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Nesse capítulo tratamos da nossa primeira estimação, propriamente dita, do efeito de filhos sobre a participação das mães no mercado de trabalho. Com base nas teorias e nos estudos empíricos já realizados, apresentados anteriormente, estimamos o efeito do primeiro filho sobre a inserção laboral das mulheres por meio da comparação entre mulheres com e sem filhos. Entretanto, como visto na nossa revisão de literatura, essa comparação, não pode ser feita diretamente, já que as decisões de ter filhos e trabalhar não são independentes em se tratando das mulheres.

Assim, o estudo das conseqüências da maternidade sobre a oferta de trabalho feminina é dificultado pela endogeneidade da fecundidade. Para lidar com esse problema, precisamos encontrar uma variável proxy de fecundidade que, além de ser exógena (ou seja, que afete a participação da mulher no mercado de trabalho apenas por meio da fecundidade), tenha um alto poder explicativo. Pazello & Fernandes (2004), então, propõem a utilização da ocorrência de natimortos (óbito fetal com, ao menos, 7 meses de gravidez) como uma proxy para a fecundidade. Segundo os autores, uma das grandes vantagens dessa variável é que ela permite que comparemos mulheres sem filhos a mulheres com filhos; já que as outras variáveis sugeridas pela literatura, para tratar do problema da endogeneidade entre filhos e trabalho feminino (como o nascimento de gêmeos e a preferência dos pais por filhos de ambos os sexos), permitem comparações apenas entre mães de parturições distintas.

A hipótese central desse capítulo se pauta no fato de que as mulheres, tanto aquelas que experimentaram o evento natimorto quanto aquelas que não experimentaram, tinham um sentimento em comum: desejavam ter filhos (ao

menos depois que ficaram grávidas). Por isso, a diferenciação entre aborto provocado e natimorto é essencial nesse capítulo. Assim, o fato de uma mulher ter tido, pelo menos, um filho com 7 meses ou mais de gestação, que nasceu morto, caracteriza a ocorrência de natimorto (Pazello & Fernandes, 2004).

Em geral, a utilização de experimentos naturais representa uma tentativa extrema de maximizar a validade interna – exogeneidade, mas que freqüentemente resulta em uma perda significativa de validade externa – capacidade de generalização (Moffitt, 2003; Verona, 2004). No caso do uso da ocorrência de natimortos, também vivenciamos esse trade-off, como explicitamos a seguir.

E, nesse sentido, algumas ressalvas, devem ser feitas em relação ao uso desse evento na estimação do efeito da maternidade sobre a oferta de trabalho feminina. Primeiramente, deve-se atentar para o fato de que a ocorrência de natimortos, por estar associada a problemas de fertilidade, se trata de um evento raro na população feminina (Iacovou, 2001). Tal fato traz consigo um problema de validade externa das estimativas obtidas. Isso quer dizer que há uma impossibilidade de generalização das estimativas que, além de estar relacionada à raridade do evento, também se deve ao fato de que a variação na fecundidade induzida pela ocorrência de um natimorto pode não ser generalizada a variações na fecundidade provocadas por outras causas ou a mulheres com pouca propensão a ter filhos natimortos (Moffitt, 2003).

Além disso, existem determinadas características que fazem com que algumas mulheres tenham maior predisposição à concepção de um natimorto. Assim, a ocorrência de filhos natimortos apresenta também o problema da validade interna. O fato de que a ocorrência de natimortos pode estar associada à renda da família, significa que o instrumento não deve ser, de fato, exógeno. Por isso, estudos que utilizem os natimortos como um experimento natural devem controlar pelas características observáveis que determinam a renda (Pazello & Fernandes, 2004).

Existem também certos comportamentos que aumentam a probabilidade de ocorrência de natimortos. Segundo alguns estudos, por exemplo, a concepção de um natimorto pode estar associada ao hábito de fumar (Brosky, 1995; Högberg & Cnattingius, 2007), ao consumo de bebidas alcoólicas ou de drogas, em geral

(Kesmodel et. al., 2003), ou mesmo, ao consumo excessivo de café (Wisborg et. al., 2003) pela mulher durante a gestação. De acordo com Eller et. al. (2006), o fumo, o baixo nível educacional, raça/cor americana-africana, obesidade e idade maternal avançada (a partir de 35 anos), constituem fatores que, sozinhos, dobram a taxa estimada de natimortos. Mulheres que apresentam diabetes, hipertensão, doença renal e distúrbios de tireóide, também têm o risco de natimorto aumentado em relação às outras (Allen et. al., 2004; Eller et. al., 2006; Macintosh, 2006).

Outros estudos têm chamado a atenção para o fato de que a qualidade, tanto do acompanhamento pré-natal, quanto do atendimento médico no momento do parto são também fatores que podem influenciar a ocorrência de um natimorto (Joyce, Webb & Peacock, 2004; McClure, 2007).

No que tange à relação entre a geração de um natimorto e a participação da mulher no mercado de trabalho, cabe ainda uma ressalva. As conseqüências do evento natimorto sobre a saúde psíquica e emocional, especialmente, das mulheres podem desencorajá-las a realizar suas atividades habituais, ou mesmo fazer com que elas intensifiquem essas atividades, numa tentativa de esquecerem o ocorrido. Dessa forma, o fato de uma mulher ter tido um filho nascido morto, pode afetar seu posicionamento frente ao mercado de trabalho. Wolff et. al. (1970) acompanharam 50 mulheres que tiveram um natimorto. Todas elas (à exceção de duas, que já estavam tratando de distúrbios psiquiátricos) apresentaram reações de mágoa e tristeza típicas. Metade dessas mulheres, para lidar com essa situação, engravidou novamente, ao passo que as restantes, voltaram a trabalhar ou intensificaram suas atividades normais.

De fato, não temos como controlar nossas estimativas do efeito de filhos sobre a participação feminina no mercado de trabalho (com base na ocorrência de natimortos) no que se refere a todas as características associadas ao evento natimorto mencionadas nessa seção. Podemos sim, de acordo com a disponibilidade de informações às quais temos acesso, verificar o quão

semelhantes22 as mulheres sem filhos (que experimentaram um natimorto) são, em relação àquelas com filhos (que não experimentaram esse evento).