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A noção de trabalho intelectual de John Stuart Mill

O debate sobre a possibilidade dos produtos imateriais serem incluídos naquilo que se chama de riqueza, parecia vigorar na época sem nenhum consenso. Alguns autores, como é o exemplo de Thomas Malthus, já no primeiro capítulo de seu livro Princípios de Economia Política define riqueza enquanto objetos materiais úteis à humanindade, e, consequentemente, um país é considerado rico levando em conta a abundância de objetos materiais (mercadorias materiais e dinheiro) nele encontrados139. Malthus se alinha à posição de Smith sobre a implacável improdutividade dos trabalhos que geram produtos imateriais:

A distinção de Adam Smith, que traça uma linha entre o que é matéria e o que não é matéria, é provavelmente a mais útil e a menos sujeita a objeções. A suscetibilidade à acumulação é essencial para nossas concepções habituais de riqueza. A capacidade de definir avaliação é necessária para que possamos estimar a quantidade de riqueza obtida por qualquer tipo de trabalho. O trabalho realizado sobre produtos materiais é o único trabalho imediatamente suscetível de acumulação e avaliação definida. (MALTHUS, 1996, p. 36).

Por outro lado, também é possível encontrar teorizações que, para explicar a questão dos produtos imateriais e do trabalho intelectual, tentaram promover uma conciliação conceitual entre Smith e Say. É o caso do trabalho Princípios de Economia Política, de John Stuart Mill, que pode ser considerado como uma importante expressão da evolução do debate teórico sobre como os trabalhos que não geram resultados materiais imediatos também podem ser parte constituinte do valor das mercadorias. No início de sua obra, Stuart Mill chama atenção para “uma questão que tem sido objeto de muito debate, isto é, se aquilo a que se dá o nome de produtos imateriais deve ser considerado riqueza” (MILL, 1996, p. 64, grifo nosso).

Segundo o autor, se o trabalho pode ser manual ou intelectual140 seria necessário incluir no conceito de trabalho não somente a atividade em si, mas também todas as características sentimentais, todo incômodo corporal ou mental, todo desagrado gerado no processo, e qualquer emprego do pensamento necessário a determinada ocupação. E, assim,

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“Se desejamos atingir alguma precisão em nossas pesquisas, ao tratar da riqueza devemos estreitar o campo de investigação de modo que compreenda apenas aqueles bens cujo aumento ou diminuição é possível estimar com maior acuidade. Parece-me que a linha mais natural a traçar é aquela que separa os objetos materiais dos

imateriais, ou aqueles suscetíveis de acumulação e avaliação definida daqueles que raramente admitem esses

processos e nunca num grau que permita conclusões práticas úteis.” (MALTHUS, 1996, p. 31, grifo nosso).

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“Toda atividade humana compõe-se de alguns elementos mentais e alguns corporais. O servente de pedreiro mais obtuso que repete diariamente o ato mecânico de subir uma escada, executa uma função que em parte é intelectual, tanto que, na verdade, o cão ou o elefante mais inteligente provavelmente não aprenderiam a fazer o mesmo.” (MILL, 1996, p. 96).

chega à conclusão de que a sociedade efetiva sua produção através do trabalho manual e do trabalho intelectual.141

Sobre o assunto, Stuart Mill dá ênfase à questão do trabalho intelectual que é absorvido pela produção de mercadorias materiais, como é o exemplo do trabalho inventivo, que seria tão importante para a produção quanto o trabalho de execução142. Neste sentido, concordando com Say no que diz respeito à impossibilidade do trabalho humano criar matéria143, bem como sobre possibilidade do trabalho intelectual ser tão produtivo quanto o trabalho manual, Mill distingue três tipos de utilidades produzidas pelo trabalho humano: 1) utilidades fixas e incorporadas a objetos externos, que é o caso de toda a produção material (mesmo aquela que tenha vários trabalhadores intelectuais, o que importa é que o trabalho se incorpore em algum objeto material); 2) utilidades fixas e incorporadas em seres humanos, que diz respeito ao trabalho de conferir qualidades corporais ou mentais aos indivíduos de determinada sociedade, como é o caso dos professores, médicos etc.; 3) utilidades não fixas nem incorporadas em algum objeto, que consistem em um serviço prestado, uma utilidade imediata prestada a outrem, como os músicos, atores, e todo o trabalho de entretenimento.

A discussão de Stuart Mill sobre os três tipos de utilidades geradas pelo trabalho, que inclui as utilidades imateriais, infere na seguinte questão: qual desses três tipos de utilidades podem ser consideradas riqueza? Riqueza diz respeito a toda a produção de utilidade ou apenas aos produtos materiais? A sua resposta, apesar de confusa quanto às influências de Smith e Say, aponta para uma definição que considera riqueza apenas os produtos materiais, e produtivo somente o trabalho imaterial inserido na produção material:

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“O trabalho que confere forças produtivas, sejam manuais ou mentais, pode ser considerado parte do trabalho através do qual a sociedade executa suas operações produtivas” (MILL, 1996, p. 95).

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“Outro tipo de trabalho, geralmente classificado como mental, mas que conduz ao produto final tão diretamente, embora não de maneira tão imediata, quanto ao próprio trabalho manual, é o trabalho dos inventores de processos industriais. Digo geralmente classificado como mental, pois na realidade ele não é somente tal. […] Newton não poderia ter engendrado os seus Principia sem a atividade corporal de escrever ou de ditar; além disso, necessariamente, deve ter traçado muitos diagramas e feito no papel muitos cálculos e demonstrações, quando esboçava os Principia em sua mente. Os inventores, além do trabalho cerebral, geralmente desenvolvem muito trabalho manual, nos modelos que constroem e nos experimentos que têm que executar antes que sua idéia seja posta em prática com êxito. Quer seja seu trabalho mental ou corporal, porém, esse trabalho faz parte daquele outro mediante o qual a produção se efetiva. O trabalho de Watt na invenção do motor a vapor constituiu um componente tão essencial da produção como o dos mecânicos que constroem ou dos engenheiros que operam o instrumento, e esse trabalho foi executado, tanto como o destes últimos, com vistas a uma remuneração a partir da produção. O trabalho de invenção muitas vezes é calculado e pago exatamente na mesma base que o da execução. Muitos manufatores de bens ornamentais têm inventores entre seus empregados, que recebem salários para projetarem modelos, exatamente da mesma forma que os recebem outros empregados para copiá-los. Tudo isso faz rigorosamente parte do trabalho de produção.” (MILL, 1996, p. 96).

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“Mesmo no que se chama produção de objetos materiais, importa lembrar que o que é produzido não é a matéria que os compõe. Nem mesmo todo o trabalho de todos os seres humanos do mundo seria capaz de produzir uma única partícula de matéria. […] O que produzimos, ou desejamos produzir, é sempre, como diz com razão o Sr. Say, uma utilidade. O trabalho não cria objetos, mas utilidades.” (MILL, 1996, p. 100).

É essencial, para o conceito de riqueza, que ela seja suscetível de ser acumulada; coisas que, depois de serem produzidas, não podem ser mantidas por algum tempo antes de serem utilizadas, nunca são consideradas, creio, como riqueza, já que, por mais que delas se produza e desfrute, a pessoa por elas beneficiada não é mais rica, sua situação em nada melhora. No entanto, não há uma violação tão clara e positiva do uso comum em considerar riqueza qualquer produto que seja útil e ao mesmo tempo suscetível de ser acumulado. De acordo com essa definição, devemos considerar produtivo todo trabalho que é empregado em criar utilidades permanentes, quer incorporadas em seres humanos quer em qualquer outros objetos animados ou inanimados. […] Eis por que, neste tratado, quando falar em riqueza, entenderei somente o que se denomina riqueza material, e por trabalho produtivo

entenderei somente aqueles tipos de atividade que produzem utilidades incorporadas em objetos materiais. Entretanto, ao limitar-me pessoalmente a essa

acepção da palavra, pretendo aproveitar a plena extensão dessa acepção restrita, e

não recusarei o qualificativo de produtivo ao trabalho que não proporciona nenhum produto material como seu resultado direto, contanto que tenha como sua última conseqüência um aumento de produtos materiais. Assim, classifico como produtivo

o trabalho despendido na aquisição de habilidade manufatureira, não em virtude da habilidade em si mesma, mas dos produtos manufaturados criados pela habilidade, e para cuja criação conduz essencialmente o trabalho de aprender a profissão. (MILL, 1996, p. 103, grifo nosso).

Os avanços de Stuart Mill sobre o tema dos produtos imateriais são interrompidos no momento em que o autor retoma a segunda concepção de trabalho produtivo de Smith, isto é, ele associa a produção imaterial com improdutividade capitalista.144 No entanto, dentro da Economia Política, Stuart Mill tem o mérito de, em primeiro lugar, demonstrar a ausência de linhas rigorosas que demarcam a separação entre trabalho material e intelectual, hipótese defendida por nós no primeiro capítulo desta tese. Em segundo lugar, por indicar que a dimensão intelectual do trabalho é fator constituinte do processo de trabalho, mesmo dentro da produção material. Em terceiro lugar, por apresentar que embora o trabalho imaterial não se fixe em nenhum objeto externo, ele pode se fixar em seres humanos. Esses pontos em particular, confluem com os pressupostos que Marx veio a desenvolver anos depois na sua crítica da economia política.