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1. OS GUARANI E SUAS ALDEIAS

1.2. Nhanderekó: o modo de ser Guarani

1.2.1. A Opy e os Objetos Sagrados

La magia de esa zona nueva y contradictoria que se genera en la interacción del actor manipulador y el objeto, ¿no presenta un carácter ritual? Emilio García Wehbi

Imagem 6- Petynguá- Aldeia Paraty Mirim- 2006

Imagem 7- Petynguá- Paraty Mirim- 2006

O petyngua é um dos objetos fundamentais à manutenção dos rituais Guarani Mbya. Seu formato descrito, entre outros, por Hebert Baldus em 1952, por Egon Schaden em 1963, e por Aldo Lataiff em 1996, em pouco difere de um cachimbo comum. Exemplares diversos encontram-se conservados em diferentes museus, nacionais e estrangeiros, como o registrado no acervo do Museu do Índio, cuja data de incorporação à coleção é de 1998 e no Museu do Quai Branly, inaugurado em Paris em 2006. Nas visitas recentes às aldeias pudemos perceber que a forma e o uso do objeto se mantém relativamente o mesmo, salvo algumas exceções.

Modelado ou esculpido, o petynguá Mbyá consiste em um fornilho provido, na parte anterior, de saliências triangulares denominadas nambi com orifício para pendurar. Na parte posterior exibe um espaço para introdução de um canudo de taquara para aspirar a fumaça.

Em Santa Catarina, na Aldeia Mbiguaçu, em setembro de 2007, Hyral Moreira, cacique, nos exibiu alguns petynguá, “o tradicional Guarani”, o de madeira, e outros. Disse que “poucos fazem o de madeira, se faz mais de argila.”Segundo ele, o cachimbo de pedra é também do povo Guarani, é o petynguá do conselho, usado somente pelos líderes espirituais. Diz que o espírito sai através do tabaco.

Exibe um outro petynguá que só é usado pelas mulheres, “é proibido um homem tocar” (se dá conta de que está com ele nas mãos e ressalva) ”quando está aceso”. Conta que aquele só tem o lado feminino.

“Quando a mulher está no ciclo menstrual, ela utiliza este cachimbo, porque ele não é conectado, o cabo representa o pai, por isso o da mulher já tem um cabinho inteiro, representando só a mãe terra”.

Em Guarani, petyngua é o nome de um cachimbo de nó de pinho ou de argila. É interessante perceber os vários significados adjacentes à palavra petyngua, pois todos eles se encontram relacionados à função que o cachimbo exerce no meio social Guarani.26

O petyngua está presente na vida de um Mbyá desde o seu nascimento. O tabaco é o alimento da palavra-alma por excelência. A “bruma mortal” é fonte de vida e sabedoria. (H. Clastres, 1975).

Quando uma criança nasce, ela manifesta seus sentimentos expressados pela cólera, por isso ela chora.

O caminho para abrandar este sentimento é a descoberta da palavra-nome ou palavra-alma, pois esta carrega o sinal da presença do divino na pessoa. Assim sendo, logo após o parto a mãe procura o Karaí, chefe religioso, para apresentar o filho a ele. Caberá ao karaí descobrir a “palavra-alma” que os divinos reservaram para a criança. De posse de seu cachimbo, este chefe religioso fuma-o longamente e sopra a fumaça do tabaco no topo da cabeça do recém-nascido. A fumaça abre-lhe o caminho para a “bruma originária”, de onde precedem as “belas palavras”. E revelam aos seus pais o nome que a criança receberá, aquele que os deuses decidiram para ela. Ladeira comenta sobre o ambiente onde ocorre a nominação “lotando a casa de rezas, tornando-a quente, esfumaçada pelos cachimbos.“ (Ladeira, 1992:144)

Um exemplo do uso do petyngua aconteceu em abril de 2007, durante uma apresentação teatral de Narrativas Guarani na aldeia de Araponga. Nessa ocasião o cacique Agostinho e sua esposa não pararam de fumar o petyngua, explicando que a fumaça que é liberada pode servir para proteção deles quando há muita gente de fora ao redor.

A principal cerimônia realizada na opy é o “Nhe’emongarai”, quando os cultivos tradicionais são colhidos e “abençoados” e são atribuídos os nomes às crianças nascidas no período. O

“Nhe’emongarai” deve coincidir com a época dos “tempos novos” (ara pyau), caracterizado pelos fortes temporais que ocorrem no verão. Assim, a associação entre a colheita do milho e a cerimônia do seu “benzimento” e da atribuição dos nomes-almas impõem o calendário agrícola a permanência das famílias nas aldeias. (Ladeira, 1992). Participamos de quatro Nhe’emonarai: dois em Mbiguaçu e dois em Araponga (2007 e 2008)

26Em uma de nossas reuniões de orientação para monografia da Pós Graduação que fizemos paralelamente a este mestrado, na UFF, a lingüista Ruth Monserrat (2007) nos explicou a composição: petỹ+kwa, onde petỹ significa fumo e “kwa” buraco (o mesmo aparece em “yvykwa”(sepultura). A vogal nasal final (ou uma consoante nasal na posição final) é que pré-nasalisa e vozeia o “k”, e pronúncia passa a ser “nguá”(veja-se que em “yvykua”, na ausência de nasalização, o “k” não se altera; o mesmo processo se pode observar, por exemplo no par: “avakwe”x “kunhangue”). Já a posposição “gua”, sim, efetivamente indica procedência (de lugar de origem).

Em setembro de 2007, visitamos a Aldeia Yy Moroti Wera (reflexo das águas), Biguaçu, SC, quando o cacique Hyral Moreira, nos explicou que Nhe’emongarai, na verdade, é uma reza, não é bem batismo como muita gente fala. Celebram várias coisas como vimos acima, e muitas vezes também batizam. Conta que “antigamente demorava quinze dias porque tinha muita gente e muitas oferendas”.

Eunice Antunes, professora bilíngüe desta aldeia, define Nhe’emongorai como consagração, seja do alimento, seja da família. Ela explicou que batizado é mboery (dar o nome). E conta que as meninas e mulheres fazem mbyta (pamonha) e os meninos levam espigas com o caule do milho para depositar na opy no dia do Nhe’emongarai. Presenciamos o batizado de um bebê de nove dias, não indígena, que nasceu na opy desta aldeia, depois de muita reza, foi feito com uma pena de condor molhada na água e passada em sua testa.

Quem vive numa aldeia Mbyá sabe que mesmo uma criança dos seus quatro anos, desde que agüente.“jopy (pegue) petyngua”, já o fuma. Usar o petyngua esfumaçando a casa a tarde, soprando o alto da cabeça das crianças em algumas ocasiões, são hábitos muito comuns nas rotinas das famílias.

Mas quando se trata do trabalho intensivo na reza e na cura pelo pajé na opy, os comentários surgem sobre a dificuldade de “agüentar o petyngua”, “não é qualquer um que agüenta”, alguns disseram a Pissolato (2007: 344). Inclusive os outros objetos presentes dentro da opy, antes do início da reza, são soprados, mesmo os pousados na prateleira, até esfumaçarem o espaço total da casa e as pessoas.

O feixe de u’i (flechas rituais), com cada flecha feita pelo pai de cada menino, associadas aos meninos e homens de uma aldeia ficam dentro da opy, onde estariam os nhe’e de todos eles. Muitos em Paraty Mirim, RJ, teriam os seus nomes-almas assim guardados nesta casa (o que não é comum a todas as opy Mbyá).

Imagem 8- Takuapu-Aldeia Paraty Mirim

No caso das mulheres e meninas, o objeto sagrado que porta os seus nhe’ẽ (nomes almas) na opy é o takuapu (instrumento de percussão usado exclusivamente pelas mulheres durante a reza). Uma vara de bambu, vazada longitudinalmente ao centro e em uma de suas pontas, usada de forma vertical de modo que a face aberta fique voltada para o chão. A mulher segura o takuapu com uma das mãos e bate ritmicamente contra o chão, produzindo um som grave.

Vivemos uma situação contraditória com Nírio, filho do cacique Agostinho de Arapoanga, quando ele pegou o takuapu para nos mostrar durante a gravação de um vídeo e se deu conta que não

poderia estar segurando, logo explicando que “se fosse no ritual, jamais poderia tocá-lo, eu estou só mostrando”. Pela primeira vez vimos, em setembro de 2007, na Aldeia Mbiguaçu (SC), uma antropóloga tocando takuapu, antes víamos somente as Mbya. Em janeiro de 2008 vimos a mulher do cacique, Celita, oferecer a duas jurua o takuapau para que tocassem durante o Nhe’emongarai (realizado na ocasião para o batismo de um bebê e reza do kaguijy (bebida de milho fermentado) que vem sendo preparado na aldeia desde a segunda semana de dezembro).

Outros tocam a rave (espécie de rabeca com a qual se realiza um solo musical, atualmente substituida por violino), um ou outro rapaz toca mbaraca (violão de marcação, usado com cinco cordas com acorde maior) e o angu´apu (tambor).

Imagem 9- Mabaraca mirĩ- Aldeia Araponga

O mbaraca mirĩ (chocalho) é tocado pelo pajé ou por outros homens na opy. Para os Nhandewa o mabaraca mirĩ é objeto principal, substituindo o petyngua Mbya. E alguns destes últimos acumulam os dois objetos, dentre outros, em seus rituais sagrados. O cacique de Sapukai informou a Litaiff que este costume estava desaparecendo “mbaraca mirĩ, só pra vender na pista, na reza não usa”.27 (1996: 82) Na Aldeia Mbiguaçu participamos em setembro de 2007 e janeiro de 2008, de cerimônias na opy nas quais os homens tocavam o mbaraca mirĩ.

No Nhe’emongarai da Aldeia Araponga, em janeiro de 2007 e 2008, o instrumento também foi usado.

Imagem 10- Mbaraca mirĩ- ReservaTécnica- Museu do Índio- RJ

É marcante a diferença entre o mbaraca mirĩ que é vendido como artesanato e o que é usado na Opy. O artesanato para venda é feito ora de takuara, seguindo o mesmo tipo de trançado dos adjaká, ora de cabaça, ambos bem coloridos, com expressões gráficas ou pirografadas, ou que resultam do trançado. O instrumento sagrado mabaraca mirĩ, usado na opy é na maior parte das vezes é simples, de cabaça e tem no máximo uma pena enfeitando, que normalmente não é de cor forte.

27 Em um seminário que participamos na UCDB, Campo Grande, MS, tanto em 2006, quanto em 2007, um jovem Guarani Kaiova já respeitado por sua função, apenas com o seu mbaraca mirĩ em mãos, todos os dias do evento pela manhã, começava a marcar um ritmo com o instrumento e cantava para o sagrado acompanhar as jornadas de discussões.

Existe o popygua, bastão de madeira colocado por Nhanderu, responsável por “sustentar o mundo”, segundo Verá Mirī. Uma única vez ele mostrou seu popyguá a Litaiff e disse: “só do Mbya, esse aqui, se tem, é Mbya”. Objeto constituído por duas hastes de um metro e vinte de comprimento, por um centímetro de espessura, feito de cerne de guajuvira, e esta vara ou bengala é utilizada somente pelos homens durante a reza. Sua execução é realizada pelo yvyra’ija, ajudante do pajé, consiste em fazer chocar em ritmo acelerado uma clave contra a outra. “Os Guarani mais velhos, como seu João, usam o popyguá maior. Seu Inácio, muito velhinho, tem um desses com a ponta mais grossa. A criança tem um menor, quando cresce vai aumentando o popyguá. Os velhos o usam também como bengala para andar”. (Relato de um informante de Bracuí a Litaiff, 1996).

Existe outro tipo de popyguá: duas hastes de trinta centímetros, por dois milímetros de espessura, unidas por fina corda de imbira com vinte centímetros, geralmente feito de alecrim. Esse objeto é usado por certos homens Mbyá durante suas viagens, como um tipo de amuleto, pois permite ao seu portador dormir em qualquer lugar, “mato ou cidade”, sem ser molestado por estranhos, nem por animais ou espíritos. Todos os pajés e alguns caciques, ao se encontrarem em certas situações especiais, cumprimentam-se, sacando seus respectivos popygua, batendo as duas hastes no mesmo, uma na outra, várias vezes, produzindo um som metálico. Segundo o Cacique Verá Mirĩ esse ato é conhecido pelos Mbya como a “saudação do pajé”.

Esses objetos também são usados num outro ritual, denominado “Xondaro”: dois homens ficam ao centro de um círculo formado por outros Mbyá. Inicia- se um tipo de combate, onde um deles está portando um grande popygua, que, abrindo as duas hastes, passa uma delas sob os pés de seu companheiro, que deve saltar sobre ela, enquanto a outra haste passa simultaneamente sobre sua cabeça. No desenrolar dessa dança, as duas hastes do popygua vão sendo aproximadas gradativamente, diminuindo o espaço entre elas, por onde deve passar o outro participante. Enquanto isso, os observadores que fazem o círculo, cantam e dançam em seus respectivos lugares. O homem que conseguir saltar dentro do menor espaço torna-se o Xondaro. Esse título é importante na organização social Mbyá, pois demonstra que seu detentor pode assumir responsabilidades. Há a representação de três pássaros no Xondaro, como narra Ladeira (1992): Mainoĩ (beija- flor) para aquecimento do corpo;

Taguato (gavião) para evitar que o mal entre na opy; Mbyju (andorinha) representada por uma luta onde um deve "derrubar" o outro com os ombros e esquivar-se de um possível tombo. Pissolato (2007:

369), registra fala de Laureano sobre alguma semelhança entre a “ginga de corpo” do Xondaro, quando os participantes buscam golpear e se esquivar ao mesmo tempo, com a Capoeira. Esta etnóloga conta

que Laureano, Mbyá criado no meio dos brancos, que percebeu este fato. Em Araponga, Marciana, mulher do cacique chamava para dançar “neike xondario”(sic) (venha soldado), referindo-se ao ritual com uma dança de guerreiros.28O Xondaru acontece muitas vezes no início das sessões de reza ou em intervalos entre os mboraei, criando um clima de descontração entre os participantes. As pessoas circulam em fila, no meio da opy, no sentido anti-horário, com música exclusivamente instrumental, executada sempre por mbaraca e rave tocados por jovens que permanecem sentados nos bancos.

Imagem 11- Opy Mbiguaçu- SC- setembro

O bastão, fincado no chão da opy de Mbiguaçu, SC, segundo o cacique desta aldeia Hyral Moreira, “é a ligação do céu com a terra, está numa linha imaginária, o fogo está bem no centro e esta flecha (a madeira que faz esse fogo aceso dentro da opy, é colocada em forma de flecha e esta fica direcionada para o bastão), é o alinhamento do nascer do sol e do pôr do sol como se fosse uma baliza”. (Na ponta deste bastão há uma escultura em forma espiralar). Hyral conta que “é um ser, um feto, de pedra”.

O pajé Alcindo, em dezembro de 2007 nos disse que

“problemas são como flechas”. Quando voltamos a Mbiguaçu, havia desenhos feitos na base construída em barro entre a fogueira e o bastão. E Alcindo mostrou um pássaro desenhado ao centro, chamando-o de “mestre”.

Marcos Moreira, professor bilíngüe e pesquisador da arte Guarani, explicou que a espiral no sentido anti- horário é símbolo da cura. Marcos conta que o desenho do “mestre”

pode representar tanto fênix como o taguató (gavião).

Imagem 12- Opy Mbiguaçu- dezembro- 2007

Deixaremos aqui algumas falas soltas porque foi assim que as recebemos, no entanto, como fizeram nossos “narradores”, com esta forma aparentemente desconexa, caminhos e camadas diferentes de compreensão podem surgir.

28Setti sugere ao xondaro o sentido de guardião da casa de reza, observando que a dança no pátio fazia voltas circulares em torno da opy (1994: 85) Em Marajó Geraldo Moreira, filho do pajé Alcindo, participou com seu pai, dançando Xondaro em uma roda de Capoeira de Angola, com os mestres Formiga e José Carlos, na IV Jornada de oficinas e palestras Reconstruir o Futuro a partir das Tradições do Marajó que aconteceu de 17 a 21 de setembro de 2007, evento no qual participamos, realizando Oficina de Teatro de Bonecos para montagem do “Macaco Ambientalista” em teatro de bonecos, texto da pajé ambientalista Zeneida Lima.

Imagem 13- Agostinho usando tetymakua

Outro objeto que merece registro é o tetymakua

29(tetyma: perna, kua: prender no meio), que é uma corda feita de cabelo trançado, enrolado várias vezes em torno de cada perna, logo abaixo dos joelhos. Apenas alguns Mbyá mais velhos usam. Esta peça é feita pela sogra a partir de seu próprio cabelo. “Este aqui só Guarani puro que usa, se tiver é Mbya purinho.” (Verá Mirĩ a Litaiff, 1996:47) É interessante prestar atenção ao discurso de autenticidade de Verá Mirĩ, quando se refere ao uso de determinados objetos. Em Araponga vimos mais de uma vez o cacique Agostinho usando tetymakua.

Finalmente, cabe mencionar o tembeta. Egon Shaden (1963:86) informa que se furava o lábio inferior dos meninos ao entrarem na puberdade, para usarem o tembetá, uma haste de resina ou taquara com 12 cm de comprimento por 3mm de largura, fixado em uma de suas extremidades, em perfuração logo abaixo do centro do lábio inferior. A perfuração era feita aos 13 anos, com uma fina agulha de taquara. Informou um Mbya: “Já não estamos no mato puro, aí não usa mais, temos vergonha do branco.” O cacique de Sapukai disse que em algumas vezes é usado como castigo para as crianças muito levadas, “semelhantes a um raio.” Nestes dois anos de contato nas aldeias, percebemos que muitos ainda possuem o lábio perfurado, mas usam o tembetá somente em algumas ocasiões.

Para concluir esta descrição dos objetos Guarani registramos parte de uma entrevista que realizamos com Bartolomé Melià, em setembro de 2006, na Universidade Dom Bosco (UCDB), Campo Grande (MS), na qual avaliou: “tem objetos que servem mais especificamente para fins religiosos e que têm a sua mística. Tem também os que existiam antes e que agora são menos usados e quase inexistentes. Por exemplo, a panela, a cerâmica. A cerâmica quase não existe mais. 30 Eles (os Mbyá), têm pouco. A cerâmica é de grande importância para os povos e precisamente, as narrativas míticas se referem a essa cerâmica, era sempre feita pela mulher. Ao contrário da cestaria, que também acontece nas narrativas míticas, mas é feita pelos homens. Bom, naturalmente, eles também fazem as flechas. Os homens fazem as cestas para transporte. Mas são as mulheres que carregam. Isso não quer dizer que os homens não peguem no pesado. Carregam coisas às vezes mais pesadas, mas não as cestas. Essas são chamadas por diferentes nomes: os Mbyá chamam ajaká, os Nhandeva ajo e os Kaiová, quando têm, o

29 Na leitura fica tetymangua.

30Em Santa Catarina, (2007) vimos um processo de retomada da cerâmica Guarani na aldeia Mbiguaçu.

wynaku ou pynaku (sic). Os Mbyá têm, sobretudo dois instrumentos que são influências coloniais. Mas curiosamente, eles que não foram missionados, incorporam isso como uma coisa muito própria. Bom, as transformações se deram, algumas, já faz tempo, mas são transformações, por exemplo, o uso daquela espécie de violino, que eles fazem ainda, mas eu sei que agora alguns já estão usando violino comprado. Eles têm os mesmos ritmos. E depois há o violão que eles agora chamam de mbaraca. É só o violão que eles compram. Mas eu também vi ainda, o violão feito por eles”.

Resta saber em que medida esses objetos são portadores de memória. Melià respondeu que “o uso é a melhor memória”, exemplificando: “você tem memória do garfo porque cada dia usa o garfo.

Enquanto usar, você tem memória”. Sobre os objetos aqui representados ele esclarece: “o importante é que alguns desses objetos são especiais porque são sagrados, usados ritualmente. São até, diríamos, explicações míticas de alguns fatos”. Continuaremos refletindo sobre essa questão no último capítulo desta dissertação. No momento interessa indagar o que aconteceu com esses objetos e a memória Guarani após tanto tempo de contato permanente e sistemático com a população não indígena.