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AS TEORIAS DEMOCRÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: ENTRE O BEM E O JUSTO

2. As Propostas de Fundamentação Democrática no Comunitarismo

2.1 A Noção de Igualdade Complexa de M Walzer

Essa posição foi assumida, dentre outros, por Michael Walzer, autor de As Esferas da Justiça. Mesmo ressaltando a importância do debate gerado pelo liberalismo político, sobretudo, nas suas tentativas recentes (Rawls) de equalizar igualdade com liberdade, Walzer partiu da premissa de que em uma sociedade democrática nenhum bem social pode ser concebido fora de um “igualitarismo aberto e complexo”. Segundo ele, cada comunidade avalia os seus bens de maneira distinta e segundo critérios específicos de justiça.

A compreensão compartilhada desses bens emerge dos sentidos que cada comunidade lhes atribui, determinando assim os critérios de distribuição justa de forma congruente com os significados assumidos e “que podem ir da necessidade à igualdade de acesso, à livre troca no mercado” (Estevão, 2001, p. 27). Sua proposta de apresenta- se como uma espécie de socialismo descentralizado democrático. Ele defende um

“Estado de beneficiência forte, operado, ao menos em parte, por funcionários locais e amateurs, um mercado restringido, um serviço civil aberto e desmistificado, escolas públicas independentes, a partilha do trabalho duro e do tempo livre, a proteção da vida religiosa e familiar, um sistema de louvores e censuras públicas livre de toda consideração de posição ou classe social, o controle por parte dos trabalhadores de companhias e fábricas, a atividade política dos partidos, movimentos, reuniões e debates públicos” (Walzer, 1993, p. 327).

Segundo Walzer, se realmente endossamos os valores da igualdade e do pluralismo democrático, devemos aceitar os diferentes padrões que as comunidades adotam quando avaliam a justiça e suas disposições sociais.

Os bens não são formas abstratas, como algo que se pode ou não desejar, de acordo com as preferências individuais por determinado objeto ou estilo de vida. Os bens e seus significados são o meio crucial das relações sociais (Walzer, 1999). Cada bem, devido ao seu significado para os sujeitos considerados contextualmente, atua dentro de sua própria “esfera”, devendo ser distribuídos segundo sua lógica própria 44.

Ele define dois critérios de justiça para a distribuição dos bens especificamente selecionados. O primeiro princípio defende que a comunidade deve assumir a responsabilidade, sem coação, pelos seus membros. O segundo princípio afirma que cada bem gera um conjunto de razões pertinentes à sua distribuição, que são inerentes ao significado que a comunidade lhe atribui.

Assim, seu argumento sobre a justiça distributiva baseia-se em duas idéias fortes. A primeira é que quando ao pensar em justiça, somos influenciados por um sentido básico do valor de um determinado padrão para a vida comunitária. A segunda é que respeitar nossos bens significa não permitir que indivíduos dotados de um conjunto de habilidades busquem bens que restrinjam as possibilidades dos sujeitos que possuem necessidades e capacidades divergentes de seguirem com êxito seus próprios caminhos e escolhas. São idéias que nenhuma sociedade pluralista que se queira democrática pode, a priori, rejeitar (Estevão, 2001). Elas nos lembram, contra a abordagem individualista, que é preciso ancorar o direito aos bens numa certa

44 Bem se refere, aqui, tanto a direitos quanto a recursos. Pertença a uma comunidade, segurança,

educação, dinheiro, trabalho, amizade, igualdade, etc. Uma concepção bem distinta da que defende Rawls, cuja noção de bens primários refere-se àquilo que todo sujeito racional quer e deseja: direitos, liberdades e oportunidades.

qualidade de vida para toda uma comunidade. A única forma de resolver o problema da especificação mesma dos direitos, e de julgar entre eles quando conflitam seria encará-los como componentes fundamentais no modo de vida.

Os direitos não podem se referir apenas à proteção dos objetivos individuais dos atores, mas deve levar em consideração também a qualidade da interação entre as pessoas. Os sujeitos são considerados ativos na criação de sentidos sociais. A justiça distributiva não tem um caráter universal, pois o critério de distribuição é interno a cada esfera distributiva. Logo, segundo Walzer (1999),

“nunca houve um critério único, ou um conjunto único de critério inter-relacionados, para toda a distribuição. O mérito, a qualificação, a linhagem, o sangue, a amizade, a necessidade, o livre intercambio, a lealdade política, a decisão democrática: tudo isto teve lugar, junto com outros fatores, em difícil coexistência, invocado por grupos em competição, confundidos entre si (...). Os princípios de justiça são em si mesmos plurais na sua forma; bens sociais distintos deveriam ser distribuídos por razoes distintas, com recurso a diferentes procedimentos e por distintos agentes; e todas estas diferenças derivam da compreensão dos próprios bens sociais, a qual é produto inevitável do particularismo histórico e cultural” (p. 18-19).

Os bens sociais são concebidos no interior de uma esfera distributiva que guarda estreita relação com os significados dos bens. Essa é a razão do conceito de “igualdade complexa”, o qual implica que cada bem deve ser distribuído de acordo com o seu significado para cada grupo social. Essa concepção visa impedir a dominação pela qual um grupo pode vir a utilizar o seu controle sobre um determinado bem para filtrar o acesso ou para transformar o sentido social de um outro bem.

“Walzer espera lidar com o problema da consciência falsa, sem recorrer a critérios supostamente universalistas, como algum conjunto de necessidades humanas básicas. A dificuldade é que nossa avaliação de quais os bens que nos interessam tem sua origem na percepção dos

significados compartilhados. Uma vez que este consenso entre em colapso, enfrentamos o problema de julgar, entre diferentes concepções, o lugar onde estão situados os nossos interesses, tendo como ponto de partida as incomensuráveis interpretações de nossas necessidades” (Bellamy, 1994, p. 423).

O erro dos liberais consistiria em “pensar que se pode identificar os direitos dos outros, e, ao mesmo tempo, ignorar completamente os valores que tornam a vida significativa e satisfatória” (Idem, p. 425) 45. Para Walzer (1999), a fonte de nossos objetivos e das nossas obrigações origina-se do bem comum, ou seja, daqueles valores e bens importantes para a vida social e que proporcionam a precondição para ela. A definição do que é o “bem” não deriva de uma contingência histórica.

Essa idéia tem repercussões significativas para a compreensão do processo democrático, uma vez que as condições para o exercício da autonomia, por exemplo, não são tomadas em dissociação com o seu exercício. As opções disponíveis condicionam o tipo de escolha política que fazemos. Mas sua posição também não é isenta de problemas (Elster, 1994), sobretudo, no que diz respeito às versões particularistas de justiça e que podem se colocar como incompatíveis com os próprios direitos dos indivíduos. Nesse sentido, admite-se que Walzer

“separa radicalmente a questão do justo da questão do bem: a primeira se refere exclusivamente aos princípios e às normas de equidade ou imparcialidade capazes de fundar a coexistência da pluralidade de concepções de bem que, nas condições da moderna cultura liberal, não poderiam pretender legitimamente a um reconhecimento público universal; a segunda diz respeito à definição dos valores e dos fins que determinam a identidade própria das pessoas e das comunidades, bem como sua orientação no mundo” (Caillé, Lazzeri e Senellart, 2004, p. 652).

45 Ë interessante ressaltar a proximidade das idéias walzerianas de pluralidade dos princípios de justiça e

a proposição de uma antropologia das competências dos atores sociais de Boltanski e Thévenot (1991). Segundo esses autores, a vida social consistiria na organização de compromissos entre vários “mundos” ou como eles denominam “grandezas” (formas de bem comum consideradas legítimas), mediante formas específicas de coordenação da ação, ampliando o conceito de justiça como uma idéia que precisa reconhecer uma pluralidade de formas de grandeza necessárias para justificar uma ação social.

O projeto comunitarista de Walzer dissociaria o domínio do justo (universal) do domínio do bem (particular), na medida em que a pluralidade de concepções particulares do bem não poderia ser fundada universalmente.

Ele terminaria por confundir também universalidade com neutralidade. A avaliação do justo implicaria uma “estrutura hermenêutica particular” (Idem, p. 654), ou seja, ao reunir as significações múltiplas (e irreconciliáveis) que são atribuídas pelos cidadãos aos bens sociais, sua concepção de justiça terminaria por assimilar os princípios do liberalismo pluralista.