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POLÍTICO

A sociedade do início do século XX precisava resgatar os estudos retóricos,

entretanto não era aquele conceito de retórica do passado, o qual se valia, muitas vezes, de um

falar rebuscado e repleto de figuras para conseguir o seu propósito. Depois de séculos

“desaparecida”, surge a “Nova retórica”, em meados do século XX, quando Chaïm Perelman

e Lucie Olbrechts-Tyteca publicam o livro Tratado de Argumentação. Essa obra, segundo

Meyer (2014), foi aclamada como um clássico da sociedade contemporânea, assim como as

obras de Aristóteles, Cicero, Quintiliano e Vico. Ferreira (2015, p. 45-46) também comenta

sobre o surgimento da nova retórica:

[A retórica] renasceu, vigorosa, na Europa, a partir dos anos 1960 com o advento da

nova retórica: a força da palavra saiu vitoriosa, ainda que menos embelezada com

suas roupas de festa. [...] A retórica contemporânea veio cheia de saúde: não mais

pretende, especificamente, ensinar a produzir textos, mas, sobretudo, objetiva a

oferecer caminhos para interpretar os discursos (FERREIRA, 2015, p. 45-46).

A esse respeito, Fiorin (2014) atesta que a retórica ressurgiu a partir de

algumas peculiaridades de condições discursivas que permeavam a sociedade na segunda

metade do século XX, o que possibilitou uma aproximação com a linguística, mas, para isso

acontecer, foram necessárias três etapas fundamentais. Faz-se necessário saber que

Na segunda metade do século XX, novas condições discursivas alteram, conforme

Bender e Wellberry (1990), as premissas culturais hostis à retórica e assiste-se,

então, a seu renascimento. Em primeiro lugar, o século XX liquidou o ideal de

objetividade e neutralidade científica do positivismo. Muitos teóricos (por exemplo,

Heiseberg e Godel) mostram que os dados de observação não são neutros. Por outro

lado, começa-se a verificar, conforme modelo difundido por Thomas Kuhn, que as

ciências são construções dentro de determinados paradigmas. Em segundo lugar, a

arte moderna solapa a noção de subjetividade fundadora da estética romântica. Com

o surrealismo e, mais ainda, o dadaísmo, a experiência estética é vista como um jogo

de forças inconsciente e linguísticas em relação a que o sujeito está descentrado. O

ideal de originalidade é relativizado. Em terceiro lugar, o modelo de comunicação

política é encarnado na publicidade, no marketing, nas relações públicas, em que a

racionalidade dos agentes não é mais um axioma. O que se pretende é persuadir, isto

é convencer ou comover, ambos meios igualmente válidos de conduzir à admissão

de terminada ideia. Com o advento das novas mídias, o modelo de comunicação

escrita sofre um abalo, pois, como mostrou McLuhan, há uma relação profunda

entre a nova cultura da imagem e a cultura oral pré-clássica (1969). Finalmente,

revalorizam-se o poliglotismo, os dialetos, os jargões. É no bojo dessas condições

discursivas que se produz uma mudança na linguística que possibilita sua

aproximação com a retórica (FIORIN, 2014, p. 13-14).

A retórica de Perelman e Olbrechts -Tyteca (2014) renasceu menos “enfeitada”

do que a retórica antiga, e com um objetivo bem mais específico: o de ser uma poderosa

ferramenta para interpretar os discursos que permeiam a sociedade contemporânea, ou seja,

uma nova retórica para uma nova sociedade, um novo tempo.

A Nova retórica chegou com outro conceito, mesmo a partir do resgate dos

fundamentos já formulados por Aristóteles. Ela veio para fazer a diferença não somente na

produção de discursos persuasivos, como também no oferecimento de meios para

interpretá-los. Dessa maneira, temos alguns conceitos de autores renomados que norteiam a Nova

retórica.

Para Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014, p. 8), a retórica é um recurso

discursivo a partir do qual se obtém a “adesão dos espíritos”, ou uma técnica que utiliza a

linguagem para persuadir e convencer. Para Meyer (2007a, p. 25), a retórica é a negociação da

diferença sobre uma questão dada entre os indivíduos. Além dessa noção mais ampla sobre a

retórica, Meyer (2007b) elaborou uma vasta lista das funções associadas a ela, a saber:

1) Persuadir e convencer, criar o assentimento;

2) Agradar, seduzir ou manipular, justificar (por vezes a qualquer preço) as

nossas ideias para as fazer passar por verdadeiras, porque o são ou porque

acreditamos nela;

3) Fazer passar o verossímil, a opinião e o provável com boas razões e

argumentos, sugerindo inferências ou tirando-as por outrem;

4) Sugerir o implícito através do explícito;

5) Instituir um sentido figurado, a inferir do literal, a decifrar a partir dele, e

para isso utilizar figuras de estilo <histórias>;

6) Utilizar uma linguagem figurada e estilizada, o literário;

7) Descobrir as intenções daquele que fala ou escreve, conseguir atribuir razões

para o seu dizer, entre outras coisas através do que é dito (MEYER, 2007b, p. 22).

Nesse sentido, temos várias definições sobre a retórica, colocadas por Meyer

(2007b), que não fogem dos conceitos de Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014), já

mencionados acima.

Reboul (2004) conceitua retórica como a arte de persuadir pelo discurso,

entretanto, não é qualquer discurso, somente aquele que pretende persuadir.

A retórica é sempre lembrada para interpretar os discursos que estão sendo

produzidos em nossa sociedade sob o ponto de vista da persuasão. Dessa maneira, é utilizada

como uma técnica que desmistifica os enunciados políticos, jurídicos, religiosos, publicitários,

dentre outros. Essa ciência veio para ajudar a sociedade a interpretar os discursos de forma

clara e precisa, pois o analista é capaz de captar até mesmo o não dito de uma enunciação,

basta ele utilizar os meios que a teoria retórica oferece para desvendar os discursos.

Dessa maneira, como já destacado, a retórica renasceu a partir da obra de

Perelman e Olbrechts-Tyteca, o Tratado da Argumentação (2014). Essa obra está estruturada

em três partes: a primeira versa sobre os âmbitos da argumentação; a segunda, sobre os pontos

de partida da argumentação; e a terceira, sobre as técnicas argumentativas. De acordo com

Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014, p. 8), a obra mostra como um orador poderá trabalhar

com um acordo junto ao auditório, com vistas sempre à “adesão dos espíritos”.

Nessa pesquisa, iremos mostrar de que forma os políticos (oradores),

candidatos à presidência do Brasil, no ano de 2014, utilizaram as figuras de retórica no texto

verbo-visual, empregando-as como estratégias argumentativas com o intuito de obter a adesão

de seus eleitores (auditório).

A Nova Retórica de Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014) detalha o processo da

argumentação, uma vez que considera a sua importância para um bom discurso, o qual visa à

aprovação de uma ideia. Veremos, na sequência, a definição de argumentação consoante o

pensamento de Abreu (2009); a definição de retórica, segundo Reboul (2004); e,

posteriormente, mostraremos a diferença entre as duas, de acordo com Meyer (2007a).

Abreu (2009, p. 25) explica que argumentar é a “Arte de convencer e persuadir,

convencer é saber gerenciar informação, é falar a razão do outro, demonstrando, provando.

Etimologicamente, significa vencer junto com o outro (com + vencer) e não contra o outro.

Persuadir é saber gerenciar a relação, é falar à emoção do outro”.

Reboul (2004) ressalta que: a) a retórica diz respeito ao discurso persuasivo; b)

persuadir é levar alguém a crer em alguma coisa; e c) convencer é fazer compreender. Em

outras palavras, convencer está ligado a levar as pessoas a pensarem segundo a nossa tese, ou

estar em convergência sobre um ponto de vista por meio do compartilhamento de uma mesma

ideia. Convencer está ligado ao campo da razão. Já persuadir se relaciona ao fazer, ou seja, a

pessoa, independentemente de pensar igual a quem apresenta a tese, é persuadida a fazer algo,

numa atitude que se manifesta no campo da emoção. Segundo Reboul (2004), a razão e o

sentimento são duas coisas inseparáveis.

Meyer (2007a) define a diferença entre retórica e argumentação através de uma

característica de respostas e de perguntas. O autor explica que a retórica sempre pergunta algo

utilizando, primeiramente, a resposta, isto é, expõe a resposta como se não existisse problema

nenhum; ao passo que a argumentação utiliza a própria pergunta para conseguir resolver

alguma diferença entre as pessoas.

Consoante Ferreira (2015), a função da retórica é mostrar quais os elementos

persuasivos, como são configurados os argumentos e de que forma os recursos de

convencimento são infiltrados no discurso para convencer o auditório. Para Abreu (2009), a

função da argumentação está calcada na questão do orador e de como ele pode gerenciar as

informações, pois, através da argumentação, ele irá tentar convencer o auditório. Diante disso,

é a força da argumentação que mostra a eficácia do discurso. Entretanto, para se trabalhar a

noção do convencimento de um auditório, é preciso identificar os auditórios, os quais podem

ser universais ou particulares, sendo de suma importância conhecê-los para que se tenha uma

boa argumentação.

Abreu (2009, p. 39) afirma que “o auditório é o conjunto de pessoas que

queremos convencer e persuadir”. O auditório universal é aquele sobre o qual o orador não

possui um poder de monitoração. Já o auditório particular seria aquele sobre o qual o orador

consegue ter um certo “domínio”, ou seja, ele tem como monitorar o pathos, pois esse

auditório se encontra mais “próximo” do orador.

Levando em consideração o trabalho de argumentação diante de um auditório

particular, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014) descrevem o seguinte:

Toda argumentação que visa somente a um auditório particular oferece um

inconveniente, o de que o orador, precisamente na medida em que se adapta ao

modo de ver de seus ouvintes, arrisca-se a apoiar-se em teses que são estranhas, ou

mesmo francamente opostas, ao que admitem outras pessoas que não aquelas a que,

naquele momento, ele se dirige. Esse perigo fica aparente quando se trata de um

auditório heterogêneo, que o autor deve decompor para as necessidades de sua

argumentação. Isso porque esse auditório, tal como uma assembleia parlamentar,

deverá reagrupar-se em um todo para tomar uma decisão, e nada mais fácil, para o

adversário, do que voltar contra o seu predecessor imprudente todos os argumentos

por ele usados com relação às diversas partes do auditório, seja opondo-os uns aos

outros para mostrar a incompatibilidade deles, seja apresentando-os àqueles a quem

não eram destinados. Daí a fraqueza relativa dos argumentos que só são aceitos por

auditórios particulares e o valor conferidos às opiniões que desfrutam uma

aprovação unânime, especialmente da parte de pessoas ou de grupos que se

entendem em muito poucas coisas (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2014,

p. 34-35).

Quando o orador apresenta argumentos para um auditório particular, precisa

levar em consideração a cultura, os costumes e as características desse auditório, pelo fato de

que o orador necessita elaborar um discurso convincente para um determinado público.

Entretanto, sabemos que o auditório também tem o papel de avaliar o discurso por meio da

atribuição de algum juízo de valor ao discurso proferido.

Já no auditório universal, a adesão unânime é bem mais difícil de ser

conseguida, devido ao fato de que, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014), o orador usa

da coerção (estado de pensar a verdade) para convencer esse tipo de auditório. Dessa maneira,

podemos dizer que

Uma argumentação dirigida a um auditório universal deve convencer o leitor de

caráter coercivo das razões fornecidas, de sua evidência, de sua validade intemporal

e absoluta, independentes das contingências locais ou históricas. “A verdade”,

diz-nos Kant, “repousa no acordo com o objeto e, por conseguinte, com relação a tal

objeto, os juízos de qualquer entendimento devem estar de acordo”. “Válida para a

razão de todo homem”. Apenas uma asserção assim pode ser afirmada, ou seja,

expressa “como um juízo necessariamente válido para todos” (PERELMAN;

OLBRECHTS-TYTECA, 2014, p. 35, grifos dos autores).

Ainda em relação ao argumento moldado para o auditório universal, Perelman

e Olbrechts-Tyteca (2014, p. 36) enfatizam que “a retórica eficaz para um auditório universal

seria a que manipula apenas a prova lógica”, pois, dessa maneira, utilizando um argumento

racional, ficaria mais fácil para o orador conseguir a adesão dos indivíduos que compõem o

público dado.