CAPÍTULO 2 – A PRAGMÁTICA DA LINGUAGEM E SEUS MODELOS DE INTERPRETAÇÃO
2.4. TEORIA DA RELEVÂNCIA
2.4.4. A noção de ‘contexto cognitivo’
É deixada a responsabilidade à pessoa que comunica de fazer as suposições correctas sobre os códigos e as informações contextuais a que o receptor terá acesso e que provavelmente utilizará no processo da compreensão. A responsabilidade de evitar as incompreensões também fica com a pessoa falante, de tal modo que a única coisa que o ouvinte tem a fazer é ir para a frente na utilização de quaisquer que sejam o código e as informações contextuais que mais facilmente estejam ao seu alcance (p. 86).
O parâmetro utilizado automaticamente pelo ouvinte para interpretar os enunciados proferidos pelo falante é o de realizar o menor esforço de processamento suficiente para a obtenção de um efeito contextual relevante. Quanto menos o falante considera previamente este parâmetro, maior é a tendência de produzir enunciados que exijam dispêndio desnecessário de energia por parte do ouvinte – o que implica o aumento da possibilidade de o ato comunicativo falhar ou de gerar neste menos efeitos cognitivos.
Após termos apresentado o ‘princípio de relevância’ segundo o ponto de vista da TR passaremos a seguir para a discussão da noção de ‘contexto’ particular a esta teoria, a qual se diferencia das demais teorias pragmáticas da linguagem.
2.4.4. A noção de ‘contexto cognitivo’
A concepção de ‘contexto’ na TR não é compatível com definições amplamente assumidas por teorias pragmáticas da linguagem69, as quais a concebem como um elemento previamente determinado. Influenciados por pressupostos da psicologia cognitiva, Sperber e Wilson (1986/2001, p. 45) definem o contexto como “o conjunto de premissas utilizado [pelo ouvinte] na interpretação de uma elocução”. Dentre estas premissas estão incluídas as suposições antigas que o indivíduo utiliza no momento em que interpreta determinado enunciado, as quais são combinadas com os novos inputs disponibilizados pelo falante durante a conversação. “Para cada item das informações novas, poderão ser seleccionados como contexto conjuntos diferentes de suposições que provêm de
69 Para mais, ver Brown e Yule (1983, cap. 2), Levinson (1983, cap. 1.4) e Sperber e Wilson (1986/2001, p. 208-9).
fontes diversas (memória de longo prazo, memória de curto prazo, percepção) (SPERBER e WILSON, 1986/2001, p. 215). Dessa forma, a informação nova é combinada com um conjunto de suposições pré-existentes que são reevocadas por associação, as quais formam o ‘contexto’.
A noção ‘mental’ de contexto se justifica a partir da observação de que as pessoas nunca processam uma nova informação de ‘mente vazia’, mas lançam mão das informações imediatamente anteriores e das suposições contidas no armazém de memórias de curto, médio e longo prazo. Inicialmente via processos de dedução e, num segundo momento, pela realização de inferências, o ouvinte deriva as implicações dos enunciados proferidos pelo falante comparando-as com as informações preexistentes em seu armazém de suposições factuais. Ou seja, de acordo com a perspectiva da TR, o conceito de contexto está ligado à construção psicológica que o individuo realiza sobre o mundo a partir de suas suposições acerca deste. Dessa forma, há uma diferenciação clara entre ‘estado real do mundo’ e ‘contexto’, tendo em vista que este se refere à construção psicológica particular que cada indivíduo realiza acerca do meio. Ao adotar a perspectiva do contexto, a TR evita uma série de problemas de cunho filosófico implícitos a uma concepção
‘realista’.
O conjunto de suposições que cada indivíduo constrói sobre o mundo difere dos conjuntos de suposições de outras pessoas. Mesmo participando de uma mesma comunidade linguística, partilhando da mesma língua e das mesmas capacidades inferenciais, a construção de suposições sobre as variáveis contextuais não é a mesma entre os indivíduos. Segundo Sperber e Wilson (1986/2001), tal fenômeno pode ser explicado a partir de fatores como história de vida e diferenças de interesses:
As diferenças que existem na história da vida de cada um levam necessariamente a diferenças que existem nas informações memorizadas. Para além disso, tem sido demonstrado repetidamente que duas pessoas a testemunharem o mesmo acontecimento [...] podem construir representações radicalmente diferentes desse acontecimento que se opõem entre si, não só no que se refere às interpretações feitas desse acontecimento, mas também no que se refere às memórias que têm dos factos físicos básicos. Enquanto que as gramáticas neutralizam as diferenças que existem entre as experiências dissemelhantes, a cognição e a memória sobrepõem diferenças mesmo nas experiências comuns. (1986/2001, p. 46)
Segundo este ponto de vista, fatores como cognição e memória fazem com que cada indivíduo construa um contexto cognitivo particular frente uma mesma situação. Ao estabelecer um processo comunicativo, ambos os interlocutores levam em consideração este fato, pois, para que a comunicação tenha êxito, é essencial que o falante identifique pelo menos em linhas gerais qual é o
contexto cognitivo do ouvinte, bem como que o ouvinte suponha qual é o contexto cognitivo do falante no momento da comunicação. Se o falante ou o ouvinte falham nesta tarefa, a tendência é que ocorram equívocos do ponto de vista comunicativo (mal entendidos, desentendimentos).
Segundo a TR, o contexto “é constituído por suposições expressas e implicadas [pelos enunciados] anteriores, mais as entradas enciclopédicas ligadas a qualquer conceito utilizado em quaisquer dessas suposições, mais as entradas enciclopédicas ligadas a qualquer conceito utilizado [no enunciado novo]” (SPERBER e WILSON, 2005, p. 212). Ou seja, o contexto é construído e modificado no próprio momento da interlocução de maneira singular por cada interlocutor. Cada indivíduo elege um contexto dentre os vários possíveis no momento da interlocução. O que conta para a escolha de um contexto é sua relevância, ou seja, o contexto escolhido pelo indivíduo é aquele que tem um potencial explicativo maior e que exige um menor esforço cognitivo. Esta visão contraria o ponto de vista de que o indivíduo interpreta os enunciados a partir de um contexto objetivo e pré-determinado. De acordo com os autores: “[...] as pessoas esperam que a suposição que está a ser processada seja relevante (de outro modo não se preocupariam em a processar), e tentam selecionar um contexto que irá justiçar essa esperança: um contexto que irá maximizar a sua relevância” (1986/2001, p. 220-1). Uma suposição considerada relevante para um indivíduo é aquela que, num dado momento, é relevante em um ou mais contextos acessíveis a este indivíduo, sendo que deve ao mesmo tempo implicar um grande número de efeitos contextuais e requerer pequeno esforço para ser processada.
Contudo, é de se esperar que uma informação consiga ativar não apenas um, mas vários contextos diferentes, considerando que um input pode relacionar-se com variados conjuntos de memórias (inclusive conjuntos de pensamentos incompatíveis entre si). Sperber e Wilson (1986/2001) abordam esta mesma questão, e mais uma vez recorrem ao princípio da relevância para resolvê-la:
Sugerimos até este momento que a escolha de um contexto para os processos inferenciais em geral, e para a compreensão em especial, é em parte determinada em qualquer dado momento pelos conteúdos da memória do mecanismo dedutivo, pelos conteúdos do armazém das finalidades gerais das memórias de curto prazo, e pelos conteúdos da enciclopédia e pelas informações que podem ser imediatamente tiradas do ambiente físico. Esses factores determinam, não um contexto singular, mas sim um leque de contextos possíveis. O que será que determina a selecção de um contexto especial desse leque? A nossa resposta é que a selecção de um contexto especial é determinada pela procura de relevância (1986/2001, p. 220).
A TR sugere uma compreensão particular sobre a sequência das atividades realizadas pelo ouvinte durante a conversação. Ao contrário da ordem comumente aceita pelas teorias pragmáticas de que primeiro é determinado o contexto, depois realizada a interpretação e, por fim, avaliada a relevância é invertida por Sperber e Wilson (1986/2001): “[primeiro] as pessoas esperam que a suposição que está a ser processada seja relevante (de outro modo não se preocupariam em a processar), e [depois] tentam seleccionar um contexto que irá justificar essa esperança: um contexto que irá maximizar a sua relevância” (p. 220-1).
Voltemos ao exemplo apresentado no tópico 2.2.. Mais do que interpretar sentenças que portam significados fixos e unívocos, o ouvinte identifica as implicaturas geradas pelos enunciados no processo comunicativo. Uma ‘implicatura’ é uma suposição contextual que o falante tem a intenção de tornar clara ao ouvinte, condição para que seu enunciado adquira relevância. O conceito de implicatura contrapõe-se ao de ‘explicatura’, o qual se refere às suposições logicamente dedutíveis de determinado enunciado. O conceito de implicatura auxilia-nos na tarefa de compreender porque a resposta proferida pelo interlocutor 2 pode ser considerada adequada frente a pergunta realizada pelo interlocutor 1.
(interlocutor 1): Você torce para que time?
(interlocutor 2): Eu não gosto de esportes.
Mesmo não respondendo diretamente à pergunta, o interlocutor 2 proferiu uma resposta intencionalmente implicada, tendo em vista o contexto em que é produzida. O conteúdo implicado a partir da resposta do interlocutor 2 está submetido aos mesmos princípios da conversação ‘direta’, o que faz com que o interlocutor 1 possa inferir com segurança que a resposta do interlocutor 2 é intencional, verdadeira e relevante. Além de inferir que o interlocutor 2 não torce para nenhum time, o interlocutor 1 tem condições de inferir outras informações, porém, com graus de certeza gradativamente menores. É o caso, por exemplo, de se supor que o interlocutor 2 não gosta de ir a estádios de futebol ou de assistir aos programas televisivos esportivos. Ainda com menos segurança, o interlocutor 1 poderia supor que o interlocutor 2 tem um estilo de vida sedentário, que não tem hábitos saudáveis e assim por diante.
O uso de processos cognitivos dedutivos tem como principal função checar a existência de contradições e, no caso de encontrá-las, invalidá-las automaticamente70 – considerando que a coexistência de suposições contraditórias na rede de suposições faz com que esta perca seu
70 A não ser nos casos em que uma suposição nova mostra-se mais relevante que o conjunto de suposições já estabelecido pois, neste caso, a suposição antiga é eliminada.
potencial explicativo. Contudo, este é apenas o primeiro passo do processo interpretativo, segundo a perspectiva da TR. Após a resolução das contradições via eliminação das suposições menos relevantes, o indivíduo passa a utilizar regras heurísticas na atividade de interpretação. Tais regras têm o demérito de serem menos objetivas em comparação com o modelo de pensamento dedutivo, porém têm a vantagem de possibilitar construções mais complexas e abrangentes.
Mesmo sem ter garantias, os interlocutores frequentemente realizam suposições mais ou menos prováveis a partir dos enunciados do falante. Tais suposições são formadas a partir da aplicação de pelo menos três formas de pensamento: a dedutiva, a indutiva e a abdutiva71. A primeira delas é a única que garante a certeza das implicações, como quando se conclui que, se
‘Paulo parou de fumar’, então ele já foi fumante. A forma indutiva de pensamento é aquela em que as suposições derivam de repetidas observações de um fato ou de um tipo de relação entre elementos como, por exemplo, quando se supõe que Paulo comparecerá à aula, pois sempre esteve presente nos dias em que houve aulas. Apesar de ser grande a probabilidade do evento ocorrer, não se pode ter certeza acerca do mesmo. Por fim, a forma abdutiva de pensamento é aquela que nos permite fazer relações por alusões e similaridades, mesmo que não haja qualquer garantia que justifique tais relações. São exemplos afirmações como ‘homem não presta’ ou ‘as mulheres não sabem dirigir’ fundamentadas apenas na observação de um único evento ou num número restrito de eventos. Contudo, apesar de ser a que menos oferece garantias, a forma abdutiva de pensamento é utilizada com grande frequência pelos interlocutores nas situações comunicativos.
Ainda não dispomos de nenhum sistema de lógica indutiva que explique satisfatoriamente quais são os processos cognitivos envolvidos no processo inferencial. Sabemos que este processo não ocorre de forma aleatória, caso contrário não seria possível estabelecer um processo comunicativo em que os interlocutores conseguem compreender-se mutuamente. O que se sabe sobre o processo inferencial é que ele ocorre de forma instantânea e inconsciente durante uma conversação usual.
São inegáveis os avanços que a TR proporcionou na compreensão do papel do ‘contexto’ no processo interpretativo e das funções cognitivas nele envolvidas. Por reconhecermos que a TR é a teoria mais adequada para se compreender como o ouvinte realiza a atividade de interpretação, e em especial, das atividades psicológicas inerentes ao processo comunicativo, a escolhemos como paradigma de análise dos dados colhidos em nosso estudo de campo (apresentados no quinto capítulo da tese).
71 Para mais, ver Dascal (1983, p. 142 e ss) e (2006, p.40).
A seguir passaremos a apresentar a teoria e, consequentemente, o modelo de interpretação psicanalítico, sempre tendo como intenção compreender o modo como o psicanalista realiza a interpretação daquilo que é comunicado pelo paciente no contexto clínico e as similaridades e distinções deste modelo de atribuição de significado e o modelo interpretativo utilizado por interlocutores em situações comunicativas espontâneas.