4. Os textos da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
4.8. A nova historiografia e seus reflexos no Sphan
Ao mapearmos as revistas do Sphan, vimos algumas de suas características. Ressaltamos o uso de documentos como base indispensável na construção dos argumentos em cada artigo e o caráter descritivo que presidiu inúmeros textos ao longo dos dezoito volumes. Contudo, se tais aspectos mereceram tom de crítica, é preciso fazer uma ressalva quanto as propostas e as perspectivas da revista.
Se, por um lado tínhamos uma leitura positivista dos dados coletados e um anseio colecionista pelos documentos, por outro é necessário reconhecer o mérito das Revistas do Sphan quanto as fontes pesquisadas. Digo o mérito quanto ao tipo de fonte pesquisada. Nesse sentido, destacamos que a publicação esteve em total sintonia com as novas tendências da historiografia da época, que ampliou o espectro de fontes passíveis de análises – quase tudo se tornava fonte histórica –, rejeitando a ideia de que apenas documentos “oficiais” poderiam compor a história.
Assim, livros de registro de Ordens Religiosas, cartas, missais, plantas, fotografia, pintura, gravura, músicas, relatos orais e o próprio monumento passaram a ser analisados como portadores de “uma história”. Hannah Levy, uma das principais teóricas a escrever na revista evidencia aquilo que apontamos:
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SANTOS, F. M. dos. José Joaquim Viégas de Menezes. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 2. Rio de Janeiro, 1938. p.134-139.
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Convém desde logo distinguir dois grupos gerais de fontes, a saber: a) as que, de uma forma ou de outra, foram produzidas intencionalmente para esclarecer um fato biográfico, uma obra determinada, etc.; b) e as fontes que só por acaso mencionam o nome de um artista, a data do término de um monumento, a existência de um quadro, etc.126
Noutro trecho a pesquisadora escreve:
Existe, é verdade, um certo número de fontes semi-diretas, mas cujo valor, no que concerne à pintura colonial fluminense, é um tanto relativo. Queremos nos referir às anedotas de artistas, transmitidas pela tradição. Primeiramente, porém, iremos tratar do vasto e importantíssimo domínio das fontes indiretas, procurando expô-las por grupos principais, no que seguiremos, em suas linhas gerais, o esquema proposto pelo historiador da arte, Dr. H. Tietze [...] É natural que, no caso de artistas dos quais sabemos pouco mais do que o nome, o estudo das fontes documentárias se torne ainda mais difícil e mais extenso, vendo-se o pesquisador forçado a seguir tôdas (sic) as pistas que se lhe deparem, seja pela vaga menção de um nome relacionado com o do artista, seja por uma obra atribuída a êle (sic), seja por um fato histórico que tenha ocorrido em seu tempo, etc.127
Hannah Levy trazia consigo o aprendizado europeu, sobretudo alemão, do qual teve acesso. A pesquisadora certamente se diferencia dentro do quadro de autores da revista, tanto por sua clareza, quanto por sua articulação de teorias nunca antes abordadas na revista. A preocupação em delimitar historicamente seu texto, antes de apresentar e analisar as pinturas de que o artigo trata demonstram isso.
No entanto, ela não foi exceção quanto às propostas de trabalho com novas fontes e novas perspectivas de abordagens. Na mesma linha que Levy, Robert Smith sugeriu a comparação entre riscos originais de uma planta e o atual estado da edificação para poder- se entender as modificações feitas no prédio e, a partir daí, entender o contexto no qual esteve inserido para que houvesse tais mudanças. Para ele:
há poucos edifícios coloniais nas Américas que não tenham sofrido alguma alteração no seu aspecto original, modificados conforme o gosto de gerações sucessivas [...]. A tarefa de um estudioso da arquitetura da América colonial é por isso, na maioria das vezes, um problema de reconstrução.128
126 LEVY, H. A pintura colonial no Rio de Janeiro. Op. Cit. p. 8. 127 Idem. p. 9 - 12.
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SMITH, R. C. Alguns desenhos de arquitetura existentes no arquivo histórico colonial português. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 4. Rio de Janeiro, 1940. p. 209.
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O autor ainda indicava como o pesquisador deveria proceder em uma análise:
Os documentos contemporâneos são as testemunhas mais preciosas. Se quisermos saber exatamente qual foi o aspecto de uma construção colonial no momento da sua inauguração, temos que ter acesso ao desenho aprovado pelo próprio arquiteto. Outros desenhos rejeitados nos darão ideia das fases preliminares da inspiração. Saberemos, assim, o processo da construção segundo a primeira, a segunda, ou mesmo a terceira invenção.129
A metodologia proposta por Smith ecoou no Sphan e vários autores compararam plantas e edifícios na intenção de documentarem mudanças e adaptações. Raimundo Trindade, por exemplo, em “A igreja de São Francisco de Assis de Mariana”, citou: “documentarei a seguir as alterações feitas no risco do arquiteto José Pereira dos Santos, às quais me referi folhas atrás”130
. Lourdes Pontal também documentou as alterações entre o edifício original e a atual sacristia da catedral da baía:
Terá sido, realmente, a Sacristia da catedral de hoje um aproveitamento da igreja antiga ou de parte dela? [...] aquela igreja [igreja primitiva mandada erguer por Mem de Sá, em Salvador], portanto, nunca poderia ter sido aproveitada, quer inteira, quer em parte, para a sacristia atual, que se acha no alinhamento do quarto de oeste e por fora da quadra, o – que vale dizer em desacordo completo com o depoimento de Anchieta, que dá a igreja a leste.131
Smith foi outro estrangeiro a colaborar com a revista, porém não podemos nos levar pela falsa impressão que apenas eles – os estrangeiros – propuseram diversificar as fontes de pesquisa. Na verdade essa parecia ser mais uma característica da revista, e quem sabe aí temos a mão de seu diretor/editor. Ainda que de maneira restrita, autores brasileiros, com formação brasileira, também propuseram a inovação nas fontes. Tal como David Carneiro, que para analisar a história da cidade do Recife escreveu:
Como documentos dos mais valiosos devemos enumerar, em primeiro lugar, as plantas, quadros e desenhos executados pelos holandeses durante o tempo da sua permanencia (sic) no Brasil e em anos posteriores, os quais constituem uma fonte copiosa de informações das mais uteis (sic) para o
129 Idem. p. 210.
130 TRINDADE, R. A igreja de São Francisco de Assis de Mariana. Op. Cit. p. 72. 131
PONTAL, L. A sacristia da catedral da baía e a posição da igreja primitiva. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 4. Rio de Janeiro, 1940. p. 201-205.
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conhecimento do cenario (sic) e da vida do nosso país, quasi (sic) nos primórdios da sua história.132
O autor não só inova ao propor tais objetos como meio de análise, ele também parece absorver a interpretação de Sergio Buarque de Holanda sobre a colonização portuguesa no Brasil, examinando a cidade para diferenciar o projeto lusitano do projeto holandês de urbanização:
Neste ponto se chega a distinguir com a maior nitidez as maneiras de conceber e construir uma cidade, mantidas por holandeses e portugueses, em Pernambuco. Ao passo que os primeiros, não apenas por um instinto natural de defesa, mas, sobretudo, por uma melhor compreensão da vida urbana, iam construindo as suas casas sempre alinhadas e bem distribuidas (sic) ao pé das fortalezas; as cidades portuguesas prosperavam, quasi (sic) sem discrepancia (sic), com o estabelecimento de novos núcleos de habitação, em torno dos pateos (sic) das igrejas.133
É importante ressaltar que muito desta documentação primária da história do Brasil apresentada nos artigos são inéditas e diversas vezes colhidas em arquivos do exterior. Como exemplos, podemos citar: “O Álbum de Highcliffe”, Alberto Rangel (vol. 6, 1942); “O códice de Frei Cristóvão de Lisboa”, Robert C. Smith (Vol. 5, 1941); “Frans Post e Albert Eckout, pintores holandeses do Brasil e a ‘tapeçaria das Índias’”, Michel Benisovich (Vol. 7, 1943). Até mesmo a música, que aparentemente serviria mais ao descanso e apreciação cultural, compunha o rol de fontes de estudos históricos para o Sphan. Segundo Dom Clemente Silva-Nigra:
Compete, porém, ao investigador especializado rever os antigos arquivos das sés, paróquias e conventos do Brasil colonial, onde ainda se poderão encontrar muitas partituras de canto e música polifônicos do gênero pastoril. Parece que o Estado de Minas Gerais sobretudo, continua a guardar bom acervo de música do século XVIII.134
132 CARNEIRO, D. Colégio dos Jesuítas de Paranagua. Op. Cit. p. 384. 133 Idem. p. 389.
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SILVA-NIGRA, d. C. Temas pastoris na arte tradicional brasileira. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional n. 8. Rio de Janeiro, 1944. p. 328.
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No intuito de demonstrar como tal perspectiva foi amplamente divulgada, poderíamos também recorrer aos textos de Hélcia Dias, Salomão de Vasconcelos ou Alfredo Galvão135, só para citar alguns casos.
Ainda assim, teríamos os textos vinculados à área da antropologia/etnografia, os quais também refutavam a ideia do documento oficial como única fonte de pesquisa. Raimundo Lopes, por exemplo, em seu artigo “A natureza dos monumentos culturais”, demonstra que até a natureza pode ser utilizada como fonte de pesquisa:
Enfim, ‘last but not least’ – façamos fraternal sugestão aos geógrafos, historiadores, etnógrafos e artistas, para que pesquisem as relíquias do passado sempre com os olhos na natureza, e aos naturalistas, em geral, para que vejam, sempre, quando na natureza tenha relação com o passado e a raça, procurando os mil laços que unem o homem ao ambiente [...].136
Seria, entretanto, desnecessário avançarmos mais nesse ponto. Visto que é perceptível a atitude do Sphan quanto as novas fontes. É também notória a constante indicação de temas de pesquisa e métodos de análises nesses trechos analisados.
Quando se tratou dos textos, parece-nos que a posição do Sphan durante o comando de Rodrigo Melo Franco de Andrade foi exatamente essa: entre os fragmentos do passado e as possibilidades do presente, utilizava-se amplamente uma metodologia já consolidada, tentando, entretanto consolidar novos objetos no campo da pesquisa; e um novo saber no campo das ideias.
135 Esses autores escreveram respectivamente os textos: “O mobiliário dos inconfidentes”. Revista do Sphan, n. 3, 1939; “Os primeiros aforamentos e os primeiros Ranchos de Ouro Preto”, Revista do Sphan, n. 5, 1941; “Feliz Emílio Taunay e a Academia das Belas Artes”, Revista do Patrimônio, n. 16, 1968.
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LOPES, R. A natureza dos monumentos culturais. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 1. Rio de Janeiro, p.95-96.
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Considerações Finais
Ao longo desse trabalho procuramos delinear a política editorial do Sphan como uma das vertentes do projeto patrimonial brasileiro, tendo na centralidade do órgão federal e da figura de Rodrigo Melo Franco de Andrade dois pontos estratégicos para nossa pesquisas. Entretanto, nesse percurso encontramos obstáculos que forçaram a mudança de trajetória. A busca incessante por documentos que articulassem os textos da Revista do Patrimônio com conceituações mais gerais e pressupostos mais claros na organização e seleção de textos mostrou-se vã. Não há, como deixamos claro nos capítulos iniciais, documentos que evidenciem as linhas mestras que guiaram a organização da Revista ou pressupostos que orientaram Andrade na escolha dos textos. Nesse sentido, avultou-se sobre nós aquilo que historiografia recente sobre o Sphan já tratou longamente: um espírito de patriotismo “heroico” guiava o rumo da repartição. Uma atmosfera heroica reunia acadêmicos, modernistas e intelectuais de várias áreas do conhecimento ligados ao projeto de preservação nacional.
Tal projeto denotava a ligação entre esses intelectuais, tidos como vanguardistas em suas áreas de atuação, e o estado ditatorial de Getúlio Vargas. O elo que conectava esses dois universos aparentemente díspares era o Ministério da Educação e Saúde Pública, comandado por Gustavo Capanema, que deu espaço e liberdade para Rodrigo Melo Franco realizar seu projeto. Para tanto, a justificativa alicerçou-se em algo abstrato e, ao mesmo tempo,“indiscutível”, garantindo com isso o apoio de progressistas e conservadores. O patrimônio aparecia como a nobre tentativa de equiparar o Brasil às nações civilizadas.
No entanto, era abstrato, pois o conceito de civilização brasileira ainda era uma concepção em disputa. Ser civilizado possuía gradações diferentes mesmo para os integrantes do movimento modernista, que colaboraram fundamentalmente na criação do serviço.
Indiscutível, pois preservar o passado, as tradições e a cultura são parte essencial na invenção de uma memória nacional. E defendendo seu patrimônio, os brasileiros estariam trazendo para o trópico uma prática comum às nações europeias que tanto almejávamos.
Nesse sentido, vimos no primeiro capítulo os embates que resultaram na criação do Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional. Ali se evidenciou que longe de ser um
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consenso o projeto de preservação gerou inúmeras controversas e acabou sofrendo várias alterações, aparecendo muito mais vago e impreciso quando transformado em lei. Entendemos tais modificações como uma estratégia, a qual deixou para o próprio órgão, na execução de suas tarefas cotidianas, a fixação de seus limites. Com isso, se sobressaiu a centralidade da sede no comando da tarefa, tendo os arquitetos e o próprio diretor como o anteparo de suas ações.
Foi a partir da história pretérita do Sphan que nos deparamos com a Revista. Sem ter outro aspecto senão o próprio texto como fonte de nossa pesquisa, buscamos historiciza-lo para compreender o contexto no qual se inseriu e, por conseguinte, compreendê-lo de maneira mais ampla. Como apontou Jean Marie Goulemot o sentido de determinado texto em dado momento está além dos significados das palavras e frases, ele é constituído historicamente137. Além da singularidade da leitura feita por cada indivíduo – que ganha novos sentidos de acordo com suas memórias, e as comparações com o que foi lido antes – o significado de um texto também pode variar de acordo sua historicidade. O sentido de uma obra está condicionado ao momento histórico em que ela é lida138. A partir disso, entendemos a publicação do Sphan como uma leitura vinculada a um momento histórico específico e produtora de novos sentidos.
Fundamentados historicamente, traçamos como essencial na formação intelectual do grupo que esteve ligado ao Sphan o conceito de Civilização Material, trazido por Afonso Arinos de Melo Franco no curso de formação para os técnicos e funcionários da repartição. Tal ideia foi o conceito-chave para interpretarmos a Revista e dedicamos um capítulo quase que exclusivamente para entendê-lo. Trouxemos a lume as publicações daquele autor e acompanhamos seu pensamento sobre a formação da civilização brasileira. Esse esteve baseado numa ideia de progresso, segundo um caminho que sai do estágio menos desenvolvido para um estágio mais desenvolvido. Para tanto, Arinos articulou informações dos ciclos econômicos, os quais, para o autor, resultaram na formação e ocupação territorial do Brasil. O Sphan e suas revistas foram refrigério desse pensamento, pois adotaram singularmente as concepções de Arinos, transparecendo em seus textos uma história que
137 GOULEMOT, Jean Marie. Da leitura como produção de sentidos. In: CHARTIER, Roger (org.). Práticas da Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2001, p. 108.
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DARNTON, Robert. História da leitura. In: BURKE, Peter (org.). A escrita da história: Novas perspectivas. São Paulo: Editora Unesp, 1992, p. 233.