CAPÍTULO IV – SOBRE A NATUREZA INERENTEMENTE
5. A natureza sintática do valor modalizador dos AdvPs
O Programa Minimalista assume que as sentenças são forma (sons/significantes) e significado (Chomsky, 1995; Hornstein, Nunes & Grohmann, 2005, p. 7). Os níveis de representação mantidos no Programa Minimalista, a saber os níveis de interface PF e LF, advogam claramente a favor dessa assunção.
Dizer que a motivação para a hierarquia universal, rigidamente fixa, de projeções funcionais (tal qual proposta em Cinque, 1999) é sintática – e, por extensão, argumentar que o valor modalizador dos advs de aspecto habitual é capturado sintaticamente – não significa desconsiderar as assunções do Programa Minimalista, apontadas no parágrafo anterior, nem mesmo desconsiderar que a modalização seja uma categoria Semântica (uma série de trabalhos propuseram que a modalização é uma categoria Semântica (cf., dentre outros, Lyons, 1977; Narrog, 2005; Busmman, 2006)).
Nesta seção, apresentamos evidências de que o efeito modalizador dos advs aspectuais habituais é facilmente capturado levando-se em conta critérios sintáticos. Esses critérios, em especial o apresentado em 5.1., trazem questões interessantes (e muito intrigantes) às teorias semânticas disponíveis, que costumam comparar o comportamento dos advs e dos adjetivos correspondentes, para advogar em favor de uma análise semântica independente da sintática.
5.1. A assimetria AdvPs e APs correlatos
A motivação para a hierarquia universal, rigidamente fixa, de projeções funcionais é determinada primitivamente: a hierarquia é um construto do sistema computacional da UG, apenas indiretamente relacionada, portanto, a propriedades lógicas ou semânticas. Há várias razões apresentadas em Cinque (1999: 134 et seq.; 2004:. 685-689) para a primazia da análise sintática em relação à semântica no que diz respeito à ordenação de AdvPs e às relações de escopo entre eles (e essas observações podem se estendidas à nossa análise dos advs modalizadores aspectuais habituais). A principal delas é que a ordem relativa dos elementos funcionais não pode ser determinada por princípios lógico-semânticos (Cinque, 1999, seção 6.3; 2004, p 685, nota 5). Segundo a hierarquia universal, AdvP Mod Evidential > AdvP Mod Epistemic:
(78) Inglês (Cinque, 1999, p. 135)
a. Allegedly John will probably give up.
(Dizem que o John provavelmente vai desistir) b. * Probably John will allegedly give up. (79) Italiano (Cinque, 1999, p. 135)
a. (?) Evidentemente Gianni ha probabilmente lasciato l’albergo.70 (Evidentemente o G. provavelmente deixou o hotel)
b. * Probabilmente Gianni ha evidentemente lasciato l’albergo.
Se a motivação para a rigidez e universalidade da hierarquia fosse devida a princípios lógico-semânticos, dever-se-ia esperar a agramaticalidade de (80), a seguir, em que um predicado evidencial está sob o escopo de um predicado epistêmico e a agramaticalidade de (81), seguinte, em que um predicado epistêmico precede um avaliativo (um AdvP epistêmico não pode preceder um AdvP avaliativo (cf. 81a)):
Italiano (Cinque, 1999, p. 135)
(80) È probabile che sia evidente che lui è il colpevole. (É provável que seja evidente que ele seja o culpado)
(81) È probabile che sia per me una sfortuna che Gianni è stato licenziato. (É provável que seja para mim um azar que o João foi mandado embora) (81a) * Probabilmente Gianni è sfortunatamente stato licenziato.
A gramaticalidade de (80) aponta para a natureza sintática da hierarquia de projeções funcionais: se a motivação para as relações de escopo da hierarquia fosse devida a princípios puramente semânticos (80) deveria ser agramatical, à semelhança de (79b), que envolve um
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Cinque (1999, p. 174, nota 37), explica que os AdvPs evidenciais, “[...] que algumas vezes são colocados na classe dos advs epistêmicos (“modais”), deveriam ser colocados em uma classe distinta”, o que é sugerido pelo fato de que, enquanto a ordem probabilmente > evidentemente não é possível, a ordem evidentemente >
probabilmente é admissível. No caso, Cinque julga a sentença gramatical (cf. Cinque, 1999, p. 174, n. 35). Ele se
baseia, entretanto, em um trabalho de Belletti (1990, p. 130, n. 29), segundo a qual uma sentença do tipo de (79a) seria estranha (?), motivo porque o autor manteve a indicação “?” entre parênteses.
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modalizador epistêmico tomando um evidencial sob o seu escopo; igualmente dever-se-ia esperar a agramaticalidade de (81), dado o fato de (81a) ser inaceitável.
A hipótese do traço [µ] – sobre a natureza modalizadora dos AdvPs epistêmicos, irrealis, aléticos de possibilidade e aspectuais habituais – é igualmente legitimada por princípios sintáticos, o que sugere que os AdvPs de aspecto habitual podem ser tratados como modalizadores já na Sintaxe.
Segundo os dados (82) e (83), a seguir, um AdvP epistêmico não pode co-ocorrer com um AdvP aspecto habitual em nenhuma ordem (* AdvP epistêmico > AdvP habitual; * AdvP habitual > AdvP epistêmico). Se a motivação para essa agramaticalidade fosse lógico- semântica (não primitivamente sintática, portanto), esperar-se-ia que um predicado epistêmico jamais co-ocorresse com um predicado habitual, o que não é verdade (cf. (82a) e (83a’b’), a seguir). Esses fatos nos levam a concluir que um tratamento sintático, a priori, dá conta de resolver a hipótese do valor modalizador dos advs de aspecto habitual:
(82) * Provavelmente os ladrões normalmente vão entrar no banco depois do expediente.
(82a) É provável que vai ser normal a entrada dos ladrões no banco depois do expediente.
(83) Italiano
a. *Probabilmente i futuri papi solitamente saranno sudamericani. (Provavelmente os futuros papas geralmente serão sul-americanos) b. *Solitamente i futuri papi probabilmente saranno sudamericani
(Normalmente os futuros papas provavelmente serão sul-americanos) a’. È possibile che sia normale che Tiago giochi a pallavolo con i suoin amici.
(É possível que seja normal que o Tiago jogue vôlei com os seus amigos.) b.’ È normale che sia possibile che Tiago giochi a pallavolo con i suoi amici.
A conclusão de Cinque (1999) para a ordenação sintática dos núcleos funcionais e para a natureza da hierarquia funcional, pode, portanto, conforme demonstramos acima, ser estendida à hipótese do valor modalizador dos advs de aspecto habitual. “Se a ordem sintática das projecções funcionais não pode ser reduzida a ‘relações de escopo semântico’ entre os AdvPs” (cf. Cinque, 1999: 136), conseqüentemente a hipótese do valor modalizador também encontra uma motivação sintática, a priori.
Dados como os discutidos nessa seção argumentam fortemente a favor da natureza a prioristicamente sintática quer da hierarquia de projeções funcionais, quer do valor modalizador dos advs de aspecto habitual. Além disso, questionam fortemente teorias semânticas disponíveis sobre AdvPs (em especial as teorias do escopo semântico/adjunção, como a de Ernst (2002, 2007)) que aparentemente nada teriam a oferecer como contra- argumento aos dados apresentados nessa seção, já pelo fato de esses dados mostrarem que a Semântica encontraria problemas para explicar naturalmente questões de ordenação de advs e a questão do valor modalizador dos advs aspectuais habituais.
5.2. Construções AdvPs µ (+ COMP) no pashto
O pashto parece oferecer evidência sintática adicional para o estatuto modalizador de AdvPs AspHab. Em Ramat & Ricca (1998), os autores dizem que algumas línguas, como o
francês, admitiriam a construção advérbio modal + complementizador (QUE):
(84) Francês
Probablement (qu’) il va pleuvoir. provavelmente COMP EXPL ir chover (Provavelmente vai chover)
Em pashto, construções AdvPs (+ COMP) são possíveis e envolvem justamente AdvPs µ. Os advs µ podem ou não ser seguidos de COMP em posição inicial na sentença em pashto:
Pashto
(85) Shyed (CHE) bal kall ba zâ
Talvez COMP próximo ano FUTURO eu
beach ta larshan
praia para ir (Talvez eu vá à praia no ano que vem).
(86) Monkenada (CHE) bal kall
provavelmente COMP próximo ano
ba zâ beach ta larshan
FUT eu praia para ir (Provavelmente eu vá à praia no ano que vem)
(87) Amooman (che) Mariah kh-pal kar
normalmente (QUE) Mariah seu-POSS trabalho
kh-pal supervisor ta kh-kara kawi.
seu- POSS supervisor para mostrar PRES (Normalmente, a Mariah mostra seu trabalho ao orientador)
(88) Zarouri (*che) Mariah kh-pal kar
necessariamente (QUE) Mariah seu-POSS trabalho
kh-pal supervisor ta kh-kara kawi.
seu- POSS supervisor para mostrar PRES. (Necessariamente, a Mariah mostra seu trabalho ao orientador)
Em (85-87), as ocorrências envolvendo os AdvPs µ shyed (irrealis: talvez), monkenada (epistêmico: provavelmente) e amooman (aspectual habitual: normalmente) podem ou não apresentar o complementizador che depois do adv. Um adv alético de necessidade, como zarouri (necessariamente) – cf. (88) – não pode aparecer em uma construção AdvP + COMP.
Estes dados são evidências sintáticas interessantes, para a nossa proposta, já que a configuração sintática AdvP (+ COMP) é possível apenas com advs µ. E aspectuais habituais são, conforme já argumentamos, advs µ. Além disso, esses dados do pashto corroboram a pertinência de o lingüista reconhecer que os advs µ constituem uma classe de AdvPs (formada
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pelos epistêmicos, irrealis, aléticos de possibilidade e aspectuais habituais), tal qual propomos em nossa dissertação.71