• Nenhum resultado encontrado

Ao longo dos tempos, homens e mulheres contribuíram, cada um com suas funções, para a produção e reprodução da vida social. Tais responsabilidades sempre foram ditadas, especialmente, pelos valores sociais presentes em cada época e sociedade em particular. Dessa forma, em todas as sociedades, desenvolvidas ou não, os indivíduos ocupam postos de trabalho adequados às suas condições físicas e sociais, o que acaba por gerar uma diferenciação sexual do trabalho. Tal diferenciação ainda é reproduzida no âmbito da família e reflete o

como provedor da renda familiar e da mulher como responsável pelos afazeres domésticos e pelo cuidado com os filhos (Dias-Júnior, 2007).

Desde os anos de 1970, entretanto, nota-se um intenso movimento no sentido de transformar o papel social da mulher na sociedade brasileira. E a maior prova disso é a cada vez mais significativa presença feminina no mercado de trabalho. No entanto, para Bruschini (1998), apesar das expressivas alterações na oferta de trabalho feminina, elas continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado com os filhos e essas continuidades dificultam a dedicação das mulheres ao trabalho e as colocam sempre em posição de desvantagem no mercado. De fato, como afirma Dias-Júnior (2007), basta analisarmos as desigualdades de renda e poder, para percebermos o quanto estamos distantes da igualdade de gênero.

Isto acontece porque enquanto a participação do homem no mercado de trabalho depende, em grande medida, apenas das suas características individuais, como idade e escolaridade, a inserção feminina como força de trabalho depende não apenas desses atributos, mas também das suas características familiares, como presença de adultos, renda de outros membros, sua posição na hierarquia familiar e número e idade dos filhos (Scorzafave, 2001). Assim, quando se trata de mulheres, a experiência laboral implica sempre na combinação, entre trabalho e família, seja pela articulação ou pela superposição dessas atividades (Bruschini, 2007).

Diante dessas novas configurações dos papéis sociais femininos, Hirata & Kergoat (2007) definem modelos que retratam as diversas formas em que a “idéia de complementaridade” das funções sociais entre os sexos aparece. No “modelo tradicional”, as mulheres assumem os papéis familiares e domésticos e aos homens cabe o papel de provedor da renda familiar. No “modelo de conciliação”, apenas as mulheres conciliam a vida familiar à vida profissional. Com o objetivo de evidenciar a natureza incoerente dessas responsabilidades femininas simultâneas, alguns estudiosos não utilizam o termo “conciliação” para se referirem a esse modelo, mas utilizam termos como “conflito”, “tensão” ou “contradição”. No “modelo de parceria”, há mais uma lógica de conciliação de papéis que de conflito. Nesse modelo, as relações entre os sexos são pautadas

pela igualdade de poder e, portanto, o casal participa igualmente das tarefas domésticas. Mas, segundo as autoras, esse modelo não reflete a realidade das práticas sociais, já que, embora o perfil das mulheres trabalhadoras revele uma nova identidade feminina voltada tanto para o mercado quanto para a família, o fato de as atividades domésticas e o cuidado familiar permanecerem como uma responsabilidade da mulher sugere a continuidade dos modelos familiares tradicionais, ou seja, dos modelos “de conciliação”, ou “de conflito”, que sobrecarregam as mulheres trabalhadoras, especialmente as mães de filhos pequenos (Bruschini, 2007). Segundo Araújo & Scalon (2006), a divisão sexual dos afazeres domésticos permanece como um dos aspectos menos sujeitos às mudanças na sociedade moderna.

Dentro desse contexto, as dificuldades de conciliação entre as atividades profissionais e as domésticas e familiares constituem um dos pilares das análises sociais que envolvem as mulheres (Dias-Júnior, 2007). Goldin (1997) estudou a evolução das preferências das mulheres norte-americanas com curso superior, em relação à constituição de família e/ou à manutenção de uma carreira profissional, ao longo do século XX. Segundo a autora, atualmente, as mulheres graduadas querem ter uma carreira profissional e também não querem abrir mão da maternidade. O objetivo do seu trabalho foi entender as escolhas feitas pelas coortes mais recentes de mulheres graduadas (entre trabalho ou filhos) como uma função das sucessivas mudanças ocorridas desde o início daquele século.

De fato, Goldin (1997) observou que, ao longo do tempo, as decisões das mulheres oscilaram entre família e trabalho, sendo que as coortes mais novas passaram gradualmente a dar maior valor ao trabalho, em comparação às coortes mais velhas. Para chegar a essa conclusão, ela analisou as escolhas feitas por cinco coortes de mulheres norte-americanas graduadas entre 1900 e 1995 e como as restrições por elas enfrentadas mudaram ao longo do último século.

Na primeira coorte (graduadas entre 1900 e 1919), a maioria das mulheres escolheu “trabalhar ou constituir família” e, quando a escolha era trabalhar, normalmente era como professora. A segunda coorte de mulheres (graduadas entre 1920 e 1945) apresentou taxas de casamento e de fecundidade maiores que aquelas da coorte anterior, mas a proporção de mulheres fazendo faculdade

há quatro anos ou mais não aumentou muito. Essa coorte se caracteriza como uma ponte entre a primeira e a terceira coortes. Com relação às mulheres da terceira coorte (graduadas entre 1946 e 1965), a faculdade proporcionou a oportunidade de combinar família com emprego remunerado (geralmente como professoras). No caso dessa coorte, de acordo com Goldin (1997), a graduação aumentou as chances dessas mulheres se casarem com os homens mais bem- remunerados entre aqueles graduados. Contudo, os retornos (em termos de salários) à educação das mulheres com curso superior eram baixos em relação aos custos de oportunidade dos seus quatro anos de graduação. Ainda assim, para a autora, essa coorte de mulheres com curso superior foi essencial para o ressurgimento do movimento feminista. A quarta coorte (graduadas entre 1966 e 1979) foi a primeira que teve uma considerável proporção de mulheres que escolheram o caminho da carreira profissional. Segundo Goldin (1997), 29% das mulheres que tinham entre 14 e 24 anos em 1968 ainda não tinham tido seu primeiro filho em 1991, quando tinham entre 37 e 47 anos de idade. Finalmente, a graduação parece proporcionar a igualdade entre homens e mulheres quando a autora analisa a quinta e última coorte (graduadas entre 1980 e 1995). Nessa coorte, diferentemente das anteriores, as mulheres não programavam sua vida profissional em função da maternidade e vice-versa. Isto porque elas não queriam correr o risco de não realizar um desses objetivos ao longo da vida. De acordo com Goldin (1997), para essa geração de mulheres, o curso superior abriu portas que se mantiveram fechadas para todas as coortes anteriores, mas elas ainda assim, parecem estar insatisfeitas9.

Diante das dificuldades de se conciliar maternidade e trabalho, as mulheres têm quatro opções: não trabalhar para cuidar dos filhos e da casa; ter empregos que não exigem tanta dedicação – escolha que determina as desvantagens femininas no mercado de trabalho, uma vez que são ocupações que, em geral, oferecem piores condições de trabalho e de vida; adiar a maternidade em prol da profissão; ou, por último, desistir da maternidade em prol da carreira (Dias-Júnior, 2007). Em

9

Segundo a própria autora, a conclusão de que essas mulheres parecem descontentes, embora perfeitamente factível, é baseada em uma amostra pequena, constituída de seus 1356 colegas de graduação em economia e outras pessoas não-graduadas com as quais ela teve contato, além da impressão de vários professores que fizeram parte da formação dessa geração de mulheres graduadas após 1980.

todas essas opções, observamos a incompatibilidade entre ter filhos e trabalhar, seja por uma questão de preferência da mulher (cada vez mais presente na sociedade moderna) e/ou pelas dificuldades de se conciliar ambas as decisões. Com o intuito de ilustrar o trade-off presente nesse processo decisório, plotamos no GRÁF. 3.1, a parturição média e as taxas de atividade das mulheres brasileiras de 15 a 64 anos, chefes ou cônjuges10, nos anos qüinqüenais compreendidos no período 1982-2007. Pela análise do gráfico, visualizamos, a cada vez maior inserção das mulheres no mercado de trabalho e, concomitantemente, o fato de que as mulheres têm tido, cada vez menos filhos.

GRÁFICO 3.1

Parturição média e taxas de atividade – Mulheres chefes ou cônjuges de 15 a 64 anos – Brasil – 1982 a 2007 30 40 50 60 70 1982 1987 1992 1997 2002 2007 T axa d e a ti vi d a d e (% ) Taxa de atividade 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 P a rt u riç ã o d ia Parturição média Fonte: IBGE/Pnads 1982, 1987, 1992, 1997, 2002 e 2007.

A concomitância entre a queda da fecundidade e o aumento da PEA feminina, embora apresente timings distintos dependendo do tempo e local analisados11,

10

Já que, apenas para essas mulheres, é possível obter as informações sobre parturição.

11

Destaca-se, entretanto, o fato de que, em diversos países desenvolvidos, já se verifica uma inversão da relação maternidade-emprego desde os anos de 1980. Até meados dessa década observava-se, nos países desenvolvidos, uma relação inversa entre a fecundidade e a participação feminina no mercado de trabalho. Entretanto, por volta de 1985, essa relação se inverte de tal forma que o fato de as mulheres terem filhos deixa de ser fator decisivo na sua entrada e/ou permanência no mercado de trabalho. Segundo Engelhardt et. al (2004), mudanças institucionais ocorridas nesses países desenvolvidos, referentes à disponibilidade de creches e escolas para crianças pequenas e às atitudes em relação ao trabalho das mulheres, devem ter contribuído para reduzir a incompatibilidade entre ser mãe e ter um emprego. Contudo, nos primeiros anos do século XXI, a inversão da relação entre a TFT e a taxa de participação feminina

pode ser observada em diversos lugares do mundo e, inclusive por isso, tem sido base para o desenvolvimento de algumas teorias a esse respeito. Sendo assim, desde as primeiras evidências da simultaneidade entre o declínio da fecundidade e a maior inserção feminina no mercado de trabalho, muitos estudiosos tentam entender a relação entre esses eventos, além de procurar determinar uma relação de causalidade entre eles (Dias-Júnior, 2007).

De uma forma geral, segundo a abordagem sociológica, o arcabouço teórico desenvolvido se pauta na incompatibilidade entre os papéis de dona-de-casa e “trabalhadora” enfrentada pelas mulheres (como discutido nessa seção). Do ponto de vista econômico, a análise é pautada nos custos envolvidos em se ter um filho. Dada a difícil tarefa de determinação da direção causal da relação filhos-trabalho para as mulheres (visto que, em geral, essas decisões não são tomadas independentemente), temos, de um lado, dentro dessa abordagem econômica, as teorias que versam sobre a demanda por filhos e, portanto, sobre os custos de produção e criação destes (que inclui o tempo despendido pela mãe no cuidado com os filhos); e, de outro, aquelas que tratam da oferta de trabalho como uma decisão que depende dos custos de oportunidade (mulheres com filhos, por exemplo, tendem a ter um custo de oportunidade superior à daquelas sem filhos). Na seqüência, apresentamos brevemente alguns aspectos que caracterizam essas duas abordagens econômicas.