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A NOITE DA AGONIA

No documento paulosetubal amarquesadesantos (páginas 80-85)

Abriu-se a Assembléia Constituinte. Antônio Carlos foi o primeiro a subir à tribuna. Calmo e rigoroso, fez o histórico dos acontecimentos. E propôs, ao terminar, que se mandasse uma deputação à Sua Majestade a fim de rogar ao governo que "comunicasse à Assembléia a razão daqueles estranhos movimentos militares".

Seguiram com a palavra, apoiando a idéia, vários deputados. O último a falar foi Martim Francisco. No momento em que o ex-Ministro discursava, chegou à mesa, com surpresa da Assembléia, inesperado ofício do Ministro do Império. O orador interrompeu o discurso.

O Secretário, em meio a pesado silêncio, lê o ofício: O Ministro, por ordem de Sua Majestade, comunicava à Constituinte que os oficiais do exército, queixando-se de insultos sofridos na sua honra, faziam sentir à Assembléia que não toleravam a falta de decoro com que a Augusta Pessoa do Imperador era tratada por "certos redatores de periódicos e seu incendiário partido".

Grande tumulto. Os oradores sucedem-se na tribuna. Discute-se violentamente o ofício. Às três da tarde, depois dos mais encarniçados debates, tomou-se afinal a deliberação de também oficiar ao governo. Redigiu-se a resposta. Era altiva e áspera. Dizia, secamente, que os deputados ignoravam quais eram os "insultos", quais eram os "redatores de periódicos", qual o "partido incendiário". Partiu às pressas um correio para São Cristóvão. E a Assembléia, reunida em sessão permanente, esperou...

Foi então que aqueles homens, naquele momento de angústia, deixaram na história belo exemplo de coragem. Que situação constrangedora! Dum lado o Imperador, com seus canhões, decidido a toda violência. Do outro lado um punhado de homens, sem uma arma, decididos a todo sacrifício. Por isso, aquela noite inteira, noite incerta, de inenarrável aflição, que a posteridade denominou, com tanta justeza, a Noite da Agonia, foi para todos os deputados, naquela cruel expectativa, um desfiar de alarmas e de sobressaltos.

Chegou, pela madrugada, a resposta do governo. Era de chocante rudeza. Clara e sem rodeios: os periódicos, de que se queixavam os militares, eram o ''Tamoio" e o ''Sentinela". Os redatores e chefes do partido incendiário eram o Sr. José Bonifácio de Andrada e Silva, o Sr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada e o Sr. Antônio Carlos Ribeiro Machado.

Ia rompendo o dia... Os partidários de José Bonifácio viram então, bem claro, a delicadeza da situação. Não se tratava mais do "caso Pamplona". O "caso Pamplona" era assunto morto. Agora só se tratava dos Andradas. O governo queria expulsá-los da Constituinte. Foi isto o que se deduziu da resposta. Foi isto o que o governo, logo depois, mandou dizer, oficialmente, no próprio recinto da Assembléia.

Mas os deputados resolveram não abandonar os Andradas. Sustentariam, custasse o que custasse, a causa do Patriarca. Nicolau Vergueiro, apesar da angústia da situação, sugeriu, e foi unanimemente aprovado, que a Assembléia, usando dos seus direitos, exigisse a vinda imediata do Ministro do Império à Constituinte. Havia urgência de explicações verbais. Partiu, incontinenti, novo correio para São Cristóvão.

Às onze horas, no Terreiro do Paço, ecoa o estrépito de uma sege. O clarim reboa seco. A porta da Assembléia clama alguém com entono:

- O sr. Ministro do Império!

Francisco Vilela Barbosa, o futuro Marquês de Paranaguá, hirto e solene, com o seu fardão

bordeaux, com o seu chapéu de bico, com sua espada dourada, penetra vistosamente na

Assembléia. Um deputado, quebrando o silêncio, grita com ênfase:

- Aqui, na Assembléia, não há necessidade de espada! O Ministro que deixe fora a sua.

Mas Vilela Barbosa, sem se perturbar, sorridente e fino, respondeu com uma frase de efeito:

- Esta espada não é para ofender a augusta Assembléia: é para defender a minha Pátria! Posso, portanto, entrar com ela.

E Paranaguá, o homem que D. Pedro escolhera para presidir o gabinete, a figura mais em foco naquela tormenta agitada, dirigiu-se emproadamente à mesa do Presidente. Foi então, debaixo dum silêncio absoluto, que começou o interrogatório.

* * *

No entanto, minutos antes da chegada do Primeiro-Ministro, o porteiro da Assembléia aproximou-se discretamente do velho Andrada. E em voz baixa.

- Está uma pessoa do Paço em casa de Vossa Excelência. E quer falar-lhe em particular. E negócio urgente.

- Pessoa do Paço? Em minha casa?

E intrigado:

- Quem é que trouxe esse recado?

José Bonifácio saiu imediatamente. Tomou a sua pobre sege de boléia. Mandou tocar às pressas para o Rocio.

Em casa, ao penetrar no seu gabinete, o Andrada não pôde reprimir um gesto de surpresa.

- Oh!

E que, diante do Patriarca, luminosa e clara, sorria a favorita de D. Pedro I.

- Vossa Senhoria, Sra. D. Domitila?

- Eu mesma; sr. Conselheiro! Mas não se assuste. Poucas palavras, bem rápidas, decidem o negócio que me traz à sua casa.

E D. Domitila de Castro, sem perda de tempo:

- Sr. Conselheiro: a sorte da Assembléia Constituinte está nas mãos de Vossa Excelência.

E fitando-o bem nos olhos, com desassombro:

- Se Vossa Excelência quiser salvá-la e, ao mesmo tempo, se quiser salvar os seus amigos e a si próprio, só há um caminho a seguir. Um só! E é este: fazer uma aliança comigo. Não quero, como brasileira, assistir a queda do partido de Vossa Excelência e a vitória do partido português. Por isso sou eu quem vem, espontaneamente, oferecer a minha aliança a Vossa Excelência. Aceite-a, Sr. José Bonifácio! E o quanto basta para que Vossa Excelência, de amanhã em diante, seja novamente o dominador do Brasil. Vamos, Conselheiro! Não hesite. Estenda-me a sua mão! E, com este gesto, faça triunfar a sua causa...

José Bonifácio ouviu, perplexo, a proposta da sua grande inimiga. Sabia perfeitamente, mais do que ninguém, que aquela coligação - a dele com a Domitila - seria a arma decisiva para esmagar os seus detratores políticos. Mas aquilo o repugnou. Era indigno dele. E desdenhoso, a fronte erguida, com os seus formosos cabelos brancos, o ancião respondeu sem hesitar:

- Vossa Senhoria enganou-se! Eu e os meus amigos defendemos uma causa sagrada. E a nossa causa, que é a causa do Brasil, não carece de auxílios "dessa" laia!

Por sua vez, fitando-a bem nos olhos, com esmagadora arrogância:

- Saiba Vossa Senhoria, Sra. D. Domitila, que eu prefiro, mil vezes, cair vencido e esmagado, a coligar-me com gente de sua igualha!

E bateu palmas. A favorita mordeu o lábio. O "Corta-Orelha", ao som das palmas, surgiu à porta. José Bonifácio ordenou, ríspido:

- Esta senhora quer se retirar. Vá acompanhá-la até a sege.

D. Domitila mediu o Patriarca de alto a baixo. Toda ela dardejava cólera. E exclamou, ameaçadora e terrível:

- Dentro de duas horas, sr. Conselheiro, Vossa Excelência saberá o quanto lhe vai custar o seu ultraje.

Com um meneio orgulhoso de cabeça, luminosa e clara, a favorita de D. Pedro, num farfalhar de sedas, partiu indignada a caminho de São Cristóvão.

* * *

Na Quinta, estava reunido o Conselho. O Marquês de Paranaguá, de volta da Constituinte, acabara de narrar ao Imperador, detalhadamente, tudo quanto se passara na Assembléia. E D. Pedro, cruzando os braços:

- Mas afinal, Sr. Vilela Barbosa, esses deputados não compreendem que eu quero a exclusão dos Andradas da Constituinte? Vossa Senhoria não disse as coisas claras? Bem claras?

- Disse, Majestade. Disse com todas as letras. Mas que quer Vossa Majestade? Os homens se fazem de desentendidos. Ou antes: os homens entendem tudo muito bem; mas o que querem é sustentar a causa dos Andradas!

- Nesse caso, meus senhores, só há um remédio: é assestar bocas-de-fogo contra o Terreiro do Paço e varrer à bala esses turrões. Não há outro caminho.

E a andar de um lado para outro:

- Não há outro caminho! É dissolver a Constituinte...

Caiu súbito silêncio. Dissolver a Constituinte! Ninguém ousava uma palavra. Nisto, abrindo a porta, surgiu em pleno Conselho a Sra. D. Domitila de Castro. Vinha opressa, muito pálida, trazendo na cintura um grande ramo de café. E enérgica, a voz vibrante, toda incitamento:

- Sr. D. Pedro! A Assembléia inteira foi arrastada por José Bonifácio. Todos os deputados estão contra Vossa Majestade. E preciso dissolver a Constituinte! E não há tempo a perder; é preciso dissolver aqueles arruaceiros antes que eles levantem o povo contra Vossa Majestade.

D. Pedro, diante daquela rajada impetuosa, sacudiu a hesitação que o perreava. Virou-se bruscamente para os circunstantes:

- Meus senhores! A cavalo e a postos!

Ergueram-se todos. Então, num gesto dramático, D. Domitila, arrancando da cintura o seu verdejante ramo de café, adornou com ele o chapéu do Imperador:

- Que seja este o emblema dos bons brasileiros! Que triunfe, com ele, a causa do Imperador. (24)

D. Pedro, à frente dos canhões e da soldadesca, esporeando o seu enfunado ginete, partiu a caminho da Assembléia Constituinte.

Os deputados continuavam em sessão permanente. Esperavam o desfecho dos acontecimentos. A situação era dolorosa. Que fazer?

Eis que, em meio à ansiedade, ecoa súbito rufar de tambores. Partiu de todos os lados um grito só:

- Tropa!

Instantes após, sob o comando do Major Morais, o esquadrão de São Paulo, que o povo apelidara, chistosamente, o "esquadrão da Domitila", postava-se em frente à Constituinte. Os soldados estenderam-se em linha de combate. Os artilheiros assestaram os seus canhões. E o Major Morais, com o seu ramo de café, galopou ufano para a Assembléia.

Martim Francisco estava com a palavra e exclamava:

"O Sr. Martim Francisco: Daqui só iremos, sr. Presidente, para onde a força armada nos mandar. O nosso lugar é este. E aqui que devemos deliberar.

O Sr. Antônio Carlos: Se nos for permitido deliberar..

O Sr. Lopes da Gama: Eu creio que nem podemos deliberar: estamos cercados.

O sr. Presidente: Enquanto estivermos cercados, seguramente não podemos deliberar..."

Foi quando Major Morais assomou à porta da Assembléia. Solene, empenachado, metido no seu uniforme de calção vermelho, passou às mãos do Secretário, que fora recebê-lo, o decreto de Sua Majestade. E ali, debaixo de um silêncio de morte, com todos os deputados de pé, como

se compreendessem bem que estavam vivendo um notável momento histórico, o secretário leu, com pausa, gravemente este célebre

DECRETO: - Havendo Eu convocado, como tinha direito de convocar, a Assembléia-Geral e Legislativa a fim de salvar o Brasil dos perigos que lhe estavam iminentes e havendo dita Assembléia perjurado ao tão solene juramento que prestou à Nação, de defender a integridade do Imperador, sua independência, e minha dinastia: Hei por bem, como Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil, dissolver a mesma Assembléia...

Grosso sussurro de ironia perpassou pela Assembléia. Vários deputados pediram a palavra.

"O Sr. Alencar: Não sei para que pedir a palavra!

O Sr. Antônio Carlos: Nós já não temos mais o que fazer aqui..."

Então, diante das baionetas, debaixo daquela ostentosa coação, os deputados, um por um, começaram a abandonar o recinto. Os dois irmãos Andradas saíram juntos. Na rua, ao pisarem a calçada, o Major Morais deteve-os:

- Estão presos!

Antônio Carlos, ouvindo a ordem, virou-se para um formidável canhão, ameaçadoramente assestado contra a Assembléia, tirou o chapéu, e, com um gesto largo, saudou-o numa reverência:

- Respeito a Sua Majestade o Imperador!

Foram ambos detidos. Faltava, porém, José Bonifácio. O Major Morais, tornando-se para o oficial a seu lado, deu-lhe uma ordem enérgica. O oficial fez continência e partiu a galope.

Momentos depois, na sua pobre casa de moradia, o velho Andrada, o Patriarca da Independência do Brasil, era preso sumariamente.

Conduziram-no, como se fosse um criminoso qualquer, para a Fortaleza da Lage. Ai, numa enxovia imunda, sobre o roto pedaço de tapete, o nobre ancião, branco e venerando, dormiu a primeira noite da sua queda política. Os inimigos dele, que eram os triunfadores do dia, rejubilaram-se fragorosamente com esse feito. Mas a Pátria, a alma do Brasil, soluçante e desgrenhada, passou aquela noite inteira, junto ao cárcere do paulista, chorando essa ingratidão inominável.

No documento paulosetubal amarquesadesantos (páginas 80-85)