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4 A ALEGRIA “FRANCISCANA” E AS EXIGÊNCIAS DE UMA ÉPOCA

4.2 A NATUREZA E A BELEZA: UMA ALEGRIA “TOCÁVEL”

Tanto Francisco, por seu amor à natureza e por sua inclinação à reflexão da humanidade de Cristo, quanto as primeiras gerações de frades que, em seus diversos modos de apostolado desdobravam, sistematizavam ou adaptavam as sensibilidades de seu fundador, buscaram propôr novos modos do ser humano se relacionar com os homens, com as coisas e a natureza, e com Deus. Para Agostino Gemelli, a “vida-poema de Francisco suscitou no século XIII uma miríade de histórias repetidas dos conventos às praças e das praças às lareiras”468. Já de início, a santidade de Francisco inspirou as composições de poetas litúrgicos, como por exemplo, Tomás de Capua (+1243), que era cardeal de Santa Sabina, e Raniero Cappoccio de Viterbo, também cardeal em Santa Maria em Cosmedin. Não se poderia esquecer do mais famoso dentre esses poetas, frei Juliano de Spira (+1250), mestre da capela do Rei de França, que compôs uma pequena Vita Sancti Francisci e um Officium Sancti Francisci onde, em dois versos, resume a imagem que retinha do santo: vir catholicus et apostolicus; e também, Franciscus evangelicus.

468 GEMELLI, Agostino, Il francescanesimo, 2000, p. 87.

Mas não só as biografias de Francisco inspiraram escritores e artistas da época. Seu pensamento e suas sensibilidades, por exemplo, em relação à pobreza

“personificada” – a sua Domina Paupertas – fizeram nascer o Commercium dominae Paupertatis cum divo Francisco, atribuído a Frei João de Parma469 - em que o santo é representado subindo a montanha, acompanhado de seus companheiros, qual cavaleiro em busca de sua dama, a “Senhora Pobreza”, que no topo armara sua morada470. Esta obra, aliás, provavelmente tenha inspirado uma parte da Divina Comédia, de Dante (1265-1321) e os afrescos de Giotto (1267-1337) expostos na Basílica de São Francisco, em Assisi471. Para Gemelli, até São Boaventura de Bagnoregio472 deixou-se marcar por tais sensibilidades:

Seguindo Francisco a Belém, São Boaventura reconstruiu na imaginação isso que o Santo reproduziu de fato em Greccio, e escreve o De quinque festivitatibus pueri Iesu, em cujos particulares da concepção e a da primeira infância do Redentor são penetrados com o intuito paterno, representados com ardor de artista, referidos a vida interior com profundidade de mestre de espírito; seguindo São Francisco ao Calvário, reconstrói isso que revive em La Verna e escreve o Lignum vitae e o Vitis Mystica, descrição plástica, impressionante da Paixão de Jesus (...)473

Numa época de profundas mudanças como foram os séculos XII e XIII, sentimentos aparentemente contrastantes, pareciam se tocar. Difícil não recordar o personagem Guilherme de Baskerville, de Umberto Eco, ao responder uma inquietação de seu noviço, Adso de Melk, quando desabafa que “nesses tempos difíceis, um sábio tinha o dever de pensar coisas contraditórias entre si”.474 Talvez seja este o caso de outro poeta franciscano, o italiano Jacopone da Todi475 que trazia em seus versos elementos terríveis, recheados de outros apocalípticos, e ao mesmo tempo de uma suavidade admirável. Sabia compreender as tensões entre o corpo e alma, entre os vivos e os mortos; sabia percorrer com ardor e elegância as

469 Mnistro geral da Ordo Minorum de 1247 a 1257.

470 Cf. Sacrum Commercium, In: TEIXEIRA, Márcio (org.), Fontes franciscanas e clarianas, 2014, p. 1456-1484.

471 Cf. GEMELLI, O. Cit., p. 88.

472 Teólogo, místico e minsitro geral da Ordo Minorum de 1257 a 1274.

473 GEMELLI, Op. Cit., p. 89.

474 ECO, Umberto, O nome da rosa, 2009, p. 56.

475 Jacopone da Todi (1230-1306) era um espírito inquieto admitido na Ordem franciscana como irmão leigo (não-sacerdote). Optou pela via do mais austero ascetismo e sendo tocado pelo que chamou de “santa loucura”, foi perseguido e excomungado pelo papado, sendo só mais tarde perdoado por Benedito XI.

fronteiras entre o que havia de mais sombrio no ser humano e a sublimidade em torno do amor, onde a alma parece se desfazer em danças paradisíacas “sobre os hiatos infernais”476. Jacopone da Todi não é apenas o poeta da dor e do ardor da Paixão, mas é também o poeta do sentimento humano, bem expresso em sua Dona di paradiso e em sua Stabat Mater. Se este último versifica sobre o papel de Maria no momento da crucifixão de Jesus, no Gólgota, o poeta também é capaz de se desdobrar em versos ternos ao falar da maternidade da Virgem:

Vejamos o menino a vacilar no feno

e os braços descobertos estender a ela no seio e esta o recobre

o melhor que pode ao menos dando o leite

dentro de sua boquinha477.

Difícil ficar indiferente à tamanha singeleza de detalhes. A plasticidade que Jacopone dá à cena do menino que quer mamar e de sua mãe que coloca o seio

“entro la sua bocchina” é reflexo da mesma sensibilidade que Francisco teve ao encenar o célebre presépio de Greccio, em que desejava ver como o “menino ficava entre o boi e o burrinho”478.

Essa sensibilidade ardente de Jacopone, feita de estupor e fascínio por tudo, tornou-se um dos ecos suscitados por um estranhamento que se tornou louvor em Francisco, que parecia só poder render gratidão ao seu Criador se fosse pela via do toque, dos cheiros, do olhar. Aqui não há como não se referir ao celebrado “Cântico das Criaturas ou Cântico do Irmão Sol”, que acabou por ser considerada a primeira obra poética da literatura italiana. A sonoridade e a simplicidade sublime dos versos podem ainda ser sentidas no texto original, composta, provavelmente entre o inverno (europeu) de 1224 e o verão de 1225 (Fig.8):

Altissimu onnipotente bon signore479,

476 Cf. GEMELLI, Op. Cit., p. 92.

477Veggiamo il bambino/ Gambettare nel fino/ E le braccie scoperte/ Porgere ad ella in seno/ Et essa lo recobre/ E meglio che puó almeno,/ Mettendolo la poppa./ Entro la sua bocchina. (DA TODI, Jacopone, In: GEMELLI, Id.)

478 Cf. 1 Cel 84-87.

479“Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda bênção./ Só a ti, Altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar./ Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor Frei Sol, que é dia e nos iluminas por ele./4 E ele é

tue so le laude la gloria e l'honore et onne benedictione.

Ad te solo, altissimo, se konfano et nullu homo ene dignu te mentovare.

Laudato sie, mi signore, cun tucte le tue creature, spetialmente messor lo frate sole,

lo qual' è iorno, et allumini noi per loi.

Et ellu è bellu e radiante cun grande splendore, de te, altissimo, porta significatione.

Laudato si, mi signore, per sora luna e le stelle, in celu l'ài formate clarite et pretiose et belle.

Laudato si, mi signore, per frate vento,

et per aere et nubilo et sereno et onne tempo, per lo quale a le tue creature dai sustentamento.

Laudato si, mi signore, per sor aqua,

la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.

Laudato si, mi signore, per frate focu, per lo quale enn'allumini la nocte,

ed ello è bello et iocundo et robustoso et forte.

Laudato si, mi signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa,

et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.

Laudato si, mi signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore, et sostengo infirmitate et tribulatione.

Beati quelli ke 'l sosterrano in pace, ka da te, altissimo, sirano incoronati.

Laudato si, mi signore, per sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente pò skappare.

Guai a quelli, ke morrano ne le peccata mortali:

beati quelli ke trovarà ne le tue sanctissime voluntati, ka la morte secunda nol farrà male.

belo e radiante com grande esplendor; de ti, Altíssimo, carrega a significação. /Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas, no céu as formaste claritas e preciosas e belas. / Louvado sejas, meu Senhor pelo Frei Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento. / Louvado sejas, meu Senhor pela Irmã Água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta. / Louvado sejas, meu Senhor, pelo Frei Fogo pelo qual iluminas a noite, e ele é belo e alegre e vigoroso e forte. / Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas. / Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulações. / Bem-aventurados os que as suportam em paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados. /Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar. / Ai dos que morrerem em pecados mortais! Felizes os que ela achar conformes à vossa santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal! / Louvai e bendizei a meu Senhor (cfr. Dn 3,85), e dai-lhe graças, e servi-o cservi-om grande humildade”. (Cnt).

Laudate et benedicete mi signore,

et rengratiate et serviateli cun grande humilitate480.

Como assinala Gemelli, este cântico de louvor favoreceu um contato mais direto com o povo “e continuou a transformar a sequência latina na lauda vulgar, que pela língua e pela melodia respondia melhor a nova espiritualidade”481. Nessa dinâmica, o canto sacro tomou as notas das canções de amor. Não se tratava, obviamente, de um processo de profanação, pois em paralelo existia outra bem mais profunda que vinha ao encontro com a mulher e do amor que produzia o fato literário fundamental do assim chamado “stil nuovo” italiano. Em linhas gerais esse novo estilo traçava, segundo E. Iàñez, “uma doutrina do amor numa base filosófica essencialmente neo-platônica e unindo, em perfeita harmonia, conteúdo e forma”482. Numa famosa canção de Guido Guinizelli (1230-1276), intitulada Al cor gentil ripara sempre amore, o autor identifica o amor com a gentileza antes sempre ligada à

“nobreza” feudal, como se pode ler em um de seus escritos:

A gentileza é qualidade essencial da alma em potência, que se manifesta gentileza em acto só quando pousa na alma a luz e a chama do amor, uma espécie de luz intelectual [...] Como os anjos contemplando Deus recebem valor para mover as suas esferas, assim o apaixonado coração gentil ao contemplar a beleza da mulher amada recebe virtude para falar com gentileza483.

A contribuição franciscana em relação ao belo não influenciou somente a literatura dos séculos XIII e XIV, também a arquitetura e as artes plásticas foram tocadas por esta nova espiritualidade. As antigas igrejas de arquitetura românica tomam linhas mais finas, e a forma de “T” (Tau)484 começa a se juntar a forma de cruz latina nas construções das basílicas. Também os símbolos apocalípticos, os animais deformados, os monstros, os diabos que decoravam, em baixo-relevo, essas construções, aos poucos vão cedendo lugar a uma linha mais simples, onde

480 DALARUN, Jacques. Il Cantico di Frate Sole. Francesco d’Assisi riconciliato, 2015, p. XXII.

481 GEMELLI, Op. Cit., p. 93.

482 IÁÑEZ, E.,História da literatura. A Idade Média, 1989, p. 293.

483 IÁÑEZ, Ibid., p. 294.

484 O símbolo do Tau (T) já estava presente na literatura bíblica; é a última letra do alfabeto hebraico e sua única menção é em Ezequiel 9,1-7: “Passa pela cidade, por Jerusalém, e marca com o Tau a fronte dos homens que gemem e choram por todas as práticas abomináveis que se cometem”. Na Idade Média era símbolo de tomada de um santo propósito, de busca de perfeição e de penitência.

Francisco de Assis gostava de assinar suas cartas com este símbolo. Cf. Bilhete a Frei Leão.

as paredes lisas são preparadas agora para receber os afrescos485. Mesmo sendo mais pobres que os baixos-relevos, os afrescos deixavam florir sua beleza, como belas se mostram essas linhas de Gemelli, ao descrever as mudanças inspiradas pela nova cosmovisão franciscana:

[Assim também] em todas as outras artes o inferno se afasta, o paraíso de avizinha e se humaniza, o Crucifixo prevalece sobre o Juiz e sobre o Triunfante em uma nova expressão de perdão, a Anunciada se ajoelha investida pelo mistério da Encarnação, a Mãe divina desce do trono cravejado de jóias, se curva sobre um Menino que sorri (...)486.

Muitos desses afrescos, por sua vez, representaram Francisco em várias igrejas espalhadas pela Itália, já no século XIII, sendo a mais famosa, certamente, a basílica de São Francisco, em Assis, onde se encontram as obras de Cimabue (1240-1302) e seu discípulo Giotto (1267-1337), entre outros pintores que também quiseram honrar o santo com seus dons artísticos (Fig.19). Ainda hoje há um costume de dizer que um dos afrescos de Cimabue (Fig. 18), por exemplo, pintado na parte inferior da referida basílica, seria um “retrato fiel” do santo de Assis.

Entretanto, afirma o franciscanista italiano, Stanislao da Campagnola, que na melhor das hipóteses tais imagens, hoje já tão alteradas em sua tinta original, poderia resultar “mediada por um texto literário, não de uma observação direta de Francisco que Cimabue não poderia ter, nem de uma iconografia anterior que, a julgar pelas conhecidas, mostra evidentes influências bizantinas”487. Assim, as imagens e afrescos de Francisco eram sempre renovados porque novas eram as memórias que a todo momento – como mostra a história da hagiografia franciscana – se colhiam e se escreviam sobre o santo Assisiense. É preciso ter consciência que a primeira fase da iconografia franciscana não se deve somente ao sentimento de admiração pela santidade de sua vida, mas se deve também à presença intensamente ativa e confiada, recebida e organizada pelos franciscanos no seio de uma sociedade envolvida numa nova era cultural488 e sua sede de uma vivência espiritual.

485 Cf. GEMELLI, Op. Cit., p. 95.

486 GEMELLI, Id..

487DA CAMPAGNOLA, Stanislao, Francesco e francescanesimo nella società dei secoli XIII-XIV, 1999, p. 289.

488 Cf. DA CAMPAGNOLA, Ibid., p. 291.

Analisando o olhar de Francisco de Assis sobre a natureza Felice Moretti faz questão de demonstrar que nem sempre essa relação se dava no plano simbólico ou abstrato. Para o franciscanista italiano:

(...) a linguagem e a gestualidade do Santo são inequivocáveis. Ele vê a natureza e tudo isso que está na natureza assim como essa o é.

São os mesmos companheiros a testemunhá-lo. Francisco não é culto a ponto de se pôr o problema da simbologia ou da magia, e também se o fosse, não se lhe seria postos igualmente, sensível como era a acolher a essência das coisas. Ele é muito mais atento a

“literalidade” das coisas por não pensar que “o sol é o sol”, que o passarinho é o passarinho e que suas asas lhe servem para voar sem se adiar ao desejo dinâmico de elevação e de sublimação; era-lhe estranho todo alegorismo ou simbólico que superasse o fluir concreto das coisas489.

Essa compreensão “concreta” que Francisco possuía das criaturas que o rodeavam ajuda a entrever em que bases se dava a alegria que o santo expressava ao se relacionar com estas. Muitas são as narrativas490 que mostram isso nas biografias medievais e até em tempos hodiernos. A fim de exemplificar isso, basta se ater nas duas principais biografias sobre o santo – a Vita beati sancti Francisci e a Legenda Maior – que muitas vezes serviram de bases para outras obras literárias e artísticas contemporâneas.

Assim, é Celano quem primeiro apresenta essa temática tão cara a formação do imaginário franciscano de todos os tempos. Um dia, enquanto caminhava pelo Vale de Espoleto, viu Francisco um bando de diversas aves. Então, “porque era homem de fervor muito grande e tinha afeto de compaixão e doçura também para com todas as criaturas inferiores e irracionais, correu alegremente até elas [alacriter cucurrit ad eas], tendo deixado os companheiros na estrada”491. É interessante notar mais uma vez o uso do termo “alacer”, indicando que não se tratava de uma alegria passiva, mas de uma alegria ativa, que se movimenta, que é vivaz.

Por sua vez , se a Legenda Maior – em razão de suas intenções - jamais representa Francisco brincando, prefere transferir essa dimensão jocosa às criaturas. São os animais, especialmente, que expressam o sentimento de alegria através do brincar. Assim, uma vez quando o santo ganhou de presente um peixe

489 MORETTI, Op. Cit., p. 97.

490 Cf. a alegria e o tema das criaturas na Vita beati francisci: 1 Cel 58,10; 1 Cel 61; 1 Cel 80.

491“(...) quia homo maximi fervoris erat, magnum etiam circa inferiores et irrationabiles creaturas pietatis atque dulcedinis gerens affectum, alacriter cucurrit ad eas, in via sociis derelictis” (1 Cel 58,3).

vivo, como fazia de costume, o chamou de irmão e o recolocou na água junto ao barco, “mas o peixe brincava [ludebat] na água diante do homem de Deus e, como que atraído pelo amor dele, de forma alguma se afastou do barco, sem antes lhe fosse dada por ele uma licença com a benção (Fig.4)”492.

Os exemplos se multiplicam no texto boaventuriano: como no episódio em que também ganha uma ave aquática e não desejando fazê-la cativa e recebendo esta “a licença com a bênção, demonstrou alegria com um gesto do corpo, e voou”493 (Fig.3); ou quando pregando aos passarinhos estes “comportando-se de um modo admirável, começaram a esticar o pescoço, a estender as asas, a abrir o bico e a olhar atentamente para ele”494.Esse brincar, como expressão de alegria representada pelas criaturas, é destacado inclusive na ocasião da morte do santo.

Tendo este exalado seu último suspiro (Fig. 1),

(...) as cotovias, que gostam da luz e têm horror às trevas dos crepúsculos, na hora da passagem do santo homem, quando já era o crepúsculo da noite que viria, vieram em grande multidão acima do teto da casa. Ficaram muito tempo dando voltas com uma alegria inusitada, dando um testemunho tão bonito quanto evidente da glória santo, que costumava convidá-las ao louvor divino495.

Por fim, como pode ser observado, essa alegria do santo de Assis diante das criaturas, da natureza, além de ter um fundamento teológico, pautado numa vívida experiência espiritual de que Deus é a fonte também da Beleza, também tinha uma faceta paupável e muito humana de se sentir prazer diante do mundo criado. Essa alegria nem sempre se deu numa relação de simples respeito e admiração pela natureza, mas, muitas vezes, traduziu-se em expressões lúdicas - talvez, uma das facetas mais interessantes de Francisco - que não poucas vezes inspiravam o riso em seus leitores que, nem por isso, deixavam de ficar edificados.

492 “Piscis vero coram viro Dei in aqua ludebat, et quasi amore ipsius allectus, nullatenus recessit a navi, nisi prius ab eodem cum benedictione licentia sibi data”. (LM VIII, 8)

493 “Suscepta itaque cum benedictione licentia, gestu corporis queddam pratendens gaudium, avolavit”. (LM VIII, 8)

494 “Cum autem eis haec et his similia loqueretur, aviculae modo mirabili gestientes coeperunt extendere colla, protendere alas, aperire rostra et in illum attente respicere”. (LM XII, 3)

495 “Alaudae aves, lucis amicae et crepusculorum tenebras horrescentes, hora transitus sancti viri, cum iam esset noctis secuturae crupusculum, venerunt in multitudine magna supra tectum domus et diu cum insolita quadam iubilatione rotantes, gloriae Sancti, qui eas ad divinam laudem invitare solitus erat, tam iucundum quam evidens testimonium perhibebant”. (LM XIV, 6)