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CAPÍTULO 2 – A PRAGMÁTICA DA LINGUAGEM E SEUS MODELOS DE INTERPRETAÇÃO

2.3. TEORIA DA POLIDEZ

2.3.1 Conceitos fundamentais da Teoria da Polidez

Por ser uma teoria que se propõe a explicar as diferentes estratégias de utilização da linguagem, um primeiro conceito fundamental da Teoria da Polidez é o de ‘pessoa-modelo (MP)49, ou seja, a concepção de homem falante/ouvinte pressuposta pela teoria. Trata-se de um falante/ouvinte ideal, fluente em sua língua, adulto, membro de uma sociedade e dotado de duas propriedades cognitivas especiais: ‘racionalidade’ e ‘face’. A racionalidade é entendida como a disponibilidade de um modo preciso de raciocínio, o qual acessa os meios necessários para alcançar um fim desejado50. Dito de outro modo, o falante elege intencionalmente uma direção, uma sequência de passos, para realizar determinados objetivos. Além da racionalidade, Brown e Levinson (1987) partem do pressuposto de que o falante é dotado de desejos de ‘faces’51 que,

48 Para mais, ver o tópico 2.3.2..

49 No original model person. Trata-se de um conceito ideal para ‘pessoa’, o que implica a recusa de certos ‘pessoas-modelo’ como crianças, pessoas com déficits, transtornos psicológicos ou mentais, entre outros. Este tipo de pressuposto tem como desvantagem diminuir o alcance da teoria, porém promove o aumento do seu poder explicativo frente aos fenômenos que se propõe a elucidar.

50 Segundo Brown e Levinson (1987), o conceito de racionalidade adotado na Teoria da Polidez é proveniente da definição aristotélica de ‘raciocínio prático’. Para mais, ver Brown e Levinson (1987, p. 87-94).

51 Os autores explicitam que o termo ‘face’ foi emprestado de Goffman (1967) e escolhido de acordo com os usos do termo em situações como ‘perder a cara’ (losing face), que no inglês popular refere-se a situações de embaraço e

grosso modo, são equivalentes a duas vontades básicas do ser humano: 1) não ser impedido na realização de suas vontades (desejo da ‘face negativa’) e 2) ser aceito como participante de um grupo social (desejo de ‘face positiva’). O conceito de ‘face’ refere-se à imagem pública que cada um deseja para si. A face pode ser perdida, preservada ou valorizada nas situações de interação comunicativa. Pressupõe-se como universal nesta teoria que os falantes são dotados de faces, porém, cada cultura elege seus critérios para a determinação do que seja uma imagem socialmente aceita ou rejeitada.

Os desejos da face negativa correspondem ao anseio de liberdade de ação, de impor e realizar as vontades próprias. Também podem ser identificadas como desejos da face negativa a necessidade de território (simbólico), reservas pessoais e exigência de direitos. Por sua vez, os desejos da face positiva referem-se à vontade de que a auto-imagem seja apreciada e aprovada pelos outros membros do grupo social. Dessa forma, a pessoa sente-se segura e forte por ser aceita como parte integrante de um grupo composto por membros que têm interesses comuns aos seus. Em suma, os desejos da face negativa estão relacionados com a pretensão que as ações realizadas pelo indivíduo não sejam impedidas pelas outras pessoas. No caso dos desejos da face positiva, estes correspondem à vontade de ser aceito, de ser reconhecido como parte integrante de um grupo social.

Nas situações comunicativas, o falante enfrenta um embate entre querer preservar suas faces e/ou pretender preservar as faces do ouvinte. Isto porque é praticamente inevitável que os enunciados gerem algum tipo de agressão às faces do ouvinte e/ou às do próprio falante. A função principal das estratégias de polidez é a de oferecer aos interlocutores ferramentas que modifiquem o poder agressivo dos enunciados. De acordo com o pressuposto da racionalidade, o falante não considera apenas os fins comunicativos ao proferir os enunciados, mas também os fins relativos às faces, elegendo os meios mais adequados (as estratégias mais adequadas) para alcançar estes fins.

Para Brown e Levinson (1987), o falante sempre utiliza sua racionalidade para escolher a estratégia que, com menos esforço e menos risco, consiga alcançar seus objetivos comunicativos. É importante notar que não são todos os casos em que o falante tem a intenção de diminuir o poder agressivo dos enunciados. São exemplos situações em que o falante quer deliberadamente agredir o ouvinte, reafirmar diferença de hierarquia, desconsideração ou mesmo situações de emergência (pedidos de socorro), entre outros.

Todos, falantes e ouvintes, são dotados de face positiva e face negativa além de serem agentes racionais. Além disso, as pessoas pressupõem que seus interlocutores também são dotados de face. É esta pressuposição que motiva o falante a diminuir ou aumentar o potencial agressivo de

humilhação. No português também são usadas expressões com sentido semelhante como ‘ficou com a cara no chão’,

‘levou/tomou na cara’, entre outras.

um ato/enunciado, o ‘FTA’ (face threatening acts)52. Os FTA’s que agridem a face negativa são aqueles que limitam a liberdade de escolha e o espaço do interlocutor ou do próprio falante, pois implicam impedimentos e/ou restrições. Já os FTA’s que agridem a face positiva promovem a exclusão, desaprovação ou a não aceitação do ouvinte ou do falante de um determinado grupo social.

O falante dispõe de várias estratégias para agredir a face negativa do ouvinte. Uma situação destas ocorre, por exemplo, quando o falante imprime uma pressão no ouvinte ao predizer algo que este fará no futuro, ao dirigir-lhe ordens, ao fazer-lhe solicitações, sugestões, dar conselhos, lembretes, ao ameaçá-lo, adverti-lo, desafiá-lo, entre outros. Imaginemos uma situação em que uma mãe profere o seguinte enunciado ao filho que não fez a lição de casa: ‘Depois que você fizer a sua lição nós iremos passear’. Indiretamente a mãe agride a face negativa do filho ao restringir sua liberdade – pois a mãe condiciona o passeio à realização da lição. Porém, o nível de agressão é minimizado se comparado com um enunciado imperativo como: ‘estou mandando você fazer agora sua lição’.

Já os atos que agridem a face positiva do ouvinte vão desde insinuações de que seus pontos de vista não são compartilhados pelos demais até agressões, desconsiderações de seus sentimentos, avaliações reprovadoras, ridicularizações, acusações, insultos, expressão de indiferença, demonstrações violentas de emoções, irreverência, interrupção da fala do interlocutor, desatenção, menção de tópicos tabus que buscam embaraçar o ouvinte, enfim, atos que indicam que o falante não se preocupa com as opiniões do ouvinte.

Além de distinguir os dois tipos de faces (positivas e negativas), Brown e Levinson (1987) destacam a existência de duas perspectivas de análise do ato comunicativo: a do falante e a do ouvinte. Assim, ao proferir um enunciado, o falante pode agredir ou proteger cada uma das faces do ouvinte ao mesmo tempo em que pode proteger ou agredir cada uma de suas próprias faces.

Entende-se por atos agressivos à face negativa do próprio falante atos como o expressar agradecimentos (o que frequentemente incorre de certa forma num débito do falante frente ao ouvinte), pedidos de desculpas, aceitar ofertas ou fazer ofertas ou promessas não sinceramente desejadas pelo falante, entre outras. A agressão à face negativa do falante se dá quando este produz enunciados que restringem sua própria liberdade ou seu ‘território’. Agressões à face positiva do falante também podem ocorrer nas situações em que o falante age contrariamente ao seu desejo de ser respeitado e aceito pelo grupo. Este é o caso de pedidos de desculpas, auto-humilhações, confissões, admissões de culpa ou responsabilidade, descontroles corporais, entre outros.

52 ‘Atos que agridem a face’. Tradução nossa.

Existe uma grande variedade de estratégias de polidez, sejam elas com potencial maior ou menor de agressão às faces do ouvinte ou do falante. Vejamos na sequência quais são as principais estratégias utilizadas verificadas nas situações comunicativas.