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A Nova Política de Saúde Mental e a Lei 10.216/2001

2 DA INTERFACE ENTRE A MEDIDA DE SEGURANÇA E O SABER

2.4 As reformas psiquiátricas

2.4.2 A Nova Política de Saúde Mental e a Lei 10.216/2001

A expressão saúde mental só passou a integrar o discurso da saúde coletiva a partir da década de 60, trazendo ínsita a questão da preventividade, estratégia, por sua vez, considerada como uma alternativa de substituição do asilo, tido como espaço segregador e falido no seu objetivo de promover o tratamento dos portadores de transtornos mentais.

No seu surgimento, a sua noção estava identificada “à boa adaptação ao grupo social: Não mais se trata de curar um doente, mas de adaptá-lo num grupo, torná-lo novamente um sujeito definido pela rede de suas inter-relações sociais”(TENÓRIO, 2002, p. 30).

Tal significação ocorreu dentro do contexto da prática da psiquiatria comunitária, dotada de ideais preventistas cuja melhor expressão encontra-se no desenvolvimento da teoria por Gerald Caplan (apud TENÓRIO, 2002, p. 31), nos Estados Unidos, segundo o qual:

O caráter adaptacionista e normalizador da noção de saúde mental fica claro no pressuposto de que muitas perturbações mentais resultam de inadaptação e desajustamento, de modo que, pela intervenção adequada, é possível conseguir uma adaptação e um ajustamento saudáveis.

Diferentemente desse significado inicial, o conceito de saúde mental subentendido no discurso da nova política incorporadora das diretrizes da Reforma Psiquiátrica reporta-se a dois objetivos:

[...] servir para denotar um afastamento da figura médica da doença, que não leva em consideração os aspectos subjetivos ligados à existência concreta do sujeito assistido; e servir para demarcar um campo de práticas e saberes que não se restringem à medicina e aos saberes psicológicos tradicionais (TENÓRIO, 2002, p. 31).

Augusto César de Farias Costa (2003, p.151)aduz que:

O campo da saúde mental compreende a relação dinâmica entre quatro campos conhecidos distintos entre si, mas, neste contexto, coexistindo em relações dinâmicas e identificadas em uma nova disposição inter e transdisciplinar, consistindo então de uma relação em que todos os saberes envolvidos no conceito de saúde mental, quais sejam a ética, a política, a ideologia e a ciência, se intercambiariam, de modo que qualquer formulação que se coloque em referência à Saúde Mental não poderá deixar de fora nenhum desses postulados. Qualquer procedimento de ordem técnica deverá estar sob a ótica dessas referências.

Nesse contexto, muito embora se constate que o processo de reforma psiquiátrica já se desenvolvia9, pode-se estabelecer como marco para a adoção oficial das diretrizes da Reforma Psiquiátrica como política de saúde mental pelo governo a promulgação da Lei 10.216/2001 e a realização da III Conferência Nacional em Saúde Mental.

O processo conhecido como Reforma Psiquiátrica vai além de uma mera “reforma da assistência psiquiátrica”. Ao emitir uma lei que “Dispõe sobre a proteção e os direitos dos portadores de transtornos mentais e redireciona o modelo de assistência em saúde mental”, governo e sociedade assumem o esgotamento do modelo assistencial vigente (COSTA, 2003, p. 149).

9 Antes mesmo de ser aprovada a Lei Federal, várias outras cidades e a maioria dos estados da Federação (PE;

ES; RS; CE; RN; MG; PR; DF, e outros em tramitação), além de contarem com seus núcleos da Luta Antimanicomial, já haviam aprovado suas legislações locais, guardando os mesmo princípios do Projeto que estava em tramitação, numa demonstração patente da vontade popular e da irreversibilidade do processo (COSTA, 2003, p. 157).

O diploma legislativo em questão foi o resultado de uma série de alterações realizadas no projeto de lei nº 3.657/89, de autoria do então deputado Paulo Delgado, que dispunha sobre a “extinção progressiva dos manicômios brasileiros e sua substituição por outros recursos assistenciais”.

Tal projeto, após aprovação na Câmara dos Deputados, foi barrado no Senado, onde sofreu alterações, ao longo de uma tramitação de 10 anos. Voltando então, a Câmara dos Deputados, após a supressão do artigo que autorizava a construção de novos hospitais psiquiátricos, foi sancionada em 6 de abril de 2001 pelo presidente da república(COSTA, 2003).

A promulgação da Lei Federal 10.216/2001 implicou na ampliação do espaço legal de conquistas sociais no campo da saúde mental. Dispôs sobre a proteção e os direitos dos portadores de transtornos mentais e redirecionou o modelo assistencial em saúde mental. O internamento, psiquiatricamente discutido, passou a ser limitado juridicamente. O governo brasileiro, em todas as suas esferas, federal, estadual e municipal promoveu ações direcionadas à desconstrução do modelo de assistência centrado nos hospitais psiquiátricos, com a redução progressiva dos leitos.

Operacionalizou-se a construção de um novo modelo, caracterizado por oferecer serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico, inseridos na comunidade, de modo que se volta para a reinserção psicossocial do PTM (COSTA, 2003).

Um dos substratos teóricos consistiu na redução dos leitos psiquiátricos que, desde os anos 90, já era uma meta do governo brasileiro, ganhando grande impulso em 2002, sob o amparo de uma série de normatizações do Ministério da Saúde.

Para a consolidação da Política de Saúde Mental com base nas diretrizes da RP foram desenvolvidos instrumentos de gestão e programas voltados para tal objetivo, tais como o PNASH/Psiquiatria e o Programa de Volta para Casa, respectivamente, que tinham por objetivo controlar a redução de leitos, fazendo-o de maneira paulatina e racional, bem como acolher os doentes egressos do hospital psiquiátrico.

A lei 10.216/2001 não faz menção expressa à exclusão dos PTM submetidos à medida de segurança do seu âmbito de incidência. Muito embora a política de saúde mental no Brasil oriente-se pela desinstitucionalização dos hospitais psiquiátricos, os portadores de transtornos mentais submetidos à medida de segurança ainda são submetidos a um tratamento que não cumpre as funções a que se propõe e apresenta-se em dissonância com as diretrizes estabelecidas na ordem judicial interna e internacional.

3 MEDIDA DE SEGURANÇA – DA GÊNESE DO INSTITUTO À ANÁLISE DAS

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