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Contrapondo-se, nas décadas de 50 e 60, a um ambiente acadêmico em que os estudos estruturalistas, formalistas e gerativistas angariavam grande status e interesse nas ciências humanas, o linguista inglês M. A. K. Halliday desenvolveu uma proposta de estudo da linguagem em estreita conexão com o ambiente social de que ela faz parte e no qual é usada.

Apresentando uma intensa produção ao longo de mais de seis décadas e contando com inúmeros seguidores e colaboradores (HASAN, 1989; EGGINS, 1994; THOMPSON, 2004; MARTIN; MATTHIESSEN; PAINTER, 2010), entre outros, Halliday tem aprimorado o que, na década de 80, surgiu como uma introdução a uma gramática da língua inglesa orientada pela perspectiva funcional. Atualmente, a obra An Introduction to Functional Grammar (1985, 1994, 2004) está na quarta edição, renomeada como Halliday’s Introduction to

Functional Grammar (2014) e organizada por Halliday em coautoria com Chistian M. I. M.

Matthiessen.

Na gramática, são estabelecidos os princípios norteadores para o estudo da linguagem como um complexo sistema semiótico de produção de significados, além de serem modelados os sistemas e as estruturas linguísticas que possibilitam esses significados. Na avaliação de Martin e Rose (2008), Halliday explica como fonemas, morfemas e regras sintáticas funcionam para realizar contextos sociais. A gramática de Halliday é considerada hoje obra referencial para o estabelecimento de uma nova área de estudos denominada Linguística

Sistêmico-Funcional (doravante LSF). Levando adiante o projeto hallidayano, os pesquisadores alinhados com a LSF têm-na desenvolvido como uma teoria sóciossemiótica,

abordando linguagem, texto, registro, gênero e gramática com base na interação com o contexto situacional e cultural a partir dos quais os usos linguísticos se materializam.

A LSF também tem propiciado um produtivo diálogo com outras áreas e propostas teóricas, como no tratamento de questões relativas à ideologia (FAIRCLOUGH, 1992; CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999); à multimodalidade (KRESS; VAN LEEUWEN, 1996, 2006; O‟HALLORAN, 2005), ao gênero (EGGINS; MARTIN, 1998, 2003; MARTIN; ROSE, 2008, 2012); à avaliatividade (MARTIN; WHITE, 2005) ou a gêneros midiáticos (ROYCE, 1999; MACKEN-HORARICK, 2004; KNOX, 2007; O‟HALLORAN, 2004, 2008; CAPLE, 2009b; BEDNARECK; CAPLE, 2010, 2012, 2013).

Halliday estabelece como um dos principais pilares de sua teoria linguística o princípio de que a linguagem é uma fonte de escolhas entre diversas alternativas para se produzirem os significados ideacionais, interpessoais e textuais. Pela perspectiva sistêmico- funcional, sempre que se usa a linguagem, fazem-se escolhas dentre as possibilidades disponibilizadas pelo sistema linguístico. Esse princípio é estendido por Halliday e Matthiessen (2014, p. 23) à área textual, definindo-se texto como “ o produto de uma seleção em curso em uma ampla rede de sistemas – uma rede sistêmica.”

Essa conceituação é importante para pesquisas na LSF, o que fica ratificado pelas próprias palavras dos autores, os quais, em uma das passagens da Gramática Sistêmico- Funcional, afirmam:

Assim, quando analisamos um texto, nós mostramos a organização funcional de sua estrutura; e nós mostramos quais escolhas para a construção do significado foram feitas, cada uma vista no contexto do que poderia ter sido escolhido, mas não foi (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 24).

A declaração de Halliday e Matthiessen torna explícita a relevância de, na abordagem analítica de textos/gêneros, considerar-se o sistema de/em redes explícita e implicitamente revelado na instanciação analisada. Essa percepção auxilia, por exemplo, a se esclarecer um aparente paradoxo nos estudos de texto: como um texto pode ser semelhante a outros – o que permite ser reconhecido pelos usuários de uma determinada língua como tal e ser considerado a instanciação de um determinado gênero – e, ao mesmo tempo, ser único? A resposta está justamente em que o texto constrói seu significado por selecionar das mesmas fontes os recursos de produção de significados, porém o modo com que esses recursos são empregados é o traço distintivo que o torna único, irrepetível.

Halliday e Matthiessen (2014) ponderam que explicar como a linguagem opera – como as pessoas trocam significados discursivamente em situações da vida real – é extremamente difícil. Em razão disso, o construto teórico de modelagem da linguagem encontrado na Gramática Sistêmico-Funcional (doravante GSF) tem se mostrado um importante referencial para pesquisas na LSF e áreas afins, como a Análise Crítica do Discurso e a Semiótica Social, servindo, por exemplo, para Kress e van Leeuwen (1996, 2006) como ponto de partida para a sua Gramática do Design Visual.

A LSF está fundamentada na percepção basilar de Halliday de que os homens usam a linguagem para interagir uns com os outros e para representar suas relações com o mundo (interior e exterior) em termos de significados. Assim, a linguagem organiza a interpretação da experiência humana e capacita o engajamento do ser humano em interações sociais situadas contextualmente.

Esse último aspecto é o pilar da obra hallidayana e, por extensão, da LSF, evidenciando-se que, no estudo da linguagem, o que está fora dela – o contexto ou ambiente ecossocial – também fará parte de sua configuração.

Em conclusão, destaca-se que a delimitação denotada no adjetivo presente na denominação Linguística Sistêmico-Funcional remete a duas percepções centrais na obra de Halliday: a de que a linguagem é uma rede de sistemas linguísticos interconectados para a construção de significados, constituindo cada sistema um conjunto de alternativas possíveis no tocante à semântica, léxico-gramática e fonologia/grafologia – a dimensão sistêmica – e a de que as estruturas gramaticais são derivadas das funções que a linguagem desempenha na vida social – a dimensão funcional.

1.1.1 O contexto na perspectiva sistêmico-funcional

Halliday é discípulo de Firth (1957) e conhecedor do trabalho etnográfico com a linguagem realizado por Malinowski (1935), antropólogo que discutiu o significado em contexto, dando visibilidade à linguagem em sua dimensão cultural e relacionando o seu emprego a contextos de interação estratificados em dois níveis: uma situação mais imediata e a cultura. Para a „situação mais imediata‟, em referência a todo o ambiente de produção de um texto, Malinowski, em 1923, cunhou o termo contexto de situação. Desse modo, nos estudos contemporâneos, os dois estratos para os quais o antropólogo chamou atenção são referidos como contexto de situação e contexto de cultura.

Com essas duas fortes influências intelectuais, Halliday vai erigir um construto teórico centrado na interface entre a linguagem e os acontecimentos e circunstâncias do mundo exterior a ela, destacando o uso que comunidades e indivíduos fazem dela em diferentes situações de vida e contextos sociais específicos. Para Halliday (1989, p. 10), o texto é concebido como “a instância de uso da linguagem viva que está desempenhando um papel em um contexto de situação.” O texto não é apenas construído com palavras e orações, é também um evento interativo, uma troca social de significados; deve, portanto, ser considerado a partir do contexto de situação em que foi produzido.

Para modelar o contexto de situação, Halliday (1985, 1989) recorre a três variáveis: campo, relações e modo, os quais, tomados em conjunto, constituem o registro de um texto. Como os registros variam, e variam sistematicamente, Halliday considera esses três elementos como variáveis de registro. Na LSF, propõe-se uma aproximação entre as variáveis do contexto de situação e os três componentes do sistema semântico hallidayano. Assim, corresponderiam a campo, relações e modo respectivamente, significados ideacionais, interpessoais e textuais.

Uma breve apresentação da abrangência dessas variáveis contextuais pode ser feita nos seguintes termos: campo se refere à qual atividade está em curso e qual a sua natureza, com que prática os participantes da interação estão engajados sendo que nela a linguagem figura como um componente essencial; relações se refere a quem está tomando parte na interação (quem são os participantes), a natureza desses participantes em termos de seu status e papel (éis) social (ais), que tipo de relação entre eles é estabelecida (permanente/temporária; com/sem hierarquia), quais papéis de fala cabem a cada um e, por último, o modo se refere a qual papel a linguagem desempenha na interação em curso (constitutiva ou não), qual expectativa os participantes têm sobre a contribuição da linguagem na situação, qual a organização linguística do texto, seu status e sua função no contexto e qual o canal selecionado para a interação.

Mantendo a orientação hallidayana e recorrendo a trabalho anterior de Martin (1992), Martin e Rose (2008, p. 12-16) reapresentam as variáveis do contexto de situação, ampliando o entendimento em termos de que o campo envolve padrões de discurso que realizam a atividade em curso. Em sentido amplo, consiste de uma sequência de atividades que são orientadas por um objetivo relevante em uma dada instituição (família, comunidade religiosa, empresa, academia).

Cada uma dessas atividades envolve pessoas, coisas, processos, lugares e qualidades, estando esses elementos organizados em taxonomias: se as pessoas e coisas envolvidas são

abordadas em suas especificidades ou generalidades, se os processos são referidos a um participante (a descrição de um cão, por exemplo) ou tomados em conjunto (processos envolvidos na evolução da vida, por exemplo), se dizem respeito a uma classe geral de fenômenos ou a um em particular, e assim por diante. Na dependência de a atividade ser estruturada ou não e se abordada de uma perspectiva mais específica ou mais genérica, varia o campo.

Referente às relações, os autores esclarecem que essa variável diz respeito à natureza das relações sociais entre os interlocutores, com as dimensões de status e solidariedade, ambas operando complementarmente. O status envolve relação de poder (quem domina) numa relação de verticalização (de cima para baixo) e solidariedade envolve distância social, mais próximo/mais distante, o que está na dependência do tipo de contato entre os participantes e com as trocas emocionais entre eles, num processo de horizontalização.

A terceira variável, o modo, trata com o canal de comunicação (fala, escrita, SMS, e-

mail, páginas web, CD, TV, etc) e com a textualização do fluxo de informação. Em alguns

desses canais, o trabalho com a linguagem verbal é maior, em outros, menor, como quando se conta com a imagem. Importante também é a perspectiva dialógica ou monológica e a interação com os canais: se os interlocutores podem ver e ouvir um ao outro, se a resposta no diálogo é iminente ou não, se a conversação é casual ou não; se é monólogo e oral, como em instruções para realização de uma tarefa.