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CAPÍTULO II A IGREJA E APOSTOLADO POSITIVISTA DO BRASIL E A

2.3 A ortodoxia positivista e a ditadura republicana

No sentido de salvar a sociedade da anarquia em que tinha mergulhado após a Revolução Francesa, os positivistas religiosos tratavam de encaminhar medidas que entendiam necessárias. Tratava-se, sobretudo, de abandonar entre as classes sociais todo tipo de confronto, em favor de uma unidade. Os líderes da Religião da Humanidade reivindicavam abertamente a implantação de uma ditadura, plataforma que encontrava ressonância cada vez maior entre os militares. Tal tese encontrou resistência dos liberais, o que impedia a aprovação de uma Constituição ditatorial. Na organização republicana, aparece na visão dos ortodoxos, a idéia de um ditador, isto é, aquele capaz de conduzir as massas a um processo de transição que promovesse a modernização do país, conservando as bases sociais existentes. Estamos diante da idéia da modernização conservadora tão difundida ao longo do século XX.

A idéia da ditadura republicana encontrou no Rio Grande do Sul apoio e liderança de Júlio de Castilho, ao conseguir aprovar uma carta positivista dentro dos pressupostos do autoritarismo doutrinário comtiano, dando a esse chefe do Executivo plenos poderes. A experiência original da ditadura republicana deu-se entre 1891 e 1930, no Rio Grande do Sul, por conta das ações de Júlio de Castilho.

As interpretações de Miguel Lemos e Teixeira Mendes foram fundamentais para o desenvolvimento do positivismo no Brasil. Fundadores e autoridades, marcavam as posições oficiais do apostolado, levando a um inevitável rompimento com o grupo parisiense laffittista,

em 1883, bem como com alguns membros da IPB. Após ser institucionalizado em 1881, o apostolado iniciou uma intensa atividade, estendendo-se ao longo das duas primeiras décadas da Primeira República. Com isso, centrava esforços na formação da opinião pública, visando influenciar as decisões de governo naquilo que considerava como projeto educativo, isto é, a regeneração da humanidade.

Os ideais da modernidade desejada por Comte são apresentados no Apelo aos

conservadores, devendo realizar-se no plano intelectual e instaurando para sempre uma ordem

republicana com um poder central, forte e estável, mantida sob o jugo da força, unindo todos os verdadeiros patriotas. Comte considerava os métodos dos comunistas anárquicos, violentos e inadequados para a época. Seguindo os preceitos do evolucionismo, Comte buscava um grande entendimento entre as classes sociais ao considerar que se as reformas não fossem imediatas nem radicais, poderiam, causar perturbações sociais e pôr em risco a República recém-instalada. Ao justificar a necessidade da ditadura como forma de governo, Mendes

(1936a, p. 117) destaca:

1º Que todos os governos das nações modérnas, desde o XVI século, são e só pódem ser ditaduras. 2º Que o atual governo do Brazil é e só póde ser uma ditadura. 3º Que toda a ditadura não é despotismo. 4º Que a ditadura republicana, aconselhada por Augusto Comte, e cuja concepção o Apostolado Pozitivista tem vulgarizado entre nós, desde a sua fundação em 1881, pelo cidadão Miguel Lemos, é o único governo capás de prezervar contra o despotismo, tanto os póvos como os governos ocidentais. 5º Que a ditadura republicana aconselhada por Augusto Comte é só que póde encerrar a éra das revoluções porque sistematiza a evolução histórica dos póvos ocidentais assegurando a Órdem e garantindo o Progrésso, mediante a separação entre o poder temporal e o poder espiritual.

Tratava-se, nesse sentido, para o apostolado, de estabelecer a preponderância do governo sobre as assembléias, que se caracterizaria pela iniciativa de concentrar em uma pessoa a ação executiva governamental, como guardião da ordem. A rigor, um governo presidencial, sob a égide de uma ditadura-republicana, seria capaz de assegurar, aos menos nos primeiros momentos, uma “revolução” sem violência. Para garantir o progresso, a República deveria ser uma ditadura, devendo ser instituída de cima para baixo para evitar qualquer insurreição. Seu principal destino exigiria por toda parte renúncia a toda forma de violência entre os governantes e os governados. Progresso, nesse caso, significava promover um pacto entre eles, buscando uma conciliação durável entre as partes. Somente esse acordo colocaria fim à desordem intelectual e moral e garantiria a manutenção da ordem material (COMTE, 1899, p. 170-171).

A solução dos conflitos sociais passava pela regulação das relações entre os empresários e os trabalhadores. Colocava-se como força conservadora entre os reacionários e os revolucionários. Negavam o comunismo por parecer uma força anárquica, e refutavam o individualismo, por este não respeitar o altruísmo. Opunham-se aos revolucionários, ao quererem que a reformas fossem imediatas e radicais. Distanciam-se dos reacionários por considerá-los passivos demais diante da crise (COMTE, 1899, p. 158-159).

Para os positivistas, uma grande crise estava abalando o mundo ocidental. Para eles, não se tratava apenas de uma crise social, gerada pela introdução da maquinaria na produção e suas conseqüências sociais como alertava Marx, tratava-se de uma crise exclusivamente de natureza moral dos indivíduos. Proclamada a República, o apostolado encarregou-se de formular um corpo de leis endereçado ao povo e ao Governo da República, lançando as bases de uma constituição política federal para a República brasileira28 .

No final do século XIX, intelectuais declararam-se positivistas, afinal, a doutrina positivista consolidava-se a cada dia como filosofia inovadora modernizadora e aglutinadora, que atraía as mais diferentes vertentes e grupos políticos positivistas. Teixeira Mendes acreditava na possibilidade e na necessidade do aperfeiçoamento do homem, elevando seu caráter e sua crença investindo no futuro do país. Por esse prisma, regenerar a pátria consistia em um meio de oferecer boas condições de vida à maioria das famílias, dando a elas garantias para a auto-reprodução como: salário justo, saúde, alimentação e moradia.

Em tempos de Constituinte, em 1890, ainda que limitada à participação dos setores economicamente mais poderosos, os mais diferentes temas apareciam nos debates: jornada de trabalho, a questão do salário e a estabilidade no trabalho, a liberdade espiritual, o fim dos privilégios católicos, a separação entre o poder espiritual e o poder temporal e a questão

28 Composta por 50 artigos, a Constituição Política Ditatorial Federativa para a Republica Brasileira, formulados pelo Apostolado Positivista, é tornada pública e apresentada ao Partido Republicano para fazer valer seus princípios. Proclamada a República, fazia-se necessário legalizá-la com um corpo jurídico, cujo teor estebelecia os princípios da república brasileira. Entre as principais propostas estavam: adoção da forma republicana ditatorial de governo; tornar as Províncias em Estados Federados, ditadura como forma de governo com amplos poderes de tomada de decisão; existência de uma Assembléia orçamentária, com membros eleitos pelas classes agrícolas, fabril, comercial e bancária de cada Estado. No capítulo intitulado Sobre as garantias de ordem e progresso de toda a união, ficava estabelecido o pricípio da liberdade de ação e comunicação dos pensamentos e das idéias, exercício de todos os cultos, garantia da nacionalidade de todos os nascidos no Brasil, mediante registro civil de filiação; inviolabilidade da moradia de todo cidadão; respeito dos direitos civis de todos; livre exercício de todos as profissões, quer morais, intelectuais ou industrais, garantia da propriedade; igualdade de diereitos perante a lei para todos; direito de qualquer um em exercer o cargo público. Em seu Art. 42, são estabelecidos os princípios em relação à educação nestes termos: “[...] a instrução primária que será sempre gratuita, livre e não obrigatória, a assitencia pública, quer nos hospitais, quer domiciliária que o distrito organizar, e os estebelecimentos de recreio público, como teatros, jardins, etc. deste princípios incorporados na Constituição aprovada de 1891”. LEMOS, MENDES. Bases de uma Constituição política, ditatorial federativa para a república brazileira. 1890c. 16p. (n. 82). (ACPPA)

indígena. Colocavam-se contrários à vacina obrigatória, por considerarem tal imposição uma agressão aos ideais de liberdade. O Apostolado Positivista, ao exigir do Governo Provisório atitudes e ações claras e efetivas em torno desses temas considerados primordiais, almejava uma nação organizada com um planejamento que incorporasse todos os setores da sociedade, planejamento amparado em um programa educativo que articulasse todas essas ações.

Outro exemplo de dedicação à pátria era exaltar os heróis como forma de exemplificar a todos quem deveria ser imitado. Tomados pela influência do darwinismo, corrente filosófica crescente na época, os positivistas ortodoxos buscavam um padrão de brasilidade inspirado no homem europeu, em suas realizações e grandezas. Para o AP, o Estado deveria assumir o papel de organizar e proteger os setores a serem incorporados pela sociedade brasileira moderna, isto é, o proletariado, cujo conceito social e político ganhava dimensão até então não observada.

Mendes (1908d), no folheto “Pela pás sul-americana”, dirigiu apelos ao ministro das Relações Exteriores a favor do altruísmo e do patriotismo, tecendo críticas à política militar de agressão às autoridades dos países. Nessas críticas exigia todos os esforços em favor da pacificação, sob a liderança do Brasil e da Argentina, cuja política estava colocando em risco a estabilidade das Repúblicas nos países sul americanos. O AP procurava assinalar os perigos de uma política militarista do governo brasileiro, dirigindo à Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados uma representação no sentido de apelar às autoridades para reduzir o orçamento voltado às políticas de guerra. “A defesa da pátria tornava-se necessária contra criminosos, exigindo para tanto a ação da polícia.” (MENDES, 1908d, p. 11).

Sobre os perigos do desenvolvimento militar do povo brasileiro, em razão da Guerra do Paraguai, os membros do AP entendiam que era missão de todo governo manter a paz, não fomentar a guerra e os conflitos entre as nações e povos, uma vez que desarticulariam a evolução natural e social da espécie humana. Para os seguidores do apostolado, apesar de todas as perturbações e tensões sociais, a Humanidade estava a caminho do regime da “pás universa”. Todavia não abria mão da necessidade de uma ditadura republicana como ação política emergencial. A guerra e a miséria eram apenas resultados inevitáveis da situação inicial da espécie humana. O Apostolado Positivista, ao difundir um discurso pacifista, afirmava ser desprovido de qualquer ambição imperialista-militar, consideradas atitudes retrógradas. Entendia que tais práticas de guerra contribuíram para que as massas cultivassem os instintos de conflito. As elites deveriam renunciar a toda forma de conflito armado, para que as camadas populares não sustentassem qualquer paixão guerreira, mas aspirassem tão somente ao trabalho pacífico.

Segundo Mendes (1911b, p. 2), era descabida a idéia do estado de sítio decretado pelo Governo Provisório; é um ato de violência contra as liberdades individuais. Estava em jogo substituir a antiga civilização teológico-militar, em seu último estágio católico-feudal, pelo moderno regime pacífico-industrial-positivista. À classe dominante e ao poder público, cabia tomar decisões no sentido de estimular e orientar inevitável transição que era uma meta natural da evolução humana. Nessa diretriz, estava a evolução brasileira, isto é, o predomínio desse “moderno regime” e a presença do amor universal no conjunto da existência humana, industrial, doméstica, cívica e planetária.

A ditadura recomendada pelo apostolado colocava-se como instrumento provisório. Portanto, substituiria a vontade do imperador pelo império das leis, para garantir a manutenção da ordem. O processo da escolha popular e os poderes clássicos da democracia representativa, como o legislativo, em um primeiro momento, não eram vistos com bons olhos pelo apostolado. A tensão política, marcada pelos acontecimentos na França, pela transição do Império para a República, não recomendava a instauração da democracia. A igualdade, valor importante para a doutrina liberal, não significava igualdade de condições materiais. Assim como os homens não são iguais em talentos e capacidades, conforme considera esta concepção, eles também não podem ser iguais em riquezas (LACERDA NETO, 2000, p. 53).

Desde a convocação da Assembléia para elaborar a Constituição de 1891, Miguel Lemos e Teixeira Mendes submeteram uma série de propostas, muitas das quais foram, mais tarde, incorporadas por Júlio de Castilho (1860-1903) na Constituição do Rio Grande do Sul, a partir da implementação do castilhismo. O AP, fiel aos ensinamentos de Comte, para além de analisar os fatos reais, procurou envolver os republicanos, atuando como grupo de pressão ao tentar fazer valer os interesses positivistas em relação à plataforma política do Partido Republicano, com quem mantinha estritos laços políticos.