“ARCÁDIA, noite, uma nuvem, Pã, e a lua”. Quê pa- lavras para se conjurar, quê cinco brados para matar os cinco sentidos, e pôr uma chama saltitante de esmeralda e prata dançando ao nosso redor conforme nós gritamos sob os carvalhos e sobre as rochas e murtas da ladeira. “Ferido ao peito de Pã” — fujamos da igreja, e da capela, e da sala de encontros; abandonemos esse manto de ordem, e pule- mos de volta às charnecas, e pântanos, e montes; de volta aos bosques, e às clareiras da noite! de volta aos antigos deuses, e aos lábios rosados de Pã!
O quanto crepitam as tochas na tempestade, pressio- nando quentes beijos de ouro nos troncos retorcidos e no- dosos das faias! O quanto rodopia para cima a fumigação de almíscar e mirra, em uma nuvem aromática do incensá- rio brilhante! — o quanto se agarra momentaneamente e sofregamente aos ramos, e então é levada pelo vento até as estrelas! Veja! — conforme os invocamos, o quanto eles se reúnem ao nosso redor, estes Espíritos do Amor e da Vida, da Paixão, da Força, e do Abandono — estes músculos da masculinidade do Mundo!
Ó mistério dos mistérios! “Pois cada um dos Deuses está em todos, e todos estão em cada um, estando inefa- velmente unidos a cada outro e a Deus; porque cada um, sendo uma unidade super-essencial, sua conjunção uns
com os outros é uma união de unidades”. Assim cada um é todos; assim a Natureza dissipa o ouro e a prata de nossa compreensão, até que no furor do pânico batemos a nossa cabeça nas rochas lavadas pela tempestade e nos troncos rajados, e gritamos, “Io ... Io ... Io ... Evoe! Io ... Io!” até que as clareiras vibrem com a música da siringe e do sis- tro, e nossas almas sejam arrancadas para longe nos chifres flamejantes de Pã.
Vinde, Ó crianças da noite e da Morte, despertai, le- vantai! Veja, o sol está acenando no oeste, e nenhum dia de primavera está por perto nesta terra de sonhos secos; pois tudo é maçante com o suor da melancolia, e sombrio com a assiduidade do Mal! Despertai! Ó, despertai! Apres- semo-nos para os cumes das montanhas solitárias, pois lo- go o sol surgirá em nós, e então seus picos brancos ficarão dourados e vermelhos e púrpuras como os seios de uma mulher poderosa inchados com o sangue e o leite de uma nova vida. Ali, entre essas colinas distantes de ametista, encontraremos a bela amante do desejo de nosso coração — essa Mãe generosa que nos abraçará em seu peito.
Suas são as florestas sem fim, os montes, e o distante púrpura do horizonte. Chame, e eles lhe responderão; per- gunte, e eles anunciarão a você o espólio acumulado dos anos, e todos os tesouros das eras; de modo que nada esta- rá em necessidade, e tudo possuirá a tudo na lembrança de todas as coisas. Venha, quebremos a abóbada da Circuns- tância e as paredes do calabouço da Convenção, e de volta a Pã nos matagais confusos, e à beleza sutil da Sacerdotisa,
e aos jovens do pastor — de volta aos rebanhos brancos do morro, de volta a Pã — a Pã — a Pã! Io! a Pã.
Sob o visco e o carvalho não há risinhos do banco da capela, nenhum sorriso de desejo obsceno da sala de visi- tas, nenhum barulho de beijos de lábios devassos sobre a carne quente e a pele branca da vida; mas surge um grande grito de riso alegre, que move os ventos de seus cursos de- signados, e agita os galhos mortos dos ramos frondosos do alto: ou, tudo é solene e quieto como uma noite sem fôle- go; pois aqui a vida é sempre viril tanto no tumulto quanto no repouso.
Aqui não há nenhuma troca, nenhuma usura, nenhu- ma contagem dos ganhos e perdas da vida; e o grande Se- meador salta pelos campos como um louco, lançando o grão dourado entre os arbustos, e sobre as rochas, bem como entre os sulcos negros da terra; pois cada um deve ter sua chance, e combater até a vitória com virilidade e força. Aqui não há nem seita e nem facção: viver ou mor- rer, prosperar ou decair! Assim os grandes vivem, e os pe- queninos voltam às raízes da vida. Nem sua obediência es- tá fora daquela que nasce da Necessidade; pois aqui não há suporte, nenhum apoio sobre os outros — relhas são forja- das em espadas, e carreteis são moldados em setas de fle- chas, e os ventos gritam através de nossa armadura con- forme batalhamos pela força do Mundo.
A chuva cai sobre os desertos assim como sobre os vales férteis; e o sol resplandece sobre as águas azuis as- sim como sobre os campos verdejantes; e orvalho não está
atento para onde dorme, seja sobre o monte de estrume, ou entre as pétalas da rosa selvagem; pois tudo é esbanjo nes- te Templo do Mundo, onde no trono de riqueza inesgotável senta o Rei da Vida, arrancando as joias de sua garganta dourada, e atirando-as ao vento para serem levadas para os quatro cantos da Terra. Não existe economia aqui, nenhum acúmulo para a manhã; e mesmo assim não existe nenhum desperdício, nenhuma luxúria, pois todos que entram nesta Tesouraria da Vida se tornam um com as joias do tesouro.
Palavras! ... palavras! ... palavras! Elas te algemaram e acorrentaram, Ó crianças das brumas e das montanhas; elas te aprisionaram, e te cercaram nos calabouços de uma razão sem luz. A Fantasia foi queimada na fogueira do Fa- to; e a imaginação confinada nas algemas do erro e da am- biguidade. Ó vazio de palavras vãs! Ó persuasão, arte en- ganosa! Com esperteza os grandes de hoje lutam com o sopro nauseabundo de suas bocas, torcendo e contorcendo- o em ilusões, abastardando e corrompendo a essência das coisas, sugando como um vampiro o sangue de seus cora- ções, e soprando em suas narinas os símbolos rígidos da lei e da ordem, gerados no leito de morte de sua compreensão. Ó crianças da Maravilha e da Fantasia, voem para as florestas selvagens enquanto ainda há tempo! De volta aos mistérios dos carvalhos sombrios, à revolta da imaginação, à insurreição das almas, aos festivais do amor enluarados: de volta para onde espreita o lobisomem, e os moonrakes vagueiam. De volta, Ó de volta para a canção da vida, de volta para o grande Deus Pã! E ali, envolto em sua pele de