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A observação comentada e a microcrônica verbo-visual

3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

3.3 PARTE III – A MICROCRÔNICA VERBO-VISUAL NA PERSPECTIVA DA

3.3.3 A microcrônica verbo-visual em um sistema de gêneros

3.3.3.2 A observação comentada e a microcrônica verbo-visual

Orientando-se pelo referencial apresentado na seção anterior e considerando a estreita ligação com a crônica, estabelecida com base em categorias intuitivas (HENDGES, 2008) na fase preparatória da pesquisa e confirmada com evidências léxico-gramaticais recolhidas durante a investigação, um perfil para a microcrônica verbo-visual começa a ser estabelecido na discussão que segue. Destaca-se que esse perfil foi tomando forma ao longo da pesquisa, à proporção que as observações e a sistematização dos dados eram feitas.

Em uma microcrônica verbo-visual, cabe ao modo visual, por meio da imagem fotográfica, apresentar o evento em foco na observação, o que ficou comprovado pelo fato de 2/3 das imagens das microcrônicas apresentarem estrutura narrativa (KRESS; VAN LEEUWEN, 2006), o que se comentou em 3.2.1.1. Desse modo, a microcrônica verbo-visual nasce explorando-se a associação entre uma imagem fotográfica que “narra” brevemente um fato e uma parte verbal que o comenta, permitindo ao cronista construir uma representação semiotizada do cotidiano carregada de significações a serem partilhadas.

Como reforçado ao longo desta tese, na microcrônica verbo-visual, para que o leitor (re)construa esses significados, percebe-se uma grande dependência do ambiente geocultural onde os textos são produzidos e consumidos. Essa singularidade demonstra estarem os

significados representados muito próximos da vida do leitor, do mesmo modo que ocorre com o conteúdo de um dos gêneros da família das estórias.

Do que se tem apresentado até o momento e com base na interpretação do sistema de estórias, pode-se situar tipologicamente a microcrônica verbo-visual dentro desse sistema. Em uma microcrônica verbo-visual, registra-se, ou deixa-se implícito, um comentário valorativo sobre um tema do cotidiano relevante tanto para o produtor quanto para o leitor, o que oportuniza o estabelecimento de relações intersubjetivas entre os dois participantes da interação mediada pelo gênero. Essa descrição é muito semelhante à de uma observação comentada. No entanto, há singularidades a serem consideradas entre a observação comentada abordada por Martin e Rose (2008) e uma microcrônica verbo-visual: o objeto em estudo nesta pesquisa manifesta semelhanças com a crônica e é configurado como um microtexto multimodal.

Essas singularidades são relevantes: a extensão micro implica que o texto, na maioria das vezes, sugere mais do que declara; na parte verbal não se desenvolve, na grande parte das ocorrências do corpus, um relato verbal baseado em relações causais e temporais, como é comum no sistema de estórias da qual a observação comentada faz parte. Entretanto, Martin e Rose (2008) declaram que a observação comentada é um apêndice, um comentário rápido, conforme registrado na seção anterior, o que estabelece um paralelo com a brevidade de uma microcrônica.

Oportuno aqui lembrar que o conteúdo explorado em uma microcrônica verbo-visual permite a abordagem de uma temática ampla, mas circunscrita ao dia a dia do cidadão comum. As características composicionais mais evidentes são a extensão reduzida e a multimodalidade. Encontra-se o microtexto em variados suportes, quer no meio impresso, quer no meio digital, apresentando potencial de ferramenta para a comunicação midiática contemporânea. Em linhas gerais, esse é o perfil dos textos em estudo e acredita-se que eles podem ser colocados em paralelo com uma observação comentada, na perspectiva da Escola de Sydney.

Para o estabelecimento desse paralelo, partiu-se de observações do conjunto de instanciações de microcrônicas reunidas no corpus deste estudo. Como resultado dessa análise, constatou-se que a imagem fotográfica nos microtextos funciona como uma cena “congelada” no tempo, à semelhança do snapshot frozen in time de que falam Martin e Rose (2008), caracterizador da observação comentada.

O conteúdo fotografado, que, na microcrônica representa um flagrante da vida diária, foi considerado relevante inicialmente por quem fez a foto e, posteriormente, pelo cronista,

que a ela agrega seu comentário. Esse funcionamento é semelhante ao da observação comentada, a qual expressa a escolha de um episódio marcante, experienciado por quem relata e que ele quer socializar. Quando o cronista escolhe a imagem para ser publicada na edição diária, implicitamente está o juízo de que, em algum aspecto, ela é relevante e pode se tornar uma experiência significativa para seu leitor. Esse é o propósito social de uma observação comentada, nos moldes concebidos por Martin e Plum (1997), que estão ratificados em Martin e Rose (2008).

Em seguimento à discussão sobre o paralelo entre a microcrônica e a observação comentada, passa-se a abordar um aspecto relevante na abordagem da Escola de Sydney: a dimensão cultural. Martin e Rose, especialmente na obra de 2008, na discussão sobre gêneros, reservam especial atenção a fatores como a cultura local, que acabam por determinar a vida dos gêneros: seu nascimento, sua perpetuação e até a sua extinção. Da cultura provêm configurações de significados encontradas em gêneros que se desenvolvem por serem significativos para uma determinada sociedade ou comunidade, podendo essas configurações ser partilhadas por mais de um gênero (EGGINS; MARTIN, 2003; MARTIN; ROSE, 2008).

No Brasil, conforme testemunham inúmeros estudos (BETELHA, 2004; ANDRADE, 2005; TOCAIA, 2011; LOPES, 2012), a crônica encontrou terreno fértil para seu desenvolvimento. Assim, é comum encontrar essa produção em jornais e revistas, no meio impresso ou digital, como é o caso das crônicas de Carlos Heitor Cony, Lya Luft, Luis Fernando Veríssimo, Fabrício Carpinejar, para citar apenas alguns. A produção contínua desses autores atesta o consumo do gênero entre o público leitor brasileiro. Desse modo, a crônica acaba sendo uma configuração de significados relevante na cultura (letrada) brasileira, particularmente no domínio jornalístico (MELO, 2003; GABRIEL JÚNIOR, 2013).

Ao se observar o jornal em estudo, é fácil se comprovar que as crônicas integram as edições diárias, de segunda a domingo, nas versões impressa ou on line. Essas observações atestam a valorização desses textos não só pela empresa de comunicação mas também pelo público leitor, demonstrando que, na cultura regional onde é produzida e consumida, por meio de uma crônica se expressam configurações de significados importantes para esta comunidade, delimitada georreferencialmente à região sul do país. Desse modo, tanto numa perspectiva mais ampla, como a sociedade brasileira, quanto num âmbito mais delimitado, como a comunidade regional, pode-se reconhecer a valorização das crônicas.

A crônica, nesta pesquisa, está sendo considerada em estreita relação com um dos gêneros do sistema de estórias, compartilhando com a observação comentada configurações de significados que lhe são próprias. Ou, como ficará claro na próxima seção, essas

configurações estão “em dormência” no gênero em estudo. A mais evidente dessas configurações é de natureza composicional, no tocante ao tratamento expressivo que especialmente os recursos léxico-gramaticais recebem, o que intuitivamente foi percebido pela pesquisadora na fase inicial da pesquisa e acabou se refletindo na designação de microcrônica.

Feitas essas considerações, quer-se arguir em favor de se considerar as microcrônicas verbo-visuais em análise como instanciações do gênero observação comentada, no funcionamento sóciocomunicativo com que esse gênero é apresentado pela Escola de Sydney, mas com traços da cultura contemporânea e brasileira. O objetivo comunicativo de socializar um momento do cotidiano valorado como significativo para quem comenta e para quem ouve/lê se encontra tanto no gênero estudado por Martin e Rose quanto nos microtextos em foco neste estudo, o que leva à conclusão de que, se a microcrônica realiza o mesmo propósito sóciocomunicativo da observação comentada, configura esse gênero.

Em decorrência disso, considera-se que, na microcrônica verbo-visual, tem-se uma observação comentada como gênero elementar, básico, mas configurado na forma de microtextos multimodais, com aspectos composicionais comuns a uma crônica, principalmente na acentuada orientação subjetiva e expressiva com que se empregam a imagem fotográfica e os comentários verbais. Desse modo, consideradas as singularidades destacadas em sua designação como microcrônica verbo-visual, considera-se que o conjunto de microtextos aqui investigados ilustram a configuração de significados da observação

comentada em sintonia com práticas de produção e leitura de gêneros contemporâneos,

multimodais e de dimensões reduzidas.

Encaminhando-se a conclusão da pesquisa, na próxima seção, aborda-se um último aspecto, que exigiu um redirecionamento do olhar, complementando-se a perspectiva até aqui desenvolvida. Esse aspecto se refere às relações intergenéricas.