4. Os textos da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
4.3. O Clima e a originalidade do patrimônio nacional
Apesar de enaltecer a herança portuguesa, não se pode afirmar que a revista ou mesmo o Sphan tentaram “recolonizar” o país, fazendo crer que somos uma cópia – mal feita – da nação lusitana. Pelo contrário, o fato da influência portuguesa ter sido tão presente não nega à arte e arquitetura colonial o caráter de autenticidade e originalidade. Aqui cabe inclusive uma hipótese já levantada por nós: seria via herança artística lusitana, representada pelo barroco, nosso passaporte de entrada para o rol das nações civilizadas? Vemos surgir, a partir do referencial português, uma nação brasileira, tida como única e original.
Emergem daquele quesito de antiguidade e da influência de várias culturas artísticas – da oriental à italiana – uma arquitetura religiosa destoante, uma série de acontecimentos marcantes e inúmeros personagens ilustres na formação do Brasil, os quais a revista se empenhou em criar/destacar. Pode-se dizer que as Revistas do Serviço do Patrimônio, ao manifestarem seu ufanismo patriótico, retratou principalmente essas três abordagens.
Porém, se a origem era portuguesa, o que tornava as obras brasileiras originais? Quando se analisa os textos da revista é simples responder: a adaptação ao meio e ao clima
46
REIS, A. C. F. Guia Histórico dos Municípios do Pará. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 11. Rio de Janeiro, 1947 p. 235.
149
tropical. As possibilidades escassas de materiais e a limitada comunicação com o reino forçaram o colono a criar estratégias próprias de desenvolvimento, impedindo a simples transposição de concepções e projetos da metrópole para a colônia. Tal analise não foi tão inovadora, tão pouco partiu do Sphan. O clima foi apontado como fator central na analise de muitos estudiosos da história brasileira. No período histórico recorrente a essa pesquisa, principalmente nos anos iniciais dos trabalhos da repartição federal, teóricos como Gilberto Freyre utilizavam amplamente esse tipo de interpretação47.
Vejamos como exemplo um longo trecho do texto “Casas de residência no Brasil” escrito por Gilberto Freyre na revista número 7:
É de todo interêsse (sic) compararmos as plantas de casas-grandes e sobrados apresentados por Vauthier com as que figuram no livro de Debret, para efeitos de discriminação de diferenças de época e de região entre as habitações nobres do Sul e as do Norte, nos trechos igualmente patriarcais e de base igualmente agrária de vida doméstica tanto quanto da organização econômica das duas regiões, uma compreendida no começo (sic), outra quase no meado do século XIX. As diferenças são consideráveis, porém muito mais fortes se apresentam as semelhanças entre as duas expressões arquitetônicas do mesmo tipo de patriarcado e das mesmas tendências da colonização portuguesa do Brasil no sentido de adaptação ao meio americano e tropical de tradições enriquecidas pelo contacto do lusitano com o mouro e com o extremo Oriente48.
Esse excerto é emblemático para nosso argumento. Veja que é clara a concepção da origem lusitana e sua adaptação ao meio tropical. Tal recurso se repetiu em Lucio Costa e em Luis Camilo de Oliveira Neto. O primeiro afirmava que “a distância e necessidade de natureza vária e mais urgente concorreram também para uma diferenciação maior, notando-se nas realizações d'aqui um certo atraso sobre as da metrópole e, de um modo geral, acentuado desinteresse por toda sorte de inovações49. O segundo destacou que “a diversidade do clima, maior em algumas regiões que em outras, estabelecia necessidade de adaptações a serem atendidas com materiais locais, o que representava muitas vezes verdadeiro trabalho
47
Sobre o assunto ler o copioso trabalho de: BARBATO, Luis Fernando Tosta: Brasil, um país tropical: o clima na construção da identidade brasileira (1839 – 1889). (Dissertação de mestrado) p. 207. Campinas: Unicamp, 2010.
48 FREYRE, G. Casas de residência no Brasil. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 7. Rio de Janeiro, 1943. p. 102.
150
de criação”50. Assim, surge desse ser adaptado às condições tropicais um brilhantismo próprio do brasileiro.
Luis Jardim também sugere que o patrimônio nacional é merecedor de destaque por ter sua particularidade. Para esse autor, “a ausência de conventos em terras auríferas, consequência da proibição da corte, contribuiria em grande parte para isso: a criação de um tipo de igreja menos universal que particular”51. Destacamos que o autor utiliza a palavra “universal” de maneira pejorativa, como se ela trouxesse consigo a ideia de cópia daquilo que é universalmente aceito. Jardim nega essa possibilidade para enfatizar que o patrimônio mineiro é particular, isto é, originário da própria terra.
E assim como em Minas, onde os artistas tiveram que se adaptar a natureza primitiva local, quando os artigos abordaram o nordeste vimos a construção do mesmo pensamento. Segundo Artur de Carvalho, no uso de pedra na arquitetura religiosa do nordeste “há uma forte influência regional na composição da fachada, cujos elementos são inspirados ora na própria natureza da região, ora nas igrejas levantadas sob inspiração erudita”52.
Adaptando-se ao meio, os artistas vindos ao Brasil tornavam sua arte peculiar em relação à portuguesa. Cralos Ott elogiou em seu artigo a capacidade de adaptação do artista José Joaquim da Rocha, artista que “deixou cinco ou seis obras” na Bahia:
O que nos interessa no pintor José Joaquim da Rocha é a sua produção artística e a adaptação do homem ao ambiente local: dois aspectos: um histórico, outro etnológico. Ambos de grande interesse. Mas no estudo presente, um não fica separado do outro, embora se pudesse proceder perfeitamente desta maneira [...]. [O artista] adaptava-se facilmente às circunstâncias e não criava dificuldades onde as podia evitar. Não possuía um talento extraordinário que se sentisse constrangido num ambiente dêsses (sic) para se entregar aos vôos aéros, característico aos espíritos geniais. Com isto não queremos diminuir o valor do homem, mas realçar apenas que num ambiente desambientado, vivendo uma vida feliz, tôda dedicada a arte, desprezando até o ambiente feliz de um lar próprio [no caso, sua vida em Lisboa].53
50 NETO, L. C. de O. João Gomes Batista. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 4. Rio de Janeiro, 1940. p. 84.
51
JARDIM, L. A pintura decorativa em algumas igrejas antigas de Minas. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 3. Rio de Janeiro, 1939. p. 69.
52 CARVALHO. A. de. O uso da pedra na arquitetura religiosa do Nordeste. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 6. Rio de Janeiro, 1942. p. 288.
53
OTT, C. José Joaquim da Rocha. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n. 15. Rio de Janeiro, 161. p. 73.
151
Porém, se para Ott e Carvalho os artistas comentados não esbanjavam talento, para outros autores a possibilidade de adaptação portuguesa resultou em algo esplendido. Reis talvez seja o mais entusiasta desse tipo de interpretação postulando que:
a dominação lusitana exerceu-se, na Amazônia, mercê desses imperativos [dificuldades locais com o clima e com os indígenas], durante dois séculos. Foi uma dominação que se condicionou admiravelmente à natureza da região, aceitando, sem reservas gritantes, as imposições de toda espécie que ela, tão diferente, tão autônoma na paisagem brasileira, lhe dito […]. Não constituísse o português aquele plástico extraordinário que tão bem provaria nessas latitudes tropicais, expressando um grau de adaptabilidade que tomou corpo e se fez sentir mesmo fora. De tal maneira circulando essa impressão que levaram S. M. o Rei Luiz XV, de França a determinar um plano de ação nas Guianas, de certo modo copiado da experiência lusitana na Amazônia54.
O autor, no trecho acima, demonstra seu entusiasmo com os resquícios da colonização lusitana na Amazônia. A experiência portuguesa foi tão boa que era digna de “cópia” pela corte francesa. Isto é, a condição de adaptação do português tornou-o original e único, portanto, um exemplo a ser seguido.
Lembremos, entretanto, que a região norte foi a que menos teve monumentos tombados durante todo o período em que Rodrigo Melo Franco de Andrade dirigiu o órgão. Essa negligência, transformada em lacuna para o patrimônio do país, jamais foi comentada nas revistas. Ao contrário, os textos que retrataram aquela região reproduziram um discurso que corrobora a unidade do território nacional e com a originalidade do patrimônio brasileiro. É certo que a limitação de recursos dificultava a ação do Sphan, contudo ressaltamos aqui a unidade do discurso empregado na revista, criando a representação de um patrimônio, que em muitos aspectos não existiu.