Partindo da exposição de Marx sobre as Teorias da mais-valia, as primeiras concepções explícitas e relevantes sobre o caráter imaterial dos produtos do trabalho parecem pertencer ao francês Jean-Baptiste Say. Na obra Tratado de Economia Política, de 1802, Say concretiza a importante tarefa de se contrapor aos seus conterrâneaos fisiocratas, bem como às formulações de Adam Smith que desconsideram o trabalho imaterial enquanto parte constituinte da produção capitalista. Já no primeiro capítulo de sua obra, o autor elabora um novo conceito de produção, e a relevante consideração de que produção econômica não é sinômimo de produção de matéria:
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Já havia, desde os fisiocratas, a noção que separava as atividades produtivas do conjunto de outras atividades que eles nomearam de estéreis. Para os autores da fisiocracia, só era considerado produtivo o trabalho que concorrece para o aumento físico de matéria, característica presente apenas nas atividades primárias como o trabalho agrícola que, na prática do plantio, faz crescer a massa de produtos investidos. (Cf. Quesnay, 1986, p. 257). Sobre os fisiocratas, diz Marx: “ para os fisiocratas, o trabalho agrícola é o único trabalho produtivo, porque o consideram o único trabalho que gera mais-valia, e a rena fundiária, a única forma de mais-valia que conhecem. O trabalhador da manufatura não multiplica a matéria; limita-se a transformá-la.” (MARX, 1980, p. 21).
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O trabalho de algumas categorias sociais, nas palavras de Smith: “não tem nenhum valor produtivo, não se fixando nem se realizando em nenhum objeto permanente ou mercadoria vendável que perdure após encerrado o serviço, e pelo qual igual quantidade de trabalho pudesse ser conseguida posteriormente.” (SMITH, 1996, vol I, p. 334). Assim, Smith considera que os trabalhos com resultados imateriais são improdutivos. Produtivos seriam apenas os trabalhos envolvidos na agricultura e nas manufaturas, trabalhos que possuem resultados materiais duráveis para além do instante de sua produção, que poderiam mobilizar a venda em outros espaços para além do espaço de sua criação. Para um exame detalhado da questão, ver nosso texto Santos (2013).
A massa de matéria de que o mundo se compõe não poderia aumentar nem diminuir. Tudo o que podemos fazer é reproduzir essas matérias sob uma outra forma que as torna apropriadas a um uso qualquer que não possuíam anteriormente ou que simplesmente aumenta-lhes a utilidade que antes já podiam ter. Nessas circunstâncias, há criação de utilidade, não de matéria. […] É nesse sentido que devemos entender a palavra produção em Economia Política e em todo o curso desta obra. A produção não é em absoluto uma criação de matéria, mas uma criação de
utilidade. (SAY, 1986, p. 68, grifo nosso).
Os limites do caráter utilitarista das afirmações de Say não encobrem sua importante percepção: nenhum trabalho é, a rigor, produtor de matéria. Quando muito, o que se chama de trabalho material diz respeito à atividade que imprime determinada mudança de forma na matéria natural, para que possa ser consumida de acordo com a natureza das necessidades humanas.136 É importante lembrar que Marx, assim como Say, nunca conceituou o trabalho como uma atividade produtora de matéria, mas sim como atividade humana e sensível que resulta em valores de uso que satisfazem as mais variadas necessidades humanas. Decorre que em Say encontramos uma peculiar ênfase na consideração dos produtos imateriais enquanto partes do capital produtivo. Esse tipo produto difere daquele que tem a característica do trabalho que se incorpora na matéria, pois os produtos imateriais não duram para além de sua produção. E prossegue:
Minha intenção era, inicialmente, de chamar esses produtos de não-duráveis, mas essa palavra poderia aplicar-se igualmente a produtos de forma material.
Intransmissíveis não é a expressão apropriada, pois esses produtos se transmitem do
produtor para o consumidor. Transitório significa passageiro, mas não exclui a ideia de qualquer espécie de duração. A mesma coisa pode-se dizer da palavra
momentâneo. (SAY, 1986, p. 125, grifos no original).
Desta forma, o autor opta chamá-los de “produtos imateriais” [produits immatériels], como a forma mais adequada de conceituar os valores de uso oriundos de processos produtivos que não visam, diretamente, a transformação objetivada da natureza, gerando utilidades consumidas no próprio ato da produção. Nestes termos, parece caber a Say o uso pioneiro do termo imaterial como forma de entender cientificamente determinados produtos do trabalho.
A contribuição teórica de Say também incide em considerar os produtos imateriais enquanto parte da produção industrial. A indústria, por sua vez, era considerada como qualquer tipo de trabalho produtivo. Segundo o autor, a indústria dos produtos
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“É por terem desconhecido esse princípio que os Economistas do século XVIII, entre os quais encontravam- se, aliás, vários autores bastante esclarecidos, incidiram em graves erros. Só concediam o nome de produtiva àquela indústria que nos proporciona novas matérias, isto é, a indústria do agricultor, do pescador e do mineiro.” (SAY, 1986, p. 72).
imateriais estaria submetida às mesmas leis de qualquer tipo indústria, incluindo a agricultura e a manufatura. É possível que este seja o fundamento da noção ampliada de indústria que Marx desenvolveu cerca de seis décadas mais tarde.
A despeito de ter incluído as atividades imateriais dentro dos processos industriais, o utilitarismo de Say esbarra nos limites de seus próprios postulados: seria produtivo todo e qualquer trabalho gerador de utilidade, não importando as relações sociais que comprimem tal atividade. Ao generalizar a produtividade do trabalho a todos os trabalhos úteis, para Say uma cantora que canta para si mesma é tão produtiva quanto uma cantora que vende seu serviço vocal ao dono de um estabelecimento. A possível especificidade da relação de capital presente nos produtos imateriais passa, assim, despercebida por Say137.
Uma questão salta aos olhos de Say: como o trabalho que gera produtos imateriais é, ao mesmo tempo produtora de capital? O autor fornece uma resposta pouco convincente para esse problema: “entretanto, a maioria desses produtos são resultado de um talento; todo talento supõe um estudo prévio, e nenhum estudo pôde ocorrer sem adiantamentos” (SAY, 1986, p. 127).
Devido a tais imprecisões de muitos de seus antecessores, a crítica da economia política de Marx sempre preferiu incorporar em sua análise uma parte da noção smithiana de trabalho produtivo:
Fica definido o trabalho produtivo do ponto de vista da produção capitalista, e A. Smith penetrou no âmago da questão, acertou na mosca, e um dos seus maiores méritos científicos (essa distinção crítica entre trabalho produtivo e improdutivo, conforme acertada observação de Malthus, constitui a base de toda a economia burguesa) é o de ter definido o trabalho produtivo como o trabalho que se troca de imediato por capital – troca em que as condições de produção do trabalho e o valor em geral, dinheiro ou mercadoria, antes de tudo se transformam em capital (e o trabalho em trabalho assalariado na acepção científica). (MARX, 1980, vol. 1, p. 137).
Apesar de concordar e se influenciar por essa essa primeira definição, há uma outra dimensão smithiana de trabalho produtivo que Say, Marx e outros rejeitam e superam: atribuir ao trabalho imaterial um inexorável caráter improdutivo. Para esta segunda concepção de trabalho produtivo138 de Smith, o trabalho imaterial e os serviços não produziriam valor ou nenhuma forma de riqueza capitalista devido à impossibilidade de sua materialização em algum produto que pudesse ser vendido posteriormente.
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“Percebe-se menos claramente como eles [os produtos imateriais] são, ao mesmo tempo, fruto de um capital” (SAY, 1986, p. 127).
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