos, mas apenas aparências de paradoxo.

Buscaremos mostrar, neste capítulo, como Husserl propôs resolver o conflito entre as teses de Brentano e de Bolzano. Em contraste com a estratégia de Twardowski, Husserl preservará, intacta, a metade bolzaniana do paradoxo: nem toda representação tem um objeto correspondente. Sua mira se voltará, ao contrário, para a Tese Psicológica brentaniana — não a fim de rejeitá-la, propriamente, mas de revelar, a partir de sua formulação original imperfeita, algo de verdadeiro: o fato de que mesmo representações sem objeto, em função do seu teor de significação próprio, podem fazer parte de discursos que operem sob a hipótese de que o objeto por elas representado existe. Esta solução, como veremos, requererá de Husserl a mobilização de certos conceitos-chave alheios ao acervo da psicologia descritiva de Brentano e Twardowski, e mais próximos da lógica de Bolzano.

Antes de lidarmos com a porção propositiva de IG, todavia, será preciso reconstruir o pano de fundo determinante da solução husserliana: a crítica à doutrina de ZLIGV. Com efeito, IG é essencialmente uma resposta ao ensaio twardowskiano (publicado poucos meses antes) motivada pela insatisfação de Husserl com a tentativa de seu antigo colega de resolver o conflito entre as posições de Brentano e Bolzano. Assinale-se desde já que a leitura de ZLIGV oferecida por Husserl é defeituosa em aspectos importantes, e parte de nossa exposição será dedicada a mostrar as discrepâncias entre as ideias de Twardowski e as posições que Husserl lhe atribui; mas argumentaremos também que, seja como for, a crítica husserliana aplica-se efetivamente a pontos basilares da doutrina de Twardowski, e que levar em conta a divergência entre os dois autores é um pré-requisito para a adequada compreensão da solução de Husserl ao problema central de IG.

O primeiro passo do percurso que se segue consistirá, entretanto, na reconstrução de outra crítica de Husserl: a que ele dirige contra a pretensa solução ao problema das

representações sem objeto fornecida pela teoria da imagem mental. Começar por aí a reconstrução do argumento do manuscrito husserliano mostra-se oportuno por dois motivos: (1) na sequência de sua exposição, Husserl identificará na solução de Twardowski a repetição de um erro já presente entre os teóricos da imagem mental; e (2) a rejeição da noção de imagem mental será relevante para o desenvolvimento de toda a teoria da intencionalidade husserliana — desenvolvimento que tem em IG um importante estágio inicial.