CAPÍTULO II: REVISÃO DA LITERATURA
1. Entendendo a modalização
1.1. As definições de modalidade: Modalidade e ‘atitude do falante’
John Lyons teve grande influência sobre trabalhos de outros lingüistas, ao definir modalidade como a marcação gramatical da atitude do falante (Lyons, 1968, apud Narrog, 2005). Em outro trabalho (cf. Lyons, 1977), o autor define modalidade como “a opinião ou
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As citações dos excertos em língua estrangeira foram traduzidas por nós. Assinalaremos apenas os excertos de obras traduzidas (por outros autores) para o português.
atitude do falante diante da proposição que a sentença expressa ou a situação que a proposição descreve.” (cf. Lyons, 1977, p. 452) Uma série de trabalhos posteriores a Lyons tratou da modalidade em termos da atitude do falante.
Em Dall’Aglio-Hattnher (1997), temas como comprometimento do falante, modalização epistêmica, atitudes do falante e subjetividade são tratados à luz de propostas do funcionalismo holandês. A autora estuda a modalidade com apoio em propostas que se baseiam na subjetividade/atitude do falante para a definição desse conceito: para Dall’Aglio- Hattnher, as modalidades são “[...] veiculadora[s] das atitudes do falante em relação ao que é dito [...] [motivo por que] pedem uma abordagem teórica que considere a língua em uso11”.
Narrog (op. cit.) vê problemas na definição de modalidade como a expressão da subjetividade ou atitude do falante: primeiramente, como definir um termo como “subjetivo” ou como “expressão da atitude do falante”?12; em segundo lugar, como delimitar a fronteira entre subjetivo e objetivo (ou atitudinal versus não atitudinal)? Voz, por exemplo, segundo Narrog, não é tratada pelos adeptos da abordagem da modalidade enquanto expressão da atitude do falante como sendo um correlato formal da expressão da modalidade. Entretanto, parecem ser subjetivas as expressões da Voz. A definição de modalidade tal qual definida tradicionalmente – atitude do falante/subjetividade – também não ajuda a resolver o problema de expressões que podem ter usos objetivos e subjetivos (Narrog, 2005, p. 171).
Narrog aponta outras limitações da definição de modalidade enquanto expressão das atitudes do falante. Segundo a autora, os adeptos dessa abordagem deveriam incluir, no conjunto das categorias gramaticais que expressam modalidade, além da voz, o aspecto, o referente honorífico (cf. (1), a seguir), pois tais meios expressam subjetividade e atitude do falante. Na ocorrência a seguir, do japonês, o honorífico é usado para expressar atitude. Nesse sentido, deveria ser considerado como forma de expressão da modalidade, o que não é assumido na literatura pró-subjetividade/atitude do falante:
(1) Japonês (Narrog, op. cit., p. 173)
Filho: - Nee, mada temetai otya aru?
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Um dos pressupostos fundadores do Funcionalismo é a atenção dada à língua em situações de uso. Traduzindo isso em termos gerativistas, pode-se dizer que aos estudiosos do funcionalismo interessa mais a performance, enquanto correlato do desempenho lingüístico (língua-E). O ponto de vista de Dall’Aglio-Hattnher sobre a necessidade de um estudo da modalidade ‘pedir uma abordagem que considere a língua em uso’ difere frontalmente do que nos propomos a fazer nesse trabalho e está nos antípodas do que os trabalhos mais recentes em Sintaxe Gerativa têm proposto: Cinque (1999) abre os horizontes dos estudos da sintaxe ao incluir, no seu plano de trabalho, questões de interface com a Semântica e Pragmática. Na esteira de Cinque, Speas (2004) trata de fenômenos da evidencialidade e da logoforicidade (que, por anos têm sido definidos como manifestações pragmáticas) no âmbito da Sintaxe, fornecendo suporte para a pertinência da expansão do espaço IP-CP, em Cinque (1999). Para uma leitura aprofundada sobre o enfoque funcionalista da linguagem, sugere-se, além das referências aqui citadas (Dik, 1997; Dall’Aglio-Hattnher, 1996, 1997), os trabalhos de Pezatti (2004) e Pezatti & Camacho (1997).
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- -
VER ainda frio chá ser
((Eu) disse: ainda tem chá gelado (no refrigerador)? Mãe: - Gozaimasu-wa.
Ser. HON-AFF (Tem!)
Narrog critica fortemente a abordagem da modalidade enquanto expressão da atitude do falante/subjetividade, porquanto tal definição tornaria possível considerar como recurso modalizador qualquer expressão/categoria lingüística:
[...] a atitude do falante na situação presente do discurso, e a sua subjetividade podem ser expressas amplamente através de todos os elementos da sentença. Começa com a escolha do vocabulário, continua com a escolha da perspectiva para conceituar a situação, como expressa na voz e aspecto, e continua a incluir tais categorias como tempo e modalidade (em um sentido tradicional). (Narrog, 2005, p. 175)
1.2. As definições de modalidade: Modalidade e a bipartição da sentença
Há uma outra proposta de definição de modalidade que se baseia na bipartição da sentença em dois componentes: o dictum – conteúdo proposicional – e o modus – uma espécie de avaliação sobre o dictum. Para entender esta proposta, é necessário recorrer a Fillmore (1968), que, interessado em introduzir a sua teoria do ‘caso gramatical’, apresentou um esquema da estrutura da sentença, semelhante ao representado a seguir:
(2)
Esquema 1: a ‘modalidade’ em Fillmore (1968)
A proposição seria o conjunto de relações entre o verbo e nomes. Os demais elementos (negação, tempo, modo, aspecto) pertenceriam à modalidade.
Na esteira de Fillmore está o trabalho de Gerstenkorn (cit. in Narrog, 2005, p. 177). Segundo Narrog, Gerstenkorn (1976) propõe uma bipartição dos constituintes da sentença, colocando a modalidade em um nível diferente do nível da proposição, aquele dominando este.
Castilho & Moraes de Castilho (1992) retomam as considerações de Dascal (1986), acerca da ‘teoria da língua cebola’. Esta teoria entende que o significado pode ser produzido em diferentes níveis, que se organizam como as camadas de uma cebola, que dá o nome a esta teoria. Castilho & Moraes de Castilho fazem uma ‘releitura’ dessa teoria, propondo a existência de três camadas de veiculação de significado: a camada proposicional, a modal e a pragmática. Se pensarmos na modificação adverbial, na camada proposicional, cujas significações geradas tem que ver com a função informacional das línguas, operam, de modo geral, advs de constituinte: os modificadores ou predicativos (qualitativos, intensificadores,
aspectualizadores, etc.). Advs de verificação também integram essa camada. Na camada modal, cujas significações veiculadas decorrem das avaliações feitas pelo falante a respeito do conteúdo proposicional, atuam os advs modalizadores (epistêmicos, irrealis, aléticos, etc.). Na camada pragmática, atuam, segundo Castilho & Moraes de Castilho (op. cit.), advs sentenciais de ato de fala, do tipo sinceramente e honestamente. As significações associadas a esta camada “expressam facetas da relação entre os interlocutores de uma dada enunciação” (Müller de Oliveira, 1993, p. 100).
Esquema 2: As camadas da ‘língua cebola’ (cf. Müller de Oliveira, 1993)
A camada proposicional da língua cebola de Dascal (1986) corresponderia à proposição de Fillmore (1968); a camada modal, à modalidade.
Considerar a sentença em dois componentes, conforme fora proposto em Fillmore, Gerstenkorn, Dascal e trabalhos correlatos gera, na visão de Narrog (2005), uma certa confusão:
[...] definições para dividir a estrutura da sentença em proposição e não proposição têm sido utilizadas para identificar a categoria gramatical da modalidade no mesmo nível que outras categorias, tais quais tempo, aspecto e negação. Isso resulta em uma visão contraditória da modalidade como uma categoria em pé de igualdade com outras categorias tradicionais, que ao mesmo tempo poderia de algum modo compreender essas categorias. (Narrog, 2005, p. 178)
Tratar a modalidade como uma categoria gramatical que inclui todos os elementos não proposicionais traz um outro desafio ao analista que assume essa proposta: elementos de diferentes níveis de descrição são juntados em uma mesma categoria. Assim, tempo, negação (categorias de expressão sintático-semântica) são combinadas com categorias como polidez e atitude de fala (speech attitude), expressas, por exemplo, pelas partículas finais no japonês (cf. Narrog, 2005).