• Nenhum resultado encontrado

O BILHETE FINAL

No documento paulosetubal amarquesadesantos (páginas 153-157)

A Sra. Marquesa de Santos amanhecera com a alma enevoada. Tudo nela era agitação e sobressalto. Os olhos, vermelhos e febrentos, revelavam as vigílias que a atormentavam; e os seus modos, irascíveis e irrequietos, a tempestade que lhe desmantelara os nervos. Sentada no seu gabinete, indiferente à alegria daquela fresca manhã de sol, que cascateava ouro sobre as árvores do seu pomar, a Sra. Marquesa repassava, com azedume, os últimos acontecimentos. A cena com o Chalaça... O banquete... A Baronesa de Sorocaba... O ataque epiléptico... A reclusão de D. Pedro... E mergulhada em cismas, numa hipersensibilidade mórbida, D. Domitila sentiu violento estremeção, quando o criado, á porta da entrada, anunciou com todas as letras:

- O Sr. Comendador Francisco Gomes da Silva!

Depois da noite fatal, em que se desenrolara entre ambos aquela cena vertiginosa, nunca mais havia a Sra. Marquesa trocado palavra com o valido. Inimigos rancorosos, começaram ambos, desde esse dia, a se odiar de morte. E por isso, naquela manhã, a súbita aparição do Chalaça no palacete da Rua Nova, embasbacara a Sra. Marquesa de Santos. No entanto, fingindo uma calma que lhe custava, tornou-se tranqüila para o criado:

- Que entre!

Francisco Gomes, muito respeitoso, um sorriso cortesão no lábio, entrou polidamente no gabinete da favorita. D. Domitila, porém, desdenhosa e rude, sem se dignar oferecer uma cadeira, perguntou com secura:

- Que é que você quer?

O Chalaça, risonho, afetando a cortesanice mais afável, curvou-se diante da ríspida senhora:

- Sua Majestade mandou-me aqui para entregar esta carta a Vossa Excelência.

E passou às mãos da Marquesa a carta do Imperador.

D. Domitila, apesar da ira que lhe espumejava no coração, ainda não tivera ensejo de narrar a D. Pedro o atrevimento do Chalaça. O dia seguinte àquela cena incrível, fora o dia do banquete. E depois daquele banquete, tão sinistro e lúgubre, D. Pedro, recolhido aos seus aposentos, não recebera a ninguém. Tornara-se assim impossível revelar ao Imperador as audácias do seu valido. Naquele dia, portanto, foi com ânsia que a paulista rasgou o envelope da carta inesperada. Começou a ler...

O Chalaça, de pé, ia contemplando, diabolicamente, as emoções que se pintavam no rosto da Sra. Marquesa. D. Domitila ao ler, empalideceu horrivelmente. É que D. Pedro, com duro autoritarismo, determinava à Sra. Marquesa de Santos - ordem tremenda! - que abandonasse imediatamente a Corte. A carta, entre outras coisas, dizia isto:

"É urgente que vosmecê, debaixo de pretexto de saúde. peça licença para ir estar em outra Província do Império. a fim de Eu poder completar o meu casamento, ao qual de frente se opõe a sua residência nesta Corte. De onde se torna indispensável que vosmecê saia imediatamente

da Corte. O caso é muito sério. E esta minha comunicação deve ser tomada pela Marquesa

como um aviso que lhe convém aproveitar. E fique certa que esta é a minha derradeira resolução. Assim como a derradeira carta que lhe escrevo, a não me responder com aquela obediência e respeito, que lhe cumpre como minha súdita, e, principalmente, como minha criada".(47)

D. Domitila, pálida, mordia o lábio, despeitadíssima. O Chalaça, venturoso, saboreava aquele triunfo imenso. Nunca, em toda a sua vida, o truão imaginaria alcançar, sobre a deusa onipotente, vitória assim tão esmagadora. Mas D. Domitila, sempre sobranceira, dominando os nervos, contemplou o valido com grande soberba:

- A carta está entregue. Pode retirar-se.

O Chalaça, antes de partir, quis ainda remoer com desapiedade a alma atribulada da favorita. E então, fitando estranhamente D. Domitila, com a voz muito intencional, muito maldosa:

- O Senhor Desembargador Aragão, Intendente de Polícia, já descobriu quem mandou atentar contra a vida da Baronesa de Sorocaba. É bom que Vossa Excelência, para seu governo, saiba disso.

A Marquesa empalideceu ainda mais. Contudo, sopitando ainda a nova emoção que a sacudia, respondeu com serenidade:

- Está bem. Pode retirar-se!

O Chalaça despediu-se com as mais rasgadas mesuras.

E mal o Secretário Privado desapareceu sob o reposteiro, já a atarantada senhora gritava ansiadamente para o criado:

- Mande atrelar a sege!

D. Domitila correu ao toucador. Instantes depois, com um farfalho de sedas, a elegantíssima paulista mandava tocar a toda brida para São Cristóvão. Ah, no seu peito, fervilhando e espumando, rugiam ódios insopitâveis.

Era preciso, absolutamente preciso, que D. Pedro soubesse de tudo. Que soubesse do atrevimento daquele Dou Juan. Que soubesse, bem ao certo, quem era aquela alma negra de intrigante. Ah, com que paixão, com que volúpia, D. Domitila haveria então de esmagar o desaforado truão, pisá-lo debaixo dos pés, arrasá-lo, moê-lo, como quem mói uma víbora peçonhenta. E ia revolvendo, dentro do peito, planos tremendos de vingança.

Nisto, a sege estacou em frente ao pórtico da Quinta. D. Domitila saltou. Subiu agitadamente as amplas escadarias. João Carlota, na antecâmara, atendeu-a. E D. Domitila, com modos secos, ordenou autoritariamente ao criado:

- Preciso falar à Sua Majestade. Vá avisar. Diga que é negócio urgente.

João Carlota, embaraçado, postou-se em meio da porta e respondeu com um arzinho de mofa:

- Impossível, Sra. Marquesa!

- ?!

- Impossível, tornou o criado; tenho ordens terminantes para não admitir a entrada de Vossa Excelência.

- Ordens terminantes? perguntou a Marquesa com pasmo. E de quem são essas ordens, João Carlota?

- De Sua Majestade, Sra. Marquesa!

D. Domitila tremeu. O sangue, numa ondada purpúrea, chofrou-lhe no rosto. Houve um instante de silêncio. E naquele instante, como por milagre, uma idéia súbita acudiu-lhe ao cérebro. Era a salvação. A Marquesa disse apenas:

- Está bem. Nesse caso, João Carlota, eu quero falar com o Tenente Morais. Vã chamá-lo.

- O Tenente Morais?

João Carlota olhou a Marquesa. E com aquele mesmo ar de mofa, aquele ar escarnecedor:

- Vossa Excelência está muito atrasada! O Tenente foi hoje despedido do Paço.

- Despedido, sim senhora. E, ao que parece, despachado para São Paulo...

D Domitila arregalou os olhos. Desconcertada, a favorita sentiu que o sangue se lhe escoava das veias. Aquilo era demais! Arrasada, o coração ferido de despeito, D. Domitila desceu, aturdida, as escadarias do Paço.

Na sege, a Marquesa de Santos, apesar das iras que a sufocavam compreendeu, numa visão bem nítida, o descalabro de sua vida. Aquilo era a derrota. Era a expulsão. Era o ponto final.

Ao saltar da sege, no entanto, D. Domitila, com espanto, avistou a caleça do Intendente de Polícia estacada diante de sua casa. Que seria aquilo?

À O Desembargador Teixeira de Aragão, dentro, sentado no gabinete, o aspecto severo. esperava pacientemente a Sra. Marquesa. D. Domitila, ao chegar, transmutou-se logo. E gentil, com encantador sorriso, apressou-se em cumprimentá-lo efusivamente:

- Oh, Sr. Desembargador! Que prazer em vê-lo nesta sua casa. A que devo eu a honra de tão inesperada visita?

O Intendente de Polícia, com modos frios, o falar cortante, respondeu pausadamente:

- Um caso muito sério, Sra. Marquesa.

E fixando-a bem nos olhos:

- É o caso da tentativa de assassínio da Sra. Baronesa de Sorocaba.

- Ah! E então?

- Então, Sra. Marquesa, pelas provas que eu colhi, ficou bem documentado que foi Vossa Excelência a mandante desse crime...

- Sr. Desembargador!

- É inútil, Sr. a Marquesa, o querer Vossa Excelência, com esses espantos, teatralizar um caso perfeitamente provado. O mulato, que disparou os tiros é um apaniguado de Vossa Excelência. E ele confessou tudo. (48) Portanto, Sra. Marquesa, não discutamos esse ponto. Mas ouça lá o que lhe digo. Se Vossa Excelência quiser evitar escândalo, este imenso escândalo que está trovejando sobre a sua cabeça, trate de cumprir as ordens que Sua Majestade enviou a Vossa Excelência na carta de hoje: partir para São Paulo, a sua Província, e nunca mais pensar em voltar à Corte.

D. Domitila ouviu, esmagada, o Intendente de Polícia. Compreendeu, num relance, a enormidade da sua catástrofe. A sua queda inevitável. Então, com aquela sua habilidade sutil, com aquela finura de mulher habilidosa, D. Domitila respondeu com sobranceira:

- Essa história do tiro, que Vossa Excelência acaba de contar, é pura fantasia, sr. Desembargador.

O Intendente quis falar. Mas D. Domitila, com gesto brusco, cortou-lhe a frase:

- Pura fantasia... E é coisa de somenos importância. O principal, o fim único de tudo isto, eu o compreendo bem, é fazer com que eu me retire da Corte. Sua Majestade vai se casar. E pensa, com os meus inimigos, que eu, vivendo na Corte, seja capaz de molestá-lo. Fique Sua Majestade descansado. Não serei eu quem vá perturbar a felicidade do Imperador. Vossa Excelência pode tranqüilizá-lo. Senhor desembargador! Amanhã, queira afirmá-lo a D. Pedro, amanhã impreterivelmente, eu parto para São Paulo.

D. Domitila abancou-se à sua secretária. Escreveu meia dúzia de linhas. Depois, com arrogância e desdém, apresentou o papel ao desembargador:

- Faça o favor de entregar este bilhete a D. Pedro. Leia!

Teixeira de Aragão lançou rapidamente os olhos por aquelas linhas. O bilhete dizia apenas isto:

Minha presença não lhe há de mais ser fastidiosa, nem Vossa Majestade casando e nem deixando de casar: só desta maneira terão sossego os meus inimigos.

Marquesa de Santos.

No outro dia, logo ao alvorecer, certa tropilha de mulas, carregando baús e canastras, trotava pela estrada de São Paulo. Atrás, montada em rico silhão de veludo, ia uma senhora, formosa e morena, elegantemente vestida de amazona. Ao lado dela, num alazão, um moço louro, muito esbelto. Ambos, parados numa curva do caminho, contemplaram por instantes com olhos longos e mortiços, a cidade que ficava ao longe, lá para as bandas do mar. Era a Sra.Marquesa de Santos, a grande paixão de D. Pedro I, que ia, seguida pelo Moraizinho, a caminho do seu desterro...

No documento paulosetubal amarquesadesantos (páginas 153-157)