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2. OS GUARANI E SUAS NARRATIVAS ORAIS

2.2. A Comunidade Narrativa

2.2.3. As versões de Kuaray e Jaxy

Esta narrativa é complexa, cheia de metáforas e detalhes cuja compreensão depende de profundo conhecimento da cultura Guarani para compreendê-la. A tradução do título “Kuaray e Jaxy”

merece enfoques diferentes, Ladeira traduziu como “Gêmeos”, Litaiff chamou “Mito dos Irmãos”, mas tanto Algemiro quanto seu pai Verá Mirĩ traduzem “Kuaray e Jaxy”, como “Sol e Lua”. É uma das versões que escutamos, não entendemos, encontramos uma versão diferente, ouvimos o que vem antes e depois do fragmento da primeira versão, nos contaram outras versões que incluem os personagens principais e fomos supondo, arriscando associações, portanto, imprimiremos aqui apenas algumas considerações iniciais.

Parte desta narrativa trata do nascimento e do percurso de Kuaray que perde a mãe, devorada por uma onça, e dos ossos dela cria Jaxy, seu irmão. Os dois caçam para alimentar esta onça que os cria até encontrarem um papagaio que denuncia ser ela a devoradora da mãe de Kuaray e Jaxy. Os dois tentam exterminar as onças do mundo, mas uma onça grávida escapa do plano deles e consegue permanecer em determinado lugar na Terra. A narrativa continua com Kuaray sempre alcançando o ideal, o ponto mais alto do céu e Jaxy tentando, mas sem tanto êxito, alcançando sempre a parte mais baixa.

Este fragmento é comum a todas as versões que encontramos até agora, antes desta parte, há outro fragmento que recebe múltiplas interpretações, quando a mãe dos irmãos se recusa a colher o milho para Nhanderu, não acreditando que as sementes recém plantadas possam ter crescido, além de declarar ao marido que o filho que carregava no ventre não era apenas dele60. Assim ela é abandonada com Kuaray em seu ventre, Nhanderu teria deixado um exemplo para a conduta masculina. “Qualquer coisinha o homem fica brabo, já vai embora, deixa esposa, deixa criança, mulher grávida”, diz Nírio, professor bilíngüe da aldeia Araponga, RJ. As variações em relação à conduta original garantem configurações locais, compondo o universo social Mbyá em sua feição multilocal. (Pissolato, 2007:141) E estudiosos desta etnia também imprimem suas diferentes abordagens, como Ciccarone que vê esta “primeira caminhada“ como origem das migrações Mbyá, dirigida pela mãe de Kuaray, ressaltando o papel da mulher no xamanismo e sociedade Guarani (2004: 84-5). Na versão de Cadogan, o abandono da Terra por Nhanderu não estaria associado à incredulidade da esposa, mas ao desejo não compartilhado de ir embora. (1959: 72-3). Já Bartolomé entende que Kuaray guia a sua mãe de dentro do seu ventre, associando à busca do filho pelo pai e sua morada divina. (1991: 44).

Em várias versões o filho-feto pede flores pelo caminho para levar e brincar na casa do pai Nhanderu. E quando a mãe vai pegar é picada por marimbondos. Para se livrar da dor bate com a mão na barriga, o que deixa emudecido o bebê, que antes falava lá de dentro indicando o caminho.

Verá Mirĩ narrou “Kuaray e Jaxy” no nosso primeiro dia em Sapukai, em julho de 2006, contou que o segundo personagem Jaxy (lua), para os Mbyá, é masculino, ressaltou a importância da mãe

“aurora” e disse que a onça comeria Kuaray (Sol) se ele não fosse tão esperto e conseguisse fugir do fogo e do pilão. Verá Mirĩ explicou que só então apareceram as moscas e borboletas no mundo. Kuaray seca no Sol e ganha arco e flecha para caçar borboletas. Jaxi (lua) quando apronta, (copula com mulheres casadas), é descoberto porque pintam a cara dele, disse “por isso a lua tem manchas pretas”.

Jaxy, irmão de Kuaray, é responsável pela primeira menstruação das meninas, que faria amadurecer rápido para com elas copular a cada mês, quando desce a menstruação. Nírio falou a Pissolato “Jaxy mexe com as nossas mulheres”. E os maridos não podem evitar a cópula delas com Jaxy, ato este que não tem qualquer participação na concepção de crianças. Portanto, o aviso de gravidez pode vir de Jaxy, que é notificado por Kuaray. Neste caso, Jaxy oka’a (defeca) dando sinal de que alguma mulher moradora da aldeia em que foram encontradas suas fezes já está grávida ou

60 Ouvimos esta narativa em oficina realizada em Patrimônio, em março de 2007. Quem contou foi Sr. Demécio Martine após dizer que ninguém mais acredita nas narrativas. No último capítulo desta dissertação discutiremos sobre verdade e narrativa.

próxima da gravidez. A autora conta que em determinada manhã na aldeia Araponga, Ilda e sua filha Marina, mostraram a ela “jaxy repoxi” no pátio: uma espécie de massa amarelada com manchas negras.

O achado animou a conversa, todos conjecturavam sobre a futura mãe. Sobre este assunto, houve quem contasse que a própria criança, antes de vir, defecaria e, conforme o aspecto, daria para identificar o sexo do futuro bebê. Seja por esta forma, ou por sonho, o aviso de gravidez vem sempre dos que estão acima (yvategua). (Pissolato, 2007: 264, 265).

Nas jornadas cotidianas, os Mbyá adultos, quase sempre são acompanhados por jovens e crianças que observam suas atividades, aprendendo técnicas e outras práticas, através da imitação, de forma similar a um dos episódios deste conhecido mito, onde Kuaray ensina Jaxy, o irmão caçula, técnicas da caça, coleta e de cultivo, assim como atitudes éticas. As análises de Litaiff destas versões o levaram a concluir que as narrativas míticas podem ser reduzidas a “unidades mínimas”61 ou proposições lógicas, que identificam e definem sua fisionomia. Desta forma, cada episódio do mito é definido por uma destas unidades, constituindo o que podemos chamar de “moldes”, que permitem avaliar a relação existente entre o aspecto ideológico ou normativo e a realidade empírica, que, dependendo do contexto, pode se adaptar mais ou menos a este modelo. Estas proposições seriam conhecidas por todos os membros de sua comunidade de origem. Para os Mbyá, os atos praticados pelos irmãos Kuaray e Jaxy são modelos com relação aos quais os indivíduos da sociedade procuram nivelar suas crenças e atitudes. Nesse contexto, crenças como em Yvy marã e’ỹ, (terra sem males), podem ser vistas como catalisadores de práticas sociais e individuais. (Litaiff, 2007)

Na dissertação de Ladeira encontramos material para esta discussão. D. Maria, da aldeia Boa Esperança, em 1988 contou à pesquisadora que ‘’antigamente, nossos antigos avós, ensinavam que Nhanderu Tenonde iniciou a construção do mundo. Ele começou a fazer o mundo, mas não criou todas as cores. Depois ele foi embora. Ele fez tudo e foi para o céu, para o seu lugar, deixando seu filho

61 Na esteira de Levi Strauss quando trabalha os “mitemas”. Claude Lévi-Strauss, sem negar a contribuição de Malinowski, uma vez que também ele admite a relação dos mitos com a organização social e os outros aspectos da cultura do povo que os guarda, abriu uma nova janela para o exame dessas narrativas. É importante destacar algumas das propostas de Lévi-Strauss, feitas no seu artigo "A estrutura dos mitos", publicado pela primeira vez em inglês no Journal of American Folklore (vol. 28, nº 270, pp. 428-444, 1955) e divulgado em português no volume Antropologia Estrutural (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967), que mais contribuíram para dar um novo rumo à análise dos mitos: A interpretação dos mitos deve estar mais voltada para os seus aspectos cognitivos do que para os emocionais. Não há versões autênticas ou originais de um mito, umas completam as outras e a análise deve levar em conta todas elas. Além das unidades lingüísticas que podem ser isoladas a partir dos enunciados emitidos em uma língua - fonemas, morfemas, tagmemas, o mito se compõe de unidades mais abrangentes, a que Lévi-Strauss deu o nome de "mitemas".

Kuaray. Depois, disse ao seu filho: _ pois você gerará também para todos que vão estar na terra, para todos, para todos. Pois nossos filhos que estão no mundo, não podem brigar. Cada um deve gostar do outro e cada um deve mostrar alegria para com o outro’’. 62

Sua grande preocupação, que talvez justificasse esses acontecimentos, era a atração, que os bens de consumo dos brancos exerciam, sobretudo nos jovens. Há cerca de um ano atrás, a aldeia passara a ter luz elétrica e a televisão, que havia em algumas casas, conquistava cada vez mais um público maior.

D. Maria começa seu discurso se remetendo à origem do mundo, para relembrar as criações feitas, por Nhanderu e Kuaray, para os Mbyá.

No mundo povoado pelos brancos e pelos Guarani, D. Maria deixa claro que a conciliação e o entendimento passa, necessariamente, pela cordialidade e pela manutenção das diferenças de costumes e tradições. ‘’Todos os brancos e todos os “filhos caçulas” de Nhanderu vivem hoje no mundo, todos.

Mas as pessoas (os brancos e os Mbyá) não devem se estranhar. Devem se entender todos”. (Ladeira, 1988: 163)

Há as narrativas que não só refletem uma realidade, como produzem novas realidades. “Se o mito se relaciona com o rito, relaciona-se também com todo o sistema social, uma vez que todas as relações sociais têm o seu aspecto ritual. O mito pode mesmo indicar a possibilidade de inversão do sistema”. (Melatti, 2007: 190)

Portanto, viver o mito enquanto experiência religiosa não se distingue da vida cotidiana impregnada de relações míticas com o universo. “Para colocar em prática o objetivo final, alcançar yvy marã e’ỹ, que significa em termos reais a sobrevivência do povo Mbyá, é preciso viver um cotidiano determinado pelo mito”. (Ladeira, 1974: 64) Os aspectos que mais se evidenciam nas narrativas mitológicas Guarani, em especial a Mbyá, é a preponderância do religioso manifestado na vida social.

(Schaden) Deste modo o que percebemos é que a memória mítica do grupo é constantemente atualizada, pois ela não se encontra apenas atrelada às narrativas orais, transmitidas de geração a geração, ou às práticas rituais. Ela é posta em prática, seguindo os preceitos ditados pelos mitos, que fundamentam o pensamento Mbyá, nos quais o esforço individual é a condição essencial, mas ele não sobrevive sem o empenho coletivo que propicia que todos, individualmente, consigam realizar o ideal comum.

62 Esse depoimento foi gravado por Ladeira em 1988, em Guarani, durante o dia, na casa de rezas da aldeia, num momento em que D. Maria, dirigente espiritual de grande ascendência entre os Mbya do litoral, encontrava-se triste e preocupada com vários acontecimentos que ocorriam em sua aldeia: separações de casais, pouca participação nas rezas noturnas, duas mortes súbitas inexplicáveis

Deste mito desprendem-se inúmeras analogias com diversas esferas da vida. Neste momento observaremos alguns cuidados que devem ser tomados pelos pais da criança que está para nascer, e logo após o nascimento desta. Durante a gravidez, os pais não devem manter relações extraconjugais, pois relações com múltiplos parceiros podem provocar o nascimento de gêmeos, e comprometer a alma da criança, uma vez que todos os parceiros interferem na formação desta. Para sua integridade física, e, sobretudo espiritual, a criança não deve ter mais de um pai e de uma mãe.

Narrativas sobre transformação, perigo do homem se tornar animal (jepota), por exemplo, chamam mais atenção, como sugere Pissolato, do que as dos seres divinizados como Kuaray e Jaxy ou a criação da Terra pelos deuses. (2007: 331) Consideramos que ambas são narrativas internas ao

“mundo Mbyá” e só são compartilhadas com o juruá em momentos especiais. Em uma das oficinas que realizamos o grupo de professores da Aldeia Mbiguaçu (SC) encenou uma adaptação de Kuaray e Jaxy, que começava com o avô avisando que narraria somente um capítulo e viriam muitos outros depois. Na versão deles, no final, Kuaray seguia por uma margem do rio e Jaxy por outra, detalhe que não havia percebido nas outras versões que conhecemos antes. Nos três dias de janeiro que permanecemos nesta aldeia, quando demostramos interesse em ouvir Kuaray e Jaxy, disseram que é tão grande, que em pouco tempo fica impossível contar. No entanto, escutamos de diferentes Guarani, quando perguntamos, vários casos de jepota.

Partimos da narrativa de Verá Mirĩ, de Algemiro e das transcrições de Ladeira, Litaiff, Clastres e Cadogan, para a adaptação de um fragmento do texto para teatro de bonecos, (ver texto da adaptação 01 no anexo) que foi apresentado por alunos não indígenas na Aldeia Sapukai, no final de julho de 2006. No momento dos ensaios e apresentação ainda não tínhamos a dimensão da importância e extensão desta narrativa. Mesmo assim, conseguimos principalmente com a ajuda de Algemiro e Vera Mirĩ, fazer uma adaptação interessante, respeitando o aspecto sagrado que porta.

Imagem 19- Verá Mirĩ narrando- Aldeia Sapukai- julho- 2006

Imagem 20- Apresentação Bonecos de luva- 2006

Na segunda viagem a Sapukai, no final do mês de julho de 2006, como já citamos, levamos alunos da escola de teatro do CEI Quintino, para apresentar “Kuaray e Jaxy” em teatro de bonecos. A comunidade e Vera Mirĩ assistiram e, no final, ele narrou a parte que viria antes da adaptação que fizemos com os alunos não indígenas e a continuação na seqüência dos fragmentos das narrativas apresentadas.

Foi a primeira vez que a aldeia Sapukai assistiu a um espetáculo de teatro de bonecos.

Algumas crianças, monolingües em guarani, não compreendiam as palavras, mas reconheciam as imagens e muitas vezes nomeavam em voz alta durante a cena os personagens e algumas ações na língua guarani. A arte do teatro de bonecos, com as suas muitas camadas de leitura, com palavras, movimentos e formas, conseguiu comunicar.

Em setembro de 2006, Algemiro Karai Mirim nos convidou para, junto com a associação da Aldeia Sapukai, inscrever o Projeto: “Narrativas Guarani em Teatro de Bonecos” no concurso Prêmio Culturas Indígenas 2006, promovido pelo Ministério da Cultura. Neste mesmo dia gravamos três micro-vídeos falando da importância das narrativas, da poesia e de como eles só conseguem manter a rima e as metáforas, se for na língua Guarani. Ficamos muito felizes porque vemos muitos projetos serem oferecidos às aldeias, portanto escolherem o nosso, nos convidarem, é sinal de confiança e reconhecimento da importância do que começamos a criar juntos. A associação da comunidade ganhou a premiação e estamos dando continuidade ao projeto.