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A T ORRE DE V IGIA N EGRA

No documento O-Equinocio-Volume-1-Numero-01 (páginas 189-197)

Quem, em algum momento de sua vida, nunca expe- rimentou a sensação estranha de absoluto espanto ao ser despertado pela aproximação repentina de uma luz brilhan- te através do limiar das cortinas do sono; esse sentimento intoxicante de maravilhamento, essa incapacidade irreme- diável de abrir os olhos cegos ante a chama ofuscante que varreu a noite em cantos e fissuras escuros do dormitório do sono?

Quem, novamente, não caminhou da luz do sol bri- lhante do meio-dia a alguma cripta sombria, e, tateando ao longo de suas paredes escuras, julgou tudo ali como sendo apenas o cadáver do dia envolto em uma mortalha de tre- vas sem estrelas?

No entanto, assim como os momentos se apuram com a visão se acostumando com o intruso deslumbrante; e co- mo a rede ofuscante e cintilante de prata que ele jogou ao nosso redor se derrete como uma rede de neve ante o fogo desperto de nossos olhos, nós percebemos que a chama branca da perplexidade que há poucos momentos atrás nos envolveu como um manto de relâmpagos, é na verdade apenas uma luz fraca bruxuleante expirando irregularmen- te em um soquete de argila deformada. E da mesma forma

na escuridão, conforme passamos às escuras ao longo dos arcos da abóbada, ou os recessos sem lâmpadas que, como sapos, se agacham aqui e ali na penumbra, primeiramente de modo turvo as molduras do teto e as cornijas das pare- des se rastejam adiante; e então, conforme o crepúsculo se torna mais certo, eles torcem e se contorcem em arabescos de formas estranhas, em figuras fantásticas, e rostos con- torcidos; que, à medida que avançamos, esvoaçam como morcegos nas profundezas de uma escuridão além mais profunda.

Fique! — e só por um momento corra de volta, e traga com você aquela luz fraca que nós deixamos balbuciando na prateleira da lareira do sono. Agora tudo desaparece uma vez mais, e do chão diante de nós sobressai-se no limbo da escuridão as rígidas paredes cinzentas de rocha, as arquitraves senis, as colunas encacheadas, e todo os ca- pitólios esmigalhantes da Arte, onde os anos sentam deso- lados envoltos por uma mortalha, dormindo em sua poeira e mofo — uma memória assustadora de dias há muito es- quecidos.

Ó terra dos sonhos de maravilha e mistério! como uma língua de ouro envolta em uma chama azul nós pai- ramos por um momento sobre o Bem da Vida; e então o vento-da-noite levanta, e sopra-nos às profundezas sem es- trelas da sepultura. Somos como mosquitos que pairam nos raios do sol, e então a noite cai e nós nos vamos: e quem pode dizer para onde, e com que fim? À Cidade do Sono Eterno ou à Mansão da Música Regozijante?

Ó meus irmãos! venham comigo! sigam-me! Suba- mos a escada escura desta Torre do Silêncio, esta Torre- de-vigia da Noite; sobre cuja fronte negra nenhuma chama bruxuleante queima para orientar o viajante cansado atra- vés do lodo da vida e através das névoas da morte. Ve- nham, sigam-me! Vamos tatear por estes passos senis, es- corregadios com as lágrimas dos caídos, farpados com o sangue dos vencidos e o sal da agonia do fracasso. Vamos, venham! Não hesitem! Abandonem tudo! Vamos subir. No entanto, traga convosco duas coisas, a pedra e o aço — o fogo adormecido do Mistério, e a espada negra da Ciência; que possamos lançar uma faísca, e acender o farol de Espe- rança que paira acima de nós no braseiro do Desespero; de modo que uma grande luz possa brilhar através da escuri- dão, e guiar os passos fatigados do homem para aquele Templo que foi construído sem mãos, forjado sem ferro, ou ouro, ou prata, e no qual nenhum fogo queima; e cujos pilares são como colunas de luz, cuja cúpula é como uma coroa de esplendor posta entre as asas da Eternidade, e so- bre cujo altar relampeja a eucaristia mística de Deus.

O

AVARENTO

“DEUS”. Que tesouraria de riquezas está enterrada nessa palavra! que mina de pedras preciosas! — Ptah, Pai dos Princípios, ele que criou o Sol e a Lua; Nu, senhora azul e estrelada do Céu, senhora e mãe dos deuses; Ea, Se- nhor das Profundezas; Istar — “Ó Tu que estás posto no céu como um colar adornado com selenitas”; Brahma o dourado, Vishnu o sombrio e Shiva o carmesim, banhados em mares de sangue. Por toda parte Te encontramos, ó Tu único e terrível Eidolon, que como Aormuzd de uma vez só governou as planícies do Eufrates chamuscadas pelo sol, e como Odin as ondas geladas e os ventos agudos, em volta dos halls congelados do Norte.

Em toda parte! — em toda parte! E apesar disso Tu agora és Deus novamente, inominável para o eleito — ó Tu grande Pleroma inescrutável construído na Inexistência de nossa imaginação! — e para os pequeninos, as crianças que brincam com as unidades da existência, apenas uma boneca de um cúbito de altura com uma miríade de nomes, uma coisinha para se brincar — ou senão: um ancião, o Pai barbado, com cabelo tão branco quanto a lã, e os olhos como chamas de fogo; cuja voz é como o som de muitas águas, em cuja mão direita tremem as sete estrelas do Céu, e de cuja boca irradia uma espada flamejante de fogo. Ali Tu te sentarás contando as esferas do Espaço, e as almas dos homens: e nós trememos diante de Ti, adorando, glori-

ficando, suplicando, implorando; para que por ventura Tu não nos atires novamente na fornalha da destruição, e não nos ponha entre o ouro e a prata de Teu tesouro.

É verdade, Tu tens sido o grande Avarento dos mun- dos, e os pratos da Balança de Tua tesouraria pesaram a quantia do Céu e do Inferno. Tu acumulastes em torno de Ti o saque dos anos, e a pilhagem do Tempo e do Espaço. Tudo é Teu, e nós não possuímos nem sequer o fôlego de nossas narinas, pois ele só é dado a nós sobre a usura de nossas vidas.

Ainda da contabilidade do Céu Tu nos dotaste com um espírito de grandeza, uma imaginação da vastidão do Ser. Tu nos deixastes fora de si, e contamos com Ti as hos- tes estreladas da noite, e desembaraçamos as tranças ema- ranhadas dos cometas nos domínios do Espaço. Caminha- mos Contigo em Manre, e falamos Contigo no Éden, e ou- vimos Tua voz de fora do meio do redemoinho. E às vezes Tu fostes um Pai para nós, uma alegria, forte como um grande gole de vinho antigo, e nós demos boas vindas a Ti!

Mas os Teus servos — aqueles egoístas, agiotas sa- cerdotais — Vede! como eles destruíram os corações dos homens, e concentraram o tesouro das Almas nas mãos de poucos, e aumentaram os cofres da Igreja. Como nos tortu- raram e arrancaram de nós os próprios emblemas da ale- gria, extinguindo nossos olhos com os ferros quentes da extorsão, até que cada quilo de carne humana estivesse como uma esponja sedenta embebida em um poço de san- gue: e a vida se tornasse um inferno, e homens e mulheres

cantassem, vestidos no san-benito pintado com chamas e demônios, para a aposta; para procurar no fogo o Deus de seus antepassados — aquele juiz severo que com a espada na mão uma vez era acostumado a ler os nomes dos vivos do Livro da Vida, e exaltar os humildes sobre o trono dou- rado dos tiranos.

Mesmo nesses tempos de crucifixo, de crânio e de ve- la; nesses tempos de auto-da-fe e de in pace; nesses tem- pos quando a língua tagarelava loucura e o cérebro camba- leava em delírio, e os ossos eram partidos em pedaços e a carne era esmagada até a polpa, ainda havia na escuridão um encanto da verdade, como um pôr-do-sol grande e es- carlate visto através das lembrança dos anos. A vida era um manto de horror, mas ainda era a vida! Vida! a vida na terrível e abominável majestade das trevas, até que a morte cortasse o sombrio fio vermelho com uma espada curva de fogo cruel. E o Amor, um êxtase selvagem, louco, de asa quebrada, esvoaçando diante das órbitas sem olhos do Mal, assim como as almas dos homens eram compradas e ven- didas e trocadas, até que o Céu se tornasse uma ninharia dos ricos, e o Inferno um calabouço do devedor para o po- bre. No entanto, entre esses ossos apodrecendo na mas-

morra, e os palácios imperiais da luxúria papal, pairava o

espírito da vida, como uma chama dourada envolvida por uma nuvem de fumaça sobre o altar negro da decadência.

Ouve: “Você é um convertido...? Você está salvo? ... Você ama Jesus?” ... “Irmão, Deus pode salvá-lo. ... Jesus é amigo do pecador. ... Descanse sua cabeça em Jesus ...

querido, querido Jesus!” Maldito seja até o trovão estreme- cer as estrelas! maldito seja até que essa blasfêmia seja amaldiçoada da face do céu! maldito seja até que o nome sibilante de Jesus, que se contorce como uma cobra em uma armadilha, seja expulso do reino da fé! Uma vez “Eloi, Eloi, Lamma Sabachthani” ecoava pela escuridão a partir da Cruz da Agonia; agora Jerry McAuley, esse ho- mem de Deus, malvestido de farrapos baratos de Aflição, gesticulando em uma Capela de estanho, berra “Você ama Jesus?” e fala daquele filho místico Dele que expôs o sol e a lua, e todas as hostes do Céu, como se ele fosse primo de primeiro grau da Sra. Booth ou da própria tia Sally.

Uma vez o homem na terra mágica do mistério bus- cava o elixir e o bálsamo da vida; agora ele procura o “lei- te espiritual para os bebês americanos, colhido dos seios de ambos os Testamentos”. Uma vez o homem, em seu frene- si, embriagado com o vinho de Iacchus, clamaria para a lua a partir da cúpula destruída de algum templo de Zagraeus, “Evoe ho! Io Evoe!” Mas agora, ao invés disso, “Embora eu estivesse completamente repleto de bebida, eu sabia que a obra de Deus principiada em mim não seria desperdiça- da!”

Assim o nome de Deus é arrotado em cerveja e blas- fêmia bestial. Quem não preferiria ser um São Bessarion que passou quarenta dias e quarenta noites em um espi- nheiro, ou um São Francisco pegando piolhos de sua pele de carneiro e louvando a Deus pela honra e glória de vestir tais pérolas celestes em seu traje, do que se tornar um ca-

valheiro evangélico presunçoso e bêbado, caminhando até a Igreja para o querido Jesus em uma manhã de sábado, com o Livro de Oração, a Bíblia e o guarda-chuva, e uma moedinha de três centavos em sua luva?

No documento O-Equinocio-Volume-1-Numero-01 (páginas 189-197)

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