Capítulo 2. Objetos intencionais inexistentes: Twardowski e a rejeição de
1. Conteúdo e objeto
1.3. A relação entre conteúdo e objeto
Como dito, todavia, o propósito da comparação entre a pintura de um quadro e a representação de um objeto não se limita ao diagnóstico da cegueira doutrinária que
Twardowski atribuía a seus pares a respeito da distinção conteúdo-objeto. De fato, a analogia revela mais do que um tipo de ambiguidade comum aos adjetivos “pintado” e “representado”; uma tal semelhança linguística é, em verdade, para Twardowski, reflexo de um paralelismo existente entre as próprias atividades mencionadas naquele exercício comparativo — paralelismo que, novamente em razão da maior transparência do caso da pintura, serve como guia para uma melhor compreensão do funcionamento de nossos atos de representação. Em particular, Twardowski busca esclarecer como deve-se conceber a função de mediação exercida pelo conteúdo de representação com base no que há de comum entre uma tal função e o papel do quadro que retrata uma paisagem.
Em primeiro lugar, a comparação com a pintura é justificada, no texto do ensaio, pelo fato de que “costuma-se caracterizar a representação como um tipo de figuração mental [geistigen Abbildens]”.103 Com efeito, a correspondência entre as duas atividades, sob este aspecto, parece completa (exceto na medida em que o ato de representação tem natureza mental), visto que “assim como a paisagem é figurada [abgebildet], retratada, neste quadro”, diz Twardowski, “o objeto desta representação, através do conteúdo de representação, é, como se diz, figurado mentalmente [geistig abgebildet], e assim representado”.104 Ainda em outra passagem, Twardowski afirma que o uso modificativo de “representado” faz referência ao “conteúdo de representação, a ‘imagem mental’ [‘geistige Abbild’] de um objeto”.105
Tais aproximações entre o quadro e o conteúdo estão conectadas, por sua vez, a uma simetria mais ampla: assim como a pintura pode ser bem descrita como uma atividade de direcionamento duplo, pois ela está voltada (em certo sentido) tanto ao quadro quanto à paisagem, também a representação psíquica dirige-se tanto ao conteúdo quanto ao objeto em sentido próprio — pelo que podemos afirmar tratar-se, em ambos os casos, de uma atividade que se move em duas direções e produz um só resultado.106 Este resultado único é, precisamente, a representação (física, num caso; psíquica, no outro) de uma entidade por outra (da paisagem pelo quadro; do objeto pelo conteúdo); e é o que levará Twardowski a recomendar, como forma de dirimir a confusão doutrinária sobre o conteúdo e o objeto, a ampla adoção da terminologia de Robert von Zimmermann: devemos dizer, do conteúdo, que
103 Ibid., p. 48.
104 Ibid., p. 48.
105 Ibid., p. 49. É importante que se atente para as aspas em torno de “geistige Abbild” no original.
ele é representado na representação e, do objeto, que ele é representado pelo conteúdo (ou pela representação).107
As fórmulas adotadas por Twardowski em seu exercício comparativo surgem condensadas na seguinte passagem:
Para o pintor, o quadro é um meio pelo qual retratar a paisagem; ele quer figurar, “pintar”, uma paisagem (real ou imaginada), e ele o faz pintando o quadro. Ele pinta uma paisagem fazendo, pintando, um quadro daquela paisagem. A paisagem é o objeto “primário” de sua atividade de pintura; o quadro, o objeto “secundário”. Algo análogo acontece na representação. Aquele que representa representa algum objeto; um cavalo, por exemplo. Ele o faz, todavia, representando um conteúdo psíquico. O conteúdo é a imagem [Abbild] do cavalo em um sentido similar àquele em que o quadro é uma imagem [Abbild] da paisagem. Representando um objeto, aquele que representa representa, ao mesmo tempo, um conteúdo referente àquele objeto. O objeto representado, isto é, o objeto ao qual a atividade representacional ou o ato de representação se dirige, é o objeto primário do representar; o conteúdo pelo qual o objeto é representado é o objeto secundário da atividade representacional.108
Apesar deste reiterado emparelhamento da função figurativa do quadro com a função representativa do conteúdo, todavia, a cautela do texto de Twardowski (com sua ênfase na analogia e na similaridade entre os dois casos) parece colocar sob suspeita qualquer interpretação que enxergue em ZLIGV uma identificação do conteúdo representacional com um tipo de imagem mental. De fato, outros elementos do ensaio reafirmam a implausibilidade de uma tal leitura.
Em primeiro lugar, pode-se chamar atenção para o que nos informa aquela outra importante analogia de ZLIGV, oferecida inicialmente no Capítulo 3 do ensaio e retomada ao final de seu Capítulo 4: a analogia entre as representações e os nomes. Para Twardowski, como vimos, em função do suposto paralelismo perfeito entre o plano da linguagem e o plano da consciência, a significação e o referente de cada nome identificam-se com o conteúdo e o objeto de uma representação correspondente. Além disso — complementa agora Twardowski —, a função mediadora do conteúdo de representação pode também ser esclarecida com apoio naquela correspondência entre representações e nomes: com efeito, assim como um nome nomeia o seu referente através de sua significação, uma representação refere-se ao seu objeto através de seu conteúdo. Ora, concebido a partir desta nova comparação, todavia, o
107 Ibid., p. 51.
papel mediador do conteúdo já não parece guardar qualquer parentesco próximo com a noção de figuração mental, e não parece haver motivo para que se dê maior peso à analogia entre conteúdos e quadros do que à analogia entre conteúdos e significações linguísticas.
Mais relevante, contudo, é o fato de que tomar o conteúdo twardowskiano como uma espécie de imagem do objeto representado equivaleria a atribuir a Twardowski justamente o tipo de representacionalismo que a teoria de ZLIGV busca combater. De fato, no Capítulo 12 do ensaio, dedicado expressamente à questão da relação entre conteúdo e objeto, Twardowski associa a concepção de conteúdo como imagem mental a uma “psicologia primitiva” e coloca-se ao lado da maioria dos autores da época ao recusar que haja uma “semelhança fotográfica” entre conteúdo e objeto.109 Em última instância, apesar das analogias que podem ser oferecidas a título de ilustração deste vínculo, a relação entre conteúdo e objeto parece ser irredutível e primitiva, tão pouco suscetível de descrição quanto a relação de incompatibilidade entre dois juízos.110 Embora Twardowski passe grande parte do Capítulo 12, em verdade, demonstrando que há mais a ser dito a respeito desta relação na hipótese de o objeto em questão ser complexo, uma vez que neste caso pode-se verificar um isomorfismo entre a composição do conteúdo e a do objeto,111 um tal isomorfismo não equivale à relação de figuração ou “semelhança fotográfica” típica do representacionalismo clássico; e, de qualquer maneira, aquele isomorfismo não poderia ser tomado como uma relação essencial entre conteúdos e objetos, já que na relação entre conteúdos e objetos simples não há isomorfismo algum a ser reconhecido.112
Gostaríamos de apenas esboçar, por fim, como Twardowski se serve da tese de que a estrutura dos conteúdos é isomórfica à de seus objetos para, já ao fim de ZLIGV, explicar a operação de dois tipos especiais de representação: as representações gerais e as representações (particularmente relevantes para nossa investigação) de objetos impossíveis. No Capítulo 14 do ensaio, Twardowski propõe-se a defender aquela tese de uma ameaça: a alegação de Bolzano segundo a qual nem toda parte de um conteúdo corresponde a uma parte
109 Ibid., p. 89.
110 Ibid., p. 89.
111 A composição do conteúdo e do objeto, por sua vez, é o tema da complexa mereologia desenvolvida nos Capítulos 8, 9, 10, 11 e 13 de ZLIGV.
112 Ibid., p. 89. Como veremos no próximo capítulo, Husserl atacará a tese do isomorfismo entre conteúdo e objeto por entender que, ao cabo, esta é uma opção incapaz de evitar os problemas típicos das teorias que tomam o conteúdo como uma imagem mental do objeto. (Sobre a natureza do conteúdo twardowskiano e sua relação com a noção de imagem mental, ver PORTA, 2014b, p. 101-103.)
do objeto representado por este conteúdo, o que se poderia atestar no caso da representação país sem montanhas — nada no objeto aí representado corresponderia às montanhas que constam do conteúdo de representação.113 Twardowski rejeita o raciocínio bolzaniano; em verdade, afirma ele, as montanhas não são parte do conteúdo da representação daquele país, mas de uma representação auxiliar de montanhas que, ao lado da representação de uma relação de ausência entre os dois elementos em questão (país e montanhas), viabiliza uma representação indireta daquele objeto (país sem montanhas).114 No Capítulo 15 de ZLIGV, então, Twardowski emprega o mesmo aparato conceitual para expor um dos modos como representações gerais podem dirigir-se a objetos gerais ou universais: com base em representações auxiliares de um objeto individual (por exemplo, um determinado homem) e de um juízo de negação dos traços particulares daquele indivíduo (sua altura, cor de pele etc.), produz-se uma representação indireta do objeto universal sob o qual o objeto individual se subsume, e que congrega as características comuns a todos os indivíduos do gênero em questão (o homem em geral). Essencialmente a mesma análise é aplicável, ainda, às representações de objetos impossíveis. O exemplo de Twardowski, aqui, é a representação um cavalo branco que é preto; um tal objeto pode ser representado indiretamente com apoio em três representações auxiliares: a de um cavalo preto, a do juízo negativo “o cavalo preto não é preto” e a do juízo afirmativo “o cavalo preto é branco”.115