O positivismo abarcou todo um conjunto de manifestações humanas, ao procurar atingir o domínio da inteligência do indivíduo, objetivo central do Curso de filosofia positiva, de 1832, de Augusto Comte (2000a). Sua finalidade consistiu em realizar uma verdadeira revolução nos costumes e nos sentimentos, no sentido de regular a vida individual e coletiva em suas dimensões pública e privada.
Com o processo de laicização do mundo, sobretudo a partir da Revolução Francesa, o positivismo passou a exaltar o culto aos grandes homens, em substituição aos ritos católicos. Esse movimento expressava uma profunda crise no pensamento religioso - cristão, portanto, na associação entre o poder espiritual e político, ou entre a Igreja e o Estado. O tema da regeneração social e moral ocupava os debates da época e a questão da separação entre Igreja e Estado, movimento que nasceu no Renascimento, e se aprofunda nos séculos XVII a XIX.
Comte, ao propor um pacto positivista, baseando-se no argumento das desigualdades naturais entre os homens, defendeu a manutenção da hierarquia social. Entendia que a ordem social composta por superiores e inferiores, os que comandam e os que se submetem, deveria ser mantida no pacto positivista. Comte acreditava que, em tempos pós-revolução, a vida pública e privada se desorganizara, insurgindo-se os pobres contra os ricos, o povo contra os governos, os jovens contra os velhos, os filhos contra os pais, a infância contra as mães, ou seja, uma sociedade de revoltados, egoístas, e sem governo. Apontava como urgente a regeneração dos costumes, o que se faria por meio da religião, porque, sem a crença em um
ser supremo (a Humanidade), os indivíduos não aceitariam qualquer adversidade oriunda do viver coletivo.
Ao propor uma unidade social tendo por base o passado, a religião positiva visa constituir uma sociedade civil mundial regulada de maneira ética (e não jurídica) pelos sentimentos compartilhados por todos, por um novo estado dos costumes, um conjunto de crenças refletidas, no limite do que designamos usualmente por religião, moral, política. Como tal a religião está baseada no passado dos indivíduos, das comunidades, da nação, as formas de lembrar são fundamentais, seja mental ou materialmente. As comemorações em atividades públicas cívicas ou culturais, exaltando os grandes homens ou eventos que contribuíram positivamente à história, ou para a construção de prédios públicos destinados a desenvolver a cultura, como a construção de um panteão cívico para a nação - a confecção de monumentos, estátuas, bustos, entre outros fazem parte das estratégias de ação religiosa com fins políticos.
Na obra Apelo aos conservadores, o termo religião, em Comte (1899, p. 25), ganhou sentido etimológico (religião = religare), a partir de sete noções conexas, a saber: o que é real e útil, que indicam as condições fundamentais; certo e preciso referem-se aos atributos intelectuais; orgânico, relativo e simpático como sendo as propriedades sociais da doutrina. Seu intento residia no aperfeiçoamento moral do homem, no sentido de salvar a humanidade do caos.
Todos os esforços, mesmo teoricos, tentados, sob a anarchia moderna a respeito de sistematizações parciais, concorrem para demonstrar a impossibilidade de coordenar qualquer coiza de outro modo que não seja ligando tudo. Dahi rezultão, ao mesmo tempo, a dificuldade principal e o privilegio decizivo da religião pozitiva, forçada, sob pena de inanidade total, a abraçar o conjunto do dominio humano, tanto afetivo como ativo e especulativo, que só a teocracia pôde esboçar (COMTE, 1899, p. 35).
Comte assim complementa o catecismo positivista “[...] a revolução moderna é principalmente intelectual, ao passo que a efetuada na Idade Media foi essencialmente social” (idem ibidem, p. XXIV). O filósofo francês, considerava que a revolução moderna exigia, antes de tudo, a fundação de uma nova base filosófica verdadeira, devendo os verdadeiros positivistas colocarem o coração acima dos espíritos.
O encerramento definitivo da crise que se abateu sobre a França, desde a revolução de 1789, deveria ser encaminhado por um partido, sob o nome de conservador, cuja missão seria amenizar as forças revolucionárias e mobilizar as forças retrógradas. São ainda apresentados como elementos fundantes da doutrina comtiana: a supremacia do sentimento, que anuncia que o amor precede e até mesmo suscita o conhecimento; a relatividade
completa, como a necessidade de estender o relativismo em todo domínio intelectual, da vida
prática e mesmo moral: o relativismo deve dominar os projetos, as esperanças, uma vez que o aperfeiçoamento contínuo supõe a imperfeição constante e a indivisibilidade da verdadeira
síntese, que visa buscar o saber em diferentes campos. Nesse sentido, Comte indica três
instituições que caracterizam o regime positivo, a saber: a Preponderância moral, devendo ser colocada no alto da hierarquia enciclopédica, como resumo da vida teórica e prática, a
Separação dos dois poderes e a dignidade da mulher.
Ao tratar das questões sobre o proletariado, a posição de Comte não foi uma posição revolucionária como a de Marx (1818–1883). Comte considerava que todas as medidas sociais deveriam ser julgadas em seus efeitos sobre a classe mais numerosa e pobre. O filósofo francês acreditava que os proletários e as mulheres pudessem acabar com o egoísmo dos capitalistas e que uma ordem moral humanitária pudesse eliminar com os conflitos de classe. Assim, os capitalistas deveriam ser moralizados e não eliminados e a propriedade privada mantida.
Para Carvalho, “os reformadores se viam como messias, salvadores de um povo doente, analfabeto, incapaz de ação própria, bestializado, se não definitivamente incapacitado para o progresso”(1998, p. 121). Eles colocavam-se como missionários da modernização, defendendo o progresso e o processo civilizatório. Tomado pelas idéias do progresso, o Apostolado Positivista buscava um ordenamento social, interpretando a humanidade como uma história contínua em direção à harmonização e ao progresso material e mental. As suas teses passaram a inspirar a elaboração e a formulação de leis, de políticas de Estado e de reformas mais urgentes em razão da degradante condição do trabalho escravo.
Segundo Rodrigues (1982, p. 15), o apostolado saiu em defesa de uma sociedade científico-industrial, considerada inexorável ao futuro da humanidade, caracterizada pela produção industrial fundada na planificação e no máximo de coesão e integração, em substituição à ordem tradicional. O componente religioso passou a ser o elemento essencial dessa nova ordem, entrelaçado ao poder político temporal, mediante a incorporação das conquistas científicas e da valorização do entendimento entre a classe produtora e a gerenciadora. O positivismo deveria ser o novo cristianismo renovado e organizado, sobre os alicerces de uma nova Igreja, mobilizando cientistas, artistas e indústrias.
Caberia a essa nova Igreja, a partir da sua comunidade de apóstolos, realizar a grande transição da antiga para a nova ordem, desarticulando os ímpetos de violência, da agressão e de conflitos entre ricos e pobres. Nesse contexto, Comte propunha a mudança mental, em vez da institucionalização da sociedade industrial, fato que levou ao rompimento, embora
conservasse o aspecto messiânico.
O mito da ciência como salvação talvez tenha sido o mais importante produzido pela modernidade, considerado a chave capaz de resolver todos os enigmas da sociedade humana. As utopias modernas, ao serem apresentadas como sociedades salvacionistas, mostraram um mundo verdadeiramente mítico onde todas as ações humanas são realizadas em forma de ritos, expressando uma concepção sagrada da vida11.
Como doutrina, o positivismo era apresentado pelos seus fundadores e seguidores como possuidor de verdade. A finalidade era reparar todos os estragos produzidos pela doutrina ou simplesmente pelo catolicismo, especialmente no campo educacional. Alberto Salles (PAIM, 1981), em O governo popular, fez um diagnóstico do final do século XIX, traçando um quadro de crise aguda presente em todas as instituições da época, sobretudo na Igreja católica. Nessa análise, apontava o positivismo como filosofia salvadora diante da crise que se abatia sobre o mundo moderno. Segundo ele, todas as crenças religiosas, políticas e sociais se achavam destituídas de credibilidade. O cristianismo já não representava mais uma crença universal, não exercendo sobre as almas a influência de outrora. Associado a esse fato, a unidade mental da sociedade estava rompida e a anarquia crescente ameaçava destruir as instituições (SALLES, apud PAIM, 1981b, p.94).
A base do Apostolado Positivista e seus fiéis seguidores era uma antiga tradição do ideal da modernidade, fundamentado na possibilidade de reorganização da sociedade somente a partir de uma ampla e completa reforma mental e intelectual do homem. A preocupação de Comte era com a necessidade urgente do encerramento da Revolução Francesa e seus intermináveis desdobramentos, ciclo que ainda não se havia completado. Diante da crise moral diagnosticada, Teixeira Mendes exaltava os positivistas como os verdadeiros salvadores do caos pelo qual a sociedade passava e os colocava como os verdadeiros apóstolos da Humanidade ao trabalharem pela regeneração social. Nem bem as conseqüências políticas, sociais e filosóficas da Revolução Francesa se havia concluído, a Europa se deparava com outra ameaçadora revolução: a Comuna de Paris, que aparecia aos olhares dos membros do apostolado, e de seu principal formulador, com conseqüências e desdobramentos imprevisíveis. Nesse sentido, os olhares dos membros do apostolado estavam voltados para as reações do proletariado. Caberia, então, ao positivismo difundir a doutrina positivista por todas as camadas sociais, levando por toda parte a convicção de que a felicidade humana
11O período renascentista também foi marcado por uma forte presença do pensamento messiânico, favorecido pelo clima religioso que predominava na vida cotidiana das pessoas, messianismo que se apresentava com verdades irrefutáveis. É comum, no ideal messiânico, a crença de poder modificar a ordem social e política vigentes apenas pela força das idéias. Sobre isso ver SILVA (2003).
dependia unicamente da moralização.
O AP apresentava a educação como fator decisivo na definição do caráter nacional brasileiro, moralizando o trabalhador e cultivando-lhe a inteligência com pleno desinteresse; amando a pobreza e confiando exclusivamente na força moral da virtude e no prestígio intelectual da ciência e da poesia, ela acabaria por inspirar nas massas a confiança na eficácia dos instintos altruístas (COMTE, 1899, p. 190).
Tendo a moral como guia de todas as ações, o apostolado defendeu a necessidade de um grande entendimento e aliança entre a classe industrial e os trabalhadores, visando pôr fim à anarquia social estabelecida:
A decisão que eu ouzo aconselhar faria logo surgir a única diviza (Ordem e Progresso), que convem á política dos verdadeiros conservadores. Quando ele assumiu a fomula anarchica, o ditador atual viu-se forçado a violar sua própria máxima, nada pondo sem substituição, por náo achar-se bastante liberto das influencias retrógradas para proclamar o programa normal. Mas como a livre inauguração da monocracia republicana constata uma suficiente regeneração, o decreto fundamental poderia imediatamente adotar a diviza que caracteriza a conciliação sempre procurada pelos conservadores e realizada no pozitivismo (COMTE, 1899, p. 195).
Em Apelo aos conservadores, positivistas ortodoxos e heterodoxos inspiravam-se ao apresentarem-se como os verdadeiros representantes da Humanidade, portanto, em quem se devia confiar, apresentavam-se como os únicos capazes de construírem, por intermédio de seus poderes políticos e autoridade, uma ordem justa, equilibrada e estável. Comte exaltava as sete qualidades da doutrina positivista, considerada o único caminho necessário à evolução social, de modo que distinguisse a ordem republicana da “ordem anárquica”:
A nova sinteze póde ser previamente caracterizada mediante uma suficiente combinação entre as sete qualificações irrevogavelmente condensadas sob o titulo pozitivo, que de hoje em diante significa ao mesmo tempo real, util, certo, precizo, organico, relativo, e mesmo simpático. Comparando-se especialmente cada uma delas com a seguinte, o primeiro par indica as condições fundamentais, o segundo os atributos intelectuais, e o terceiro as propriedades sociais da doutrina universal; a sucessão delas conduz a assinalar a fonte moral dessa doutrina pela acepção final (1899, p. 25).
Diante desse entendimento, a concepção de educação do AP consistia em formar cidadãos engajados na construção da República, regime político capaz de apaziguar os conflitos e garantir a liberdade, permitindo o progresso da humanidade. Na propaganda positivista, estava em jogo garantir deveres, tarefa necessária para mudar a índole e os
costumes dos indivíduos e, dessa forma, acatar as determinações das autoridades doutrinárias. A Religião da Humanidade, denominação dada pelos ortodoxos ao positivismo, teria sido resultado da inevitável evolução da espécie humana para estabelecer a harmonia completa e a fraternidade universal. A compreensão da palavra religião é buscada em seu sentido mais completo do latim religare, isto é, fazer as devidas ligações.
A “religião” para o positivismo consistia em um sentido capaz de regular a natureza individual e congregar todas as individualidades, ligando o interior pelo amor e o exterior pela fé. A convivência social exigia, acima de tudo, pôr o sentimento como preponderante, ao considerar que nossas ações e pensamentos eram dirigidos por afetos. Nesse sentido, a desejada harmonia humana seria decorrente do predomínio do altruísmo, base da pedagogia positivista.
A grande marcha na direção do entendimento humano e da plenitude religiosa, e da solução definitiva da anarquia espiritual, consistiria na subordinação do progresso à ordem, da análise à síntese e do egoísmo ao altruísmo, considerados inatos nos indivíduos e comprovados pela ciência da época calcada na máxima fundamental do AP: O Amor por
princípio, a Ordem por base; o Progresso por fim. A doutrina positivista, ao propor uma
completa reforma social pela educação partia de uma nova mentalidade de inspiração altruísta, para organizar uma sociedade industrial pacífica.
O positivismo não consistia somente em uma nova maneira de pensar, mas visava também instaurar novas formas de sentir e de agir. Essa tarefa exigia instituir uma sociedade com finalidades e objetivos precisos para serem cumpridos e respeitados. No Discurso
preliminar sobre o conjunto do positivismo (1848), Comte (2000b) apresenta a doutrina como
uma “nova religião” a ser seguida, anunciando a decadência de uma “velha religião” amparada em um “Deus” supremo. O culto à Humanidade torna-se eixo central da religião positivista, amparado na trilogia: pensamentos, atos e sentimentos.
Lelita Oliveira Benoit (1999, p. 184) considera que a vontade geral do proletariado impunha a necessidade de buscar saídas emergenciais para os embates entre as classes no final do século XIX, marcadas por revoluções modernas e carregadas de reivindicações políticas e sociais, como nunca se conhecera antes na história da humanidade. Para Comte, tratava-se de conter a tendência do estado de revoluções permanentes, presente desde 1789, com o advento da Revolução Francesa. Os intermináveis desdobramentos da Revolução Francesa produziram uma instabilidade, inspirando novas tentativas revolucionárias e tomadas de poder, no século XIX, pela violência. Esse quadro caótico de crises constantes mobilizavam Comte e seus seguidores a buscarem ensinamentos capazes de convencer
massas de pessoas, em pouco tempo, a mudarem posturas, visão de mundo e suas relações na sociedade.
A preocupação comtiana consistia em formular um ideário contra-revolucionário, a partir da fundação de uma teoria social para alcançar a reorganização da sociedade. Para o positivismo, o conceito de revolução é claramente distinto do conceito marxista, é um conceito que está separado da ciência, cabendo a esta o papel de realizar um conjunto de reformas, mas colocando os devidos limites nas ações revolucionárias ao lançar o tema da incorporação do proletariado na sociedade moderna. Consolidando uma “Nova Era”, institui- se um novo calendário e sistema de feriados em homenagem a grandes heróis da humanidade do Mundo Antigo. Carregado de simbologias, o positivismo religioso anunciava a chegada de um novo tempo, inaugurando a fase da grande conciliação universal.
Michael Lowy (1985, p. 40) assevera que o positivismo adquiriu um sentido mais reacionário, ao deslocar-se do campo crítico para o campo conservador e legitimador da ordem estabelecida. No contexto liberal, marcadamente conservador, em razão da herança imperial, os homens de negócios passaram a ocupar cada vez mais espaço na república francesa.
Estava em jogo formar um novo homem que, ao incorporar novos valores, auxiliasse a instauração de uma nova ordem, enstão estável para sempre. A República positivista, amparada em um conjunto de leis, era o modelo a ser seguido, não apenas por uma classe social, mas por todas. Observando os acontecimentos de 1848 e seus desdobramentos, Comte via a necessidade de apelar para os homens de boa vontade para organizarem um novo espaço público, sagrado, longe das formas violentas. A religião positivista exigia reformar as antigas instituições do Império, visando implementar uma nova concepção de sociedade.
Amparado em seu otimismo e desafiado pelos embates de seu tempo pelo futuro, Comte e seus seguidores buscavam organizar a Sociedade Positivista, uma instituição que propagasse pelo mundo os ensinamentos e orientasse as autoridades públicas em suas políticas governamentais e aconselhasse lideranças do operariado a renunciar ao socialismo e a aderirem ao positivismo.